A páscoa, o Cristianismo e o deputado

Por Fernanda  Potiguara   

04Feriado religioso… É a páscoa, o momento em que o comércio de chocolate bomba, as pessoas pagam felizes pequenas fortunas para trocarem ovos de páscoa (que de cristão não têm nadinha). De vez em quando um programa de televisão solta um documentário sobre como Cristo foi um excelente líder político e como seus discípulos construíram a figura do Deus na terra, calando Maria Madalena, sua possível amante… Teoria famosa por Dan Brown. Mas COM CERTEZA, nesta páscoa, tudo isso teve um gostinho diferente.

Com o tumulto causado pela escolha do Deputado e Pastor Marco Feliciano para ocupar o cargo de presidente da pequena, mas não menos importante, comissão de Direitos Humanos e Minorias, não era possível se falar em religião durante esse feriado sem tocar neste assunto emblemático. Passemos a ele, portanto.

03Não se pode negar que assim que o pastor foi indicado para a Comissão começou-se uma verdadeira caça às bruxas, deslocando o foco de outras questões políticas importantíssimas, como, por exemplo, a presidência de Renan Calheiros no Senado… De todos os lados saíram notícias que comprovavam matematicamente que o pastor era não só racista e homofóbico, como um estelionatário de primeira. Houve verdadeira varredura na vida passada do deputado, para se coletar tudo, absolutamente tudo, que o pudesse denegrir. E de fato, não foram poucas as acusações encontradas, e multiplicadas em tamanho pelo “excelente” trabalho que a mídia faz sempre que está particularmente interessada em um assunto. Foram negritadas frases do twiter, pregações no púlpito, que revelavam pensamentos ofensivos não só aos/às homossexuais, mas aos/às negros/as e às mulheres.

Apesar da identificação imediata feita nas conversas informais entre esses posicionamentos do pastor com o Cristianismo em si, tais conexões passam longe de uma similaridade.

Por exemplo… Definitivamente, foram, no mínimo, estúpidas, as postagens twittadas pelo pastor quanto à descendência amaldiçoada de Noé, que teria recebido a marca da negritude. A única vez que a Bíblia trata de uma marca colocada por Deus antes de Noé se deu em Caim, depois do assassinato que cometeu contra seu irmão, Abel. A marca não era uma maldição, mas uma proteção contra quem quisesse matá-lo para vingar Abel, e nada tem a ver com os negros. A passagem que o pastor trás é da maldição que Noé profere contra seu filho Cão, por ter ele caçoado de seu pai, que, num ato de embriaguês, ficara nu. Essa é uma maldição oral, nada tem a ver com marca física ou cor de pele.

De fato, o afirmado contra os negros não passa de uma teoria teológica sem o menor fundamento bíblico.

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Da mesma forma os comentários sobre a condição feminina passam longe daquilo pregado pelo próprio Cristo, que colocou as mulheres numa situação tão peculiar à época. Foram elas que mostraram lealdade, permanecendo com Cristo durante a crucificação, sem medo do ônus que isso causaria, e foram elas que se dispuseram a, findo o sábado, preparar o corpo de Cristo. Toda essa fidelidade não ficou sem recompensa… A visão do Cristo ressurreto foi dada duas vezes às mulheres antes mesmo de ser anunciada aos discípulos.

Durante toda sua trajetória, o cuidado com as mulheres foi excepcional, como o caso da mulher adúltera ser apedrejada, a mulher prostituta que derramou alabastro aos seus pés, ocasião na qual Cristo a exalta como superior à elite que o acolhia em casa, ou no caso da viúva que depositou uma oferta miserável no templo, que era condenada pelos que a viam mas que foi exaltada por ele, ou a cura da mulher com fluxo de sangue… Tantos casos de honra a nós mulheres perante os sacerdotes homens da sociedade, que tornaram muitos dos seus atos incompreendidos.

02Não há episódio expresso de Cristo quanto à homossexualidade, mas como alguém que cumpriu na íntegra a lei judaica, sabemos que sua posição era a de que tal conduta não era a maneira planejada por Deus para os/as homens/mulheres. Mas o seu ensinamento não foi de luta contra “carne ou sangue”, ou seja, não foi de humilhação pública ou violência. A sua arma era a transformação pelo amor e não pela guerra.

Que neste finzinho de feriado lembremos disso. Que a postura do pastor Marco Feliciano foi, eufemisticamente, infeliz, destoando bruscamente do que seria seu papel à luz da Bíblia. Que o que Cristo ensinou foi a amar, a ensinar em amor, a aconselhar naquilo que era o propósito de Deus para os/as homens/mulheres; que é a felicidade em plenitude.
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Ter razão…

Por Felipe Pereira   

monstro1Em o “Médico e o Monstro”, R. L. Stevenson expõe o trágico destino do Dr. Jekyll ao tentar isolar, em duas personalidades distintas, tudo o que havia de moral e amoral presente em si. Nesta tentativa, deu origem a Mr. Hyde, figura sombria, livre de qualquer limite estabelecido pela moral – restrita somente a satisfação de seus próprios desejos. Como contraparte, porém, restou Jekyll, cuja personalidade permaneceu, entretanto, inalterada – era a mesma pessoa que sempre fora. As aparições de Hyde, antes determinadas pelo médico, começaram a se dar de modo alheio ao seu controle, tendendo a dominá-lo por completo.

 A proposta a qual Jekyll se submete – isolar em entes diversos as manifestações de mais alta (e ausência de) moral – não se difere muito de tendências perceptíveis na nossa realidade. Sob o pretexto da busca pelo esclarecimento, acabam-se por criar verdadeiros monstros – intransigentes e intolerantes.

Dentro desta analogia, entretanto, Jekyll mostrava-se mais franco quanto aos seus propósitos: sabia o que estava criando e tinha consciência do meio através do qual esta se manifestaria, em oposição às máscaras que pretensiosamente buscam encobrir ideias segregadoras sob uma face supostamente universalizante (e que acabam por travestir-se daquilo que buscam, de fato, combater).

monstro3Estas, quando vistas como a única solução para o mundo, tem efeitos nos humanos semelhantes aos da poção de Dr. Jekyll. A negação do diálogo, a clausura ideológica, a busca incessante por separar “o joio do trigo” – desse modo, o monstro nos consome, e esteriliza o potencial transformador contido neste pensamento. Afinal, o que de bom pode vir de uma ideia que não busca contemplar de melhor maneira possível a coletividade? Que se vê como eleita e exclui por tabela toda e qualquer contribuição positiva que possa se fazer presente nas outras?

Na própria obra, a oposição que Jekyll faz a Hyde demonstra que não necessariamente o contraponto ao “mal” puro não é o bem, imaculado; mas, sim, o que aquilo que é capaz de fazer um intermédio entre esses extremos. Da mesma forma, uma ideia só é capaz de sobrepor a um pensamento totalitário se aquele que a defende o faz numa perspectiva aberta a transformação, submetendo-a a um exercício de autocrítica.

monstro4Todos são capazes de criar este monstro. Independe de posicionamento político, convicção religiosa, orientação sexual… Aliás, talvez esta seja a única característica positiva que ele possui – não é produto exclusivo de uma corrente ideológica, mas surge a partir de qualquer espécie de crença que se vê como solução hermética para os problemas que enfrentamos.

O monstro é inevitável. A partir do momento em que se abraça uma razão, ele vai estar lá, num grau controlado, ou pronto para bater de frente com o que tenta lhe contradizer. A história de Jekyll nos aponta o erro – tentar negar esse monstro só o reforça e dá ensejo para que ele tome o controle. A solução é saber controlá-lo – mantê-lo lá com força suficiente para que a ideia não morra, mas subjugado ao diálogo e a crítica necessárias para que esta seja passível de transformação.

…é impor

Comuna de Paris – seus artesãos, suas artesãs*

Por Edson de Sousa    

Barricade in the Rue Castiglione

As ruas de Paris foram já muitas vezes tingidas de sangue rubro e popular, mas nunca talvez como ocorrido durante os pouco mais de dois meses em que se transcorreram a ascensão e a queda do governo revolucionário da Comuna de Paris. Calcula-se que mais de 30.000 pessoas foram sumariamente fuziladas pelas dezenas de tribunais marciais instaurados nos bairros populares da Paris insurgente após a derrota do novo regime. Outros tantos e tantas tombaram anônimos nos campos de combate ou não resistiram ao duríssimo cerco mantido pelas tropas francesas na metade ocidental da cidade – o território oriental então estava controlado pelo poderoso exército prussiano, resquício da guerra recentemente perdida[1]. Os e as sobreviventes ficarão encarcerados ao longo de todo o périplo francês de colônias penais. Dezenas de milhares serão deportados e nunca mais retornarão à sua terra natal. A maior parte será esquecida. A dura repressão oficial não se restringiu a matar a parte viva da cidade de Paris, mas também mortificou a história e os motivos dos comunardos.

Comuna tratava-se de um ato revolucionário total[2]. Também a insurreição de Paris, como antes e depois, inicia-se a partir da voz de revoltosas. São mulheres as primeiras a se levantarem contra o esfacelamento da França em interesses de mercado injustos. As mulheres de Montmartre – um bairro pobre da capital parisiense –, ao se colocarem entre o canhão do populacho[3], atrás, e as baionetas dos soldados franceses, à frente, conquistaram a simpatia de vários populares que engrossavam as fileiras dos batalhões oficiais; com a adesão desses soldados, a revolta se espalha rapidamente, e de forma espontânea, por todos os bairros populares de Paris. A ‘efervescência vulcânica’ das mulheres de Montmartre ateia fogo à capital do mundo do século XIX. Outros grupos profanam retumbantes as avenidas limpas e largas em que a burguesia se exaltou ao construir. “Todo o espaço está já ocupado pelo inimigo…” [4]. A Comuna de Paris é a grande Confraternização dos Povos; por dois meses a capital da Festa e da desforra da classe trabalhadora de todo o mundo sobre seus opressores. Também os estrangeiros confraternizam-se. Além dos poliglotas e inflamados integrantes da Internacional Comunista, bem atuantes durante o período, houve a preponderante participação de contingentes de negros argelinos durante a insurreição. A Tropa-Negra, como ficou conhecida essa guarda durante a Comuna, era inicialmente um grupo de atuação local presente na Argélia colonizada; combateram como bucha de canhão na Guerra Franco-Prussiana; milhares morreram incógnitos. Oprimidos em seu território, os Spahis desempenharam papel militar e político inquestionável durante os dois meses de revolta. Vários de seus lideres ascenderam a postos de confiança no exército revolucionário e como delegados no regime. Eram a ponta-de-lança das forças populares frente ao exército francês mais bem equipado – e que, assim como nas lutas por emancipação de seu próprio país, foram silenciados e excluídos pelo discurso da História Universal.08

A Comuna foi uma poderosa manifestação de vontade popular, o que, por si só, já questiona profundamente a conservadora cultura política europeia que até aquele instante mantivera-se incólume à ascensão de líderes da raia miúda. A participação dos Comitês Distritais ao longo de toda Paris – que em muito se assemelharão, futuramente, à participação ativa dos sovietes durante a Revolução Russa – garantiram a emergência de um governo eleito com a maioria de seus representantes oriundos das classes trabalhadoras. Os operários e artesãos pobres de Paris, com o sufrágio, puderam eleger representantes seus autonomamente – os comunardos não pautaram a presença de mulheres nas eleições desde o inicio do movimento insurrecto. O surgimento de diversas cooperativas de trabalhadores, sem patrões, engendrou avanços incomensuráveis na forma como o trabalho era gerido pelos moradores e moradoras da capital francesa – autogestão. O produto do esforço dos diversos produtores seria igualmente apropriado por todos e todas – não mais privado por alguns. As oficinas comunais e os comitês distritais de deliberação contribuíram para a metamorfose das práticas sociais em um cenário no qual ‘o trabalho, a alegria, o ócio, a satisfação das necessidades – e antes, das necessidades sociais e das necessidades de sociabilidade – não se separam mais’[5].

Comuna de Paris, ao buscar implantar-se enquanto espaço de integração e de participação da população parisiense, inaugurou uma nova maneira de se compreender o fenômeno político na sociedade contemporânea. O espaço social, sua arquitetura, sua distribuição e sua gênese, seus recortes, seus símbolos e seus monumentos inertes, mas não inocentes, são expressões do político.  A cidade de Paris em sua totalidade – seus bairros e suas periferias incultas, as avenidas limpas e salubres do Barão Haussman, o ‘Intendente de Paris’[6] – são fruto de equilíbrios, assimetrias e estratégias de classe. A cidade é palco e, concomitantemente, objeto na luta de classes latente na França. A expressão de Henri Lefebvre – e do movimento situacionista[7] – faz-se verossímil: ‘A Comuna representa a única tentativa de um urbanismo revolucionário’[8]. Os comunardos romperam com a Cidade-Dominadora quando de seu combate à contradição de termos da vivência de uma Paris que integra desintegrando seus habitantes – que inclui ao segregá-los. A importância universal que adquire a Comuna de Paris deve em muito à possibilidade que ela instaura na busca por alternativas à concepção capitalista de Cidade. Os revoltosos se colocavam enquanto anticapitalistas e representantes da soberania popular dos parisienses sobre Sua Cidade. Enquanto construtores conjuntos, no anonimato do dia-a-dia, os artesãos e artesãs de Paris recobravam com Sua revolução o valor de uso – em contraposição ao valor de troca – ao se apropriarem e ao dizerem sua cidade. A vontade dos insurrectos de ‘tomar sobre si o destino e a estória de suas vidas, não somente no que concerne a decisões políticas, mas também ao nível da cotidianidade[9]’ perpassava sua prática urbanística. As transformações implementadas ao longo dos dois meses de governo do Comitê-09Central[10] desmascararam o racionalismo autoritário das melhorias cívicas e as mazelas da fruição estética que sustentava a separação da população de Paris em bairros ricos e pobres.  A Comuna criou seus símbolos próprios. Erigiu, ou tanto melhor, apropriou-se, de Sua própria Obra – todas as ruas, todas as avenidas e todos os edifícios da capital do mundo. Ser anticapitalista é, segundo a lição eloquente dos comunardos, revalorizar a Cidade e o espaço social todo enquanto Obra da classe trabalhadora mundial – e sua por direito. Direito à Cidade.

Comuna de Paris, segundo Lefebvre, confunde-se mesmo com a ideia de Revolução. Replica-se: principalmente por suas derrotas. Ela apresenta as contradições e os fracassos de um processo amplo e profundo de transformação do real. Possui a participação massiva dos diversos grupos unidos pela exploração capitalista – e mesmo anterior – e segregados pelas fraturas sociais construídas ao longo de gerações. Abismos de incompreensões e incongruências limitam – e mesmo neutralizam – a capacidade revolucionária das camadas populares atuais e passadas. Ainda assim a Comuna de Paris se impôs. Mesmo diante da impossibilidade fática das grandes transformações, a Comuna logrou seus louros e adentrou a História. Em ato, antecipou o possível e impossível em suas propostas políticas, mesmo que não aplicadas ao contexto de sua confecção. Congregou o impossível de ser unido – homens e mulheres, estrangeiros, negros e crianças em uma mesma frente de luta. Sob a mesma chuva primaveril avançaram e recuaram. Pereceram lado a lado. A Comuna de Paris, revolta espontânea, é revolucionária exatamente por não ser possível. ‘A maior medida social da Comuna foi a sua própria existência em ato… Paris, toda verdade, Versalhes, toda mentira.[11]’ A Comuna de Paris foi uma Festa, a maior do século XIX[12]. Confraternizaram-se todos os artesãos e artesãs que diariamente mantêm viva a tradição e o caráter da Cidade como espaço de convergência, como lugar de livre fruição de todos os sonhos e todas as utopias que, certamente, serão possíveis algum dia. Cidade e Revolução entrelaçam-se, carnalmente, fraternalmente, na Festa. A Comuna de Paris era uma participação festiva da multidão que desfrutava de Sua Obra; neste sentido ela é imortal, neste sentido a desforra dos comunardos e a nossa ainda não acabou, 142 anos depois.

*A Comuna de Paris iniciou-se, nos bairros populares da capital francesa, em 18 de março de 1871. Desde então, a Primavera retorna – já 142 vezes – trazendo seus brotos, suas flores e seus encantos para ornamentar ainda mais a bela confraternização que certamente chegará um dia.


[1] A guerra em questão foi a chamada Guerra franco-prussiana ou Guerra franco-germânica (19 de julho de 1870 – 10 de maio de 1871) foi um conflito ocorrido entre França e o Reino da Prússia no final do século XIX. Durante o conflito, a Prússia recebeu apoio da Confederação da Alemanha do Norte, da qual fazia parte, e dos estados do Baden, Württemberg e Baviera. A vitória incontestável dos alemães marcou o último capítulo da unificação alemã sob o comando de Guilherme I da Prússia. Também marcou a queda de Napoleão III e do sistema monárquico na França, com o fim do Segundo Império e sua substituição pela Terceira República Francesa. Também como resultado da guerra ocorreu a anexação da maior parte do território da Alsácia-Lorena pela Prússia, território que ficou em união com o Império Alemão até o fim da Primeira Guerra Mundial.

[2] (Henri Lefebvre, La Significacion de La Comune, 1962).

[3]Guarda Nacional, força de defesa popular do território francês, durante a Guerra Franco-prussiana, durante o cerco final das forças germânicas sobre Paris, adquiriu diversos canhões com recursos dos próprios combatentes. Com o fim do conflito, o exército francês requer a artilharia comprada com recursos não públicos, provavelmente pelo medo que pairava já então de uma revolta popular dos moradores e moradoras de Paris e arredores. O impasse se dá quando um grupo de mulheres, as Mulheres de Montmartrese coloca entre as baionetas dos soldados impedindo que o canhão do populacho seja levado. A insurreição da população de Paris tem inicio a partir desse episódio da questão do armamento da Guarda-Nacional.

[4] (Guy-Debord & Outros, 14 Teses sobre a Comuna, 1962).

[5] “Se metamorfosea de um salto em comunidade, em comunión, em el seno de la cual el trabajo, la alegria, el ócio, la satisfacción de las necesidades – y ante todo de las necessidades sociales y de las necessidades de sociabilidaded – no se separarán más.” (Henri Lefebvre, La Significacion de La Comune, 1962).

[6] Georges-Eugène Haussmann (Paris, 27 de Março de 1809 — Paris, 11 de Janeiro de 1891), largamente conhecido apenas como Barão Haussmann – o “artista demolidor”, foi prefeito do antigo departamento do Sena (que incluía os atuais departamentos de Paris, Hauts-de-Seine, Seine-Saint-Denis e Val-de-Marne), entre 1853 e 1870. Durante aquele período foi responsável pela reforma urbana de Paris, determinada por Napoleão III, e tornou-se muito conhecido na história do urbanismo.

[7]Internacional Situacionista (IS) foi um movimento internacional de cunho político e artístico. O movimento IS foi ativo no final da década de 1960 e aspirava por grandes transformações políticas e sociais. A primeira IS foi desfeita após o ano de 1972. Tem como um de seus nomes mais expressivos, Guy-Ernest Debord (1931-1994), escritor de A Sociedade do Espetáculo. Um dos contribuintes mais importantes à IS foi o próprio Henri Lefebvre.

[8] “La Comuna representa hasta nosotros la única tentativa de um urbanismo revolucionário.” (Henri Lefebvre, La Significacion de La Comune, 1962).

[9] “[…] La vontad de los insurgentes de volverse los dueños de su vida y su historia, no solamente em lo que concierne a lãs decisiones políticas sino al nível de la cotidianeidad.”

[10] Entre as principais medidas do Comitê-Central, encontram-se: Fixou a remuneração mínima do trabalho; foram tomadas medidas de proteção do trabalho e de luta contra o desemprego; de melhoramento das condições de moradia e do abastecimento da população. A Comuna preparou a reforma escolar, fundamentada no princípio da educação geral, gratuita, obrigatória, laica e universal. Tiveram extraordinária importância os decretos sobre a organização de cooperativas de produção nas empresas abandonadas por seus donos; a implantação do controle operário; a elegibilidade dos dirigentes de algumas empresas estatais. Na sua política exterior, a Comuna se guiou pelo empenho de estabelecer a paz e a amizade entre os povos.

[11] (Guy-Debord & Outros, 14 teses sobre a Comuna, 1962).

[12] (Guy-Debord & Outros, 14 teses sobre a Comuna, 1962).

A perpetuação da resposta punitiva

                                           Por Aurélio Faleiros   

O filme os Miseráveis nos transfere para o contexto do Estado Francês tipicamente liberal do início do século XIX. O liberalismo exacerbado que marcou esse momento histórico tinha como principal característica o não intervencionismo do estado nas relações sociais. Este mesmo Estado não-intervencionista, no entanto mostrava toda sua força quando se tratava de utilizar veementemente o poder estatal para reprimir condutas incriminadas e perseguir seus autores.  Inúmeras são a arbitrariedades cometidas pelo punitivismo exacerbado desta época.

look-downA história do prisioneiro 24601 exemplifica esse contexto. Jean Valjean ficou dezenove anos preso e submetido a trabalho escravo por ter roubado um pedaço de pão na tentativa de salvar o filho de sua irmã que passava fome. ‘’Five years for what you did, the rest because you tried to run, Yes 24601!’’ , dizia Javert, o agente estatal. A pena estipulada para Valjean fora visivelmente desproporcional, o que revela o caráter punitivista do estado na época. Esse ideal de Justiça punitiva é adotado afinco pelo inspetor Javert que persegue Jean durante toda narrativa. Javert é um grande adorador do sistema penal, apesar de sua origem pobre, acredita no ideal imposto de justiça punitiva e o adota de forma absoluta.

Dois séculos passados, os Estados e suas legislações adotaram princípios que pretendiam complexificar a noção de justiça por meio da garantia de direitos fundamentais e humanos. No entanto, países como o Brasil, por exemplo, estão longe de efetivar essas garantias. A arbitrariedade da ação da nossa polícia e as violações a direitos fundamentais a que submetemos nossos prisioneiros são evidentes.  O Brasil promove execuções e encarceramentos em massa como principal e única forma de combate ao crime. Temos uma polícia extremamente violenta e penitenciárias extremamente lotadas. Há também a incriminação de uma gama enorme de condutas, fruto de uma cultura que vê como única solução de conflitos a criminalização das relações sociais.

Observa-se então a reafirmação de uma cultura punitivista, apesar dos esforços garantistas que se têm visto desde o surgimento do Estado burguês. Porém o que chamou minha atenção e de certa forma me levou a escrever este texto não é a continuação dessa cultura desde o Estado liberal até então, mas a ampla adesão desse modelo pelas classes populares que se apresentam, ao mesmo tempo, como principal alvo da repressão.

Essa semana, o réu Mizael foi condenado a 20 anos de prisão a serem cumpridos inicialmente em regime fechado pelo assassinato da ex-namorada Mércia, o caso teve grande comoção nacional e ocupou grande espaço na mídia. Não farei análise a respeito da condenação de Mizael, o que me chamou atenção durante essa semana foi a maneira com que a população pedia, acompanhava e torcia para a condenação do réu à maior pena possível, viam como única forma de justiça o maior tempo possível de permanência do réu dentro da prisão. Dessa forma, se assemelham a Javert, acreditam cegamente que a punição pode trazer uma sociedade mais justa.

Não é difícil deparar-se com discursos que afirmam que no Brasil há um grande problema de impunidade (embora já tenhamos 550mil presos), que as penas não são cumpridas devidamente, que falta polícia, que lugar de ‘’bandido’’ é na cadeia e que direitos humanos são apenas para humanos direitos.  Todo esse discurso demonstra um conservadorismo que, aos moldes do contexto liberal que em se passa a história de Valjean, vê num sistema penal cada vez mais duro e implacável a solução para o problema da criminalidade. Mas o que me intriga é: hoje em dia o que está por trás desse discurso? Quem na verdade vêm pautando um sistema penal implacável como única forma de resolução de conflitos?

É indispensável que se mencione o papel da mídia nesse contexto. Primeiramente, há uma opção política de desumanizar sempre a figura do ‘’criminoso’’(que por si é uma abstração), colocá-lo como uma criatura sub-humana, essencialmente má e indigna de quaisquer direitos. Essa imagem construída acerca da figura do ‘’bandido’’ está presente em todas as espécies de programas de TV, noticiários, internet, em todo aparelho midiático. Inúmeros são os programas de ‘’caça aos bandidos’’ no Brasil, esses programas reproduzem um estereótipo de um criminoso ‘’demonizado’’ para o qual a única solução seria o encarceramento, pelo maior período possível. Incita-se, dessa forma, uma dicotomização alienante da sociedade entre os ‘’homens de bem’’ e os ‘’bandidos perigosos’’.

Ao mesmo tempo em que se demoniza a figura do criminoso, cria-se um ideário de heroi para o estado. Enaltecem-se as figuras dos policiais, promotores e juízes como heróis nacionais que vêm para limpar as ruas da escória social, representada pelos ‘’bandidos’’.

02A rede midiática brasileira exerce ainda um papel alienante por propositalmente não incitar qualquer debate acerca da eficácia desse sistema punitivo que nos é posto. Desta forma, apresenta-se o encarceramento em massa como única solução e a violência policial como necessária. O debate sobre direitos humanos é também extremamente secundarizado nesse processo. Opta-se por não demonstrar a realidade das penitenciárias brasileiras, as execuções realizadas pela polícia são mascaradas de forma que as mortes de civis aparecem sempre como ‘’justificáveis’’.

Essas premissas estão a serviço de um governo que opta claramente por uma política de segurança pública baseada no endurecimento do sistema penal. Trata-se do abandono completo a políticas públicas de prevenção de crimes para a adoção de um modelo extremamente rígido e desvinculado de outras políticas públicas, não se enxerga o problema da violência como um problema essencialmente social. A opção por esse modelo acontece muitas vezes porque ele, apesar de não lidar com a questão da violência urbana em sua amplitude, apresenta mais resultados (muitos deles falaciosos) a curto prazo o que aumenta a adesão popular. Essas medidas são ainda mais economicamente viáveis aos governos do que seria uma política pública integrada no combate a criminalidade.

Ainda que esse modelo de segurança pública esteja intrinsecamente relacionado a medidas higienistas e a processos de criminalização de grupos específicos, estes mesmo grupos ainda acreditam nessas políticas como melhor forma de combate a violência. O Brasil possui uma população carcerária exorbitante, uma polícia que promove execuções sumárias e continua sendo um país que apresenta um grande problema de segurança pública. Ainda que a ineficácia do nosso modelo esteja comprovada, há um conservadorismo e uma ausência de vontade política que secundarizam o debate público acerca da questão contribuindo para a perpetuação de uma cultura punitivista por meio de sua constante reprodução que acaba por culminar na adesão por quem, ao mesmo tempo, mais é afetado por essas medidas, os pobres.

As grades (curriculares) e a multidão

Por Sorhaya  Rodrigues   

laeducacionprohibida01-601x275E a “multidão*” olha para os muros das escolas e universidades e percebe que o aprendizado não deve se restringir a fases da vida ou a instituições, as boas ideias, as inovações devem transcender os muros destas e de outras instituições, a possibilidade de transmitir conhecimento não deve estar restrita a poucos iluminados, mestres, doutores e seus diplomas e certificados, pois o conhecimento deve ser fluido, livre e acessível e não aprisionado em grades curriculares.

Nesse contexto de transformação das percepções acerca dos processos educacionais tradicionais, assistimos ao surgimento da percepção de que “a educação continua a mesma coisa; útil para que a cultura permaneça sempre igual e sempre se repita”[1],  a percepção de que o paradigma educacional que nos foi imposto possui funções não declaradas e  que “… a escola e os processos formativos não são apêndices da sociedade, mas parte constituída e constituinte dela”[2], surgem novas alternativas de aprendizado que vão se desenvolvendo fora das salas de aula, ocupando parques, jardins, coletivos, o chão das universidades, plataformas on-line e ganhando cada vez mais destaque.

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Estamos caminhando a passos largos para a realidade cada vez mais concreta do conhecimento colaborativo, do Crowd learning, do Crowd Funding, do Crowd Sourcing, do MOOC (Massive Open On Line Course), das técnicas de aprendizado baseadas em execução de projetos, das escolas democráticas[3], da extensão e mais uma infinidade de inovações que procuram subverter a lógica verticalizada, hierarquizante, antiquada e tolhedora de potenciais da sala de aula tradicional, local onde o/a aluno/a não é, de maneira alguma, elemento ativo, participante na construção do saber, e sim adestrado através da repetição, adestramento que poderá levar ao “êxito” em vestibulares e concursos.
(Cabe aqui falar sobre a lucrativa lógica da competitividade impregnada no atual sistema de ensino, contudo, poderíamos nos perder do tema central do texto, as inovações que subvertem a lógica da sala de aula. Porém, deixo aqui uma sugestão de filme que ilustra bem a lógica da competitividade no ensino: “Os Três Idiotas” – deixarei o link do filme completo ao final do texto[4].
Só a título de curiosidade: na Índia os/as  jovens morrem mais de suicídio do que de qualquer outra causa. A competitividade do sistema é insustentável para muitos/as.)

Segundo Tião Rocha, educador, antropólogo, fundador do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento, organização não governamental sem fins lucrativos, criada em 1984, em Belo Horizonte (MG),  “é possível fazer educação sem escola”, entendo aqui a palavra escola no sentido da atual configuração do ensino básico, médio e superior.  “Não precisamos de sala, precisamos de gente. Não precisamos de prédio, precisamos de espaços de aprendizado. Não precisamos de livros, precisamos ter todos os instrumentos possíveis que levem o menino** a aprender. Não podemos ter um modelo como a escola, que deixa a maioria para trás, aproveita o mínimo e vai “informando” gente que não é crítica, que não pensa, que não age, que não é bom cidadão.” . Esta fala do educador  Tião Rocha me faz pensar em extensão. Na prática extensionista o importante não é a sala, são as pessoas, não há uma figura de autoridade como um professor, pois  “aluno” ,“professor” e “extensionista”  são a mesma pessoa, todos têm algo a aprender, assim como têm algo a ensinar, todos são elementos ativos no processo e têm seus espaço de protagonismo.o sistema é insustentável para muitos/as.)

glossario_tecnologias_educacaoAcredito com entusiasmo no sucesso das redes “crowd” e nos novos modelos de educação e trago aqui o trailler do filme independente “Educação Proibida”, que foi inteiramente financiado por doações por meio de uma rede de crowdfunding. A proposta era fazer com que os doadores também se tornassem coprodutores do filme.

http://youtu.be/BPME2GHBe9s

PS:  Após a formação do PET neste final de semana, a ideia de educação fora dos muros ficou ainda mais clara para mim. Obrigada pelos momentos de trocas e reflexões nessa formação linda, obrigada pelas risadas, pelas rodas de discussão, pelas dinâmicas e tudo mais!

*Coloco aqui multidão fazendo referência ao termo”crowd” , multidão em inglês.
** O autor usa “o menino” de forma genérica, portanto, leia-se os meninos e meninas.


[1] Tradução livre da fala de Ginés Del CaStillo da Escuela de La Nueva Cultura La Cecilia, Argentina para o trailler de “A Educação Proibida”

[2] Glaudêncio Frigotto, ver: As reformas educacionais no Brasil, Dermeval Saviani (videoconferência)

[4] Link para o filme “Os Três Idiotas” (Completo e com legendas em portugês): http://youtu.be/9YJDVhGZ3vQ

De que lado?

Por Pedro Argolo e Luisa Hedler   

04Das madames, apenas uma. Não vemos Satã, usurpada de seu palco; em seu lugar passeia Madame Bovary. Não há arsênico.

Ambientada no início do século XX, a novela das seis da Rede Globo, “Lado a Lado”, tem um enredo que parece destoar do que estamos acostumados a ver (e criticar) nas novelas brasileiras. Para quem é cult demais para assistir a novelas, a história gira em torno da amizade entre Laura e Isabel, duas mulheres bastante diferentes, mas que encontram na solidariedade diante das adversidades o ponto focal de seus relacionamentos. Laura, apesar de ser uma mulher progressista e que quer trabalhar fora, enfrenta a resistência de uma família aristocrática e conservadora, em especial de sua mãe, a antiga baronesa, que lamenta o fim da escravidão e a perda de seus antigos privilégios. Já Isabel, filha de escravos alforriados, trabalha fora desde pequena porque precisa, embora tenha como vocação a dança brasileira. No meio do caminho, há casamentos arranjados, divórcios, luta contra a criminalização do candomblé e da capoeira, a revolta da vacina, jornais subversivos e mais toda a sorte de dificuldades que as mulheres encontram apenas por terem nascido.

Vamos falar de novela não só porque essa parece ter algo de diferente, mas sim porque a própria novela é uma fonte riquíssima para levantar reflexões sobre as mais variadas coisas – mas não com um elitismo condescendente de quem analisa de cima o entretenimento das massas, e sim do ponto de vista de quem assiste, se interessa, e (deus me livre!) se diverte com isso também. Isso não nos impede, entretanto, de refletir a respeito da forma como a novela lida com as representações de gênero, de raça e de sexualidade pautadas (ou, mais eloquentemente ainda, não pautadas) no retrato de época que pretendem fazer.

01Os dramas e as dificuldades que as protagonistas precisam enfrentar são de arrancar os cabelos das perucas longas: além de normas rígidas generalizadas a respeito de qual seria o comportamento aceitável para as mulheres, qualquer mínimo desvio do padrão esperado leva a consequências muito sérias. Por fazerem escolhas autênticas que se desviem do padrão colocado, mulheres são abandonadas, discriminadas, e sofrem todo o tipo de violência, desde o senador que contratou Laura para ser sua secretária, tentou abusar sexualmente da moça e depois ainda disse “que ela provocou”, quanto Isabel que, ao ser enganada e engravidar de um rapaz, é expulsa de casa e repudiada por toda a comunidade em que vivia.

Infelizmente, muitos desses elementos não precisam do cenário do início do século XX para acontecer – e a novela poderia, inclusive, ser um veículo de crítica aos padrões machistas da sociedade que persistem até os dias de hoje. Essa ponte temporal, porém, não é feita de nenhuma forma, e fica apenas a cargo da espectadora ou espectador olhar para os lados e enxergar elementos do século passado muito vivos no nosso cotidiano. Ou, como há grandes chances de acontecer, de parar em uma catarse preguiçosa de “ufa, ainda bem que as coisas não são mais assim”. Colocar essas demandas muito atuais em um cenário de passado pode ter também um efeito neutralizante. Deslocamento ideológico que se repete no retrato exclusivo da sexualidade burguesa, que apesar da diversidade de situações que pretende abarcar, não consegue fugir da triangulação do desejo do sujeito em termos de papai-e-mamãe.

A novela chegou ao fim na última sexta feira, e só agora a autora da novela, Claudia Lage, em entrevista para o site da globo, admite que a novela é feminista. Admite? Depois de meses de uma narrativa centrada nas injustiças pelas quais as mulheres passavam, e os esforços – tanto cotidianos quanto heroicos – para mudar tal situação, alguém ainda hesitaria em dizer que é uma novela feminista? No início do século vinte, muitas mulheres já tinham lutado por essa bandeira no Brasil e fora dele, mas a Grande Palavra Feia com “F” não foi mencionada sequer uma vez ao longo de todos os capítulos. Pensando em um cenário atual em que a pauta feminista se coloca com força no espaço público, o que significa dissociar essas lutas do passado do que as mulheres se propõem a lutar atualmente?

02

Primeiramente, omitir essa designação do movimento faz parecer que o feminismo é algo “novo”, negando sua continuidade, como se as lutas mais básicas pelo reconhecimento e pelo respeito feitas no começo do século não tivessem nada em comum com os movimentos atuais de erradicação da violência contra a mulher, de extensão de direitos sexuais e reprodutivos e tantos outros.  O feminismo naquela época, então, é apresentado como não-existente. Apesar de todas as lutas que claramente se identificam com o passado – e, em algumas instâncias, o presente – do movimento feminista, a novela limpa de suas narrativas essa palavra que tanto contamina politicamente e liga a nossa situação atual. Sem essas desconfortáveis pedras no caminho que falam de um passado da novela que está bem presente na atualidade, a troca de informação com as pessoas espectadoras fica bastante confortável. Os diálogos, por fim, planos como as calçadas francesas.

Regulares são os beijos de Carlos e Emma. Diariamente ele beijava Mme. Bovary na mesma hora, no mesmo lugar, da mesma forma.  Na monotonia dos jantares, as conversas lineares e repetitivas. Retrato da vida burguesa do século XIX, o romance de Flaubert chocou a sociedade francesa de seu tempo ao apresentar as tentativas de uma mulher de escapar do sufocamento imposto por um casamento tedioso e pelas exigências da moral dominante. No final, obviamente, ela se mata – tomar arsênico é a única saída diante do inconcebível que ela faz – mas para os olhos de hoje, um calmante e um copo d’água substituiriam tranquilamente o veneno.

As calçadas alquebradas da Lapa, e os desvios mais escandalosos que nela habitavam, ficam de fora das transgressões bovarianas da novela. Invejáveis são as ruas francesas. Era outra a madame que reinava no Rio de Janeiro naquela época. O mundo dos bordéis, da boemia, do exercício de sexualidades desviantes, tão vivo e presente, fica suprimido na narrativa de Lado a Lado, que toma como totalidade a sexualidade burguesa que necessitava do (não-)lugar de exceção dos bordéis para existir. Lázaro Ramos, que na novela interpreta o capoeirista Zé Maria, já interpretou Madame Satã, uma personagem famosa do imaginário do bairro carioca. Negro, pobre, homossexual, nasceu João Francisco e revelava-se, nos palcos, a mulata do Balacochê. Era comum, na época, que donas de bordéis contratassem garotos para atuar como prostitutos, se necessário, para os clientes. Eram nos bordeis que os pais de família aliviavam seus excessos de desejo sexual para permitir a manutenção da família tradicional. Essa ausência de representação não se faz sentir apenas internamente na narrativa da novela, mas também reflete desagradavelmente nos tempos de hoje como que anunciando que a sexualidade desviante do modelo burguês fosse também uma coisa nova, uma “modinha”.

03Tensa, omissa e neutralizadora, a novela mesmo assim traz inovações que não podem ser ignoradas – são poucas, mas ótimas, as novelas que trazem o elo entre duas mulheres (seja de vingança, seja de amizade) como o motor principal de uma narrativa. Esperamos, enfim, que essa seja uma primeira (e tímida) tentativa de uma tendência nova nas novelas – que elas possam, enfim, desbravar mais ainda as contradições que levam à reflexão.

Sonho que se sonha junto

Por Nohara Coelho   

Sonho que se sonha só  

É só um sonho que se sonha só  

Mas sonho que se sonha junto é realidade  

03Em época de resultado de vestibular sempre fico um pouco (bastante) nostálgica desses tempos onde tudo é possibilidade. Presenciar o momento do resultado, testemunhar a expressão no rosto daqueles que foram aprovados, quase sempre muito gratos, extasiados, incrédulos, mais conscientes do privilégio do que tomados de orgulho (ao menos naquele mínimo instante). Quando descobri que passei, quase não acreditei, cheguei à paranoia de achar que havia algum erro que logo seria esclarecido. Só tive certeza de que estava dentro após o registro. “Pronto, se alguém se confundiu, problemas, tenho minha matrícula!”

Ali, naquele segundo em que o dedo acha o nome na lista, em que a pesquisa no site mostra o seu nome, nasce um sonho, aquele sonho gestado nas madrugadas de estudo durante o ensino médio ou no cursinho. O sonho de viver o desejado e restrito mundo da Universidade. Aquele sonho que fica apertado, encoberto, praticamente sufocado durante os momentos quase insípidos de domínio da técnica de fazer a prova do CESPE. E você quase sempre faz promessas ao seu sonho: quando eu passar eu vou… Mas, enfim, isso fica para traz num segundo e você e o seu sonho de repente estão no mundo da Universidade Pública. São tantas as possibilidades e tantos os espaços a serem ocupados que é fácil ficar um pouco perdida nesse período.

Acredito que seja esse um daqueles momentos definidores da vida. Para mim, foi quando negligenciei ao sonho, me deixei carregar através do curso, aula após aula, sem muita reflexão, sem que nada ali me cativasse, como se estivesse numa enorme sala de espera, aguardando algo acontecer e me carregar para a vida. É desse jeito que posso dizer que sou também um pouco caloura, encontrando na Universidade, após 3 anos de curso, espaços nos quais é possível fugir da lógica rígida e carregada que pode ter um curso de Direito restrito ao espaço da sala de aula.

02A descoberta/construção do Maracatu Atômico, a participação no Centro Acadêmico, o gosto pelo Movimento Estudantil, e, agora, o próprio PET. Espaços de construção coletiva que me permitiram experiências que de outro modo, isolada, não poderia ter. Viver a Universidade, em toda a sua potencialidade, é algo que descobri que só pode ser feito junto dos outros. É colocar o sonho para experimentar, para se misturar com outros sonhos, fagocita-los, torná-los seus também. É se envolver num projeto de Universidade e se engajar na mudança daquilo que lhe incomoda (seja a conformação machista dos espaços, o Projeto Pedagógico, a configuração política da Universidade seja lá o que for).

A sala de aula, por vezes monológica e enfadonha, para mim, não foi suficiente, não consegui me apaixonar por aquilo que julgava ser o meu curso. Mas não é, as aulas são apenas uma parte dessa experiência (e talvez nem a mais importante) a que tem acesso os poucos privilegiados que ingressam na Universidade. São nesses lugares de inquietação, nos movimentos, projetos, grupos e coletivos mais diversos em que muitos encontram espaço de acolhimento, afirmação e identificação, onde se ganha coragem para se colocar no mundo, para tomar a voz e dizer, sem vergonha ou medo, eu sou gay, eu sou lésbica, eu sou negro/a. Eu sou mulher e vivo num mundo machista. Onde se pode subverter a ordem do estabelecido ou, ao menos, se manter sonhando e construindo o dia em que isso será possível. Sonhar junto é como se mantém o sonho vivo, calouro, capaz de se impressionar, louco para sair de si, se transformar, transformar o mundo em volta. 01