Sobre Jogos Vorazes e afins

Por Gustavo Lamounier Gonçalves

Depois de muito tempo e muita resistência de minha parte, minha namorada finalmente me convenceu a ler Jogos Vorazes. Admito que o livro superou as minhas expectativas, achei-o interessante. A história é uma distopia, num futuro em que metade dos Estados Unidos da América foi “engolido” pelo nível do mar, graças ao aquecimento global. Os territórios remanescentes se uniram em 13 distritos e uma capital.

Contudo, houve uma rebelião dos distritos contra a Capital, que governa o novo país, Panem, com mão de ferro. A Capital respondeu com violência, assassinado vários dos rebeldes, além de destruir o Distrito 13. Depois disso, foram criados os Jogos Vorazes,  uma espécie de festival onde todo ano, cada distrito deve oferecer um homem e uma mulher na faixa dos 12 aos 18 anos para lutarem entre si até a morte em uma arena, para todo ano lembrar os distritos do poder da Capital e do por quê devem se manter submetidos a ela.

 Mas Calma! CALMA!!!

 Este não é um texto sobre Jogos Vorazes. Mas achei interessante começar citando-o. Explico agora o porque. Enquanto estava lendo o livro, um elemento secundário, mas fundamental para a trama da narrativa saltou aos meus olhos.

 A Televisão.

 Todos os detalhes dos Jogos são transmitidos 24 horas por dia para todas as televisões de Panem. Durante o livro, a narradora mostra como as ações, os figurinos, as falas, os gestos, os olhares durante as entrevistas antes dos Jogos são direcionadas à  conquistar e aumentar a quantidade de “patrocinadores”, pessoas ricas da Capital que podem mandar suprimentos como comida, armas, remédios e água enquanto se está dentro da arena.

Além de que é visível no livro o poder que o público exerce sobre o Jogo. Se em um dia não houve nenhuma morte, o público fica entediado, então, para entreter o público, é enviado algum sádico desafio para a arena, para animar as coisas, como lobos modificados geneticamente, incêndios, enchentes, e por aí vai.

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(Qualquer semelhança com a realidade talvez não seja mera coincidência…)

Assim, depois de pensar na influência que esse eletrodoméstico tem no livro, por que não pensar um pouco na influência que ele tem nas nossas vidas? O que será que está por trás dessa fina e retangular tela? Quais as estruturas sociais que possibilitam e movem essas esquisitas pessoas, tão maquiadas, tão sorridentes, tão cínicas, que fazem de tudo para se manter na tela? Por que toda vez que eu ligo a televisão e a assisto um pouco eu me sinto como se estivesse emburrecendo?

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(Jornalismo de boa qualidade… só que não!)

No retângulo de tela preta, acontece nesse exato momento uma guerra por audiência. Todos os canais se organizam e se estruturam para conseguir aumentar cada vez mais o índice de audiência.Numa definição simplificada, audiência é o conjunto de pessoas que estão assistindo a determinado programa de TV. Quanto maior o índice de audiência, maior o preço dos horários comerciais e maior será a quantidade de patrocinadores para os programas do canal.

Isso pode parecer uma declaração boba, e até mesmo óbvia, mas, pretendo demonstrar como esse índice de audiência e a lógica da concorrência escondem muitas coisas, eclipsam outras, e que no seu conjunto, a televisão se tornou uma ameaça à vida política e à democracia.

 Fazendo honra à presença da Rachel, nessa postagem falarei apenas dos jornais (não analisarei apenas o jornal do SBT, mas sim todos os jornais).

 Por conta da lógica da concorrência e da procura por um índice de audiência sempre maior, os jornalistas procuram por fatos que capturem a curiosidade dos telespectadores, algo que apreenderá a atenção das pessoas, algo que irá fazer você parar pra ver.  Assim, o “óculos” dos jornalistas é o espetacular, o sensacional. Esses “óculos” operam uma seleção e dramatizam o que foi selecionado, explorando as paixões primárias de todos nós.

Assim, essas noticias são algo que vai além de nossas vidas ordinárias, elas se apresentam como algo extraordinário. Essa busca pelo extraordinário é chamado popularmente de furo. Mas  todos os jornais buscam isso, a noticia extraordinária, como assaltos, incêndios, mortes, violência. Resultado, há uma uniformização e banalização de tais noticias, um extraordinário-ordinário.

Não estou dizendo que a morte de alguém é algo banal. Longe disso. Afirmo apenas que a forma e a maneira como as noticias são apresentadas acabam banalizando a própria noticia, não o seu conteúdo.

 Além das noticias extraordinárias-ordinárias, há as chamadas noticias de variedade, cujo temas são sexo, violência, drama, crime, fofoca. São noticias que nada trazem de novo, não chocam, não envolvem disputas, não dividem. Elas servem para angariar audiência e ocupar tempo. Mas, segundo observação incisiva de Bourdieu, “se minutos preciosos são gastos com coisas fúteis, é porque essas coisas fúteis ocultam coisas preciosas”.

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(A culpa é dos ateus!!!)

Os jornais televisivos transmitem ideias-feitas. Ideias-feitas são lugares comuns, ideias aceitas por todo mundo, banais, convencionais, comuns. Quando as aceitamos na verdade já estão aceitas. Todo mundo concorda que a taxa de assaltos está alta. Todo mundo concorda que o preço da gasolina está alto. Todo mundo concorda que o poder de compra da classe-C aumentou. Todo mundo concorda que a prática de esportes faz bem à saúde.

Mas os jornais não são assim à toa. Quanto mais gente o jornal pretende atingir, mais perde a sua aspereza, mais perde o que pode dividir, chocar, excluir. O assunto e a forma como são transmitidos são sempre softcore.

 Além de que a “forma” do jornal já está manjada: primeiro noticias de catástrofes naturais (que despertam curiosidade), em seguida aspectos anedóticos e ritualizados da política( que não politizam ninguém, não incitam o diálogo), depois noticias de variedade (que geram o vazio político), e por fim o futebol (pra oferecer aquele entretenimento básico). Com a atenção fixada em dramas, a indignação provinda das noticias é patética e não se canaliza para a ação política.

Assim, o jornal televisivo convém a todo mundo, confirma o conhecido, deixa intacta as estruturas mentais, não educa, não politiza, não gera discussões produtivas e sérias.

 A forma como os jornais televisivos expõem as noticias é extremamente interessante, pois os jornais mostram ocultando.

Isso pode parecer um paradoxo, mas não é. Um exemplo de paradoxo é: “o que estou dizendo agora é falso”, pois leva a uma contradição lógica. Contudo não é o caso dos jornais, porque o objeto que eles mostram não é o mesmo objeto que eles ocultam.

Disse que eles mostram ocultando pois expõem noticias de 3 formas diferentes. Expõem coisas diferentes do que deveriam, não fazendo o que dizem que fazem, informar. Expõem o que deveriam, mas de jeito que torna-se pouco importante, insignificante. E por último, expõem um sentido que não corresponde à realidade.

 Posso me utilizar de vários exemplos (mas a melhor forma de comprovar o que estou dizendo é assistir à qualquer jornal).

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(“Acho de boa cada um viver sua míseras vidinhas com a cabeça baixa, mas ir pra rua botar a cara à tapa pra se manifestar por mudanças é vandalismo”)

E essa forma de expor noticias é extremamente perigosa. Boa parte da população brasileira tem apenas a TV como acesso ao “mundo das informações sociais e políticas”. Além de homogeneizar o que é transmitido, existe o efeito de real sobre o que é transmitido. A TV pode fazer crer no que faz ver. O simples relatar dos telejornais implica uma representação social capaz de exercer efeitos socias de mobilização, ou desmobilização.

Assim, caminhamos cada vez mais rumo a um “mundo” em que a realidade social é descrita-prescrita pela Televisão.

Faço aqui uma observação mais pessoal. Uma crença particular mas que com certeza é compartilhada. Creio fortemente que os debatedores e apresentadores de TV são os porta-vozes de uma moral tipicamente “pequeno-burguesa”. No seu conjunto, percebo na maioria deles um venenoso moralismo, cinismo, suas palavras são de um conformismo moral absolutamente prodigioso.

Jornalistas, e artistas de TV também, têm maior sucesso e a fama quanto maior for sua aptidão para se curvar às expectativas do grande público. Portanto, são os mais cínicos, os mais despolitizados, os mais indiferentes à qualquer forma de dever.

Com sua “mentalidade índice-de-audiência”, os jornalistas e todos os integrantes do “universo televisivo” impõe ao conjunto da sociedade seus princípios e sua visão de mundo, e por conta da sua influência, e seu poder de imposição, a TV ocupa um papel determinante na luta política.

Assim a TV brasileira na sua maioria (que ainda é racista, machista, classista, para só começar citando) exerce uma forma perniciosa de violência simbólica. Violência simbólica é a violência, principalmente a ideológica, que se exerce com a cumplicidade tácita das que a sofrem e dos que a exercem. Pois essa violência foi naturalizada, e assim, os atores sociais que a sofrem e a exercem acham-na natural. Por exemplo quando ouvi, durante uma aula de Pesquisa Jurídica, uma caloura dizer que é natural, e até comprovado pela ciência (sério? toda a ciência? nenhum/a cientista discorda?), os homens serem mais inteligentes que as mulheres.

 A forma e maneira como as noticias são apresentadas, favorecidas pela lógica do dia-a-dia e por uma rápida rotação de conformismos sucessivos, produzem uma representação instantaneísta e descontínuista do mundo. Uma certa descontinuidade histórica.

Nas excelentes palavras de Bourdieu: “Essa visão des-historicizada e des-historicizante, atomizada e atomizante, encontra sua realização paradigmática na imagem que dão do mundo as atualidades televisivas, sucessão de histórias aparentemente absurdas que acabam todas por assemelhar-se, desfiles ininterruptos de povos miseráveis, sequências de acontecimentos que, surgidos sem explicação, desaparecerão sem solução, hoje o Zaire, ontem Biafra e amanhã o Congo, e que, assim despojados de toda necessidade política, podem apenas, no melhor dos casos, suscitar um vago interesse humanitário”.

No início minha vontade era a de jogar todas as televisões do mundo fora, ou alguma outra forma de acabar com esses “Jogos Vorazes”. Mas a tarefa é bem mais complicada do que imaginei. Mas ainda acredito que todos nós devemos nos organizar e lutar para que um extraordinário instrumento de democracia direta não seja apenas um instrumento de opressão simbólica.

Agradeço à podridão que é a Televisão Brasileira (que desde os 15 anos me convenceu a nunca mais assisti-la) e ao livro de Pierre Bourdieu “Sobre a Televisão”, Jorge Zahar Editor, 1997.

Sem vocês esse texto não seria possível.

O que os jovens que praticam o “Rolezinho” querem nos dizer ?

Por Alexandre Bernardino Costa

Nos últimos dias o noticiário veiculou reportagens sobre o chamado “Rolezinho”, que constitui no encontro marcado, por meio da internet, por jovens, em sua maioria negros, oriundos das periferias das grandes cidades, em Shoping Centers de frequência da classe média e alta. Eles não consomem, passam “zoando”, cantando e dançando, em grupos grandes se deslocam ao longo dos corredores, fazem pouco mais do que isso. Mas viraram assunto policial e judicial.
Independente do erro da decisão judicial e da política de utilização da polícia para esse tipo de manifestação, é importante perguntarmos: o que esses jovens querem nos dizer ?

Primeiramente deve-se dizer que eles não praticaram crime algum nas suas manifestações. Não se tem noticia de atos de vandalismo, como gosta de dizer a mídia, ou de furtos cometidos por eles. Não se trata de uma faceta do chamado crime organizado. Eles praticam o direito de ir e vir em lugares públicos de consumo de bens da classe média e alta das grandes cidades. Mas porque chamam tanta atenção ? Porque a mídia, o comércio e as instituições de repressão deram tanta atenção a eles ?

A resposta é simples: porque não deviam estar lá !
Os grandes templos do consumo não devem ser frequentados por quem não consome e não vai consumir. Jovens negros vestidos sem roupas de marca, cantando músicas que não são reproduzidas ali, sem os meios para comprar aquilo que é vendido não deviam estar naquele lugar. Mas eles insistem em ir. O que eles querem nos dizer com isso ?
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Somos uma sociedade que valoriza o que as pessoas têm, e não o que são, e o que fazem econômica, política e socialmente. Mais que isso, valorizamos  algumas coisas que representam mais na escala valorativa do ter: marcas de tênis, bonés, camisetas, bermudas, calças e todo vestuário que é ditado, não somente pelo estilo, mas principalmente pelo preço e status que fornece a quem usa. Veículos que possuem artefatos tecnológicos que não utilizamos nos trajetos que fazemos nas grandes cidades, sobretudo nos engarrafamentos em que ficamos todos os dias. Carros altos, tração nas quatro rodas, reduzida, para enfrentar Ralys, que passeiam no dia a dia para demonstrar poder. Quem é obrigado a utilizar o transporte público, além de ser aviltado em seus direitos todos os dias, pelo preço e pela qualidade, ainda é desvalorizado por não ter um carro.

Esses jovens da periferia, bem como as manifestações de junho, estão querendo nos dizer que querem entrar na rede de consumo que fornece a valorização social que qualquer adolescente deseja. Eles buscam os valores que lhes ensinamos e reproduzem isso no chamado Funk da Ostentação.

Mas eles estão a nos dizer um pouco mais. Que eles são tratados como bandidos pela polícia, que protege os cidadãos de bens, com “averiguações”, “baculejos”, revistas e outros procedimentos a que são submetidos todos os dias.
Nos dizem que o transporte que utilizam é caro, ineficiente, precário e só funciona minimamente nos horários de trabalho, pois na hora de ir ao Shoping, à balada ou à praia nos fins de semana, os mesmos transportes têm horários escassos e deixam de circular.

Eles estão nos dizendo que são tratados como cidadãos de segunda categoria todos os dias, e que sua localização na cidade, sua cor, e estilo de vida são rejeitados pelo restante da sociedade. Deve ser observado o número de jovens negros mortos com armas de fogo nas grandes cidades, que supera lugares no mundo onde há conflito armado.

Nos dizem ainda mais, que criamos uma sociedade que se reproduz de uma forma estúpida, que exclui a maior parte da população dos benefícios que essa mesma sociedade gera para si. Que estão sem alento, sem representação política, sem futuro, sem reconhecimento e sem direitos. Que querem fazer parte da festa promovida pela elite dessa sociedade.

Por fim, estes jovens estão nos dizendo que não aceitam mais essa situação.que a partir de agora vão fazer valer os direitos inscritos na nossa Constituição: liberdade e igualdade.

Discrição de cu é Rola!

Algumas militantes LGBTs nos últimos dias denunciaram em suas timelines um blog chamado Mais Discreto. Por alto, trata-se de um canal de entretenimento e informações pertinentes (na avaliação dos criadores do blog) para homens gays, tipo um yahoo perguntas pras bichas. Em especial, chamou a atenção das militantes um post cujo título é: Dicas de como não ser um gay afeminado.[1]

Sim, isso mesmo. A ideia era fazer um tutorial sobre como ser mais másculo, menos pintosa, mais enrustido. O blog trazia 5 conselhos:

1º Não fale gesticulando com as mãos, acaba denunciando alguma coisa já que é um pouco feminino

2º  Não ande rebolando, se observar quando estiver andando ajuda bastante a evitar esse hábito que muitos tem e não sabem como tirar, pedir a amigos (íntimos) que façam correções também ajuda

3º É fã de alguma Banda? Cantora? não demonstre isso , ou pelo menos não faça desse fanatismo uma coisa pública

4ª Postura ao andar e sentar também é importante, andar com a bunda empinada ou mesmo sentar de forma irregular pode acabar “denunciando” alguma coisa

5ª  Quando ver qualquer foto de homem, ou mesmo um homem bonito é importante olhar de forma discreta se isso for indispensável  nem mesmo as mulheres gostam de ser “secadas” por homens, imagine – se na situação oposta

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A advertência é a seguinte: cara, quer ser homossexual? Beleza, mas viadinho já é vandalismo! É um processo de construção do gay ideal, sobre o qual temos muito o que refletir. Misógino por excelência, ele formula pra gente que quanto mais distante do que se entende por feminino, mais aceitável a subjetividade. Se voltarmos e lermos essas dicas com outros olhos veremos, na verdade, um belo tutorial com tudo que um gay pode fazer para não parecer uma “mulher”.  Gay massa é gay Homem: quem nunca ouviu isso?

Naturalizando o binarismo de gênero que as feministas denunciam há muito tempo, o texto traz pra gente o que são coisas que homens devem fazer em oposição às coisas que as mulheres fazem. O gay ideal, por isso, tem que coçar o saco, cuspir no meio da rua, peidar na sala de TV, não lavar o prato, gostar de futebol, falar grosso e de preferência sem muita demonstração de afeto, ser pintudo, sarado e bundudo, porque ser gay ideal também é ser um projeto de homem ideal. Projeto porque o homem ideal é um símbolo heterossexual, mas o gay ideal herda outros atributos deste, sobretudo a cor da pele: de preferência branca!

Interessante observar que a masculinidade aqui cria nivelamentos e aparece como um termômetro que afere o quão gay você é – e numa sociedade homofóbica o mais legal é ser menos gay – como se isso existisse.  A violência nesse discurso se intensifica ainda mais porque consegue se travestir muito bem de segurança e proteção. Nos comentários no blog é possível ler pessoas que adoraram a iniciativa porque acreditam que ser afeminado dá muito trabalho, se sofre mais discriminação, mais preconceito, tudo é mais difícil. A mentalidade é: se o mundo é homofóbico, melhor que eu não dê pinta para não ser alvo.

Isso parece até fazer sentido: se você apanha quando anda de mãos dadas com sua namorada, melhor não fazer isso, certo? Errado! Com essa postura acabamos criando uma lógica esquisita, que não toca no cerne do problema – a realidade da homofobia -, mas apenas criminaliza a própria vítima. A resposta que nós damos ao patrão que demitiu o funcionário é que na verdade o problema foi o cara ter dado sinais da sua homossexualidade; o erro, no fundo, é ser gay na frente dos outros.

Chega-se, aqui, àquela velha problemática do público versus o privado. Essa dicotomia é uma presença constante nas sexualidades desviantes. Fazendo o recorte para gays, lésbicas e bissexuais, Sedgwick em A Epistemologia do Armário[2], sustenta que o armário é a grande opressão LGBT, justamente porque ele significa o não-dito, o proibido, porque ele joga uma vida pra dentro de quatro paredes.

Se analisarmos algumas expressões cotidianas veremos como essa necessidade de esconder algo é bem explícita. Por exemplo: quem nunca foi perguntado: “Sua mãe sabe de você…?” Ou então ouviu: “Nossa, não sabia que fulano era.” Vem sempre aquele pigarro na garganta e a gente logo se lembra que não se pode falar a palavra que todo mundo sabe qual, ainda mais se tiver uma criança por perto. Gay, viado, sapatão, travesti… são palavras que ofendem, é feio falar e isso tudo é processo do armário, que traz o privado para marginalizar uma identidade.

“Mesmo num nível individual, até entre as pessoas mais assumidamente gays há pouquíssimas que não estejam no armário com alguém que seja pessoal, econômica ou institucionalmente importante para elas. Além disso, a elasticidade mortífera da presunção heterossexista significa que, como Wendy em Peter Pan, as pessoas encontram novos muros que surgem à volta delas até quando cochilam. Cada encontro com uma nova turma de estudantes, para não falar de um novo chefe, assistente social, gerente de banco, senhorio, médico, constrói novos armários cujas leis características de ótica e física exigem, pelo menos da parte de pessoas gays, novos levantamentos, novos cálculos, novos esquemas e demandas de sigilo ou exposição. 

Mesmo uma pessoa gay assumida lida diariamente com interlocutores que ela não sabe se sabem ou não. É igualmente difícil adivinhar, no caso de cada interlocutor, se, sabendo, considerariam a informação importante. No nível mais básico, tampouco é inexplicável que alguém que queira um emprego, a guarda dos filhos ou direitos de visita, proteção contra violência, contra “terapia”, contra estereótipos distorcidos, contra o escrutínio insultuoso, contra a interpretação forçada de seu produto corporal, possa escolher deliberadamente entre ficar ou voltar para o armário em algum ou em todos os segmentos de sua vida.” 

Quando a gente diz que homofobia mata não necessariamente reivindicamos o sangue, mas também nos lembramos de posts como o desse blog, que empurra subjetividades pra debaixo do tapete, poda a irreverência em nome da construção de um personagem que vai sempre estar à margem, em nome do bom convívio com o homofóbico. Entende bem errado quem acha que o movimento LGBT busca tolerância, busca o direito de se enfurnar em quartos e becos escuros; se limita muito aquele que se contenta com o direito de participar de um aplicativo temático para pegação no celular, que é mais uma apropriação dessa guetificação por parte de algumas empresas do que uma inclusão de fato: é contra essa lógica que nos obriga a recuar que lutamos e reivindicamos as purpurinas.

Ser bafoneira é uma necessidade histórica, mas também o é a responsabilidade de não achar que a simples emancipação pessoal é suficiente para mudar o mundo, de fato. Temos o desafio de movimentar tudo isso, buscar outras respostas e precisamos, para tanto, não estar sozinhas/os. Se organizar coletivamente é se permitir enxergar a totalidade, buscar outras experiências e novos recortes que interseccionam uma luta específica. As opressões são uma experiência de carne e osso, são esses os corpos que precisam se levantar contra o que fere.

Se uma pintosa incomoda muita gente, todas elas juntas fazem a revolução!

Por Hugo Sousa da Fonseca       

[1] http://maisdiscreto.blogspot.com.br/2012/03/dicas-de-como-nao-ser-um-gay-afeminado.html?m=1

[2] http://www.scielo.br/pdf/cpa/n28/03.pdf