Depois de me libertar gritando, eu aprendi com o silêncio

Por Carolina Freire

        Estive em alguns grupos políticos, por outros só passei. Neles conheci o carro-chefe da militância: empoderamento! E que lindo aquelas mulheres donas de si decidindo sobre seus corpos. Que linda aquela demonstração de amor fora do padrão heteronormativo… Conheci formas livres – ou na busca incessante de liberdade – de vivência e me empolguei.

            Era tímida, envergonhada; a voz baixinha, difícil de escutar. Foi fazendo essa voz de quase sussurro entoar nesses espaços que o nervosismo foi dando lugar à tranquilidade de falar e à novidade de ser ouvida. É disso que se trata o empoderamento, não?

            Aos berros da militância eu me tornei forte. Ali aprendi a não abaixar a cabeça, foi ali que entendi que a minha raiva também precisa de vazão; que a minha revolta e a minha reação – por vezes agressiva – eram legítimas. Afinal, quem me obrigaria o dever da didática frente às situações de dor?

            Mas uma coisa é certa, que fácil é discutir com quem se converge, que descomplicado é trocar ideias quando os trocadores mal distinguem o que é seu do que é do outro. Num espaço – beirando à hermeticidade – de quase bolha, alguns, talvez eu, se atrevam a chamar tal prática de masturbação teórica, por que não?

            Difícil é se abrir ao contraponto; ainda mais quando absurdo às próprias convicções. Mas falo sobre considerar de fato o discurso alheio, em refletir sobre o que lhe é dito e expor (impor) as suas verdades, podendo estas ainda tornarem-se verdades para quem lhe escuta. Pena que não é tão simples, na grade curricular da militância o diálogo não parece ter muito espaço.

            E por ironia – ou não – do destino, mesmo depois de perambular por vários coletivos, foi em outro lugar que aprendi a acreditar na micro revolução que eu poderia fazer: na minha casa; e ela foi silenciosa. Aquelas mesmas pessoas com quem eu tive agitados embates ideológicos foram as que me ensinaram que por imposição ninguém aprende. Até porque de educação bancária já basta o ensino tradicional. Foi com calma, conversa, desconstruções coletivas, e me arriscaria a dizer com amor (já que é preciso coragem pra falar deste), que muitas (trans)formações foram possíveis.

         Mas não me entendam mal; meu texto não pretende acusar de inútil o movimento social, muito menos generalizar a negligência dialógica. Preciso ponderar que a minha conclusão hoje depende da vivência que esses espaços me proporcionaram, bem como o fato de que muito mais fácil é tratar com amor aqueles que são caros à nos.

            Desta maneira, hoje concluo que o grito e o silêncio (escuta) no fim das contas não competem entre si enquanto métodos – e é essa a grande questão. Aqui não cabe um “ou” excludente, mas um “e” de alternativas duplamente viáveis; eles não competem, porque não servem ao mesmo objetivo: gritemos, expulsando com raiva a violência a nós imposta e tornemo-nos pessoas resistentes e livres e catárticas; escutemos, explicando nosso ponto de vista e tornemo-nos potenciais de mudança, do outro ou de nós mesmos.

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