Coitadismo Penal?

Por Rafael da Escóssia Lima

É possível dizer, sem pretensões exaustivas, que a produção dialógico-penal do senso comum está polarizada em duas grandes dimensões: por um lado, os/as notórios/as justiceiros/as “punitivistas” legitimantes da coerção; e, por outro, os/as defensores/as de direitos humanos para “bandido”. De tal ordem é essa dicotomia, que – com a ressalva do exagero – a simples enunciação cotidiana de argumentos vem acompanhada de um subsequente reducionismo. A título ilustrativo, valho-me da recente experiência que tive ao criticar – juntamente com alguns colegas – uma publicação do DCE Honestino Guimarães. Seguem algumas manifestações que nossos comentários despertaram.

1212

Embora não tentemos uma generalização indevida (muito menos um esforço indutivo) é perceptível certo fetiche punitivo na apresentada discussão “criminológica” – sobretudo em algumas manifestações pontuais.

Mas, afinal, o que significa tal polarização? Por que alguns grupos prezam tanto pela construção desse “ser-bandido”, enquanto outros ousam falar de direitos humanos para essas pessoas? Por que discursos de garantia soam tão deslocados (ou até mesmo insuficientes) no senso comum?

Em primeiro lugar, trago a recente experiência que tive ao entrar em contato com relatório de inspeção da Agência Prisional de Águas Lindas de Goiás. Dentre outros, escolhi esse exemplo por característica especial da citada penitenciária: Águas Lindas não possui sistema de tratamento de esgoto; logo, todo os desejos do município são despejados em sumidouros localizados ao lado dos muros do cárcere. Quando o “caminhão-fossa” não realiza o devido recolhimento dos dejetos dos sumidouros, a situação do estabelecimento torna-se, como é de se esperar, insalubre. A isso somam-se a superlotação (o presídio tem capacidade para 54 pessoas, havendo 181 presos atualmente), as rachaduras nas paredes, a falta de aeração nas celas e a precariedade das instalações sanitárias. Um quadro: o calor, o aperto, a merda, o odor fétido. Não é difícil concluir que tais pessoas vivem em condições desumanas.

Curiosamente, tal recorte é do Brasil: o país da tolerância, da alegria, do respeito, da simpatia, da diversidade. A nação dos jurisconsultos, da dignidade da pessoa humana, da liberdade, da justiça. Nossas escolas lembram o genocídio com pesar, enquanto nossas faculdades gabam-se de uma Constituição Cidadã. É vero: não faltam aportes teóricos para essa retórica do Estado de Direito.

Mas afinal: Estado de Direito para quem?

Embora sempre tenha tentado fugir de uma perspectiva conspiratória ou até mesmo maniqueísta das funções da pena criminal, não posso deixar de concordar com Juarez Cirino quanto à perversidade da atuação seletiva das agências punitivas, quase sempre orientadas por estereótipos de gênero, raça e classe social. É evidente que tais critérios de “descrimen” são vedados por nossa ordem constitucional, o que, entretanto, não impede que tal comportamento enviesado se torne parte da normalidade da atuação punitiva.

E então a grande pergunta: como esse comportamento flagrantemente inconstitucional se sustenta – quase que pacificamente – no seio de um Estado Democrático de Direito?

Penso que a resposta a essa questão pode se dar de duas formas complementares: (i) mediante a construção do “ser-bandido” no imaginário coletivo (e, por sua vez, de uma perspectiva equivocada sobre a população carcerária); e (ii) por meio da crença inabalável no direito penal como política pública.

Em primeiro lugar, concordo que seja difícil pensar na palavra “crime” de uma perspectiva não romantizada e “hollywdiana”, mas peço ao/à leitor/a que, pela melhor leitura possível do presente texto, faça um esforço epistemológico e hermenêutico de aproximação. Pasmem: a maior parte das pessoas que estão presas no Brasil não o foram em decorrência de crimes contra a vida, a integridade física ou a dignidade sexual das vítimas. Bem mais da metade da população carcerária é composta por autores/as de pequenos crimes contra o patrimônio e tráfico ilícito de drogas, ou seja, pessoas cujo “modus operandi” é flagrantemente amador (“tosco”) e, por excelência, vulnerável ao poder punitivo. Em segundo lugar, como bem coloca Zaffaroni, nosso programa de criminalização primária (ou seja, os tipos penais tais como descritos no Código Penal e na legislação extravagante) é tão vasto e detalhado, que, caso fosse implementado em sua totalidade, grande parte da população já teria, em algum momento da vida, sofrido uma condenação criminal. Tais informações nos auxiliam a repensar o conceito de “bandido”: se, por um lado, temos que tal concepção funda-se na torpeza congênita de tais pessoas (sobretudo em virtude da gravidade dos crimes por elas cometidos) e podemos contra-argumentar no sentido de que tal grupo perfaz segmento minoritário dentro da população carcerária; por outro lado, conceber o bandido como aquele indivíduo que meramente comete crimes é igualmente problemático, pois, em certa medida, todas/os cometemos crimes e, por sua vez, somos todos/as – em certa medida –  bandidos/as. Ademais, a relevância democrática e técnica do conceito de crime para o direito penal só se pode fundar em uma perspectiva formal (como mera opção político-legislativa) e/ou, sobretudo, analítica (como ação típica, ilícita e culpável). Isso posto, por meio de discussões de ordem dogmática, é possível iniciar uma gradual desconstrução de percepções equivocadas sobre tal “ser-bandido”, mesmo na arena discursiva do senso comum.

Em segundo lugar, é sintomático de uma visão simplista (quiçá ingênua) de política pública pensar a pena criminal como dissuasão. Caso assim fosse, a mera tipificação de condutas consideradas indesejadas (tal como acontece hoje no Brasil) seria medida suficiente para prevenir o cometimento de delitos. Ocorre que fenômenos tais como a superlotação carcerária (muitas vezes atingindo três ou quatro vezes a capacidade máxima dos presídios), a reincidência e o aumento da criminalidade evidenciam que o projeto ressocializador do Estado Penal, no mínimo, não está funcionando. Ainda assim assistimos abismados às propagandas eleitorais apregoarem em uníssono a redução da maioridade penal, o recrudescimento da atuação policial, os investimentos pesados em “segurança pública”, a guerra às drogas, etc.

Frustrantemente, discutir segurança pública não é uma tarefa simples que possa se resumir à mera criminalização de condutas. De fato, vemos um inchaço impróprio do Sistema de Justiça Criminal, o qual passa a ter, ao invés de um papel reativo subsidiário, grande protagonismo nos programas eleitorais e nos governos. O tema exige seriedade e maturidade. Exige-se que se aborde a questão da criminalidade de maneira ampla e irrestrita, de forma a se enfrentarem temas polêmicos como a legalização do aborto e das drogas, permeando-se indagações de ordem técnico-dogmáticas – tais como o papel da reincidência e a vulnerabilidade perante o poder punitivo – e chegando, finalmente, a políticas públicas essenciais como educação, saúde, saneamento básico, transporte e distribuição de renda.

Isso posto, vale voltar à dúvida: capitães Nascimento contra intelectuais dos direitos humanos… Como proceder?

É com pesar que assumo, diante do projeto genocida do Estado brasileiro, que as discussões acerca de direitos humanos me parecem tristemente distantes da chocante realidade carcerária. Afinal de contas, para quem são tais direitos? Pertencem eles a esse mundo metafísico das discussões jurídicas ou efetivamente possuem titulares? E quem são esses titulares?

Tendo tristemente a concluir que há condições para tal titularidade: principalmente o gênero, a raça e o dinheiro. Aos demais: o aperto, a merda. Em suma: a desumanização. Nesse sentido, é natural que o nosso discurso de garantia perca credibilidade em meio a Bolsonaros, Aloysios, Fragas, Nascimentos. Viramos motivo de chacota e descrédito: a vergonha do intelecto “coitadista” e da militância de esquerda. Certos estão eles: os justiceiros, os salvadores da pátria e da ordem…

Entendo que em um país cujas elites detêm privilégios e não direitos, a lógica do “coitado” encaixa-se como uma luva no discurso pouco refletido do senso comum. Em realidade, porém, não há e nunca houve coitados. Afirmo: se temos interesse em promover a manutenção de Estado Democrático de Direito, não me restam dúvidas de que temos de mudar nossa política carcerária com urgência. Salvo contrário, todo esse enfronhado discurso das tribunas se equiparará à mera hipocrisia latina dos vernáculos. Acordemos, por fim, para a barbárie e para o genocídio.

É possível dizer, sem pretensões exaustivas, que a produção dialógico-penal do senso comum está polarizada em duas grandes dimensões: por um lado, os/as notórios/as justiceiros/as “punitivistas” legitimantes da coerção; e, por outro, os/as defensores/as de direitos humanos para “bandido”. De tal ordem é essa dicotomia, que – com a ressalva do exagero – a simples enunciação cotidiana de argumentos vem acompanhada de um subsequente reducionismo. A título ilustrativo, valho-me da recente experiência que tive ao criticar – juntamente com alguns colegas – uma publicação do DCE Honestino Guimarães. Seguem algumas manifestações que nossos comentários despertaram.

Embora não tentemos uma generalização indevida (muito menos um esforço indutivo) é perceptível certo fetiche punitivo na apresentada discussão “criminológica” – sobretudo em algumas manifestações pontuais.

Mas, afinal, o que significa tal polarização? Por que alguns grupos prezam tanto pela construção desse “ser-bandido”, enquanto outros ousam falar de direitos humanos para essas pessoas? Por que discursos de garantia soam tão deslocados (ou até mesmo insuficientes) no senso comum?

Em primeiro lugar, trago a recente experiência que tive ao entrar em contato com relatório de inspeção da Agência Prisional de Águas Lindas de Goiás. Dentre outros, escolhi esse exemplo por característica especial da citada penitenciária: Águas Lindas não possui sistema de tratamento de esgoto; logo, todo os desejos do município são despejados em sumidouros localizados ao lado dos muros do cárcere. Quando o “caminhão-fossa” não realiza o devido recolhimento dos dejetos dos sumidouros, a situação do estabelecimento torna-se, como é de se esperar, insalubre. A isso somam-se a superlotação (o presídio tem capacidade para 54 pessoas, havendo 181 presos atualmente), as rachaduras nas paredes, a falta de aeração nas celas e a precariedade das instalações sanitárias. Um quadro: o calor, o aperto, a merda, o odor fétido. Não é difícil concluir que tais pessoas vivem em condições desumanas.

Curiosamente, tal recorte é do Brasil: o país da tolerância, da alegria, do respeito, da simpatia, da diversidade. A nação dos jurisconsultos, da dignidade da pessoa humana, da liberdade, da justiça. Nossas escolas lembram o genocídio com pesar, enquanto nossas faculdades gabam-se de uma Constituição Cidadã. É vero: não faltam aportes teóricos para essa retórica do Estado de Direito.

Mas afinal: Estado de Direito para quem?

Embora sempre tenha tentado fugir de uma perspectiva conspiratória ou até mesmo maniqueísta das funções da pena criminal, não posso deixar de concordar com Juarez Cirino quanto à perversidade da atuação seletiva das agências punitivas, quase sempre orientadas por estereótipos de gênero, raça e classe social. É evidente que tais critérios de “descrimen” são vedados por nossa ordem constitucional, o que, entretanto, não impede que tal comportamento enviesado se torne parte da normalidade da atuação punitiva.

E então a grande pergunta: como esse comportamento flagrantemente inconstitucional se sustenta – quase que pacificamente – no seio de um Estado Democrático de Direito?

Penso que a resposta a essa questão pode se dar de duas formas complementares: (i) mediante a construção do “ser-bandido” no imaginário coletivo (e, por sua vez, de uma perspectiva equivocada sobre a população carcerária); e (ii) por meio da crença inabalável no direito penal como política pública.

Em primeiro lugar, concordo que seja difícil pensar na palavra “crime” de uma perspectiva não romantizada e “hollywdiana”, mas peço ao/à leitor/a que, pela melhor leitura possível do presente texto, faça um esforço epistemológico e hermenêutico de aproximação. Pasmem: a maior parte das pessoas que estão presas no Brasil não o foram em decorrência de crimes contra a vida, a integridade física ou a dignidade sexual das vítimas. Bem mais da metade da população carcerária é composta por autores/as de pequenos crimes contra o patrimônio e tráfico ilícito de drogas, ou seja, pessoas cujo “modus operandi” é flagrantemente amador (“tosco”) e, por excelência, vulnerável ao poder punitivo. Em segundo lugar, como bem coloca Zaffaroni, nosso programa de criminalização primária (ou seja, os tipos penais tais como descritos no Código Penal e na legislação extravagante) é tão vasto e detalhado, que, caso fosse implementado em sua totalidade, grande parte da população já teria, em algum momento da vida, sofrido uma condenação criminal. Tais informações nos auxiliam a repensar o conceito de “bandido”: se, por um lado, temos que tal concepção funda-se na torpeza congênita de tais pessoas (sobretudo em virtude da gravidade dos crimes por elas cometidos) e podemos contra-argumentar no sentido de que tal grupo perfaz segmento minoritário dentro da população carcerária; por outro lado, conceber o bandido como aquele indivíduo que meramente comete crimes é igualmente problemático, pois, em certa medida, todas/os cometemos crimes e, por sua vez, somos todos/as – em certa medida –  bandidos/as. Ademais, a relevância democrática e técnica do conceito de crime para o direito penal só se pode fundar em uma perspectiva formal (como mera opção político-legislativa) e/ou, sobretudo, analítica (como ação típica, ilícita e culpável). Isso posto, por meio de discussões de ordem dogmática, é possível iniciar uma gradual desconstrução de percepções equivocadas sobre tal “ser-bandido”, mesmo na arena discursiva do senso comum.

Em segundo lugar, é sintomático de uma visão simplista (quiçá ingênua) de política pública pensar a pena criminal como dissuasão. Caso assim fosse, a mera tipificação de condutas consideradas indesejadas (tal como acontece hoje no Brasil) seria medida suficiente para prevenir o cometimento de delitos. Ocorre que fenômenos tais como a superlotação carcerária (muitas vezes atingindo três ou quatro vezes a capacidade máxima dos presídios), a reincidência e o aumento da criminalidade evidenciam que o projeto ressocializador do Estado Penal, no mínimo, não está funcionando. Ainda assim assistimos abismados às propagandas eleitorais apregoarem em uníssono a redução da maioridade penal, o recrudescimento da atuação policial, os investimentos pesados em “segurança pública”, a guerra às drogas, etc.

Frustrantemente, discutir segurança pública não é uma tarefa simples que possa se resumir à mera criminalização de condutas. De fato, vemos um inchaço impróprio do Sistema de Justiça Criminal, o qual passa a ter, ao invés de um papel reativo subsidiário, grande protagonismo nos programas eleitorais e nos governos. O tema exige seriedade e maturidade. Exige-se que se aborde a questão da criminalidade de maneira ampla e irrestrita, de forma a se enfrentarem temas polêmicos como a legalização do aborto e das drogas, permeando-se indagações de ordem técnico-dogmáticas – tais como o papel da reincidência e a vulnerabilidade perante o poder punitivo – e chegando, finalmente, a políticas públicas essenciais como educação, saúde, saneamento básico, transporte e distribuição de renda.

Isso posto, vale voltar à dúvida: capitães Nascimento contra intelectuais dos direitos humanos… Como proceder?

É com pesar que assumo, diante do projeto genocida do Estado brasileiro, que as discussões acerca de direitos humanos me parecem tristemente distantes da chocante realidade carcerária. Afinal de contas, para quem são tais direitos? Pertencem eles a esse mundo metafísico das discussões jurídicas ou efetivamente possuem titulares? E quem são esses titulares?

Tendo tristemente a concluir que há condições para tal titularidade: principalmente o gênero, a raça e o dinheiro. Aos demais: o aperto, a merda. Em suma: a desumanização. Nesse sentido, é natural que o nosso discurso de garantia perca credibilidade em meio a Bolsonaros, Aloysios, Fragas, Nascimentos. Viramos motivo de chacota e descrédito: a vergonha do intelecto “coitadista” e da militância de esquerda. Certos estão eles: os justiceiros, os salvadores da pátria e da ordem…

Entendo que em um país cujas elites detêm privilégios e não direitos, a lógica do “coitado” encaixa-se como uma luva no discurso pouco refletido do senso comum. Em realidade, porém, não há e nunca houve coitados. Afirmo: se temos interesse em promover a manutenção de Estado Democrático de Direito, não me restam dúvidas de que temos de mudar nossa política carcerária com urgência. Salvo contrário, todo esse enfronhado discurso das tribunas se equiparará à mera hipocrisia latina dos vernáculos. Acordemos, por fim, para a barbárie e para o genocídio.

Anúncios

Abel de Santana

11800113_914252085298293_3291511684635277210_nSergipano, Lagartense, criado no mar e taxado diferente. Não sabendo direito o que buscar, mas tendo no ímpeto sempre o desejo de sentir um sentido de autonomia, dignidade, ou qualquer outra coisa que venha a emancipar do vil cárcere que uma majoritária dominação costuma relegar. Buscando no Direito sem saber o que encontrar, encontrei no PET uma corrente que em nada imita o ferro com que se faz prender, mas que se forma por cabeças que juntas (des)constroem os alicerces do que julgamos conhecer.

NARRATIVAS DO CÁRCERE: POLÍTICAS DE RESISTÊNCIA NO SOCIOEDUCATIVO E NO SISTEMA PENITENCIÁRIO

11870868_835248566543683_4256013163963546446_n

A segunda edição do evento Narrativas do Cárcere ocorrerá de 3 de novembro a 6 de novembro de 2015. O evento tem por objetivo discutir a situação dos sistemas socioeducativo e prisional brasileiro, suas virtudes e vícios, bem como a situação daquelas e daqueles que nele estão inseridos.

Ao longo de quatro dias teremos palestras que contarão com a presença de acadêmicos, profissionais da área e pessoas que passaram por ambos os sistemas, além de intervenções artísticas, debates e apresentações de trabalhos acadêmicos; nos quais serão discutidos alternativas ao encarceramento de jovens, problemas e desafios do sistema socioeducativo, a condição de mulheres e pessoas transexuais nesse espaço e o encarceramento da juventude negra.

O edital de chamada para inscrição e submissão de trabalhos para o evento está aberto e disponível nesse link.

Mais informações e atualizações podem ser encontradas no evento do Facebook e as dúvidas podem ser encaminhadas ao e-mail petdir@gmail.com ou à nossa Página no Facebook.

Eu, minha negritude e meus amigos brancos

Por Laiana Rodrigues

Em quase 20 anos de vida nunca me vi como uma pessoa subserviente. Talvez como uma garota emocional, pacífica, intermediadora, cuidadora; mas subserviente, não. Afinal, como poderia o ser? Tenho uma linda família afrocentrada, que desde os meus primeiros anos de vida me ensinou o que é ter orgulho, me ensinou como me impor diante da branquitude. Avós, avôs, mãe, pai, tias, tios e até meus irmãos. Todos carregando na pele, no cabelo, nas roupas e nas músicas ouvidas, compostas e interpretadas, as dores e as delícias de ser negro.

Como eu, Laiana – com meus cabelos crespos, ora soltos, ora envoltos por magníficos turbantes – poderia ser uma negra subserviente tendo em vista que milito, estudo, vivo, respiro e transpiro debate de raça?

– IMPOSSÍVEL! – Costumava a dizer a mim, em pensamento – Talvez antes, mas não nessa etapa da minha vida! Sou uma nova mulher.

Mas, às vezes, a gente se trai. E se trai feio.

Esse texto não foi escrito para duvidar do meu empoderamento enquanto negra. Na realidade, ele foi escrito para mostrar o quanto ainda caio em certas armadilhas, o quanto naturalizo muita violência que sofro, chegando a duvidar da pertinência dos meus sentimentos nessas ocasiões. O quanto me faço passar por uma negra subserviente, e como me encaixo direitinho no papel da amiga que o branco quer ter:

Aquela que finge que não vê racismo nas ações dos amigos;

Aquela que não reclama;

Aquela que não se chateia;

Aquela que compreende todas as burradas que os amigos fazem;

Aquela que prefere ignorar ou se afastar para evitar contendas;

Aquela que pede desculpas na mínima rusga;

Aquela que se preocupa com o bem-estar de todos, menos com o seu.

Na realidade, essa conduta foi sempre uma estratégia de sobrevivência social. Vivi meu período escolar inteiro sendo a amiga de todo mundo, “a melhor pessoa”, aquela que nunca teve uma única inimizade. E o agravante principal é o fato de que sempre fui cercada de pessoas brancas, com pequenas participações especiais de crianças negras. Quando me mudei do Gama para Brasília, essa situação piorou exponencialmente.

Apesar de me anular muito nesse processo, pode-se dizer que pelo menos não fui relegada ao ostracismo – vocês bem sabem que crianças e adolescentes podem ser muito más. Agindo dessa forma, garanti meus convites para as festas, meus grupos para os trabalhos (pois ser inteligente não é o suficiente para ser selecionada), minhas companhias para o recreio, meus rolês para o fim de semana, etc.

Mas quantas vezes não voltei para casa dilacerada com um comentário racista que fingi não ter ouvido? Quantas vezes prendi o choro quando me deparava brincadeiras a respeito do meu cabelo? Quantas e quantas vezes não reclamei, apesar de ofendida, de falas a respeito do meu corpo do tamanho dos meus seios ou do volume da minha bunda?

Chamar os pais a escola, nessas ocasiões, para mim era uma atitude de desespero. Não porque não confiava na capacidade deles em tratar com a devida seriedade e respeito esses eventos; mas porque tinha medo da perda. Tinha medo de perder todas as relações até então construídas. Na realidade, essa solidão ainda me apavora.

Chegando à Universidade, experimentei muitas mudanças na minha vida, inclusive no que tange “ser negra”. Experienciei, pela primeira vez, a sororidade fora do núcleo familiar; encontrei gente (inclusive branca) disposta a me ouvir, conheci a militância, conheci o feminismo negro, conheci teóricas e teóricos negros nunca abordados anteriormente em minha formação. Obviamente me apaixonei, me iludi… como não podia deixar de ser, me decepcionei.

Em meio a essa vivência de militância, guardei para mim três lemas principais: paciência, didática e desconstrução. Esse tripé, ao meu ver, era essencial se quiséssemos mudar o mundo. Apesar de compreender a importância de perfis “Malcom-X” nunca me vi desempenhando um papel semelhante, até porque, para mim, essa não seria a melhor das estratégias na atual conjuntura. Martin Luther King sempre foi mais a minha praia.

Sendo assim, sempre tratei de pensar nas pessoas como seres complexos em constante processo de aprendizagem. Seres capazes de se desconstruir, rever privilégios e mudar de conduta.

Mas há momentos em que as pessoas se permitem fazer essas coisas. E continuam fazendo besteira, e continuam oprimindo.

– É AÍ QUE A GENTE METE O PÉ NA PORTA, NÃO É?

– NÃO… – Eu dizia, mesmo que imensamente incomodada – NÃO EM SE TRATANDO DE AMIGOS OU PESSOAS PRÓXIMAS… NÓS NÃO SOMOS RESPONSÁVEIS POR QUEM CATIVAMOS? NÃO SUPORTARIA MAGOA-LOS…

Sobre todo esse sentimento de responsabilidade, encontrei solução na astrologia. Nela aprendi a naturalizar um pouco toda essa minha preocupação excessiva com os outros….  Afinal, tendo o Mapa Astral como o meu, como ser diferente?

Realmente, nunca fui afeita a discussões, e sim, isso é um traço de personalidade; mas o que eu nunca parei para pensar, até dias atrás, é que seleciono com quem vou alterar meu tom de voz ou em quem vou “dar gelo”. E duvido que isso tenha a ver com meu Sol, Vênus e Mercúrio em Câncer.

Mesmo quando tenho razão, acho que nunca entrei em atrito com pessoas brancas sem me sentir culpada, ou duvidar da necessidade das minhas atitudes. NUNQUINHA NA VIDA! Até porque, na maioria das vezes nem chego a entrar em conflito com elas.

Por outro lado, em se tratando de gente preta, tenho mais segurança na fala, consigo expor a raiva ou a decepção que sinto; e com exceção dos momentos em que estou errada, nunca cogito pedir desculpas. Curiosamente, na única vez que fui (explicitamente) escrota com alguém, que não fosse da minha família, foi com uma amiga negra.

Consigo, no momento, encontrar duas justificativas para isso:

1- Contando com a sororidade e com a empatia que recebo por parte dos meus pares, me sinto mais confortável para me expressar emocionalmente, com a certeza de que serei, de alguma forma, correspondida;

2- Tenho quase que a total certeza que os laços afetivos não serão desfeitos na mínima contenda, em se tratando de negras e negros. A mesma certeza não tenho em se tratando de brancos. Não me vejo apontando para nenhum amigo branco que ele está sendo racista, não explicitamente, não de uma forma efusiva;

Daí percebo que ainda sou a mesma Lai da época da escola. Aquela que rechaço por alisar o cabelo, por ser careta, por ser temerosa e ansiosa. Aquela utilizada como reforço argumentativo por parte dos racistas para falar “Olha, eu não sou racista não, eu tenho até uma amiga negra”; porque se eu não exponho o racismo, acabo anuindo com suas condutas.

Eu, Laiana Rodrigues, ainda sou a amiga negra que todo branco quer ter:

Aquela que finge que não vê racismo nas ações dos amigos;

Aquela que não reclama;

Aquela que não se chateia;

Aquela que compreende todas as burradas que os amigos fazem;

Aquela que prefere ignorar ou se afastar para evitar contendas;

Aquela que pede desculpas na mínima rusga;

Aquela que se preocupa com o bem-estar de todos, menos com o seu.

Geralmente, muitas preocupações inundam a minha cabeça. Mas ultimamente, só tenho um foco: a mudança.

Eu cotista

Por Juliana Lopes

Da constelação de mentiras coloniais obscenas,
Do delírio da cordialidade das raças,
Das falácias liberais ditas neutras,
Enuncia-se:

Olha só que dó
Desse povo cor de café,
Forjado no engenho a paulada,
Desses bichos sem história que não tem o que comer.

Vejam que beleza essa pele morena mulata exportação!
Eu te fodo, e você cala a boca.
Só mais um ou dois estupros pra atingirmos o perfeito equilíbrio.

Olha lá!
Esses pretos preguiçosos que vivem de esmola,
Que aceitam de bom grado seu lugar de inferior.

No meu primeiro dia na Faculdade de Direito, eu me senti inferior.
No segundo, eu senti vergonha.
No terceiro, eu me senti tremendamente solitária.

12/0034140
Número que me deu um registro no sistema,
Um punhado de privilégios,
Nenhuma garantia de permanência, e um segredo:
Entrei por cotas, porra!

Costurar sentidos de existência neste corpo a partir da experiência universitária é batalha
diária
Por encontrar sobrevivência no aquilombar-se,
Tateando novas formas de resistir num universo que nos nega.

Cota é sangue negro e suor de luta,
Não concessão
politicamente correta de ninguém.
Nem se incomode em cuspir novamente inverdades sobre a nossa história.
E que história!

Seu panteão de homens tão nobres, tão brancos, tão aristocráticos e velhos, e ao mesmo
tempo tão tão neutros,
Soam a mim não como excelência acadêmica,
Mas simplesmente eurocentrismo genocida.

Não duvidem da eloquência desse couro preto no interior destas paredes.
Respeitem meus cabelos, brancos!
Respeitem a minha história e o meu povo.
Respeitem aquilo que digo, porque digo com a propriedade do objeto que tomou pra si o
microscópio.

Isso é pra você que diz que não vê os racismos
Sentidos no trato da moça da limpeza e dos porteiros,
Nas ausências docentes e discentes,
Nos silêncios curriculares
E nas violências diárias que não causam nem espanto nem processos.

Aos que bradam que querem “pintar a universidade de povo” eu respondo:
Não sou decorativa pra pintar a sua universidade de preto.
Não me darei por satisfeita com cotas, apesar de ainda 10 anos depois ser obrigada a lutar por
elas.
Lutar, eu repito; pois não estamos recebendo nada de presente.
Tomamos pela unha o que é nosso por direito!

Não assistirei passiva ao curso da minha própria história,
Não me sentarei nestes bancos de cabeça baixa
Para os que querem, literalmente, a ferro e fogo
Arrancar a humanidade de quem cultiva coroas na cabeça.