As dores do processo do empoderamento feminino

12086788_872207719514225_1458715207_n

Por Luiza Miranda

Quando entrei na Universidade, há 3 anos atrás, ainda estava com a cabeça lá no Ensino Médio. Achava que a mulher deveria “se dar o respeito” e todos esses tipos de bobagens construídas socialmente que penetram nosso inconsciente desde cedo. Eu namorava há mais ou menos 1 ano e era vista como a garotinha exemplar, santa, que serve ao namorado e que mantém a relação perfeita. Mentira. Tudo mentira. Nada passava de aparências que a sociedade me rotulava e que eu tentava ao máximo não me desviar.

Eu achava que o sexo era basicamente uma forma de dar prazer ao homem e que dependia do meu desempenho sexual/afetivo/submisso a garantia de não-traição por parte do namoradinho. Mas isso durou até os primeiros meses de faculdade. O namoro acabou, fiz novos amigos e passei a me interessar mais por política. E foi na Universidade que aprendi o que é o feminismo e todo o meu processo de empoderamento começou.

Sempre fui uma pessoa muito extrovertida na presença de amigos e amigas. Então peguei o jeito rápido da vida universitária de “curtir a vida adoidado”. Comecei a beber socialmente e a sair para festas (ambientes que eu nem imaginava frequentar antes da universidade). Beijar na boca de desconhecidos então, quem nunca? As ficadas casuais passaram a fazer parte da minha vida. Mas todo esse processo de empoderamento, de beijar quem eu quisesse, beber o quanto eu quisesse, usar as roupas que eu quisesse e entender melhor meu corpo e minhas limitações, trouxe consigo as violências.

Decidi escrever esse texto porque ninguém me avisou que a partir do momento que eu me apresentasse como uma mulher independente, feminista eu ia sofrer algumas violências que eu não sofria quando ainda estava no casulo. Eu realmente achava que, aprendendo as coisas que aprendi sobre feminismo, sobre abusos em relacionamentos, sobre liberdade sexual feminina, eu não iria mais passar por nenhuma situação de violência. Oras, eu sei como me prevenir, não? Não. Eu estava bem enganada. Não importa o tanto de teorias que lemos que nos dizem frases do tipo “meu corpo, minhas regras”, “o feminismo liberta”,  sem termos a consciência de que o processo de libertação vem acompanhado de abusos de vários tipos.

12084039_872207709514226_1088668231_n

Por isso, faço uma pequena lista das violências que mulheres em seu processo de empoderamento podem se identificar (e espero, mas ao mesmo tempo não espero, que se identifiquem):

1. O “não-merecimento de respeito”

Quando as mulheres começam a ter relações sexuais casuais, muitas do tipo “one night stand”, podemos nos confrontar com caras que acreditam que, por sermos mulheres que quando temos vontade transar, transamos, não somos merecedoras do respeito deles. Isso pode acontecer de várias formas. Desde o cara que não te cumprimenta mais quando te vê em espaços públicos até aquele que sai contando pros amiguinhos tudo que vocês fizeram na cama e como você é uma vadia mesmo, do jeito que falam por aí! Essa violência creio ser muito comum e uma das mais doloridas.

2. “Ué, mas você pegou meu amigo!”

Você está na balada se divertindo com seus amigos, despreocupada, a fim de dançar, quando chega um sujeito e começa a dar em cima loucamente. Você diz NÃO enfaticamente e o que ele diz? “Ué, mas você pegou meu amigo! Se você não tem problemas em ficar com qualquer um, por que não comigo?”. Já perdi as contas de quantos caras acham que, por eu beijar quando quero beijar, isso é sinônimo de “pego qualquer um, até quem eu não me sinto atraída”. Eu beijo quem EU quiser, e isso vai excluir muita gente, porque a minha seletividade ainda existe e sempre existirá.

3. A recusa da camisinha

Um comportamento violento que nem sempre é reconhecido dessa forma é a recusa do uso da camisinha. Vários rapazes utilizam o argumento de que “broxam” de camisinha ou então de que “escolhem as pessoas com que transam, por isso não tem que haver preocupações” ou mesmo alguns chegam a usar tom agressivo: “você ta achando que eu tenho alguma doença?”. O que essa rapaziada não entende é que DSTs não têm gênero, raça, orientação sexual e nem classe. E, quando as minas reclamam ou insistem no uso do preservativo, são inúmeras as  reações de repreensão por partes dos homens. Desde falas como: “você é fresca”, até a recusa do ato sexual por completo. Além disso, nem toda mina toma pílula anticoncepcional, e se ela não quiser, nem vai tomar mesmo e pronto. Não é o seu corpo, cara, que está sendo bombardeado de hormônios com vários riscos de efeitos colaterais. Se a camisinha te broxa ou qualquer outra desculpa, não interessa. Coloca a camisinha e não reclama.

4. As festas

Pode parecer que eu estou generalizando ao atribuir a esse tópico o título de “festas”. Muitas festas são realmente ambientes em que as minas se sentem confortáveis, como as festas LGBT, em sua maioria. Mas muitas festas, muitas mesmo, são ambientes de violência latente contra a mulher. Como uma mulher solteira, por não ter um namorado do lado (esses machos só respeitam machos!), acabo ficando mais vulnerável a certos tipos de abusos. Caras que se acham no direito de passar a mão nas suas partes íntimas, que chegam agarrando, que não se contentam com o simples “não” são muitos comuns nas festinhas que rolam por aí. As festas são um espaço de muita violência.

Propus-me a escrever esse texto baseado unicamente nas minhas experiências como mulher solteira que possui relações casuais heterossexuais. O processo de empoderamento para mim foi e ainda é muito doloroso. As violências sofridas deixam marcas, tanto na alma quanto no corpo. Não desencorajo nenhuma mulher a procurar o caminho do empoderamento. Pelo contrário, é um caminho necessário e que traz muitos bons frutos. Mas é preciso alertar que ele vai ser doloroso em muitos aspectos. Mas não desistamos. Seguimos juntas.

Anúncios