Seleção PET – Edital e Ficha de Inscrição

EDITAL DE SELEÇÃO DE BOLSISTAS

EDITAL Nº. 01/2011

A Faculdade de Direito da Universidade de Brasília torna público o processo de seleção para bolsistas do Programa de Educação Tutorial (PET), da Secretaria de Ensino Superior (SESu/MEC) e do Curso de Direito da UnB. Os interessados deverão atender aos requisitos e obedecer ao cronograma de atividades especificado neste edital.

1. INFORMAÇÕES GERAIS SOBRE O PROGRAMA

O PET é um programa acadêmico direcionado a alunos regularmente matriculados em cursos de graduação, que se organizam em grupos, recebendo orientação acadêmica de professores-tutores, que tem como objetivos:

  • o envolvimento dos estudantes que dele participam em um processo de formação integral, propiciando-lhes uma compreensão abrangente e aprofundada de sua área de estudos;
  • a melhoria do ensino de graduação;
  • a formação acadêmica ampla do aluno;
  • a interdisciplinaridade;
  • a atuação coletiva;
  • o planejamento e a execução, em grupos sob tutoria, de um programa

diversificado de atividades acadêmicas.

2. INSCRIÇÕES E VAGAS 

2.1 As inscrições serão realizadas na secretaria da Faculdade de Direito, no período de 28 de Setembro de 2011 a 13 de Outubro de 2011, no horário de funcionamento do guichê de atendimento aos alunos de graduação, com término às 17h do dia 13 de Outubro de 2011.

2.2 Serão ofertadas 04 vagas para bolsistas e 02 para não-bolsistas.

3. ORIENTAÇÕES 

No ato da inscrição, o(a) estudante deverá apresentar:

3.1 Ficha de inscrição e questionário devidamente preenchidos; (a ficha pode ser encontrada aqui acompanhada do questionário disponível aqui)

3.2 Histórico escolar emitido pela coordenação de graduação do curso;

3.3 Fotocópia do documento de identidade e CPF;

4. REQUISITOS PARA A INSCRIÇÃO NO PROCESSO SELETIVO

 Para inscrição no processo seletivo, o(a) candidato(a) deverá:

4.2 Estar devidamente matriculado a partir do 2º período do Curso de

Direito da UnB.

5. CONDIÇÕES PARA A EFETIVAÇÃO DO(A) BOLSISTA 

Para preenchimento da vaga, o(a) bolsista deverá:

5.1 Ter sido aprovado no processo de seleção;

5.2 Não acumular bolsa de outro programa ou projeto;

5.3 Ter disponibilidade para dedicar 20 (vinte) horas semanais às atividades do PET Direito.

 

6. ETAPAS DO PROCESSO SELETIVO

A seleção será feita em 2 (duas) etapas, divididas em fases. A primeira etapa, de caráter eliminatório e classificatório, consiste de uma avaliação escrita (prova de conhecimento sobre temas referentes às disciplinas de Pesquisa Jurídica, Introdução à Ciência Política, Sociologia Jurídica, Introdução ao Direito I e II, Teoria Geral do Estado e História do Direito) e da análise do histórico escolar. Somente os(as) candidatos(as) que obtiverem desempenho maior ou igual a 60% da pontuação máxima possível nessa etapa serão selecionados(as) para participarem da segunda etapa. A segunda etapa, de caráter eliminatório e classificatório, consiste de uma entrevista com a Comissão responsável pela seleção, combinada com a análise das respostas às perguntas da ficha de inscrição.

6.1 As atividades do processo seletivo serão realizadas de acordo com o cronograma a seguir:

 

 

 

  Evento Data/Horário Local
Período de inscrições Início das inscrições

 

28 de Setembro de 2011 a partir das 09:00 Secretaria da Faculdade de Direito.
Fim das inscrições

 

13 de Outubro de 2011 até 17:00
1ª Etapa Prova de conhecimento

 

14 de Outubro de 2011 às 15:00 FA  – A1 05

 

 

FA – CT 07

 

 

petdirunb.wordpress.com

e Mural da Secretaria da FD.

Análise do histórico escolar

 

17 de Outubro de 2011
Divulgação do resultado da 1ª Etapa

 

18 de Outubro de 2011
2ª Etapa Entrevista e análise da ficha de inscrição

 

20 e 21 de Outubro de 2011, às 14:00 FA – CT 07

 

 

 

petdirunb.wordpress.com e Mural da Secretaria da FD.

 

Divulgação do resultado da seleção

 

24 de Outubro de 2011


6.2 Na tabela a seguir consta a pontuação máxima atribuída a cada fase do processo seletivo.

Etapa Fase Pontuação máxima
1ª Etapa Prova de conhecimento

40

20

Análise histórico escolar
2ª Etapa Entrevista e análise da ficha de inscrição

40

  Total

100

6.3 Dos critérios de avaliação e classificação

6.3.1 Serão eliminados(as) os(as) candidatos(as) que obtiverem pontuação inferior a 36 na primeira etapa e(ou) 24 na segunda etapa.

6.3.2 Os(As) candidatos(as) não eliminados serão ordenados de acordo com os valores decrescentes das pontuações totais obtidas nas duas etapas e constituirão a lista de aprovados.

6.3.3 Caso haja candidato aprovado, mas não selecionado dentro do número de vagas, eventualmente poderá vir a ser convocado para ocupar nova vaga que surja durante o ano letivo de 2011.

7. DISPOSIÇÕES FINAIS 

7.1 Informações adicionais sobre o PET poderão ser obtidas no sítio: http://www.mec.gov.br/pet. Além disso, informações sobre o Grupo PET Direito (PET-Dir), seus integrantes e as atividades realizadas estão disponíveis no sítio do grupo em: https://petdirunb.wordpress.com

7.2 O candidato selecionado deverá iniciar as suas atividades imediatamente após a divulgação do resultado da seleção, para assegurar sua condição de bolsista;

7.3 A inscrição dos candidatos implica a aceitação dos termos deste edital.

7.4 O candidato classificado assinará termo de compromisso específico com a UnB e com o MEC.

7.5 O bolsista do grupo PET-Direito receberá, mensalmente, bolsa no valor de R$ 360,00 (trezentos reais).

7.6 Os casos omissos serão decididos pela Comissão formada pelos professores: Alexandre Bernardino Costa, Juliano Zaiden Benvindo e Mamede Said.

O presente edital entra em vigor na data de sua publicação.

Até onde vai?

“É dever ativo, todo dever que não é pelo nosso enclausuramento. É saber, todo dever que for pela nossa liberação. Qualquer outro dever é bom apenas para entediar. Os outros conhecimentos são apenas a habilidade de um artista.”

Esse trecho de Vishnu Purana é citado por Thoreau em “Andar a Pé”, texto no qual o norte-americano faz uma ode às caminhadas na natureza, longe das cidades e da civilização, longe das obrigações e dos afazeres da vida comum. Nesse e em outros escritos, como o clássico “A Desobediência Civil”, o autor nos traz grandes reflexões sobre leis que devemos seguir e que não paramos para refletir sobre a razão dessa obediência.

Os seus questionamentos são importantes porque nos levam ao limite de uma revolução pacífica, de um movimento não violento contra os poderes instituídos. Thoreau, certa vez, foi preso por ter se negado a pagar impostos para um governo que não concordava, já que esse estava em uma guerra imperialista contra o México e era a favor da escravidão. Foi preso e na cela disse ter se sentido mais livre que qualquer outro cidadão, pois foi livre justamente naquilo que nenhum governo nunca previu ou trabalhou como pressuposto: que é a negação prática de sua autoridade. Assim resumiu sua experiência: diante de um governo que prende qualquer homem injustamente, o único lugar digno para um homem justo é a prisão inevitavelmente.

Diante disso, podemos nos perguntar até onde vai nossa liberdade: ela só vai até onde os poderes instituídos nos permitem atuar? Ou ela pode ir além desses poderes, indo até mesmo contra a ordem atual? Indo além, somos levados a nos perguntar sobre a justiça das leis postas pelo governo, já que esse responde a comportamentos contrários à sua autoridade com violência, mesmo que essas negações, pelos cidadãos, sejam pacíficas. Por que obedecer a qualquer tipo de ordem que não concordamos? Por que obedecer a uma ordem que se utilizará da violência, “como uma criança mimada”, na primeira vez que for transgredida?

Seja individualmente (“Alexander Supertramp” e sua fuga egoísta [?] para a “Natureza Selvagem” que motiva milhares de pessoas a colocar uma mochila nas costas e se embrenhar na busca pela “experiência transcendental”), seja coletivamente (o movimento dos indignados que se alastra pelo mundo e que chegou ao centro da crise, Wall Street, esse mês), esses movimentos pacíficos e não violentos nos mostram um descontentamento com a organização da sociedade atual. Por outro lado, mostram a reação violenta da “ordem” contra aquilo que tenta “desordená-la”, “desconstruí-la”, ou, ao menos, se libertar dela. Mostra uma autoridade que é impassível contra aqueles que dela tentam fugir.

Nas diversas capilaridades, como a familiar (o que não foram as buscas do pai e mãe de McCandless senão o exercício de um poder contrariado?) ou a midiática (a negligência da mídia atual frente aos movimentos populares do mundo talvez não seja nada mais que uma forma de ratificar ou proteger o poder que a sustenta), essa reação perante a negação mostra que talvez não sejamos tão livres assim. Por que poder “ser”, se o meu “ser” deve se conformar ao imposto, mesmo que esse meu “ser” não seja violento, mas apenas contestador, não conformista ou que lute por aquilo que acredita?

A premissa de Thoreau de que “o governo não pode ter sobre minha pessoa e meus bens qualquer direito puro além do que lhe concedo” é muitas vezes chamada de individualista. Sou levado a discordar, já que o mesmo Thoreau traz o outro lado da moeda. Para ele, nem mesmo a Constituição é fundamento último de verdade, já que essa é construída longe das amarras dos poderes instituídos, é construída “com a experiência madura e com os protestos reais de nosso povo”. São esses que irão dizer até onde um governo pode interferir na vida de cada um, e se é que esse tem o direito de interferir na vida de alguém sem o consentimento do real afetado. Um governo não pode ir além do seu fundamento, que são os próprios indivíduos, até mesmo aqueles que querem viver “à parte dele (o governo)”.

Por Marcos Vinícius Lustosa Queiroz

Luz e Sombra – Edição Nerd!

Sem pudores ou constrangimentos, precisamos admitir que o PET é um espaço ocupado por pessoas da estranha sub-espécie humana conhecidos como “nerds”. Os motivos para tal concentração populacional são nebulosos – talvez seja um resultado de uma concentração já levemente alta dessa curiosa categoria humana dentro do Direito, ou talvez uma associação biológica, psicológica ou até patológica entre o espírito de Petiano e uma “Nerdigkeit” – o fato é que, quando não nos ocupamos com leituras, discussões de textos e artigos, planejamento de aulas, estruturação da extensão, planejamento de atividades e teatro, podemos soltar -ainda mais – nossa imaginação no rico mundo da ficção através de livros, quadrinhos, filmes, séries…
Se em ambos os casos, as discussões são riquíssimas, tão por que não juntá-las?
O Direito, esse fenômeno complexo e por muitas vezes bizarro,  não pode se confinar a letras em papel e vozes autorizadas – como tantas coisas movidas pela genialidade e perversidade humanas, adquire vida e sentido nos mais diversos aspectos da vivência humana, desde sessões solenes até os momentos mais prosaicos, em nossos corpos e mentes, concretudes e abstrações – e, sim, também em nossa fantasia e ficção.
Por trás de robôs, monstros e heróis mascarados, se escondem e se revelam questões que estão no cerne da experiência jurídica , e que por vezes apenas podem se expressar através de alegorias e exercícios de mundos paralelos…
É por isso que o PET orgulhosamente apresenta, neste semestre, o Luz&Sombra – Edição Nerd, com a exibição de vários filmes ao longo do semestre.
Cronograma com os possíveis convidados:

–          Laranja Mecânica (Evandro)  à 28/09

–          Watchmen (Paulo Blair – a confirmar) à 10/10

–          Blade Runner (Miroslav) à 26/10

–          V de Vingança (Paulo Blair – a confirmar) à 09/11

–          Donnie Darko (a decidir) à 23/11

–          A Viagem de Chihiro (Pedro Godeiro) à 07/12

Participem!
E o filme dessa quarta-feira é Laranja Mecânica! com o professor Evandro Piza como convidado!
O que seria do Direito Penal – e de nossa sociedade –  se a violência pudesse ser fisicamente extirpada dos seres humanos? “Laranja Mecânica”, adaptação de Stanley Kubrick do livro de Anthony Burgess, acompanha Alex, um jovem líder de uma  gangue  em uma Londres futurista e violenta, que divide seu tempo entre suas duas paixões – a ultraviolência, através de espancamentos, roubos e estupros; e música clássica. Uma vez que é pego pela polícia e condenado por assassinato, Alex consegue reduzir sua pena ao passar por um experimento psicológico que visa mitigar todos os impulsos violentos de seres humanos – mas as consequências são mais drásticas do que o esperado…
A gente te espera!!!

Grupo de Pesquisa PET/Direito UnB – 2/2011 – Direito à Cidade

O grupo PET Direito UnB convida toda a comunidade acadêmica a acompanhar as discussões do nosso grupo de pesquisa no segundo semestre de 2011. Iniciamos um processo de instauração de um projeto de extensão na Cidade Estrutural e nos vimos diante do grande desafio que é estar presente em uma comunidade. Dessa forma, considerando a história da região, os recentes eventos e as tensões locais, principalmente no tocante a luta pela moradia, nos propomos a discutir a temática Direito à Cidade. As reuniões acontecem semanalmente às quintas-feiras na sala FA – CT 07 (Aquário) às 14 horas.

Nessa quinta-feira iniciaremos a reflexão com base no segundo texto “Direito à cidade na cidade espetáculo – simulados e utopias – perspectivas do pensamento jurídico crítico sobre a sociedade urbana” dissertação de Ariadne Muricy Barreto, mestre em Direito pela Universidade de Brasília, disponível para download aqui

Segue a bibliografia que será utilizada durante o semestre. Parte já está disponível na pasta do PET na xérox da FA.

  • Direito à Cidade – Henri Lefebvre
  • Direito à cidade na cidade espetáculo – simulados e utopias – perspectivas do pensamento jurídico crítico sobre a sociedade urbana – Ariadne Muricy Barreto
  • Pesquisa Participante. – Carlos Rodrigues Brandão
  • A aplicação do princípio da função social da propriedade às políticas públicas de regularização fundiária nas cidades brasileiras : a partir da Constituição Federal de 1988: o caso da Estrutural – Brasília-DF –  Adilson José Paulo Barbosa
  • Movimentos sociais e luta pela moradia – Maria da Glória Gohn
  • Lutas sociais e a cidade – Lucio Kowarick

Cidade, Ideologia e… Matrix?

A afirmação de que toda a ação que vise reformar a cidade é, necessariamente, revolucionária, do marxista francês Lefebvre, no seu livro “O Direito à Cidade” é genial, no sentido mais puro do termo. Em especial pela razões que ele dá para tal afirmação: de que isso acontece por que a cidade é o médium através do qual as ideologias, o plano simbólico se concretiza, se torna palpável de maneira mais clara.

Essas afirmações, entretanto, ainda trazem um quê de ambiguidade que merece uma reflexão um pouco mais aprofundada: qual é realmente a relação entre as tentativas de reformas da cidade e o plano simbólico? Seria “apenas” de que cidade, por conseguir articular de modo tão singular as essas duas dimensões (simbólico e real), seria o campo ideal da revolução, já que toda ação concreta redundaria numa mundança simbólica radical e vice-versa?

Não desmerecendo essa visão, gostaria aqui de propor uma diferente. De reinterpretar essa questão das ideologias, dos planos simbólicos em termos, digamos assim, zizekianos. Se valendo principalmente de Lacan (e com pitadas de Kant), Zizek vai reformular essa questão do simbólico nos seguintes termos: de que o simbólico é mais real que o próprio real.

Afinal, para Lacan o simbólico funciona como um filtro, um óculos escuros: ele é o mecanismo que permite que o trauma constante da exposição ao Real seja “traduzido” de maneira “palatável”, ou seja, nós nunca acessamos o mundo real de maneira plena, esse acesso sempre se dá mediado pela ordem simbólica na qual eu me incluo.

Caso sejamos expostos a um trauma que seja “insuportável” por nossas estruturas simbólicas, nosso “mundo”, nossas referências literalmente são destruídas. Vide o caso dos árabes (que é trabalhado no prefácio da 2ª “The Fragile Absolute”): ao serem expostos de forma tão direta e abrupta à nossa modernidade ocidental, seu plano simbólico não teve tempo de processar o trauma, e daí surge, como resposta, o fundamentalismo islâmico, que é muito mais danoso as próprias tradições islâmicas que ao ocidente…

Nesse sentido, do simbólico como algo necessários ao conhecimento, como o esquema que organiza nossas experiências de forma “coesa”/”lógica”, é que o simbólico acaba, em última instância, se tornando mais “real” que o próprio real: sem acesso as redes/estruturas simbólicas o próprio real deixa de fazer sentido.

Em categorias Kantianas, esse mesmo processo poderia ser descrito em termos da antinomia presente entre os planos numenal e fenomenal: o primeiro é a realidade “pura”, a empiria, inacessível em sua totalidade ao conhecimento humano; o segundo é o plano no qual se estruturam as categorias transcendentais que, justamente por serem imperfeitas/limitadas, possibilitam nosso conhecimento.

Para Kant o conhecimento, e a liberdade, é produzido quando se articulam esses dois planos: quando nós nos utilizamos das categorias transcendentais para acessar o mundo “numenal”, “real”, ainda que esse acesso seja precário. (Daí surge a possibilidade de liberdade: caso nós acessássemos de forma completa o mundo “numenal” seríamos meros autômatos utilitaristas…).

É com essa nova visão do plano simbólico que pretendo interpretar a frase do Lefebvre: sob essa ótica a Cidade ganha um papel ainda mais central nas relações políticas. Para além de ser o local onde as lutas reais, efetivas podem levar a mudanças imediatas na ideologia, ela passa a ser “o” local de acesso direto e universal ao simbólico, pois, parafraseando São Paulo (Gl, 3:28), nela não existem negros, judeus, gregos, asiáticos, homoafetivos ou mulheres: todos são “citadinos/cidadãos”.

Traçando mais um paralelo, o último, com o pensamento do Zizek: no “A Visão em Paralaxe” ele propõe uma releitura da trilogia Matrix, fazendo uma releitura muito interessante de um fato pouco lembrado quando se fala do filme: sobre o possíveis motivos do Neo ter ganho a capacidade de usar seus poderes fora do ambiente da Matrix, do simbólico.

Como existem dois momentos (no finalzinho do Reloaded e durante todo o Revolutions) em que esse fato acontece, o filósofo esloveno propõe, igualmente, duas interpretações (mas vamos ficar só na primeira, a segunda não cabe aqui): no caso (nas cenas finais do Reloaded) tal evento acontece numa clara ruptura com o primeiro filme, ele é atestado de que é necessário voltar e não apenas sair da matrix para resolver a situação, ou seja, de que é tão ou mais necessária uma mudança no simbólico ao mesmo tempo que no “real”.

Minha proposta é radicalizar essa afirmação através das possibilidades que advém do conceito de cidade do Lefebvre: lá seria onde todos nós teríamos o acesso ao real e ao simbólico, como pequenos Neo’s, de ilimitado potencial.

Pedro Godeiro

Faísca que ateia o fogo

Conceito de difícil delimitação, a Universidade pode ser compreendida de forma mais ampla como um privilegiado espaço em que florescem, quase que espontaneamente, debates e discussões. Nos corredores, nos jardins, nos bares, nas rodas de amigos, nos estacionamentos abarrotados, em todos esses espaços surgem questionamentos e indagações de toda ordem; contrapõem-se aí concepções de mundo que muitas vezes se situam em pólos diametralmente opostos. E são nesses mesmos diálogos que se tornam evidentes problemas antes desconhecidos ou ignorados. A alteridade, o contato com o outro permite, assim, que nos tornemos mais propensos a aceitar e a reconhecer o diferente. Essa aceitação do novo, que não necessariamente se refere a critérios estritamente cronológicos, possui importância capital em um ambiente como a Universidade que deve invariavelmente primar pela possibilidade de sempre revisar os próprios achados – o conhecimento científico é um saber que se sabe temporário. A Universidade deve, portanto, ter como um de seus principais alicerces a busca do ideal de que todos os indivíduos que nela estão inseridos possam mudar livremente de opinião; deve ser garantido o direito de até mesmo contradizer posicionamentos anteriormente defendidos. “Tolerância é condição essencial da vida universitária” (RIBEIRO, 1986, p. 15).

Ao instigar a tolerância e o convívio de discursos diferentes, a Universidade possui um papel formador que transcende em muito o mero desenvolvimento de aptidões técnicas. Nos corredores e jardins de uma faculdade, não se desenvolvem apenas conhecimentos práticos de uma arte ou ciência.

“Transformar a experiência educativa em puro treinamento técnico é amesquinhar o que há de fundamentalmente humano no exercício educativo: o seu caráter formador. Se se respeita a natureza do ser humano, o ensino dos conteúdos não pode dar-se alheio à formação moral do educando. Educar é substantivamente formar” (FREIRE, 1996, p.33).

Reforçar a capacidade crítica, a criatividade e a insubmissão são objetivos a serem buscados em uma Universidade de excelência. As reflexões e indagações, os questionamentos e as querelas presentes no espaço acadêmico permitem que a Universidade conteste, quando necessário e de forma bastante pujante, discursos legitimadores que muitas vezes respaldam inúmeras injustiças encontradas no corpo social.

“O saber ou a técnica, por competentes que sejam nada significam, se não se perguntam para que e para quem existem e operam, se não se perguntam a quem servem, se não se perguntam se há conivência do sábio com o cobiçoso” (RIBEIRO, 1986, p. 06).

Daí a importância de a Universidade refletir acerca de qual o real objetivo a ser alcançado em um processo de formação. Qual o perfil e quais as habilidades que queremos que sejam desenvolvidas e potencializadas ao longo de um curso superior? Quais práticas serão implementadas com o intuito de que as competências eleitas como indispensáveis floresçam? A Academia não pode abster-se de seu papel fundamental no engendramento de práticas que visem incentivar os estudantes a perceber o seu papel na sociedade. A forma como os jovens graduandos atuarão quando do termino do curso está intimamente vinculada à maneira como a sua formação foi construída.

É preciso frisar neste ponto que o processo educativo efetiva-se, em grande parte, apenas quando professor-instigador e aluno-questionador conseguem construir conjuntamente, por meio da articulação de saberes diversos, um novo discurso, uma perspectiva sui generis de se abordar a realidade. A fluidez e a espontaneidade dos saberes construídos por meio dessa relação educador-educando permitem que a Universidade dê vazão a formas totalmente inovadoras de abordagem de problemas, mesmo os já exaustivamente debatidos. O espaço acadêmico torna-se verdadeiramente emancipatório e transformador à medida que permite a existência continuada desse intercâmbio entre indivíduos e esferas distintas de conhecimento. Professor e aluno; Universidade e Comunidade; fontes interdependentes e complementares no processo criativo. “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção” (FREIRE, 1996, p.22).

Sendo assim, faz-se necessário que se discuta o processo educacional mais profundamente. A maneira como é compreendida atualmente a formação acadêmica inviabiliza e dificulta a participação conjunta dos indivíduos na construção de conhecimento; o “ensino-bancário” a que estamos sujeitos não permite que ajam diálogos íntimos entre educadores e educandos. A própria estrutura hierarquizada das salas de aula e as grades horárias inflexíveis tornam-se empecilhos à existência de uma maior interação dentre os próprios estudantes. O aprendizado fenece nas duras carteiras e na intransigência de muitos professores; o desinteresse dos estudantes se deve muito em parte ao sistema atual de ensino.

E é nesse contexto de crise do atual modelo de educação (?) que se insere uma discussão premente em muitas Universidades. Uma das mais promissoras soluções para que sejam resolvidas as lacunas existentes na formação dos estudantes é o incentivo à utilização mais intensa da extensão como parte integrante do processo formador dos alunos; a indissociabilidade de ensino, pesquisa e extensão fazem referência a essa prática tão fundamental, e, ao mesmo tempo, tão negligenciada nas Universidades brasileiras. Ao trabalhar a partir das demandas advindas das comunidades, os vários projetos de extensão existentes articulam as diversas formas de conhecimento, trabalhando por meio de um incessante diálogo com a sociedade e seus problemas.

A extensão trata-se, pois, de uma via de mão-dupla; promove um aprofundamento teórico, refinando, assim, a formação acadêmica dos estudantes, ao mesmo tempo, em que articula a ligação entre Comunidade e Universidade. Ao lidar diretamente com a população, a extensão universitária supre uma série de deficiências existentes na formação disponibilizada pela Academia. No exercício das atividades vinculadas à extensão os saberes desenvolvidos nas Universidades se cristalizam; ao utilizarmos os conhecimentos na prática, verdadeiramente o estudo se torna relevante.

Possui, portanto, a extensão, uma função primordial na formação acadêmica; dá sentido aos conceitos aprendidos em classe, muitos dos quais julgávamos antes como inócuos; e, instiga o surgimento de ramos férteis de pesquisa, alguns deles vinculados às atividades desenvolvidas em conjunto com a comunidade. As soluções utilizadas para resolver, amenizar, ou explicar os problemas existentes no local de atuação dos vários projetos de extensão existentes acabam por incentivar a renovação e a atualização dos conhecimentos analisados nas Universidades. Em contrapartida, quando o tripé ensino-pesquisa-extensão não é devidamente apreciado, ocorre um irreversível processo de desvirtuação do conceito de Universidade. Quando entendidos de maneiras estanques não ocorre a necessária comunicação que deve sempre ocorrer entre ensino-pesquisa-extensão; ao serem encaradas dessa forma, todo o processo formador a que os indivíduos são sujeitos durante a Universidade fica irremediavelmente prejudicado.

Sem a valorização da extensão como parte essencial do tripé ensino-pesquisa-extensão; quando inexistente os vínculos entre Comunidade e Universidade normalmente forjados nos projetos de extensão; portanto, quando não existir o pleno desenvolvimento de qualquer uma dessas três atividades fundamentais, o processo de formação acadêmica a que estão sujeitos os estudantes aí inseridos, estará desvirtuado do ideal de Academia como “a Casa em que a Nação brasileira se pensa a si mesma como proble­ma e como projeto” (RIBEIRO, 1986, p.16).

Quando das manifestações de Maio de 68, na França, uma das inscrições mais sugestivas encontradas nos muros parisienses vaticinavam que “o que queremos, de fato, é que as ideias voltem a ser perigosas.” Talvez, quando questionamos o processo de formação a que nossas Universidades nos submetem, estejamos apenas indagando a nós mesmos se nossas faculdades ainda são capazes de abrigar algumas dessas utopias; se em nossas Universidades a educação ainda funciona como a faísca que ateia o fogo.

Referências bibliográficas:

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia – Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

ROBERTO, Darcy. Universidade, pra quê? Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1986.

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Edson de Sousa