2012 e o PET – Um ano cor de rosa.

Por Rafael de Deus Garcia

direito-unb

A mim, por mera coincidência de agenda, coube a responsabilidade de escrever o último – e centésimo – post de 2012. E por mais que eu quisesse escrever elucubrações (des)interessantes e pretensiosas, não poderia ignorar essa data significativa. Com tantas histórias, boas transformações e deixando um futuro mais que promissor, o ano de 2012 merece um simbólico registro aqui no nosso querido blog.

Mas o que pode ser dito de 2012? O ano em que o blog estourou com suas quase 100 reflexões, deixando a média de 150 visitas diárias? O ano dos CineCal de sucesso, que lotaram o Museu Nacional com discussões acadêmicas importantes e sérias, mas sem perder o tom divertido e o toque artístico do cinema? O ano em que a disciplina de Pesquisa Jurídica amadureceu e provou que estudantes de primeiro semestre podem produzir com indiscutível qualidade? O ano em que PAD 1 – Direito Achado na Rua – foi reinventada e que deve ser levado com a seriedade que merece? O ano em que nossas oficinas para Semana Jurídica e Universitária foram um tremendo sucesso? Ou o ano que o PET desandou a escrever, produzindo os mais de 20 artigos a serem publicados na primeira edição da revista do PET, a Quiáltera?

compilado 2012

Sim, o ano de 2012 foi tudo isso. Mas, ao mesmo tempo, nada disso teria sentido sem o desenvolvimento dos nossos projetos de extensão na comunidade Estrutural, as oficinas de teatro e de direitos humanos. A troca de experiências com as pessoas incríveis que construíram com a gente esses projetos significa, para nós, mais do que motivo de orgulho, foi essa construção coletiva que hoje dá a cara do PET. E mesmo ainda no início, ainda cheio de andares para levantar, já contamos com uma diversidade de experiências que dizem muito mais que anos a fio de sala de aula monológica.

Para além do pensamento universitário colonizado pelos padrões europeus ou norte-americanos, de onde importamos um modelo que nada nos trará senão a periferia (já pré-constituída) do conhecimento, a extensão com cara de brasilidade é a condição essencial para que a nossa Universidade construa algo realmente seu. E esse ano do PET foi o ano da extensão, o ano em que buscamos a Revolução-emconstrução de uma Faculdade de Direito que se contextualiza, que se conhece responsável socialmente e que tem o ideal da transformação em nome da justiça social.

Por uma sensação de necessidade, para preenchimento epistemológico de nossas atividades, a temática norteadora escolhida foi Direito e Controle Social. E aqui não faz sentido falar que estudamos Foucault, Arendt ou Agamben, mas sim falar que estudamos as pessoas. Estudamos as pessoas e as estruturas de poder que influenciam e, em certo grau, determinam as relações humanas em sociedade, seja no controle dos corpos ou no controle do pensar. Um reflexo desses debates está aqui mesmo no blog, e basta acessar o nosso índice de reflexões aqui para ver a riqueza temática desenvolvida este ano.

Discutir Direito e Controle Social é, em primeiro lugar, colocar em pauta a estrutura de poder que existe na própria Educação Jurídica, é estudar a Universidade e seu contexto social e político, observando como até mesmo a grade curricular trabalha as questões do saber e em que medida se é permitido pensar o novo. Discutir Controle Social e Direito é perceber que a igualdade de gênero ainda é um sonho de difícil realização. Fácil mesmo é receber xingamentos aqui no blog, bastando publicar um texto sobre feminismo. Discutir Controle Social é perceber que a desigualdade racial é ainda estrutura basilar da sociedade brasileira, e que, para estudar Direito Penal, não podemos deixar de relacionar isso com a questão da segurança pública nem com o do sistema penitenciário.

Este ano foi o de perceber que, se o Direito é uma questão de liberdade, não podemos em nenhum momento negligenciar as formas de exclusão e de controle que ainda impede as pessoas de serem verdadeiramente livres. O PET me ensinou que o Direito não é máquina para ser operada, que não somos meros técnicos de uma estrutura mecânica, mas que somos atrizes e atores jurídicos no contexto social, e que também nossas atitudes individuais refletem no outro como um elemento potencializador ou restritivo de liberdade.

Ser PET é fazer parte de um novo modo de pensar e estudar o Direito. É ver nas experiências do cotidiano as formas mais complexas do reflexo jurídico. É ver no corpo as opressões mais amplas da estrutura social, é poder ver no teatro e no diálogo com o diferente uma forma de se reinventar a vida para melhor, em direção à liberdade. É ver o Direito em seu lado libertador, para si e para outrem, sem precisar se perder nas chatices estiolantes do curso. Ser PET é ser rosa em um ambiente preto e branco.

Das muitas maneiras que existem de se estudar Direito, escolhi o jeito petiano de o fazer. Na ideia de que o colorir é mais importante que o escrever, na ideia de que se perder na arte é se encontrar na vida, esse jeito PET de ser nasceu mesmo em 2012. Tenho consciência de que essas minhas palavras nostálgicas de petiano que logo deixará o grupo não corresponderá à realidade em um futuro muito breve. Mas isso é algo muito bom, sei que o grupo há de se reinventar continuamente, sempre com a preocupação de corresponder ao novo, ao diferente, à mudança. Pensando bem, a cara do PET é esta, existir em movimento, continuamente em transformação.

Nesse ideal de movimento, que 2012 seja então o ano que nunca se repita, mas que fique eternamente na memória como o ano em que dizer “sou PET” significa muita coisa.

Bate-se em um (bom) velhinho: O suplício de Papai Noel

Por Pedro Argolo   

Eu nada sei sobre os intestinos de Papai Noel. Apenas sei que se bate num (bom) velhinho. Quanto sacrilégio. É evidente que Papai Noel tem boca, come, mas não usa latrina.

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Não se deixe iludir: não houve nada mais animador que o Natal de 1951. Insatisfeitas com o que chamavam de uma crescente “paganização” do dia 25 de dezembro, autoridades eclesiásticas denunciavam o afastamento da comemoração de seu sentido tradicional cristão por sua proximidade a um mito sem qualquer significado religioso. Em vez da celebração da data de nascimento do Salvador, havia o culto a uma figura pagã e, inclusive, sua introdução nas escolas públicas, com a consequente remoção dos presépios.

A cruzada contra Papai Noel culminou em seu enforcamento. Os jornais franceses na véspera da comemoração anunciavam que Noel fora queimado no átrio da catedral de Dijon na presença de crianças de orfanatos. Sua barba consumida pelo fogo; Papai Noel se esvaindo em meio à fumaça. O que se viu não foi um mero espetáculo; o (bom) velhinho fora sacrificado em um ato carregado de simbolismos. Os religiosos não sabiam que o (bom) velhinho sempre-já pertence ao altar. Graças ao clero daquela cidade, os moradores poderiam aguardar sua ressurreição no dia seguinte.

ImagemHá um resíduo profanador no altar de Dijon. O Natal devém profanação. A ironia é que a atitude dos religiosos apenas tornou mais explícitos os vínculos arcaicos da comemoração de fim de dezembro. Contra aquelas pessoas que veem na universalização do Natal um mero reflexo do aumento da influência dos Estados Unidos, Lévi-Strauss[1] a percebe como uma “difusão por estímulo”; não uma simples incorporação, mas a catalisação de um costume que já existia enquanto potência. Papai Noel pertence à categoria das divindades; não é mito, lenda tampouco. A diferença em relação a um deus de verdade é que nele os adultos não acreditam; o (bom) velhinho demarca, portanto, uma distinção entre esses últimos e os jovens, de um lado, e as crianças, do outro.

A (não-)iniciação que o Natal imprime às crianças as caracteriza como estando em um estado de privação, de ilusão, definido negativamente, possuindo ainda um caráter positivo. Papai Noel medeia uma relação complementar entre vivos e mortos. Ninguém melhor que aqueles/aquelas que ainda não estão integrados ao grupo, os não-iniciados, para personificar a imagem da morte. A festa dos mortos é, em sua essência, uma festa do(s) outro(s), pois a ideia de um inapreensível não-eu é a que mais facilmente se forma acerca da morte. Não se roga aos mortos; roga-se pelos mortos. Presentes são dados às crianças e sua fé na figura do (bom) velhinho instigada como forma de esconder sua oferta ao além. Sacrifício à arte de viver para não se perceber ser-com as crianças e, assim, ser-para-a-morte. Oferenda religiosa que reforça as separações.

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Monet: Nenúfares

Para que o deslocamento seja eficiente, Papai Noel não pode ter intestinos. Há algo de anti-trágico em nossa relação com a privada. Ela se ergue do chão dos banheiros como “a flor branca do nenúfar” para que aquele/aquela que sobre ela se senta não se veja como corpo, nada mais que corpo finito, que apenas existe para comer e defecar. A privada traz consigo um ideal estético que exclui o inaceitável da existência humana; sublime, enquanto domesticação estética do horrível. Precisa-se dos canos: ver-se diante dos excrementos é confrontar-se com o abismo, é perceber que o luminoso edifício de seres olímpicos criados pelo ser humano para mediar sua relação com o mundo não existe; que é na obscenidade do fora-de-sentido dos ditos que existo como pensamento. Sentado/a na privada, eu nunca estou falando com as paredes.

Eu deliro com(o) Kyle. No episódio nº 10 da primeira temporada do desenho South Park, ele devora antropofagicamente o significado das comemorações natalinas e produz como resultado de seu processo “digestivo” a história de Mr. Hankey, o “cocô de Natal”. Não basta evacuar no caso de Kyle; sua relação com o excremento é diversa daquela dos adultos.

Mr. Hankey sai do banheiro todos os anos e distribui presentes para todos/todas que incluem muitas fibras em sua dieta, não importando a que religião a outra pessoa pertença. A história inventada contrasta com a disputa que se instaura na cidade diante da recusa da população judia a uma representação da cena do nascimento de Jesus Cristo. Eu me interesso pelas alucinações de Kyle: Mr. Hankey é o delírio que medeia sua rasgadura com o mundo. Enquanto atitude (apenas) individual, só poderá surgir no desenho como paródia.

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A atitude de Kyle, no entanto, traz em si a própria possibilidade de Profanação. Freud já salientava que, antes da intervenção no desenvolvimento psíquico do ser humano daquilo que ele chamava “repressão cultural”, a criança se relaciona com suas fezes na forma de brincadeira, dando-as, inclusive, como presente a quem ama. Quando se profana, se está brincando com as separações, que são canceladas ou às quais é dado um novo uso. No momento em que Kyle delira, ele está explicitando e satirizando as separações que se operam no culto natalino. O que é profano não pertence mais aos deuses; foi restituído à esfera dos seres humanos.

Na alucinação de Kyle, não há espaço àquilo que é para-o-consumo. O presente natalino que se consome é destruído e não mais serve ao uso. Deixa de ser brinquedo porque é propriedade. Kyle deseja apenas brincar.


[1] LÉVI-STRAUSS, Claude. O Suplício de Papai Noel. Trad. Denise Bottmann. São Paulo: Cosac Naify, 2008.

Nota de repúdio às eleições para o Conselho Tutelar

Por Natália Guedes   

No dia 16/12, foram realizadas as eleições para 165 Conselheiros Tutelares e 165 Suplentes no Distrito Federal. O processo eleitoral, que aparentemente seria mais democrático e benéfico política e socialmente à população, se mostrou uma verdadeira falácia. A mídia local relatou várias falhas durante a votação (G1: http://g1.globo.com/distrito-federal/noticia/2012/12/eleicao-para-conselho-tutelar-do-df-registra-problemas-em-5-regioes.html; Record: http://rederecord.r7.com/video/falha-nos-equipamentos-atrapalharam-eleicoes-do-conselho-tutelar-do-df-50cf64f6fc9b5894bedc1106/), o que foi abafado pelo GDF, basta olhar a notícia que divulgaram sobre a eleição, que destaca somente o número positivo de eleitores (http://www.df.gov.br/noticias/item/4638-elei%C3%A7%C3%A3o-para-conselheiro-tutelar-registra-mais-de-360-mil-votos.html).

As notícias dos jornais locais destacaram muito bem as falhas dos equipamentos fornecidos pela empresa que ganhou o processo licitatório milionário (3 milhões de reais), a qual utilizou a tecnologia de tablets, no lugar das urnas eletrônicas (como ocorre no Estado de São Paulo, que, na eleição para o Conselho Tutelar, pede ao Tribunal Superior Eleitoral as mesmas urnas eletrônicas usadas nas eleições governamentais), velhas conhecidas da população. Mas a Secretaria de Estado da Criança do Distrito Federal, em nota de esclarecimento, resolveu minimizar esses problemas e declarar que a eleição ocorreu dentro da legalidade (http://www.crianca.df.gov.br./noticias/item/2093-esclarecimento.html). O que a Secretaria parece ignorar é que os problemas técnicos não foram os únicos. Segue nota de repúdio de uma moradora da Cidade Estrutural, que participa das Oficinas de Direitos Humanos realizadas na sua comunidade (projeto de extensão do PET-Dir UnB) e era candidata ao Conselho Tutelar.

Nota de Repúdio

Aqui quem vos fala é uma cidadã indignada com a fragilidade das leis que regem a nação e com a corrupção que toma conta das pessoas cada vez mais.

Eu, como uma das candidatas ao Cargo de Conselheira Tutelar da Cidade Estrutural, pude observar e sentir bem o caos estabelecido dentro do processo de escolha, o qual foi finalizado neste último domingo. Segui à risca todas as exigências impostas pelo CDCA, mas, infelizmente, o mesmo não aconteceu em relação a determinados companheiros de luta.

Durante 38 anos de minha existência nunca precisei usar de mentiras ou enganação para conseguir coisa alguma e não seria diferente agora. Portanto, recusei ajuda política que me foi oferecida por algumas “lideranças comunitárias” e usei apenas o chamado “boca-a-boca” e a distribuição de panfletos na divulgação de minha candidatura. Fui convidada a fazer parte de reuniões e debates com fins escusos e recusei veementemente pelos mesmos motivos supracitados. Teve também a problemática ocasionada pelo uso do tablet no processo eleitoral, sendo que a maioria das pessoas da comunidade, inclusive eu, não tem acesso a esse tipo de tecnologia.

Diante disso, o que restou-me: a última colocação no processo de escolha. Aí eu pergunto: Será mesmo que essa eleição foi justa e igualitária, ou seja, democrática, como deveria ter sido de fato e de direito? Será que para atingir um certo objetivo temos eu nos sujeitar à podridão que atinge as esferas do poder? E aos cidadãos comuns: Quando irão acordar e perceber que estão sendo usados como suportes ou degraus pela elite governamental para alcançar suas metas escusas?

Posso afirmar, embora não tenha provas cabais, de que, aqui na minha cidade, houve favorecimento político a alguns candidatos. Eu mesma ouvi – no momento de votação dentro da escola em que votei – pessoas afirmarem estarem sendo pagas para “trazer” eleitores para o candidato “fulano de tal” e outras afirmarem terem visto ou mesmo aceitarem a “compra de voto” (R$ 50,00 por voto), além da “boca de urna” escancarada na porta da escola e até mesmo dentro dela. Como eu estava preocupada apenas em ser fiel às regras estabelecidas, não gravei nem colhi provas necessárias à acusação formal sobre quem quer que seja, mas fica o meu apelo de que cabe uma investigação mais apurada dos fatos, pois desde o início do processo pessoas da comunidade já me diziam que isso era um “jogo de cartas marcadas”. Eu não acreditei e investi todo o meu tempo e dedicação, contraí dívidas para a confecção do material de propaganda, restando-me apenas um esgotamento físico e emocional muito grande. Se era pra ser esse “jogo de vale tudo”, penso que seria melhor que simplesmente se nomeasse tais pessoas, ao invés de fazer com que a gente passasse por tantos transtornos e desgastes desnecessários.

É lamentável que, em pleno século XXI, e na Capital Federal, ocorram situações tão vexatórias quanto estas, onde o exemplo de retidão e transparência deveria ser visivelmente maior. Infelizmente, estamos suscetíveis a tudo isso, visto que a humanidade ainda é falha e o poder corrompe facilmente aqueles que não têm boa índole ou não seguem padrões éticos.

Gostaria que ficasse registrado esse meu desabafo como forma de protesto e ao mesmo tempo alerta para as eleições futuras. Que o processo se dê de modo mais transparente, justo e igualitário para todos os candidatos em quaisquer regiões administrativas. Que sejam respeitados por igual tanto os votados quanto aos votantes. Fica, portanto, os meus sinceros agradecimentos aos que, ainda assim, conseguiram votar em mim. E, aos que se deixaram “vender”, deixo a seguinte reflexão:

Quando as coisas não acontecerem como deveriam… quando os direitos das crianças e adolescentes forem violados e vocês não puderem cobrar, pois suas escolhas estarão acorrentadas àqueles que pagaram por elas e que, por sua vez, estarão devendo favores políticos e não poderão fazer nada (ou ao menos, nada que incomode àqueles que os “patrocinaram”), então pergunto eu: Quem perde com essa sujeirada? Nossas crianças à mercê dos ditames do poder local.

Eu posso afirmar que saí vitoriosa, pois não me sujeitei a nenhuma espécie de falcatrua ou conchavo político e que nenhum respingo de lama caiu sobre mim. Entrei e saí limpa.

“Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça!”

Mariza Lene Batista Araújo

Brasília, 18 de dezembro de 2012.

O PET, Foucault e o fim

Por Marcos Vinícius Lustosa Queiroz   

Imagem“Há momentos na vida em que a questão de saber se podemos pensar diferentemente do que pensamos e perceber diferentemente do que percebemos é indispensável para continuar a olhar e a refletir… O que é, pois, a filosofia – quero dizer a atividade filosófica – se não é o trabalho crítico do pensamento sobre si mesmo. E se ela não consiste, ao invés de legitimar o que já sabemos, em tentar saber como e até que ponto seria possível pensar diferentemente.” (Palavras de Foucault em seu enterro, lidas na voz de Deleuze).

Em poucos dias meu ciclo oficial como petiano acabará. Nesses dois anos, minha vida mudou completamente e de uma forma que eu nunca esperaria. Realmente, não era de se imaginar que um grupo acadêmico pudesse alterar tantas formas de percepção, compreensão e auto-entendimento. O trecho de Foucault, autor mais lido durante toda essa minha experiência no PET, reflete o que foram esses últimos 24 meses: ir até o limite de minhas convicções; até os limites da mudança; abrir-se para o diferente; compreender de maneira diversa e, assim, ser outra pessoa.

Esse processo pedagógico de desconstrução se deu em diversas frentes. Pelo contato profundo e intenso com pessoas das mais diversas orientações; com a leitura de textos que eu nunca encontraria na obtusa grade curricular do curso de Direito; com a ida ao “mundo lá fora”, proporcionado pela prática extensionista na cidade da Estrutural; com o difícil processo dialético de ser tutorado ao passo que se tentava quebrar as mais pesadas bases hierarquizantes da educação; e, sobretudo, pela empatia e pela alteridade, essas intensas formas de tentar compreender o outro em sua completude, sabendo sempre da própria finitude de qualquer processo de entendimento. Essa dor apaixonada de estar com, sabendo que nunca se estará por inteiro, por completo.

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O PET, para mim, nunca caberá no Aquário, nas nossas pesadas reuniões teóricas e nas nossas briguentas reuniões administrativas. Não caberá nos textos, nos formulários, nos relatórios, nas avaliações do CLA. Não caberá no “conhecimento” acumulado ou nas intermináveis conversas de boteco geradas ao ler aquele texto do Agamben. O PET cabe como uma marca que carregarei comigo daqui para frente, que para Foucault era a tarefa da filosofia, mas que hoje entendo como necessária postura perante o mundo: de nunca ficar inteiramente à vontade com o evidente.

ImagemE como demonstrado na biografia de Foucault, não ficar à vontade com qualquer tipo de essencialismo, é necessariamente sair apenas do campo discursivo, da desconstrução retórica de qualquer metafísica. É fazer a práxis real inscrita na própria atuação do filósofo francês; de se engajar nas causas que para mim valem a pena; de testar as convicções e naturalizações na concretude das condições. É seguir o pensamento que o próprio Foucault combatia no âmbito acadêmico: de que o critério da verdade é a prática, ainda que contextualizável, precária e insuficiente. Mas ainda verdade, oras; infelizmente. É testar, aqui e agora, meus dogmas para além do relativismo discursivo. É tomar uma posição para que assim, necessariamente, eu possa também me desconstruir.

Emociono-me ao estar na minha última reunião como petiano e escutar de outros membros, novos e velhos, aquilo que sempre achei que o PET fosse, pudesse ser. Saber que esse processo não se resumiu a minha singularidade; que outros ali, cada qual a sua maneira, compartilharam experiências diversas, mas parecidas. De que o PET, nesse eterno processo de desconfiar e desconstruir individual e coletivo, representa uma alternativa; uma outra forma de pedagogia; de construção. Pois ontologias só são quebradas em contato com o diferente.

Cito, por fim, Graciliano, em sua simplicidade única capaz de reunir passado e presente em poucas palavras, e que consegue expressar o que eu sentia ao entrar no PET e como eu me sinto durante essa fase de minha vida:

“A convicção da própria insuficiência nos leva a essas abstenções; um mínimo de honestidade nos afasta de empresas que não podemos realizar direito. Mas as circunstâncias nos agarram, nos impõem deveres terríveis. Sem nenhuma preparação, ali me achava a embrenhar-me em dificuldades, prometendo mentalmente seguir o caminho que me parecia razoável.”

Como diria outro petiano: PET, você me faz sentir feliz. Vivo. Obrigado por tudo. 

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10 Alucinações Musicais

Por Luisa Hedler   
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O livro “alucinações musicais”, do neurologista Oliver Sacks, fala sobre as curiosas interações entre a música e o cérebro em suas mil formas de manifestação – desde as “músicas chiclete” que grudam nos ouvidos até pessoa que não conseguem ouvir música. Mas, lendo o livro, quem alucinava era eu – trechos de músicas mencionadas ficavam rondando minha mente durante minha leitura, cantarolava pedaços de música que surgiam aleatoriamente em minha cabeça, e tinha que parar de ler, atordoada, por estar não só lendo, mas cansando a orquestra da minha mente com mil exercícios estranhos.

E desta curiosa experiência que me veio a idéia de aplicar um ótimo exercício de escrita – a inspiração de 10 pequenos textos por 10 músicas aleatórias – para falar, justamente, de música. Uma meta-inspiração, assim por se dizer, da música para a música – pois nada melhor para um recomeço do que falar sobre o grande motor da minh’alma. Eis, então, minhas 10 alucinações musicais:

1 – Apologize – One Republic

Ouvi algumas vezes que existem algumas músicas que nos tocam de uma maneira mais forte porque a batida dela se assemelha a uma batida de coração. Mas depois de fazer uma sonografia no coração e ouvir as minhas válvulas mexendo – e ver um som vagamente parecido nessa música – acabo concluindo que é o contrário que acontece. As válvulas do coração podem continuar, apressadas, em seu trabalho de levar todo o sangue para onde ele deve estar, mas o corpo se mexe vagamente, cabeça, pernas, braços, e daqui a pouco até a minha digitação segue o ritmo de uma  música. O coração – aquele metafórico, aquela vaga sensação no peito que levou os antigos a acharem que era ele, e não o cérebro, o centro das emoções e pensamentos – é que adapta-se conforme a melodia, o ritmo e sua conjugação com a letra, fazendo viver um passado que não volta e um futuro que talvez não chegue, mas naqueles minutos, são tão reais quanto o ar que respiramos…

2 – Prelúdio #3 – Heitor Villa-Lobos

Qual será a relação entre tocar e ouvir? Será que mudam as imagens mentais, o foco da atenção no turbilhão de notas que forma cada música? Vejo, no dedilhado de violão, uma fita colorida que se enrola em um fundo escuro, mais fina, mais densa, mais rápida ou mais lenta, mas sempre leve e delicada. Se soubesse tocar violão, veria os acordes e os dedos calejados apertando as cordas? Sentiria a vontade de dominar a melodia e torná-la minha, de virar a fonte dos acordes que agora me tocam de fora? Confesso que não sentiria – eu já sinto. Já penso nos dedos doloridos, nas bolhas, nas horas de estudo, nas repetições de cada acorde, cada dedilhado, na frustra

ção, em tocar a música mil vezes em minha cabeça e algumas nos sonhos… E, enfim, transbordar a alma através de movimentos que já estão gravados nos meus músculos (quando estiver com Alzheimer no asilo, seu corpo ainda vai saber tocar, dizia o professor), para fazer de alma, corpo e mente uma só entidade, da total compleição que é tocar – não apenas executar, mas realmente tocar – uma música.

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3 – Lovers (title song – The House of Flying Daggers) – Kathleen Battle, Shigeru Umebayashi

Tem gente que não gosta de ópera. Ok, muita gente não gosta de ópera. Enfim, talvez quase ninguém goste. Ou tenha paciência. Ou sequer tenha tido a vontade de conhecer o que é além do estereótipo da senhora obesa com um capacete de chifres. Mas talvez o mesmo se aplique a tantos outros estilos – as músicas tradicionais de culturas que não conhecemos – sejam de países diferentes, regiões do mesmo país ou mesmo grupos sociais diferentes.  Então enfiam-se os “experts” em suas respectivas torres de marfim, defendendo seu gênero musical como se fosse o último bastião de pureza – seja no tempo ou no espaço – esquecendo-se de que a música é, antes de tudo, algo que vive… O que inclui crescer e modificar-se. Encontrar elementos novos, misturar-se, perder-se em caminhos tortuosos e diferentes, para encontrar-se, emocionada e bela, com suas irmãs mais improváveis através de culturas e épocas. Pois não choram sentidos tanto o violino chinês quanto a voz de uma cantora lírica? Não sobem aos céus os sons das missas tocadas com instrumentos dos incas? Depois de um estranhamento inicial, (lembram de nossa amiga alteridade?), no final das contas, temos a força viva da música.

Kathleen Battle, a maravilhosa cantora dessa música ^^
Kathleen Battle, a maravilhosa cantora dessa música ^^

4 – Ali Jaisten Vetten – Korpiklaani

A primeira informação que eu recebo é do meu corpo: pule, menina. De preferência, com um violino em uma mão, e uma faca na outra.  Minha imaginação transforma o meu quarto em uma taberna mal-iluminada, as mesas de madeira tremem com o peso da comida, das canecas e dos punhos batendo na mesa, o violino equilibrando-se quase perigosamente em um ombro dançante – enquanto, fisicamente, só um tímido pezinho bate no ritmo contagiante. É o conhecimento “técnico” de musicista abre caminho pela multidão dançante – ah sim, compasso 2/4 é realmente um negócio pulante… A combinação de um violino e acordeão com os instrumentos mais pesados realmente dá um efeito interessante. Isso até lembra vagamente… – e a técnica é emudecida pelo solo de violino e começa a dançar também.

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5 – Que luz é essa? – Raul Seixas

Incomoda o fato da voz que ouvimos dos alto-falantes e fones já estar morta? O fenômeno físico que tornou possível esse cantar, aquelas cordas vocais, já não existem mais. Viraram matéria orgânica, decomposta dentro de um caixão. Mas nesse momento de parar o tempo, ouvimos uma voz, uma respiração, o trabalho de uma mente curiosa. E ela nos fala! Talvez seja mais chocante do que tocar uma música de um compositor já falecido – afinal, é a mente dele que revive em sua obra – mas a gravação traz à tona um cenário quase sombrio. Capturada para a eternidade está um fenômeno tão biológico quanto o canto dos pássaros, esse cantar, que nos chega por uma máquina – uma verdadeira máquina do tempo que reproduz um momento em um estúdio de gravação anos atrás, mas transporta junto com ela todo o sentimento, o humor, as sutilezas que são singulares de cada pessoa que canta. E ainda é música viva, o corpo reage, a mente entende, as emoções afloram – e, pela música, a ilusão de linearidade do tempo é quebrada – o Raul tá vivo!

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6 – Das Schloss am Meer – Faun

Existe alguma língua que não é feita para cantar? Não sei bem por que há tantas bandas de tantos países que cantam só em inglês. Talvez seja uma questão de chegar a um público maior; talvez seja uma questão de hegemonia cultural (vide as óperas em italiano, as missas em latim…) – mas também levanta a questão de haver (ou não) uma língua “própria” para cada gênero musical. Latim para as missas, italiano para as óperas, inglês para o rock e o metal, a língua nativa para cada música tradicional… Lembro que, em uma Oficina de Música, um rapaz tocava um concerto de Sibelius (um finlandês), quando o professor apontou que a acentuação das frases precisava ter um “sotaque” mais nórdico, e recomendou ouvir alguém falando ou cantando em finlandês. Então temos língua, cultura e música enroladas em um só momento, uma série de características interligadas que as tornam únicas, mas por acaso mais adequadas a um ou outro tipo de música? É aqui que entrariam os estereótipos: o alemão é uma língua dura, o português é macio e fluido, o inglês é conciso e prático. Mas todas sabem cantar de amor, de tristeza, de protesto e alegria boba. Podem fluir como água ou atingir como pedradas… Mas alçada pela força de uma melodia, para mim, não existe língua que consiga separar o ser humano de sua amada música…

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7 – Looking for Angels – Skillet

A música aproxima as pessoas.  Não sei como dizer esse tipo de coisa sem soar piegas – mas, brega ou não, é um fato. Subjetivo, histórico, talvez até objetivo (se é que esse tal de “fato objetivo” realmente existe) – eu sei, eu sinto. Sinto o momento em que estou tocando em conjunto, que meu senso de si se dissolve para dar lugar a harmonia da música que não se faz em solidão, da atenção aos outros; da paciência do pianista que acompanha as crianças pequenas nas apresentações individuais; no sentimento de comunhão que surge entre pessoas que realmente gostam de uma música e fazem questão de cantá-la a plenos pulmões toda vez que ela toca, em qualquer situação; nas danças bobinhas que tem o misterioso dom de colocar tantas pessoas, tão diferentes, fazendo um papel de ridículo igualitário em seus movimentos conhecidos; no fato de pessoas que não conseguem falar a mesma língua conseguirem tocar, ensinar e aprender música – pelo fato de praticamente todas as culturas conhecidas terem uma forma de música como elemento de socialização… “Todos os seres humanos se tornam irmãos por onde sua asa passa”, diz Schiller sobre a Alegria, na famosa 9ª sinfonia de Beethoven – mas ele poderia muito bem estar falando de música. Até mesmo soldados na 1ª Guerra Mundial, em uma trincheira na noite de Natal de 1914, cessam o confronto pelo dia e cantam juntos “Noite Feliz”… Tão perigoso esse potencial da música que, depois daquele natal, todo soldado que fosse pego fazendo isso seria fuzilado. Então, sim, a música – perigosamente – aproxima as pessoas.

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8 – The Dark I Know Well – Spring Awakening

Como podemos falar o indizível? Não digo só das coisas bonitas, de falar de amor – mas digo de falar de guerra, falar de horror, de trauma, dos assuntos que são tão dolorosos que as palavras ficam pequenas e assépticas diante da enormidade de uma situação, insignificantes perto da intensidade da experiência… Talvez seja por isso que toda cena dramática em filmes precisa de uma música, cada declaração tensa precisa de uma trilha sonora. Por isso que assistir um filme de terror sem a música perde boa parte do suspense ou do susto, não importa o quão horrível seja o monstro. Nas letras de música, a palavra – e nos filmes, a imagem – ganha uma poderosa forma de comunicação com uma profundidade que toca e arrepia muito mais do que as palavras individuais. As palavras tocam a nossa mente, mas é com a música que movemos algo mais. Aí, é só escolher a metáfora de preferência – o coração, as emoções, a alma – mas ninguém está pensando nos acordes em tom menor enquanto uma letra, uma mesma letra, ganha significados e nuances bem distintas a depender da música que acompanha suas sílabas. E então conseguimos reverberar a tristeza, saudade, alegria, raiva, indignação, esperança, terror ou coragem que a música nos envia, encontrar toda essa palheta de emoções em nossa própria mente e realmente sentir junto, pelo minutos que sustentam o som, aquilo que já moveu uma outra alma – e que (aí está a mágica) talvez farão tantas outras pessoas serem movidas também.

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9 – Elle me Dit – Mika

Ouvir uma música com a música e a letra contrastantes é um exercício interessante sobre a predominância de um tipo ou outro de percepção – qual deles predomina? Qual deles é mais significante ao ouvir a música como um todo? Isso não se apresenta um problema para quem mal presta atenção no que a música possa querer dizer, e apenas vê uma melodia engraçadinha – mas pode causar grandes surpresas para quem, ao aprender a língua em que a música é cantada, ou ler ou mesmo só prestar atenção, acaba descobrindo sentidos surpreendentes… E nem sempre agradáveis. Às vezes me pergunto se a discrepância de sentido da letra e tom da melodia é algo deliberado ou apenas falha de comunicação. Às vezes uma música dramática e triste acaba tendo algum som meio romântico – ou, pior a idéia de romance de quem escreve a música é que pode ser algo deprimente ou até perturbador para causar a discrepância. Mas uma discrepância deliberada pode ser, quando bem colocada, simplesmente genial. Principalmente quando é algo profundo, triste e até mesmo completamente deprimente colocado em uma “embalagem melódica” alegre e quase bobinha. Superficialmente, parece música para animar festas, ouvir em momentos descontraídos e reclamar por ser “feliz e bobinha demais” – mas, secretamente, os desavisados estão dançando, comemorando e festejando um desespero e uma tristeza profunda, que nunca chegaria deliberadamente naquele espaço… Uma metáfora tão rica que, em si, explica um tanto de coisa nesse mundo…

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10 – Felicidade – Tom Jobim

O paradoxo entre finalidade e continuidade se estende também à música – uma música realmente termina? Claro que a faixa de música gravada diz um tempo exato para a música começar e acabar, mas a música, a Música – quando acaba, quando começa? Da primeira idéia flutuante na cabeça de quem compõe ou adapta – de onde veio? De qual melodia primordial ela brota – ou de que canto do cérebro se combina? Depois vem quem interpreta, a música começa no desejo de tocar ao ouvir, no primeiro olhar na partitura, nas horas de treinamento ou nos minutos de apresentação? E para quem ouve, acaba no instante em que o som para, ou engloba também a atmosfera etérea que toma o espaço enquanto as últimas notas ecoam, ou as repetições incessantes na memória e na imaginação depois de cada experiência notável? A música em uma partitura, ou gravada em um CD, só é música quando executada ou é perene, mesmo em silêncio? Será a música uma fênix que vive e morre quando executada, para ressurgir nas cinzas em mentes inquietas ou novos dedos intérpretes? Será ela uma Deusa imortal que só toma diferentes formas ao longo da história humana? Será uma rosa de Adônis que vive tão intensamente que só vê a luz de um dia, para morrer, e deixar uma descendente para a próxima execução? Ou talvez um eterno zumbi chamado da morte por cada músico necromante que toca uma vez mais depois da imaginação da mente original – ou talvez mil outras metáforas ligeiramente perturbadoras que minha imaginação possa encontrar. Mas por mais que eu pense e tente encaixar nos nossos limitados conceitos de tempo e espaço, só consigo chegar à conclusão – ou, mais do que conclusão, à rendição completa ao grande mistério desse fenômeno sem início, sem fim, sem tempo nem espaço – inexplicável e imprescindível, simplesmente música.

A oficina de teatro e sua (re)fundação

O momento é de re-fundação. Ou melhor, de fundação. Fundação porque, desde que se iniciou, esse projeto de extensão passou por diversas etapas. E esses diversos estágios possibilitaram o momento em que nos encontramos: o de redefinir coletivamente os contornos que nós, enquanto grupo, vislumbramos para esse projeto.

Passando desde a fase de implementação propriamente dita, até a fase de formação de um grupo que tivesse uma constância e uma identidade (sem se fechar, é claro, e isso se pode notar pelo feliz e expressivo aumento do grupo até o momento) e pela criação de laços de amizade e de confiança. Tudo isso sendo mediado pelo teatro e desde uma visão de educação popular. A partir de então, tratamos de temas como bullying, Copa do Mundo, música, Estrutural, dentre outros tantos.teatro

Esse é um grupo que, ao longo desse um ano e alguns meses de oficina, tem se proposto a construir e a desconstruir em conjunto, a partir do teatro, opiniões, ideias e tantas outras coisas. O acúmulo de experiências até aqui tem sido surpreendente, assim como o aprendizado com todas/os. Como talvez já possa ter ficado claro, me refiro à oficina de teatro realizada na Cidade de Estrutural.

A busca é da construção de um espaço de confiança, horizontal, em que cada pessoa se sinta confortável para se expressar, trazer questões, contribuir a sua maneira. E o teatro, em princípio, seria a ferramenta para alcançar esses objetivos. E, para tanto, faz-se necessária uma constante revisão das práticas e dinâmicas realizadas naquele espaço para não recairmos exatamente em nossas críticas à educação mais formal, bancária. E é nessa necessária autocrítica constante que podemos rever se o que fazemos e como fazemos é adequado ao que nos propomos.

Acreditamos que, em alguma medida, esse espaço tem sido construído. Um exemplo marcante que merece especial destaque se dá quando, em um repensar de nossa atuação enquanto membros do projeto que vão à comunidade, iniciamos a planejar um momento de questionamento do espaço da oficina de teatro e, antes mesmo que o propuséssemos, as/os participantes da oficina de teatro residentes na Estrutural levantaram essa inquietação de forma espontânea. Se se tratasse de um ambiente em que esses adolescentes não se sentissem minimamente confortáveis, a demanda não teria surgido da forma direta que fora colocada.  E perceber isso foi muito bom.

Bem, constatada a necessidade de uma redefinição em conjunto dos caminhos que o teatro seguiria daqui em diante tanto em curto quanto para um médio/longo prazos, decidimos dedicar alguns sábados (dias em que realizamos as oficinas) para essa finalidade.

A oficina que ocorreu no último sábado (08/12) teve esse objetivo, e contou com a participação de integrantes do PET-Psicologia. Na verdade, sabendo dessa nossa inquietação, e já tendo realizado um contato anterior com nosso grupo, o pessoal desse PET propôs conduzir uma oficina que contribuísse a esse nosso propósito. Chegamos todas/os sem saber das dinâmicas que iriam ocorrer. Desde o aquecimento até as atividades que realizamos, todas se deram no sentido de focar no objetivo proposto, de perceber a necessidade da confiança mútua e da importância de uma comunicação efetiva do grupo.

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Como atividade final desse dia, tivemos alguns cartazes para confeccionar. Um deles ressaltando os pontos positivos da oficina até hoje, outro para tratar dos negativos e um terceiro, para expormos nossas expectativas do que desejamos para nosso grupo daqui para frente. Após a feitura dos cartazes, seguimos aos debates de cada um deles.

Dentre o reconhecimento dos erros e dos acertos, com as respectivas propostas para melhoras em ambos aspectos, passamos às expectativas. Dentre elas havia realizar algum tipo de peça, desenvolver habilidades de se por em sociedade, realizar passeios culturais, promover cidadania e outras tantas coisas. E foram essas expectativas que mais me chamaram a atenção. Foram elas porque elas indicam os sem-número de possibilidades do que podemos ser enquanto grupo. E isso de poder ser me interessa.

Independentemente dos caminhos que trilhemos daqui pra frente (e algo já começa a se delinear), que seja com esse sentido que nos toca e nos tem tocado a todas/os, com amor.

Periférico

Periférico

                                                        Para J.

Uma vez me disseste
                             da vida,
que ela solta, por sorte,
deixar-se-ia levar.
Entendi de partida
que negavas da morte
seu mais rouco soar.

Outra vez me contaste
                             da bala,
que, vindo de estouro,
foi ao encontro das tuas veias.
Pensei que levá-la
ao mais profundo do teu couro
far-te-ia o valente que anseias.

O sol e a vida te fizeram preto.
O sol e o sonho te causaram o pranto.
O sol e o suor te levaram pronto.
O sol e a poeira te negaram que prestes.

Na última vez, então,
                              não vieste.
Não que fosse a primeira
(à tua ausência eu me acostumara).
Mas vento agreste,
                              que para perto te trouxera,
agora, dizia-me, te levara.

Eis enfim o meu engano,
pois se impera ainda na vida vivida
o açoite da morte,
os tapuias, os bantus e iorubás,
os de negras pobres vidas vãs,
deslizam ao céu
          como fantasmas de um Rio de Janeiro.
Por João Gabriel Pimentel Lopes.