Por que eu vivo?

Por Daniel Rezende

Quando eu tinha entre 12 e 14 anos, uma pergunta ecoava muito fortemente em mim: qual a finalidade da vida?

Nessa idade, eu era bem incomodado comigo mesmo, há pouco eu vinha descobrindo a minha sexualidade e, depois de anos sofrendo bullying, eu me deparei com uma verdade incontornável: tudo o que meus agressores bradavam na minha cara era verdade, eu era gay.

Mas, por quê? Por que eu tinha que ser diferente? Qual era a finalidade de tudo isso?

Essas questões me atormentavam profundamente e, apesar de não ter uma família muito religiosa, recorri à fé para tentar achar minhas respostas. Todas as noites, antes de dormir, eu me ajoelhava ao lado da cama e suplicava uma resposta divina.

Não consigo me lembrar de quantas vezes eu chorei nesses momentos, em silêncio e de portas fechadas, para que meus pais não pudessem me escutar. Eu repetia, como em um mantra: “eu não quero ser gay”, com a culpa pesando no meu coração, pela possibilidade de frustrar quem mais tinha me dado amor e carinho.

Eu era uma criança, um filho único, chorando no escuro, sozinho. Ninguém sabia do segredo que eu tinha que carregar todos os dias, um segredo que eu fazia questão de guardar a todo custo, era eu contra o mundo: tinha que estar atento ao meu jeito de andar, aos meus trejeitos, aos meus gestos, a minha fala. Eu não podia defender gays, afinal, poderiam achar que eu era um também.

Só quem já sofreu bullying sabe o quanto um olhar pode doer. Eu não queria olhares. Preferia me esconder pela vida inteira, seguir um roteiro pré-definido, tradicional, “normal”, preferia me passar por hétero a ter que lidar com a repreensão de todos.

Aos meus 13 anos, minha mãe se converteu e deu início a uma mudança radical na dinâmica da casa: começou a frequentar a igreja evangélica, a andar com uma Bíblia, a fazer longas orações em voz alta, a citar passagens. Várias vezes, ao me buscar na escola, ela falava sem parar sobre as vontades de Deus para a minha vida. Eu nunca respondia nada.

A persistência da minha mãe me levou a igreja, apesar do meu pai, que sempre rejeitou qualquer influência religiosa sobre mim. Mas eu fui, e as perguntas ainda ressoavam em mim. Eu indagava o pastor e a Bíblia, mas a única resposta que obtive foi sempre a do pecado e a da condenação.

Minhas orações noturnas eram reiteradas todas as noites, eu questionava minha fé, que não era forte o suficiente para me curar. Eu tinha vergonha de mim. Eu odiava a minha situação, e, analisando hoje em dia, eu odiava quem eu era. Por que eu vivo? Qual a finalidade da minha vida?

Deus nunca me respondeu.

Só depois de alguns anos, quando eu me assumi para minha mãe, ela me confessou que havia se convertido porque “não queria ter um filho gay”, algo me marcou fortemente. Ela ainda frequenta a mesma igreja, eu, não mais.

Eu desisti de agradar as pessoas, mas não desisti das minhas inquietações. Percebi, depois de conquistar certa autonomia, que eu só conseguiria as respostas que eu tanto desejava se eu começasse a ser verdadeiro comigo e com as pessoas que estão a minha volta.

Abandonei o fingimento, parei de tentar agradar as pessoas.

Eu sei que não fui o único responsável por minha emancipação, a mim foram dadas condições financeiras, educacionais e sociais para que eu pudesse entender a beleza da diversidade e me empoderar.

Só pude me aceitar melhor depois de conhecer outros iguais a mim, depois de descobrir que eu não era o único a chorar de joelhos à noite. Mas muitos ainda não conseguem respostas às suas perguntas existenciais, têm que enfrentar sozinhos as repreensões diárias, seja da igreja, dos amigos, das piadinhas, dos professores, da família… Muitos se matam no meio do caminho.

Neste momento, em que o PET debate saúde mental, não se pode esquecer a saúde mental LGBT, das pessoas que sofrem sozinhas todos os dias sem que ninguém saiba. Nossa força, nossa saúde, nossa sobrevivência apenas existem quando estamos juntos, quando resistimos e existimos em comunhão, quando conhecemos outros iguais a nós. A visibilidade, o orgulho e a união são indispensáveis para a sobrevivência LGBT.

Eu consegui as respostas para as minhas perguntas. Descobri a finalidade da minha vida.

Eu existo para ser feliz, do meu jeito, e para levar felicidade às pessoas ao meu redor. Eu existo para ser gay, “alegre”, do inglês; mas não somente, quero a plenitude e a felicidade, quero ser alegre em todos os momentos.

Eu quero, sempre e em todos os momentos, ser gay.