O bicho, meu Deus, era um homem.*

Meu pai me conta que quando era novo ele gostava de torturar as baratas, fazendo um pequeno círculo de fogo em volta delas e deixando que elas se lançassem ao fogo, morrendo queimadas. Não chega a ser espantoso que uma criança faça isso, afinal, a barata é um inseto asqueroso do qual a maioria de nós tem asco, misturado com um pavor quase incontrolável (muitas/os jurariam que é até natural esse medo).

      Nosso medo também motiva a maneira com que lidamos com esses bichos. Não basta matar quando aparecem na nossa frente: envenenamos por prazos prolongados nossas casas para que aquela baratinha malandra que quiser aparecer para se aproveitar dos nossos lixos e sujeiras morra antes mesmo de ter essa ideia.

     Sua ação é conhecida: se esgueiram e rastejam por bueiros, ralos, frestas, conseguindo entrar e estragar nossas comida, nossa saúde e nossa paz. São o submundo dos insetos – encarnam toda nossa repulsa na sua própria existência.

      Até aí, nada demais querer acabar com as baratas, ou pelo menos controlar minimamente sua inserção nas nossas residências e em alguns outros espaços (já que sabemos que, mesmo após uma grande guerra nuclear, esses bichinhos não abondonariam de jeito nenhum este planeta). Os indivíduos da sociedade em que vivemos têm carta branca pra fazer o que quiserem com as baratas e não há quem reclame disso. Acho que podemos dizer que até temos um certo “direito” sobre a vida das baratas; estamos em guerra com elas, permanentemente.

        No último fim de semana, dois moradores de rua foram queimados – um deles morreu -, por jovens em Brasília. Eu podia falar bastante sobre esse fato, mas não conheço ninguém que defenderia uma ação dessas, que ache que isso é razoável, que considere isso uma conduta humana, de humanas/os para humanas/os (se você acha que queimar pessoas é aceitável, por favor avise). Esses jovens provavelmente acham que têm direito de decidir sobre a vida dessas pessoas, que ‘incomodam’ (embora seja difícil conceber de que maneira). Seres humanos são baratas e o espaço público se torna o espaço privado de suas residências. E, então, assassinamos pessoas.

         Eu já disse que acredito (ou prefiro acreditar, por hora) que aceitar o que esses jovens fizeram é uma coisa que ninguém defenderia. Seres humanos não são baratas, a rua não é seu “domínio particular” e por aí vai. Entretanto, me chama a atenção como reprimimos veementemente com palavras e discursos algumas ações individuais (e não acho que seja pra menos), ou de poucas pessoas (como a desses jovens ou dos que espancaram um outro jovem que tentava proteger um morador de rua), mas, em ações muito parecidas, institucionais e praticadas por autoridades públicas, não só não temos críticas como apoiamos (ou boa parte da população o faz).

       As/os moradoras/es de rua são invisibilizadas/os ou demonizadas/os, conforme a conveniência. E nem o restante da sociedade (aliás, elas/es fazem mesmo parte da sociedade?), nem o poder público assumem a responsabilidade sobre sua condição. São drogadas/os, vagabundas/os, sujas/os, que podem até existir, desde que eu não tenha que ver ou que sentir seu cheiro, ou cruzar com algum/a delas/es, pois são bandidas/os e nos trazem perigo e insegurança. Não bastassem serem abandonadas/os pela nossa Constituição (alguém considera que suas vidas têm alguma dignidade?), são tornadas/os inimigos, algo a se combater. O que incomoda tanto não é sua situação de moradoras/es de rua, mas o fato de que além de serem moradores de rua e não fazerem nada pra mudar essa condição (estranho né, será que elas/es gostam de viver assim? – “quando se tem força de vontade consegue-se superar, não faltam exemplos” – hmm…), ainda vem sujar e atrapalhar nossa rua, nossa paz. Malditas baratas.

        Para não acharem que eu me debato contra inimigos invisíveis, que ninguém acha isso dos moradores de rua, que ninguém pensa como o que eu acabei de dizer, vamos pegar alguns exemplos. Em 2005, saiu a seguinte notícia na Folha.com: “Serra põe rampa antimendigo na Paulista“. O então presidente da Associação Paulista Viva comentou a ação: “O cartão-postal da cidade tem de ser preservado. Sabemos das dificuldades sociais, mas não dá para ter gente morando na Paulista. A cidade precisa de ordem”. Olha, acho que concordo num ponto: não dá pra ter gente morando na Paulista (nem em qualquer rua). Como resolver isso, segundo ele? – ‘Mandando essas pessoas para morarem numa rua onde não possamos ver, para fingirmos que o problema não existe. Assim não atrapalha a ordem e progredimos’. Ninguém vê nada de errado nessa “solução”?

        Um texto do blog do Sakamoto, escrito em 2009, com o título de “Como expulsar drogados, mendigos e outros estorvos“, começa com a seguinte frase: “Um edifício em obras na região central de São Paulo instalou gotejadores de água em sua marquise para gerar uma chuva artificial e espantar usuários de drogas que frequentavam a fachada”. Eis um dos comentários das/os leitoras/es: “a ideia de molhar os vizinhos indesejaveis ate que não e ma (sic). Na guerra se luta com as armas que se tem. Se as autoridades que deveriam tomar as providencias não as tomam, alguem tem que tomalas (sic).” Ou seja, ‘se as autoridades não vêm aqui dedetizar a rua, e eu pago impostos pra isso, nós mesmas/os faremos isso. Afinal estamos em guerra contra as baratas. E nem as estamos matando hein, só dando um chega pra lá, pra elas irem pra algum lugar onde não incomodem a civilização’.

        Uma outra notícia, publicada no UOL em 2010, tem a seguinte chamada: “Governo Kassab tenta expulsar mendigos jogando água nos colchões“. Tirar o que as/os mantêm aquecidos e dá algum sustento (colchões, cobertores, papelões, etc.) ou vai mandá-las/os embora pra outro lugar ou vai matá-las/os de frio ou fome. ‘Problema deles, que estão incomodando’.

        Desde quando tratamos pessoas como baratas, simplesmente por não terem uma casa? Não deveria nos entristecer, em vez de enraivecer e estimular uma guerra, a situação desumana a que tantos seres humanos estão submetidos? Argumentando a favor da “rampa antimendigo” da Paulista, o subprefeito da Sé argumenta “que é dever do poder público proteger e garantir a segurança da POPULAÇÃO da cidade”(grifo meu). Qual é a conclusão? Ao delimitarmos ações higienistas excepcionais que têm como alvo moradoras/es de rua, ações estas que extrapolam qualquer limite do razoável e violam os poucos direitos que ainda restam a essas pessoas que vivem em condições absolutamente desumanas, decratamos sua morte social, bem como sua condição de “seres humanos”. São bichos asquerosos que não queremos perto. Para o subprefeito, essas pessoas nem fazem parte da população. Para que mascarar o verdadeiro desejo de deixá-las queimando num círculo de fogo com jatos de água? E desse jeito vamos achando um absurdo queimar moradores de rua, mas aprovamos que se tire uma das poucas chances que essas pessoas têm de sair dessa situação: tendo visibilidade e “incomodando”.

* Título extraído do poema “O Bicho“, de Manuel Bandeira.

 

              Por Guilherme Crespo.

Os Jardins da FA

Juristas não são educados para falar de beleza. Discorrem a respeito de leis e princípios, jurisprudência e doutrina – talvez, com algum grau de poesia, sobre o correto e o justo. Mas o que nos dizem sobre proporções, ângulos e pontos focais? Devem ser aqueles “indiferentes jurídicos” dos quais nos falam para delimitar as fronteiras do que nos deve ser importantes. Porém, para aqueles que ainda não chegaram ao nível de esquizofrenia o suficiente para completar a cisão entre o jurista e o ser humano, a beleza é um elemento que povoa o mundo, mostrando alguns lampejos de sua presença aqui e lá, aliviando o peso da rotina mecanicista ao parar o tempo para um segundo que seja de contemplação…

 Pessoalmente, eu acho a FA linda. Só consigo falar tal coisa dando um enorme salto para fora do “eu sei” em direção ao “não tenho idéia do que estou falando”, uma vez que a minha concepção de beleza vêm de meus sentidos e memória emocional. É um prédio maltratado, inegavelmente – mas a suavidade e as cores dos jardins que dominam o meio do prédio fazem todas as rachaduras e manchas parecerem pequenas, desimportantes.

Porém, falar da situação FA – tanto seus jardins quanto sua estrutura – não é apenas discorrer sobre sua beleza, mas também sobre a conservação de patrimônio público (e patrimônio da humanidade!), funcionalidade, segurança na estrutura e a forma de utilização do prédio. Estamos falando de nosso local de estudos, onde muitos de nós passamos grande parte de nossos dias, em atividades de estudos, trabalho, socialização e descontração, assim como a materialização do que é a Faculdade de Direito, em parte.

Dentro da suavidade dos jardins, sempre me intrigou a existência de dois fossos estranhos de concreto, para os quais não via utilidade nenhuma a não ser como mecanismo de seleção natural para eliminar alunos mais distraídos que acabassem tropeçando ao lado dos bancos em cima. Só depois de um tempo soube que aquilo deveriam ter sido espelhos d’água – e, mais assombroso ainda, que já tinham sido cheios de água, mas tinham sido desativados. Há uma certa inquietação nossa – como membros do PET – de zelar não apenas pelos aspectos acadêmicos, mas por outros tantos que envolvem a vivência universitária – e o estado de abandono de nosso prédio, e as possibilidades de melhorá-lo, são preocupações adotadas por nós.

Na última reunião do PET, dia 28 de Abril, tivemos a grande oportunidade de conversar com o Prof. Matheus Gorovitz, o arquiteto que projetou a FA, que nos apresentou o plano original para o prédio, assim como suas opiniões a respeito de seu estado atual.

 Ele iniciou sua fala comentando que não apenas os jardins, mas o prédio em si estava abandonado e desfigurado. Não se trata de um fenômeno local, e sim de toda uma forma de lidar com a Universidade e com Brasília – com a forma de se (des)cuidar daquilo que é simultaneamente patrimônio público e patrimônio da humanidade.

Há uma parte da estrutura, um brise, que caiu e apresenta possíveis riscos, além do fato da cantina estar localizada em frente ao auditório – que, por sua vez, tem um projeto de reforma há um bom tempo, que ainda não foi realizado. Nosso prédio precisa, sim, de reformas – tanto para reparar danos quanto para otimizar a utilização do espaço – mas o mais surpreendente foi como uma alteração relativamente pequena e aparentemente estética pode beneficiar em vários aspectos a nossa convivência na FA: a reforma e reutilização dos fossos como espelhos d’água.

Originalmente pensávamos que alguma infiltração teria sido a causa do esvaziamento, mas o cenário apresentado pelo Prof. Gorovitz era surpreendentemente simples: a água foi retirada por receios a respeito da dengue, e a manta impermeabilizadora, sem água, tinha se deteriorado. Para recuperar o espaço, basta impermeabilizar o fundo e, após preenchê-lo com água, evitar que as larvas de mosquito tenham mais um habitat ideal – seja colocando peixes, seja fazendo a água circular com um esguicho ou uma fonte.

Os benefícios de tal medida superam em muito o embelezamento dos jardins (que em si já seria ótimo). Estamos falando aqui de uma melhora na qualidade de vida de professores, funcionários e estudantes por outros meios além de um ambiente mais bonito:  a presença de água faz aumentar a umidade e o frescor do ambiente na época de seca que se aproxima, assim como a ventilação nos ambientes fechados. Ora, como a água tornaria a temperatura do pátio mais baixa, a diferença entre ela e as paredes do prédio cria uma diferença de pressão, fazendo com que o ar circule.

Uma FA mais úmida, arejada e bela…

Quando comecei, falava de beleza, e agora circulam pelos jardins termos como umidade e circulação do ar, reformas, orçamentos, custos de manutenção e patrimônio público. Talvez porque haja uma forma de beleza em um ambiente bem-aproveitado, no conforto e bem-estar das pessoas que por lá circulam, tanto quanto há no som de água corrente e na brisa que agita as folhas…

Por que não?

Luisa Hedler