O outro

Por Carolina Freire

Fazer Direito na Universidade de Brasília é selo de privilégio, e de privilégio a maioria de seus cursistas conhece bem. O berço nobre, por vezes jurista, lhes garante uma imensidão de acessos. De cursos que fazem volume no lattes até viagens ao exterior, os capitais cultural e acadêmico se recheiam de tudo que parece relevante no quesito saber.

Composto por discentes e docentes que parecem compartilhar da mesma história de vida já narrada, o elitismo do curso não é velado. Viver entre iguais é rotina que se interrompe em alguns raros momentos, tais como o estágio obrigatório realizado no Núcleo de Prática Jurídica (NPJ)¹ e a extensão.

No núcleo, a orientação recebida é de necessidade de polidez no atendimento ao público de baixa renda e cuja escolaridade é reflexo disso. São demandas diversas onde o cunho jurídico precisa ser retirado do emaranhado de informações trazido pelos assessorados, em cronologia não linear e com filtro de relevância bem diferente do utilizado pelo jurista. Aqui a perspectiva é clientelista, de serviço prestado, de favor, corroborada todas as vezes em que nos chamam de ‘doutor(a)’.

Por outro lado, quando se fala em extensão a sugestão é de horizontalidade. Mesmo assim o estranhamento do outro distante – espacial e socialmente – é latente. É estranhamento que se desdobra em fetiche do exótico, é visita ao zoológico social, é alma boa fazendo caridade, é serviço jesuítico moderno com inspiração iluminista levando de uma só vez a salvação e o conhecimento àquelas almas em escuridão.

Por vezes confundida com serviço voluntário, a troca de saberes corre o risco de ser apenas colonização. Assim como a horizontalidade, a bilateralidade do fluxo de conhecimentos também depende de exercício contínuo. Há de se entender, neste processo, que os conhecimentos não se encontram em mesmo patamar, não porque valem mais ou menos – comparativamente – mas porque são valorados de diferentes formas. Disso deriva a necessidade de não ser ingênuo, não basta fazer-se de bom moço que valoriza toda forma de saber, se ali chegará com o distanciamento digno de cientista em trabalho laboratorial, se vai instrumentalizar, transformando aquelas pessoas em meros objetos de estudo, matéria prima para artigo publicado. Extensão não é cursada, é vivida.

Em ambos os casos se requer o exercício da capacidade comunicativa, é sobre compreensão mútua. E nessa esfera, me desculpem dizer, mas pouco vale saber outros idiomas, conhecer o jargão jurista ou ter todas as expressões de latim ao pé da letra. Aqui é sobre escuta ativa – guardem esse termo – é sobre interpretação não cobrada pelo CESPE, sobre paciência e também carinho. Por outro lado, também é sobre escolhas, de palavras, de expressões, de construção do enunciado. Para além de questões de fala, é gesto, é contato, é gente.

E quem sabe assim, aprendendo a utilizar a linguagem pra entender e ser entendido em vez de selecionar verbete que silencia, os abismos que distanciam os acadêmicos da ‘comunidade’ possam ser reduzidos. Talvez compreendendo a linguagem como instrumento dual de acesso e dominação que esconde infinita disputa de poder por trás da falsa neutralidade, poderemos nadar contra a corrente em escolher a comunicação em detrimento do atrativo e reprovável hábito de fazer-se incompreensível como carimbo de status.

Eu curso Direito e por meio da extensão encontro pertencimento e sonho que este seja realidade para a infinidade de ‘outros’ que me rodeiam. Eu sou acadêmica, mas também sou comunidade; eu sou a graduanda com quem você esbarra no corredor, mas também sou o outro do qual você se distancia. Eu sou o silêncio dos meus iguais que não conseguiram estar em espaços como estes, mas também sou seu grito sempre que ocupo, seu orgulho sempre que resisto. Eu tenho nome sem origem estrangeira e endereço onde você nunca pisou, e eu vou fazer diferença, senão para os seus, para os meus.

¹ Espaço da UnB localizado na Ceilândia e onde há o acolhimento de demandas jurídicas de moradores da cidade que tenham o rendimento limitado a 3 salários mínimos.

Uma despedido em prol da minha sanidade

Por Amanda Conti

Antes de entrar no Direito ele nunca foi minha primeira, segunda, sequer terceira opção. Na verdade, chegava a dizer que queria fazer tudo, menos Direito. Então, porque eu entrei para Direito?

Quando estava no Ensino Médio, sempre me classificava entre os melhores estudantes do colégio, tirava sempre boas notas, era vista como uma “nerd”. Sempre me diziam que eu deveria fazer um “bom curso”, afinal, eu tinha nota para passar para um “bom curso”, mesmo que isso significasse fazer algo que eu não gostasse. Quando estava no terceiro ano do Ensino Médio, estava à beira de um colapso, com minhas notas caindo rapidamente, porque eu não tinha vontade de estudar, não tinha vontade de ir para aula, não tinha  vontade de continuar. A única coisa que queria era arranjar um jeito de sair da escola, ir embora. Passei no vestibular no meio do ano e entrei na UnB.

Após entrar para o Direito, eu comecei a ver que tinha alguns aspectos bastante interessantes no curso. Quando estava no primeiro ano do médio, tinha feito um curso de direito para Ensino Médio, e tinha gostado. Então pensava: porque não dar uma chance? Eu me divertia com as pessoas novas que conhecia, com as atividades extracurriculares que a UnB proporcionava, com as extensões, com as festas e tudo mais, mas as partes que eram ruins, e que já tinha previsto que seriam ruins, continuavam lá. O Direito ainda é um curso elitista, meritocrático, machista, racista, LGBTIfóbico, e ainda que possa tentar deixar ele menos assim, ele ainda é. A arte, a criatividade, que sempre estiveram dentro das minhas perspectivas de futuro, não estavam lá. Por mais que eu goste de várias áreas dentro do curso, por mais que eu esteja envolvida em projetos dentro dele, ainda sinto como se o curso só me deixasse frustrada, triste, e doente. Sim, doente.

Durante o semestre passado eu me encontrava sem condições de ir para as aulas, mas continuava tendo que vir, mesmo que isso significasse tomar remédios pesados, bastante pesados. Me adoecia ver o meu custo se resumindo a arrogâncias – de alunos e professores –, me adoecia que as expectativas que tinham dos alunos eram as mesmas de cem anos atrás: repetidores de códigos, de palavras de “grandes nomes” de pensamentos arcaicos, com um pensamento acrítico centrado em seus próprios umbigos.

E a gota d’água foi a prova de proficiência. Quem já fez alguma vez sabe do que estou falando – aquelas muitas questões, que se resumem aos nomes grandes e a uma pesquisada rápida no código. Durante um tempo, fiz as questões sem pensar muito. Mas eu apenas olhava para elas, e via as mesmas questões que fiz em outras matérias. Algumas chegavam a ser idênticas – sim idênticas, sem nenhum exagero. E simplesmente me perguntava: é isso? É essa a expectativa de um estudante de direito? Que ele saiba procurar um artigo no Vade Mecum? É esse tipo de prova massificadora, maçante que eles querem que eu e todas as demais pessoas nesse auditório façam? Uma garota sussurrando ao meu lado falou “que chatice”. E eu ri baixinho, concordando. Levantei meus olhos e vi uma imensidão de estudantes de direito, virando as páginas do Código de forma mecânica, repetitiva. Não conseguia olhar sem sentir um misto de tristeza, raiva, ódio e dor. É a isso que se resume o estudo jurídico? É a isso que se resume esse curso, que deveria ser considerado um dos melhores do país? É isso que esperam da gente? Olhando para os lados, eu não via futuros juristas, não via futuros advogados, procuradores, defensores públicos, pesquisadores, magistrados. Eu via máquinas, eu via o resultado da nossa Educação, não apenas no Ensino Superior, mas em todos os níveis, e a nuvem negra que paira sobre ela dizendo: isso só vai piorar. Não está ruim o suficiente? Charles Chaplin, no filme The Great Dictator de 1940 – há mais de 70 anos – fala algo que reflete ainda a nossa educação de hoje.

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens… levantou no mundo as muralhas do ódio… e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

(…)

Soldados! Não vos entregueis a esses brutais… que vos desprezam… que vos escravizam… que arregimentam as vossas vidas… que ditam os vossos atos, as vossas ideias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como um gado humano e que vos utilizam como carne para canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar… os que não se fazem amar e os inumanos. Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade!(Charles Chaplin, O grande ditador. Tradução disponível em: http://www.seufuturonapratica.com.br/portal/fileadmin/user_upload/POL/discurso_final.pdf)

Foi nesse momento que eu desisti, eu não conseguia terminar a prova, eu não conseguia ficar naquela sala sem sentir aquela raiva, por saber que era isso a que estava se resumindo a nossa educação, era essa a expectativa que tinham sobre o que um estudante de direito deveria ser. Mais uma pessoa capaz de responder uma prova. Eu era mais um soldado no meio desse exército de pessoas que vão sair de lá como máquinas para fazer parte desse aparelho instituído da nossa sociedade. Nesse momento, eu chamei o aplicador, me levantei e entreguei a prova para ele. Ele me perguntou se eu já tinha terminado, se não queria revisar nada, e eu simplesmente falei que me recusava a terminar a prova. Guardei meu material, levantei novamente e agradeci pela tristeza de ver que o Direito era só mais uma educação em massa. Nesse momento, ouvi risos, um amém irônico, e isso foi horrível, por saber que eu estava fora, abandonado a prova, mas era só mais uma entre os vários estudantes, e não fiz a menor diferença. Semestre que vem, novos estudantes farão essa mesma prova, e no semestre seguinte. E cada estudante, terá que ser aprovado em pelo menos duas provas nesse mesmo estilo para se formarem. Isso somado a todas as provas que fizeram durante suas vidas, no mesmo estilo, igualmente maçantes e sem sentido.

Falei para minha mãe, quando a encontrei, que não vou voltar semestre que vem, não sei se vou trancar o curso se vou abandoná-lo de vez. A decisão é difícil, pois por mais que eu esteja infeliz, por mais que tudo isso tenha me adoecido, me levado a tomar uma quantidade enorme de medicamentos, todos os dias, me machucado, chegado próximo de tentar me matar, ainda vão me recriminar por abandonar o curso. Por não ter um diploma na mão. Afinal, já estou com 19 anos, estou ficando velha. Tenho já dezenove anos. Mas eu abandonei o curso. A amiga da minha mãe não vai mais poder falar “a filha da minha amiga já está terminando o curso de direito”, minha tia não vai mais poder falar “você está aí fazendo nada, mas sua prima já está terminando a faculdade. Vai ser advogada”. Mas eu não quero esse diploma, não quero ser mais uma. Estou cansada das pessoas me falarem “mas é um curso tão bom, e qualquer coisa, o direito te abre muitas portas”, “qualquer coisa você faz um concurso público”. A que custo? Minha saúde? Minha vida? Minha felicidade? E alguém sequer me perguntou se eu quero passar em um concurso público? Se eu quero qualquer uma dessas coisas?

No final, serei apenas um estudante a menos, que não fará nenhuma diferença para esse sistema, no qual entram 120 novos corpos todos os semestres. Minha tristeza de hoje? Não ter rasgado aquela prova ao meio e saído sapateando.

Superação (?)

Por Nathálya Ananias

Destaque na sala de aula
Aluna exemplar exceto pela conversa
Menina de Federal
Exemplo
Era assim que as minhas professoras e professores se referiam a mim durante a minha vida escolar
Uma criança que não foi pressionada pelos pais a ser alguém muito grande
Só queriam que eu me estabelecesse financeiramente e tivesse o meu lugar para morar
O pai mecânico, a mãe professora
Sonhos grandes? Pra quê?
Ter o ‘pé no chão’ era o importante
Mas eu sonhava e sonhava alto
Meu sonho?
Eu seria alguém na vida
Muito mais que qualquer um ali pudesse imaginar
Superaria qualquer expectativa
E o primeiro passo seria passar em direito na Universidade de Brasília
Sonho realizado
Passei
Agora minha superação se mostra cada vez mais possível
E algum dia eu ainda serei a capa da revista que exibirá o meu sucesso e a minha batalha

Essa história seria até bonita não fosse exageradamente idealizada e romantizada. Construída de modo a fazer com que você, mas principalmente eu, não enxerguemos os problemas presentes em cada linha, em cada palavra e em cada pilar que compõem a estrutura social que nos molda e que ao mesmo tempo formamos.

Fazer parte de um grupo seleto de alunas de um curso extremamente elitista não é para qualquer pessoa. Aquelas que o fazem possuem sim, privilégios, mesmo que em suas diversas nuances, e para chegar até ele foi preciso que eu me esforçasse extremamente no que diz respeito aos estudos. Porém, para além disso, é preciso reconhecer determinados privilégios não apenas no processo de ingresso na Universidade, mas na minha vida como um todo.

Diferente de muitas pessoas com as quais estudei, minha mãe e meu pai me incentivavam nos estudos e me davam o aporte necessário. Trabalhei porque quis e não porque eu precisava ajudar em casa. Tive uma tia que pagou meu cursinho e que abriu sua casa para que eu morasse com sua família em Brasília. E sem deixar de levar em consideração cada um desses fatores eu consegui o que a princípio era meu sonho. E você pode até pensar que isso é sonhar “baixo”, mas na verdade era muito “alto” para muitas pessoas do meu convívio escolar que passaram bem longe de uma Universidade Pública ou até mesmo de uma Universidade.

Assim que cheguei na UnB me deparei com um universo extremamente destoante do meu. Estava muito enganada ao pensar que as diferenças não seriam significativas e que eu facilmente me adequaria aos espaços. Não saber inglês era a menor das minhas preocupações, assim como nunca ter viajado para vários lugares e países. Eu precisava fazer amigas, me inserir em grupos. E por mais que tenha sido difícil, porque muitas já se conheciam do Ensino Médio, eu consegui. Porém, comecei a perceber que não bastava eu me inserir, era preciso permanecer. Precisava ter tido experiências similares, ter lido os mesmos livros, assistido os mesmos filmes, mesmos desenhos, e, principalmente, ter dinheiro para acompanhá-las. Me esforcei bastante, mas consegui, ou pelo menos acreditei que sim.

Achei que o fato de minhas amigas terem discussões sobre classe faria com que eu sofreria menos. Achei que a assistência estudantil na prática era como na teoria. Achei que seria fácil compor os espaços como planejado. Ilusão.

O que a princípio seriam direitos se colocavam e ainda se colocam como privilégios e favores. Estar em uma Universidade que muitas pessoas nem sequer sonham estar, receber bolsa permanência enquanto muitas precisam e não são selecionadas no processo, morar na Casa do Estudante Universitário quando muitas que não moram no DF não recebem ao menos bolsa pecúnia, fazer contatos que só me foram possíveis por cursar direito na UnB. Estas são algumas das muitas constatações que posso fazer. Porém, se em algum momento tento contestar tudo isso me chamam agressiva, me calam e dizem que eu estou “pegando o boi” de ter tudo o que tenho e de estar onde estou. E já não bastasse ainda me gritam EXCELÊNCIA ACADÊMICA. Preciso render, preciso ter notas boas, preciso, preciso, preciso.

 A sua empatia se faz mais que necessária para compreender os problemas dessa tão idolatrada meritocracia e não para sentir pena ou dó. As exceções existem, porque elas devem existir. São pessoas que ascendem socialmente, porque se a elas não fosse permitido o fazer, as oprimidas se rebelariam. Mas se apresentando assim, as oprimidas não apenas não se voltam contra essa estrutura como querem oprimir aquelas iguais a elas.

Minha voz e permanência nessa Universidade e nesse curso são muito mais que estar, são resistência. Compor este espaço extremamente elitista me traz dores e me molda de muitas maneiras, mas muitas vezes “abrir mão” de tudo isso não se mostra uma opção, porque enquanto você planeja sua próxima viagem a minha maior preocupação é como pagar as contas sendo que a bolsa não caiu e meu pai não tem como me mandar dinheiro.

Não peço a sua dó ou piedade, mas sim que perceba, reflita e mude muitas das suas atitudes. Essas histórias de superação que as pessoas tanto gostam não são bonitas e não devem ser tratadas como se o fossem. Entender isso é o mínimo para que haja um questionamento ou até possivelmente uma mudança.

*O texto está no feminino.

Suicídio

Suicídio. 
Su i cí dio
S u i c í d i o.
Suicídio: ato de acabar com a própria vida.
32 brasileiros se matam por dia e a maioria dos casos poderiam ser evitados.
Suicídio não é covardia, não é fraqueza, não é óbvio, e fechar os olhos e fingir que não existe não vai ajudar a solucionar este problema.
 
Talvez seja necessário repetir mais algumas várias vezes s u i c í d i o, para que as pessoas entendam e se acostumem que esta palavra não deve ser um tabu, e que não é vergonha nenhuma falar sobre o tema. O suicídio não é vergonhoso nem conhecer alguém que fez e muito menos pensar em fazer isso; vergonhoso é ignorar e se manter inerte sobre este problema tão grave que nos ronda.
 
TRINTA E DOIS brasileiros por dia tiram suas próprias vidas, este número é maior que as taxas de pessoas mortas por AIDS e pela maioria dos tipos de câncer¹. Estas pessoas convivem com a gente, são nossos colegas de classe, vizinhos, amigos, parentes, conhecidos, aquela pessoa que vemos sofrendo e ignoramos. E mesmo assim continuamos calados. A verdade é que nós matamos 32 pessoas por dia, pois o sofrimento do outro não nos afeta, somos inertes aos outros e seus problemas.
 
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde 9 entre 10 casos poderiam ser prevenidos. Talvez se a nossa sociedade não tivesse tanta vergonha de falar sobre o tema, se nós não fossemos tão individualistas e incapazes de se afetar com os outros, se não houvesse tantos julgamentos e mais atenção, se as pessoas soubessem que é normal sofrer e pedir ajuda, esse quadro seria diferente. Mas a verdade é que é difícil pedir ajuda quando parece que tudo nos culpa por termos um problema e nos obriga a escondê-lo. Esse mal é silenciado como se assim pudéssemos, ao negar que ele existe, fechar os olhos para sua existência.
 
Mas isto precisa parar e algumas coisas precisam ser ditas:
 
1.  Suicídio não é covardia. Durkheim já falava sobre esse assunto em sua época, mas mesmo hoje tratamos disso como se fosse vergonhoso falar que alguém cometeu suicídio, como se isso fosse “estragar” a imagem da pessoa. O suicídio é um aspecto psicológico, social e político. É um aspecto psicológico pois em muitos casos encontra-se ligado a doenças psicológica, e é necessário o tratamento, o acompanhamento pelas pessoas que estão perto e por profissionais que possam orientar. E isso vai além da depressão, pois pessoas afetadas por outros tipos de doenças psicológicas tem maiores riscos de suicídio. É um problema social: pessoas pertencentes a minorias sociais em vista do preconceito, e de situações críticas que enfrentam diariamente são pressionadas e estigmatizadas de tal forma que a vida passa a ser vista como uma vida impossível². É um aspecto político, em vista que políticas públicas, atuando em diversos campos (familiar, proteção de crianças e adolescentes, entre outros) e projetos de conscientização são necessários para que possamos discutir sobre isso, para que as pessoas possam falar sobre isso.
 
2.  O suicídio não é óbvio. Da mesma forma, depressão e outros sofrimentos psíquicos não são óbvios, e por isso é necessário nos atentarmos muitas vezes a detalhes e pequenas mudanças. É necessário estarmos abertos para conversar sobre isso. Nem todos estamos preparados para lidar com isso, mas a simples ideia de que alguém liga, alguém se importa é muito importante.
 
3.   Suicídio não é falta de Deus. Não podemos envolver a religião em tudo e tentar empurrar suas justificações goela à baixo. O Suicídio é um aspecto complexo, e é um problema, como dissemos anteriormente, social, político e psicológico e as pessoas que veem como única e última opção o suicídio, fazem isso por muitos motivos, e não podemos reduzir isso a um motivo religioso. 
 
4. Não falar, fechar os olhos, negar que o suicídio existe não vai fazer que ele pare de acontecer. Escutar, abrir os olhos e conversar sobre isso pode evitar que mais alguém morra. 
5. Caso precise de ajuda ligue 141, Centro de Valorização da Vida (CVV). 
 
² COVER, Rob. Queen Youth Suicide, Culture and Identity: Unliveable Lives?

Por que eu vivo?

Por Daniel Rezende

Quando eu tinha entre 12 e 14 anos, uma pergunta ecoava muito fortemente em mim: qual a finalidade da vida?

Nessa idade, eu era bem incomodado comigo mesmo, há pouco eu vinha descobrindo a minha sexualidade e, depois de anos sofrendo bullying, eu me deparei com uma verdade incontornável: tudo o que meus agressores bradavam na minha cara era verdade, eu era gay.

Mas, por quê? Por que eu tinha que ser diferente? Qual era a finalidade de tudo isso?

Essas questões me atormentavam profundamente e, apesar de não ter uma família muito religiosa, recorri à fé para tentar achar minhas respostas. Todas as noites, antes de dormir, eu me ajoelhava ao lado da cama e suplicava uma resposta divina.

Não consigo me lembrar de quantas vezes eu chorei nesses momentos, em silêncio e de portas fechadas, para que meus pais não pudessem me escutar. Eu repetia, como em um mantra: “eu não quero ser gay”, com a culpa pesando no meu coração, pela possibilidade de frustrar quem mais tinha me dado amor e carinho.

Eu era uma criança, um filho único, chorando no escuro, sozinho. Ninguém sabia do segredo que eu tinha que carregar todos os dias, um segredo que eu fazia questão de guardar a todo custo, era eu contra o mundo: tinha que estar atento ao meu jeito de andar, aos meus trejeitos, aos meus gestos, a minha fala. Eu não podia defender gays, afinal, poderiam achar que eu era um também.

Só quem já sofreu bullying sabe o quanto um olhar pode doer. Eu não queria olhares. Preferia me esconder pela vida inteira, seguir um roteiro pré-definido, tradicional, “normal”, preferia me passar por hétero a ter que lidar com a repreensão de todos.

Aos meus 13 anos, minha mãe se converteu e deu início a uma mudança radical na dinâmica da casa: começou a frequentar a igreja evangélica, a andar com uma Bíblia, a fazer longas orações em voz alta, a citar passagens. Várias vezes, ao me buscar na escola, ela falava sem parar sobre as vontades de Deus para a minha vida. Eu nunca respondia nada.

A persistência da minha mãe me levou a igreja, apesar do meu pai, que sempre rejeitou qualquer influência religiosa sobre mim. Mas eu fui, e as perguntas ainda ressoavam em mim. Eu indagava o pastor e a Bíblia, mas a única resposta que obtive foi sempre a do pecado e a da condenação.

Minhas orações noturnas eram reiteradas todas as noites, eu questionava minha fé, que não era forte o suficiente para me curar. Eu tinha vergonha de mim. Eu odiava a minha situação, e, analisando hoje em dia, eu odiava quem eu era. Por que eu vivo? Qual a finalidade da minha vida?

Deus nunca me respondeu.

Só depois de alguns anos, quando eu me assumi para minha mãe, ela me confessou que havia se convertido porque “não queria ter um filho gay”, algo me marcou fortemente. Ela ainda frequenta a mesma igreja, eu, não mais.

Eu desisti de agradar as pessoas, mas não desisti das minhas inquietações. Percebi, depois de conquistar certa autonomia, que eu só conseguiria as respostas que eu tanto desejava se eu começasse a ser verdadeiro comigo e com as pessoas que estão a minha volta.

Abandonei o fingimento, parei de tentar agradar as pessoas.

Eu sei que não fui o único responsável por minha emancipação, a mim foram dadas condições financeiras, educacionais e sociais para que eu pudesse entender a beleza da diversidade e me empoderar.

Só pude me aceitar melhor depois de conhecer outros iguais a mim, depois de descobrir que eu não era o único a chorar de joelhos à noite. Mas muitos ainda não conseguem respostas às suas perguntas existenciais, têm que enfrentar sozinhos as repreensões diárias, seja da igreja, dos amigos, das piadinhas, dos professores, da família… Muitos se matam no meio do caminho.

Neste momento, em que o PET debate saúde mental, não se pode esquecer a saúde mental LGBT, das pessoas que sofrem sozinhas todos os dias sem que ninguém saiba. Nossa força, nossa saúde, nossa sobrevivência apenas existem quando estamos juntos, quando resistimos e existimos em comunhão, quando conhecemos outros iguais a nós. A visibilidade, o orgulho e a união são indispensáveis para a sobrevivência LGBT.

Eu consegui as respostas para as minhas perguntas. Descobri a finalidade da minha vida.

Eu existo para ser feliz, do meu jeito, e para levar felicidade às pessoas ao meu redor. Eu existo para ser gay, “alegre”, do inglês; mas não somente, quero a plenitude e a felicidade, quero ser alegre em todos os momentos.

Eu quero, sempre e em todos os momentos, ser gay.

A rua é nossa

Por Beatriz Barbosa

Há quem diga que a rua é nossa.

Nossa? Eu me pergunto. Quem é esse nós? Será que esse nós tem classe? Cor? Gênero? Será que todos nós somos donos igualmente das ruas?

Será que a rua é minha quando eu, mulher, ando sozinha a noite? Quando eu insisto em não ter a companhia de um homem ao meu lado? Quando eu uso alguma roupa que realça o meu corpo? Quando eu utilizo o transporte público? Quando eu decido que não quero mais escutar “elogios” estúpidos?

Infelizmente, eu acho que as regras das ruas não foram feitas para mim, ou para qualquer outra mulher. Ainda nova aprendi a conviver com o medo. Cresci tendo a certeza que se anoitecer e eu estiver sozinha na rua eu não estou segura. E se mesmo assim eu tentar a sorte, se acontecer algo a culpa é minha. “Menina atrevida, sabe como as coisas são e mesmo assim tenta desafiar a vida.”

Sim, eu tento e com o tempo eu aprendo a conviver, ou melhor, eu aceito a realidade. Minha relação com a rua oscila entre o medo e a coragem. O primeiro é um sentimento constante. Graças a ele, você aprende a andar prestando atenção em tudo, principalmente se for noite e tiver uma pessoa perto, você observa a distância, calcula a velocidade, a visão se amplia, o volume da música diminui, cada ruído é importante. O nervosismo é inevitável quando você percebe que está em um lugar isolado e tem um cara próximo, o primeiro pensamento é criar distância, mas se a situação continua você logo pensa “por favor, se for para acontecer algo, que seja apenas um assalto, eu passo o celular e a bolsa tranquilamente”. Por outro lado, é inexplicável o alivio que se sente quando você percebe que é uma mulher que está do seu lado.

É difícil aprender a conviver com esse sentimento, o medo constante de ser violentada por simplesmente ser mulher. Violentada com olhares, com assobios, com carros que param, com palavras que envergonham, com gestos que assustam, com reações que zombam da impotência que nos invade, e será que preciso falar do medo do estupro que nos ronda? Há quem diga que são as mulheres que causam tal reação, são nossas roupas, nossos corpos, nossos jeitos que seduzem, que convidam, que provocam, provocamos os motoristas, os cobradores, os pedestres, os professores.. enfim provocamos todos os homens inocentes que nos agridem cotidianamente. E já que é assim, se eu tenho que lidar que o simples fato de existir provoca os homens, se eu tenho que conviver com o medo constante de poder ser estuprada, vocês homens que aprendam a lidar quando nós mulheres falarmos que todo homem é um estuprador em potencial, ou que não confiamos em vocês, ou então que não nos sentimos seguras. Desculpe ‘homens de bem’, porém eu não ligo se isso soa como ofensa, se machuca seu orgulho, muito menos ligo para as tentativas de mostrar que estou exagerando, pois eu estou aqui para falar da minha sobrevivência, e não da de vocês.

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Na imagem: “Homens! Deixem os assobios para os pássaros.”, autora desconhecida.

Vivemos em uma sociedade marcada pelo patriarcado, pela cultura do estupro, pela violência constante contra as mulheres. Nossa sociedade como está estruturada foi feita por homens para homens. Estatísticas indicam que a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil. Isso não é papo chato de feminista, esta é a verdade, nós mulheres estamos morrendo todos os dias por sermos mulheres e nossos agressores não são monstros, são homens comuns que foram criados achando que são donos das mulheres. E a cada notícia nova de uma mulher que foi agredida, eu sinto a dor em mim, porque eu não sei quem vai ser a próxima. Eu queria que o feminismo não precisasse existir, eu queria não ser a radical das rodinhas, mas eu não consigo desver todo machismo e violência que existe, e se eu tentasse fazer isso no mínimo eu estaria sendo hipócrita.

Mas agora vamos falando de coragem. Coragem esta que me dá forças para todo dia levantar e não deixar o medo me oprimir, que não me deixa desistir da batalha. Eu escolhi ser a dona da minha vida. Eu escolhi reagir e conquistar o meu espaço. Eu quero a rua. Eu quero direitos iguais. Eu exijo ser respeitada. Eu quero que o mundo entenda que o corpo é meu, e de ninguém mais. Eu levanto a bandeira da liberdade, igualdade e segurança para toda e qualquer mina. E eu não aceito que homem nenhum invada meu espaço. Eu não sou um pedaço de carne, muito menos o prato do dia. Eu não sou um objeto, então não ache que estou aqui pra sua serventia. Eu não quero conviver com seus assédios disfarçados de elogios. Não quero os seus beijos invasivos, muito menos os seus toques. Eu não quero ser parte da sua fantasia. E eu me sinto cada vez mais forte, porque eu sei que comigo eu carrego a força de várias outras minas que se empoderam todos os dias. E que vão fazer questão de lembrar que não estamos aqui simplesmente para agradar.

Cotidiano

Por Carolina Freire

Acordei cedo, me vesti, parei, pensei … Já podia ouvir a opressão gratuita em forma de olhares, gritos, cantadas (??) Troquei de roupa, tapei meu corpo, perdi conforto, só como um meio tosco de me proteger.

Saí de casa. No trabalho, cumprimento, sou pontual, executo meu ofício com modesta competência. Mas afinal, de que vale tanto esforço? Aqui já ouço como sou incapaz de ser promovida; não falam diretamente, não são tão corajosos, mas batem na minha cara (que não é frágil) o tempo todo com enaltecidos argumentos de que sou excessivamente emotiva e ocupada demais com os filhos. É … parece que a racionalidade vem estocada em um saco pesado de testosterona daqueles que fazem, mas não criam, filhos.

Saio do trabalho de cabeça baixa, mas não derrotada; não, o dia ainda não acabou. Na condução, aperto, apalpo, abuso e passageiros cegos, só eu vejo, só eu sinto … nojo.

Na faculdade, procuro crescer, mesmo sendo menos escutada, menos relevante (parece), eu continuo. Continuo porque quero meu intelecto à prova, quero ser a competente, a que trabalha bem; chega de ser a gostosa ou baranga, a feia ou bonita; chega! Quero sair do concurso de beleza que a vida me impõe, quero respeito.

A aula acaba, já é tarde e sinto medo. Aqui a mulher forte esmorece, se encolhe, é hora de ir pra casa e tenho medo. Porque eu sei que à noite e sozinha eu não estou segura. Engulo esse medo e, assim como os não’s que a vida me dá, ele desce pela garganta e corta e fere e dói…

Chego enfim em casa e meus filhos precisam de mim, a casa precisa de mim, eu preciso de mim. Me ocupo nesses últimos instantes do dia com um serviço repetitivo e mecânico, mas ainda assim agradeço pela fé que me resta. Porque à essa altura, coisificada, subjugada, diminuída, oprimida, rechaçada, esperança foi só o que sobrou pra mim.

O sono me arrebata porque o cansaço físico me toma e aquieta a mente. Já o sonho, esse me ilude com a projeção de um lugar onde não sexualizam meu corpo, não me dizem o que fazer e não sufocam minha voz. Mas eu então acordo e a realidade me traz de volta porque o dia começa de novo e eu não quero chorar … eu não posso chorar … não posso … não posso … não posso, mas as lágrimas não demoram a cair …