A voz do outro

Por Beatriz Souza

Um dia, após ler “A Cor Púrpura”, me lembrei do romance do poeta escravizado Juan Francisco Manzano, o único latino-americano a escrever uma autobiografia sobre a sua experiência. As duas obras tem como um ponto comum a linguagem: Celie é uma personagem mulher negra que escreve cartas para Deus em inglês popular, enquanto Manzano foi um homem cubano de carne e osso que escreveu sua autobiografia no espanhol que aprendeu sozinho (e que, segundo a sociedade da época, não deveria nem mesmo ter aprendido enquanto pessoa escravizada).

Incomoda, a princípio. Não são leituras fáceis; a leitura da autobiografia é ainda mais difícil, já que a sintaxe, a pontuação e o ritmo são bem mais irregulares do que os do romance, justamente por ser real. Várias pessoas se sentiram incomodadas – desde a publicação (tardia) em 1937, o testemunho de Manzano já sofreu várias tentativas de correção, reescritura e mudança de estilo. Mas é possível localizar dentro de nós o porquê de tanto incômodo?

Na minha opinião, tem a ver com o desconforto que provoca a diferença, que conduz como consequência à tentativa de padronização. No entanto, transcrever essas prosas em norma culta significaria anular as suas posições enquanto Outro, já que na correção está implícito o fato de serem incapazes de falarem por si mesmos: qualquer coisa escrevam, falem ou pensem, deve se adequar à disposição “normal” da língua para que possam ser entendidas por nós, pessoas leitoras normativas e “educadas.” Nesses casos, o sentido pode muito bem ser entendido – não existe uma impossibilidade de comunicação. O problema está no fato de nós, falantes “cultos” da língua, não podermos nos dispor a ler uma coisa do gênero – o que, por fim, parece ser o mesmo mecanismo que está por trás do preconceito linguístico.

Como leitora, é notável a diferença que a linguagem faz na força da narrativa. No caso do livro de Alice Walker, basta notar a sensação que se tem quando se lê as cartas da Celie e as cartas da Nettie, a personagem que é sua irmã e professora, que escreve em inglês-padrão. A sensação também se repete no caso da autobiografia; basta comparar um trecho traduzido em norma padrão com outra edição que manteve a escrita original. Isso porque a escrita original permite não só entender abstratamente falando, não só saber da vida na escravidão (que já aprendemos na escola), mas sim experimentar a vida do homem escravizado e da mulher negra através de seus olhos (e talvez por isso Alice Walker tenha ganhado um prêmio Pulitzer pela sua história de ficção). Os erros de ortografia, gramática e sintaxe nos deveriam inspirar respeito, porque não são verdadeiramente erros, mas provas das suas trajetórias de vida enquanto negros. Como bem definiu Alex Castro (tradutor da autobiografia), corrigi-los significa em prática apagar sua história, silenciar seus sofrimentos e rasurar suas vidas.

De uma maneira muito abrangente, vejo como isso se repete no preconceito linguístico; como apontar os erros de português de uma pessoa terminam por minimizar a experiência de vida das inúmeras pessoas que se exprimem em formas que não tem prestígio social. Por isso talvez seja melhor pensar duas vezes antes de desqualificar a fala de outra pessoa porque “não sabe escrever”, ou ainda, se gabar dizendo dominar a norma culta (o que é apenas a expressão de um privilégio). Porque o preconceito linguístico é, enfim, um indicador dos preconceitos que se tem – contra pobres, negros, nordestinos e qualquer grupo que diferente do padrão.

Para ilustrar tudo isso, segue um trecho da voz de Manzano:

“Hum dia, este dia de rezignaçaõ prinsipio de quantos bens e males o mundo me deu pa. provar foi como se segue era sabado antes do almoço segundo era nosso custume eu tinha qe. assear-me pois vestia duas vezes por semana, pa. isso fui ao banheiro do tacho qe. distava huns trinta pasos num declive á frente da caza em quanto me banhava me chamaraõ pr. ordem da sinhá ja se pode imaginar como sahiria; me recebeo perguntando o qe. fazia no banho respondi qe. me asseava pa. vestir-me, com qe. lisensa o fizeste? com nenhuma respondi. e pr. que foste? pa. assear-me, esta sena foi no comedor ou varanda na porta da rua, alli mesmo me quebraraõ o nariz e fui pa. dentro vertendo duas veias de sangue, isto me afligiu e envergonhou pr. qe. na porta ao lado vivia huma mulatinha de minha edade a primeira qe. me inspirou huma couza qe. eu naõ conhecia  era huma inclinaçaõ angelical hum amor como si foce minha irmã eu le prezenteava com pencas de maravilhas coloridas qe. ella recebia dando-me algum doce seco ou fruta eu le tinha dido qe. era livre qe. minha maẽ tinha morrido avia naõ muinto; naõ bastando o ja dito perto das dez minha ama me fez tirar os sapatos me rasparaõ a cabeça, embora isto foce mui freqüente, esta vez me cauzou a maior mortificaçaõ. (…)”

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“A chata”

Por Fernanda Martins

             Foi assim que eu fiquei conhecida depois que me assumi como feminista. Passei a ser tachada de louca, de neurótica, de pessoa que não sabe brincar e que questiona tudo. Virei motivo de piada entre vários colegas. “Lá vem ela”, “você leva tudo muito a sério”, “nossa, mas não pode mais nem brincar”, “você reclama de tudo”. Todas essas frases se tornaram frequentes para mim. Percebi que me reconhecer como feminista é um ato de empoderamento, mas que, ao mesmo tempo, deixa feridas.

             O processo de entender o feminismo e de me compreender dentro disso foi – e continua sendo – conturbado. Eu sinto que cresço e amadureço todos os dias e que faço amizades incríveis que me acompanham ao longo dessa caminhada. Mas, ao mesmo tempo, esse é um processo que machuca. Machuca porque me afasta de muita gente que antes eu sentia o prazer de conviver e hoje não mais. Machuca porque vejo gente por quem eu nutria verdadeiro afeto achando que hoje eu só quero ser “a do contra”. Machuca porque desisti de frequentar lugares que antes eu adorava. Machuca porque eu também me questiono, questiono minhas falas, minhas atitudes. Machuca porque de repente eu me pego cantando uma música que sempre gostei e quando presto atenção na letra me sinto angustiada. Machuca porque hoje eu percebo que uma série de relacionamentos (meus e das minhas amigas) que antes eu julgava como normais, são ou foram, na verdade, abusivos. Machuca muito me assumir como feminista porque travar batalhas contra séculos de patriarcado não é tarefa fácil.  Exige muito de nós.

            Exige paciência, exige força, exige coragem, exige união. É e na união que a gente encontra mais e mais força. Porque são nas conversas travadas nos grupos de minas, nos desabafos, nesses espaços de sororidade que gente vê que não está sozinha, que a gente se reconhece em histórias que não são nossas, que a gente percebe que nossos medos são os mesmos, que a gente entende que juntas podemos mais. São esses espaços que nos dão esperança, que nos encorajam a continuar lutando, que fazem com que as feridas das batalhas cotidianas sejam atenuadas. São essas companheiras, amigas, colegas de luta que nos oferecem rosas no meio de tantos espinhos.

             Eu preciso do feminismo. Sim, eu já posso votar, posso estudar e trabalhar fora. Mas isso não basta e é por essa razão que a luta continua. Não basta porque mulheres ainda recebem salários menores, porque mulheres ainda são minoria na política e em cargos de comando, porque mulheres ainda são mortas pelo simples fato de serem mulheres, porque mulheres são estupradas e ainda tem cara que pergunta sobre a roupa que elas estavam usando. Não basta porque mulheres sofrem violência doméstica todos os dias, porque o nosso medo de andar sozinha na rua não é o medo de perder o celular ou a bolsa. Não basta porque ainda tem homem que não sabe que “não” significa não, porque tem homem que acha que mulher é propriedade sua.

            Não basta por uma infinidade de violências diárias que sofremos todos os dias e enquanto tudo isso acontecer eu vou continuar sendo a tal chata, vou continuar questionando, reclamando e incomodando.  Não é fácil, machuca e deixa feridas. Mas tem um monte de outras “chatas” junto comigo e com elas é mais fácil seguir em frente.  Gratidão, queridas!

é preciso ter coragem