Procure o monstro no espelho

Por Luisa Hedler

Já vivemos em um mundo de monstros: dos sacis, dos lobisomens, dos demônios, das criaturas horríveis que habitavam a noite, a floresta, o estrangeiro e os nossos sonhos. Tivemos séculos e mais séculos de narrativas mitológicas e literárias que conseguiam com maestria condensar o conceito tão etéreo do Mal em carne e osso (ou ectoplasma, ou qualquer tipo alternativo de matéria), ou melhor dizendo, na matéria ainda mais sólida da qual são feitas as construções da mente humana. Falava-se em criaturas de aparência fantástica – ou, pior ainda, de uma aparência comum que mascarava algum horror oculto -, com características aberrantes e conseqüências desastrosas para quem cruzava seu caminho. Falava-se, sobretudo, do Mal encarnado em uma entidade que se afasta da natureza humana.

 A origem da palavra monstro, aliás, significa justamente isso: a ocorrência de algo raro, aberrante, anti-natural e que, de acordo com a cultura Greco-romana, significaria um aviso divino de que alguma falta havia sido cometida. Não eram necessariamente “maus” em si – Aristóteles chegava a classificar os monstros apenas como ocorrências raras, sem a fúria divina – mas apresentavam aparência desviante, prodigiosa, como minotauros, medusas, esfinges, quimeras. Fora da mitologia, as monstruosidades eram deformações físicas, hermafroditas (que na época eram consideradas como maravilhas), e até mesmo a ocorrência de gêmeos. É monstruoso aquilo, enfim, que não ocorre habitualmente.

 Ao longo das páginas de uma história descuidada e apressada, nos saltam aos olhos as criaturas fantásticas das escuras florestas medievais, os fantasiosos demônios confessados aos gritos nas torturas inquisitoriais, até que todos os cantos escuros da mente humana possam ser banidos pelas grandes tochas Iluministas, colocando fim a qualquer refúgio que os monstros ainda pudessem ter na humanidade… Só que não.

Em um tempo dito pós-mitológico, os monstros ainda nos assombram da literatura (e, posteriormente, dos filmes), para dar um corpo a sentimentos de horror diante de nossa própria condição: o descontrole da ciência nos encara nas frases acusadoras do monstro de Frankenstein; a imortalidade predatória assume ares aristocráticos com Drácula, de Bram Stoker, e incontáveis contos e filmes de horror se proliferam até agora para explorar e esmiuçar cada medo e cada temor que ainda persiste na mente humana distraída.

Isso sem falar nos nossos monstros tão reais.

Porque, uma vez que não há mais os mitos para condensarem a realidade do Mal em algo exterior, nas palavras de Giacommo Leopardi, o mal está em toda parte e tudo é mal. O mal é cometido, mas também é sofrido, e, como sofrimento, é a essência dos seres vivos”.[1]

Os monstros, em sua função social e política, serviam como uma forma de representação para exteriorizar características indesejáveis em alguma sociedade e projetá-la para fora, desempenhando o papel de mantenedor de regras sociais: “Grupos sociais precisam de fronteiras para manter seus membros unidos dentro delas e proteger-se contra os inimigos fora delas. (…) As fronteiras existem para manter medida e ordem; qualquer transgressão desses limites causa desconforto e requer que retornemos o mundo ao estado que consideramos ser o certo. O monstro é um estratagema para rotular tudo que infringe esses limites culturais.(…) Monstros fornecem um negativo da nossa imagem de mundo, mostrando-nos disjunções categóricas.”[2]

Esse tipo de discurso não nos soa estranho – podemos falar do ponto do político em Schmitt, na vida nua de Agamben, enfim, no Outro – mas prefiro eu falar da figura fantástica, mas ainda mais próxima, do monstro dos dias atuais. Quais características de nossa sociedade queremos desesperadamente exteriorizar, quais recônditos do íntimo de nossa cultura queremos nos livrar e jogar naquele que é [ou ao menos, parece] diferente de nossa natureza?

É só ligar a televisão por dez minutos que os encontramos: o assassino, o estuprador, o político corrupto, o pedófilo, a matadora de criancinha, o terrorista, a mulher de burca, a criança prostituta, Hitler, Stalin e o mendigo que faz você atravessar a rua quando está andando na calçada. Afinal, cada um e cada uma, à sua maneira, representa algo que rejeitamos como pessoas “do lado de cá” da humanidade, das famigeradas “pessoas de bem”. São aqueles cujo comportamento não se explica pelas regras da racionalidade,

O problema da pergunta por nossos monstros atuais – e o pior, da possibilidade bem concreta de resposta – é justamente que, na sociedade que se pretende cada vez mais interligada, não existe mais lado de fora. Se devem cair por terra as distinções, somos todos parte da mesma enorme (e infinitamente barraquenta) família humana, e não há mais uma linha fronteiriça para onde empurrar nossos monstros.

A figura do monstro é confortável porque não exige muitas explicações para os porquês do mal, muito menos por sua extensão – afinal, o mal se encerra na figura do monstro raro e anti-natural, que se afasta e diferencia automaticamente das pessoas consideradas normais.

Como figura mitológica, é muito interessante por conseguir expressar e condensar em uma metáfora uma sensação que por vezes é indizível e inexplicável; agora, da perspectiva de uma sociedade que se pretende democrática e composta por cidadãs e cidadãos, é algo inadmissível.

Não estamos falando aqui de metáforas etéreas, mas sim de pessoas de carne e osso, que foram criadas e praticam suas ações dentro de um contexto específico – e, o que talvez seja mais desconcertante, um contexto que ajudamos a construir com nossas políticas estatais e normas sociais. Assim como o monstro-metáfora, o “monstro” de carne e osso como tal é uma projeção do indesejável e indizível da sociedade que habita – um fardo pesadíssimo para um ser humano que é o monstro da vez, que carrega tudo nas costas para que a sociedade “do lado de cá” possa fazer sua dieta da consciência.

O caso mais clássico (ou talvez mais próximo, por meu caminho acadêmico) seja o caso do estupro. Uma das grandes dificuldades de lidar com esse tema com a devida seriedade se deve ao fato de que muitos estupradores sequer se reconhecem como tal – afinal, o estuprador é o monstro com sexualidade descontrolada que fica à espreita em locais ermos para castigar as mulheres que se vestem ou agem de forma “provocante”, e não um cara legal, penteado e perfumado, com família e amigos, que trabalha e estuda e que “força a barra” com aquela novinha gostosa porque “bêbada daquele jeito e com aquele mini-short tava na cara que queria dar.” Ou um marido que está só exigindo o que é de direito no casamento. Ou o namorado que vai em frente e não entende porque a menina disse que queria, mas depois ficou se fazendo de difícil, dizendo que nem queria mais… Eu poderia continuar por páginas e páginas. O sistema penal vive cheio desses exemplos.

Antes que o corifeu dessa tragédia grega puxe a ladainha de “apologia aos marginais!”, não quero em momento algum excusar da responsabilização por seus atos de qualquer pessoa que cometa algum ato considerado monstruoso – se punível por lei, diga-se de passagem – mas sim de um olhar mais pensado sobre a situação que cercam os tantos casos da monstruosidade. Muitas vezes, os monstros são simplesmente exacerbações ou interpretações exageradas de normas sociais que já estão presentes no contexto social. O monstro que dirige bêbado e mata uma família inteira merece morte, mas qual o papel que a bebida alcoólica tem na nossa sociabilidade? O monstro que bate em mulher foi educado com que ideia a respeito das mulheres? São perguntas complicadas, e muitas respostas acabam sendo doloridas e chegando perto demais de nossos hábitos e crenças. É muito mais fácil rejeitar a reflexão e se refugiar na metáfora do monstro, tão raro, tão distante…

 …mas  se quiser mesmo ver um monstro, é só olhar no espelho.


[1] Op cit. JEHA, Julio (org). Monstros e Monstruosidades na Literatura. Ed. UFMG. Belo Horizonte: 2007.
[2] JEHA, Julio (org). Monstros e Monstruosidades na Literatura. Ed. UFMG. Belo Horizonte: 2007.

Grupo de Estudos do PET-Direito

Grupo de Estudos do PET-Direito: Que País é esse?

O PET-Direito convida todos/as para a nova fase do seu grupo de estudos. Iremos trabalhar o tema Brasil, buscando enveredar em obras históricas e sociológicas sobre a nossa realidade. Percorremos não só as diferentes fases pelas quais nosso país passou, mas tentaremos discutir problemas específicos, como as questões de grupos marginalizados ou a nossa gritante desigualdade econômica, sempre tentando relacionar essas partes com aspectos mais gerais da nossa conjuntura histórica. 

Ressaltamos que o grupo é aberto e separado da dinâmica mais perene do PET. Além disso, concederemos certificados de participação para aqueles/as que se integrarem nessa jornada.

As reuniões acontecem no Aquário (FA), nas quintas-feira, às 14h00. 

Cronograma: 

20/09 – Cidadania no Brasil: o longo caminho, José Murilo de Carvalho.
 
27/09 – O Tempo Saquarema, Ilmar Rohloff (1ªParte: Entre as páginas 1 e 121).
 
04/10 – O Tempo Saquarema, Ilmar Rohloff (2ªParte: Entre as páginas 121 e 288).
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Recesso
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01/11 A hora da estrela, Clarice Lispector;  O quinze, Rachel de Queiroz (Leitura para o recesso)
 
08/11 – Conorelismo, Enxada e Voto, Victor Nunes Leal (Prefácios, Capítulo I, Capítulo V e Considerações finais [Capítulo VII]).
 
22/11  O Homem Cordial, Sérgio Buarque de Holanda.
 
29/11 – O espetáculo das Raças, Lília Moritz Schwarcz (Introdução, Capítulo I, Capítulo II, Capítulo V e Conclusão)
 
06/12 – História das Mulheres no BrasilMary Del Priore (Artigo 6ª; Artigo 10º; Artigo 11º) e Amar, verbo intransitivo, Mário de Andrade.
 
13/12  Sociologia do Negro Brasileiro, Clóvis Moura (Primeira parte: Capítulos I, Capítulos II, Capítulos III e Capítulos IV).
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Recesso
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07/02 – A revolução burguesa no Brasil, Florestan Fernandes (Primeira Parte) O modelo político brasileiro, Fernando Henrique Cardoso. (Capítulo III, Capítulo IV, Capítulo VI, Capítulo IX).
 
14/02 – Pobreza e Cidadania; Vera da Silva Telles.
 
21/02 – Nova classe média, Marcio Pochmann.
 
28/02 – Retratos do Brasil Homossexual – Fronteiras, Subjetividades e Desejos, Horácio Costa (org.) (Parte I e Parte IV).
 
07/03 – O Século Perdido – Raízes históricas das políticas públicas para a infância no Brasil, Irene Rizzini.

A Despinguinização do Ego

Por Fernanda Potiguara

Em nossas críticas à universidade está sempre presente a relacionada ao processo de pinguinização sofrido pelos estudantes universitários de direito. Pinguinização do corpo, porque, com o tempo, o estudante torna-se desajeitado como um pinguim, por ter seus movimentos corporais e divagações mentais lapidados pelo enquadramento “necessário” à formação jurídica.

É o lento processo de inserir no aluno a marca registrada de seus mestres, pinguins “já formados”, com toda a insensibilidade que lhes é inerente. A academia seria, portanto, uma fábrica de emolduração de discípulos, à imagem e semelhança de seus mestres, que seriam figuras ideais. Com eles, os novos pinguins aprendem que tudo o que precisam saber para “conquistar” é o exposto na universidade, conteúdo que eles devem assimilar e reproduzir com fidelidade.

Portanto, a lição “um” é sobre o requesito essencial para uma boa desenvoltura no mundo jurídico: a grandiosidade do saber, tendo por consequência a sua própria superioridade como detentor desse conhecimento. Trata-se do pedestal, onde o mundo é visto de cima para baixo, onde todos parecem estar num nível inferior, com exceção de um seleto grupo de indivíduos.

Mas, como já dito, essa é uma nossa crítica constante. A marcha anti-pinguim, como dizia Warat, ou seja, o processo de despinguinização tem sido lema- felizmente- de vários estudantes. Acontece que nesse movimento de volta do “mundo metafísico e jurídico” ao “mundo comum” surgem dificuldades, ainda que haja a mais boa intenção.

A luta contra o ensino doutrinário, que não permite nem a autonomia do aluno nem a crítica, é bem assimilada como bandeira pelos “despinguinizandos”… a crítica ao jeito de se vestir padronizado também recebe aplausos. Mas a crítica ao desdém quanto a outros saberes, é visto com ressalvas.

Na teoria, a beleza da complexidade dos saberes ganha o discurso, com acaloradas vivas; mas a prática encontra um obstáculo imponente: o ego pinguinizado. Afinal, desde que se entra na Universidade não se é mais uma “pessoa comum”, mas um futuro doutor, um eminente orador, um ser superior. Até porque, o saber universitário, por sua magnitude e complexidade, exige dedicação peculiar, leitura de textos dificílimos, interpretações infinitas… Igualar o “detentor” desses saberes a qualquer outra pessoa pode ser considerado um ultraje.

E assim criam-se níveis hierárquicos não só dos novos pinguins com relação ao “resto do mundo”, mas ainda (pasme!) entre eles mesmos, de acordo com a capacidade que têm de assimilar textos ininteligíveis, de autores tão “superiores” que não podem ser compreendidos por qualquer leitor, se é que o pode ser por algum. Quanto mais incompreensíveis as leituras que o aluno tem melhor ele é, mais culto, mais inumano.

E se isso acontece nos corredores de uma faculdade extremamente seletiva com a entrada de seus membros discentes e docentes, quanto mais quando comparamos esse saber altivo com qualquer outro tipo de saber. O máximo que se alcançará é a hipocrisia de se considerar importante o “saber comum” no discurso.

Faço essa crítica aos egos, incluindo o meu mesmo, que tantas vezes peguei tentando se sobressair, com esses mimos fúteis que nos fazem dentro do processo de pinguinização, na formação dessas aves superiores.

Se não vemos no outro que está ao nosso lado no processo de pinguinização, alguém capaz de entender nossos pensamentos complexos, então, ainda somos pinguins, que discursam sobre o “saber popular” como uma espécie de saber tão válido como os nossos, mas que não acreditam de fato na igualdade de saberes e muito menos na igualdade das pessoas “detentoras” desses saberes.

Diálogos sócio-animalescos em: os Saltimbancos e a vida (des)humana

Por Hugo Sousa da Fonseca

Às vezes me sinto como alguém que não tem outro assunto. Mas paciência… fui me apaixonar pelo teatro e agora vai ser Freud recusá-lo na minha vida. Perto de postar minhas reflexões aqui nesse blog, estive pensando em como publicizar nossas atividades na oficina de Teatro na Estrutural. Não por mero “vejam o que fazemos”, mas por um “venha conosco, acrescente e contribua”. Assim, já fica aqui o convite!

Um dos nossos projetos é a apresentação de uma peça teatral, provavelmente no fim desse ano. A idéia é encená-la para a comunidade da Estrutural, na UnB e também onde quer que sejamos convidados. A peça escolhida foi Os Saltimbancos, de Luiz Enriquez e Sérgio Bardotti, na versão de Chico Buarque. Trata-se de um musical cujos personagens são humanos-animais ou animais-humanos, eu realmente não sei. Nas formas de falar e andar, no tom de voz, no figurino e maquiagem, os animais são recorridos, cada qual com sua história, porém, por outro lado, essa zoomorfização está sempre traduzindo pretextos para escancararmos criticamente a vida humana, com toda a complexidade das relações sociais.

I – Saltimbancos?

Um pouco da trama está subentendida no título. Como sugere o burro, Saltimbancos (que, segundo o dicionário inFormal, são integrantes de um grupo de nômades-atores que vão de um povoado a outro fazendo exibições de circo e comédia, em troca de dinheiro ou comida e hospedagem) poderia simbolizar bem aquele grupo de cantoras/es que anda pelas ruas cantarolando suas sinas e convidando cada vez mais pessoas para acrescentarem voz, experiências diferentes e novos sonhos. Porém, andar e cantar por aí não é o único ofício saltimbanco. Com esse nome, enfatiza-se também o fato de que para ser integrante desse grupo, é preciso estar em constante aprendizado, utilizando as garras também para a cada dia ser um(a) cantor(a) melhor. Desse modo, aquela trupe de animais cantores construía sua identidade de grupo, à medida que amenizava alguns egos, mas sem perder a riqueza de se construir nas individualidades, bem marcantes por sinal.

II – O Jumento

Limão mexerica, mamão, melancia
A areia, o cimento, o tijolo, a pedreira
Quem é que carrega? Hi-ho
Jumento não é
Jumento não é
O grande malandro da praça
Trabalha, trabalha de graça
Não agrada a ninguém
Nem nome não tem
É manso e não faz pirraça

É, sem dúvidas, o líder de todo o grupo. Sensato, ponderado, e bem (no sentido de muito) vivido, caminha rumo à cidade com a idéia de ser cantor: “já que eu não sei fazer nada, vou virar músico. Hoje em dia todo mundo canta!”. Assim, ele ia à cidade para tentar concretizar essa vontade, que não chegava a ser um sonho, mas uma nova saída para sua vida, sofrida.

A possibilidade de sonhar talvez fosse algo que a dura realidade tivesse castrado nessa personagem. O Burro, na verdade, simboliza alguém realmente muito cansado. Cansado de ter seu corpo e sua força como meio de sustentação da riqueza alheia; cansado de trabalhar, trabalhar e trabalhar e ainda assim desagradar a muitos, sem poder descansar, exausto. Típico trabalhador alienado, cuja relação com o prazer e o próprio corpo é unicamente relacionada à satisfação de necessidades, o Burro chega a algumas conclusões no decorrer da peça, que o configuram com um perfil manjado da dinâmica social opressora, mas que se sente impotente frente a ela. Parece alguém velho. Imagino-o encurvado, com uma corporeidade afetada pelos tantos anos de uma vida pautada pela mecanização estressante e cansativa.

O Jumento caminha: quer novos rumos, o destino é a cidade. A música, as/os novas/os amigas/os, Os Saltimbancos o fizeram ter mais ânimo em viver. O primeiro a compartilhar dessa experiência musical, junto ao Burro, foi alguém bastante peculiar…

III – O cachorro

Estou às ordens
Sempre, sim, senhor
Fidelidade
À minha farda
Sempre na guarda
Do seu portão
Fidelidade
À minha fome
Sempre mordomo
E cada vez mais cão

Aparece pela primeira vez dormindo em cena. O Burro o vê sonhando, gritando ao dormir. O Cachorro acorda assustado. Acorda servindo. Seu bom dia é um desesperado: “Sim, senhor. Em que posso ajudar?” Mordomo de quem quer que apareça, aquele cão se reveste de continências. Ele me lembra a submissão militar, porém com um pouco menos de disciplina e uma dose maior de desatenção e de medo de esquecer-se da sua essência servil. Ele é confuso e não sabe ao certo discernir a respeito de a quem realmente servir, o que o faz se encurvar perante qualquer pessoa que esteja à sua frente.

Jumento– Opa calma, calma companheiro calma! Eu não quero ser o seu patrão! Não quero ser o seu patrão!

Cachorro – O que? O senhor não quer ser meu patrão?

Jumento – Claro que não! Deixa disso! Eu sou um pobre coitado como você! Sou um pau de arara.

Cachorro – Ah sim. Seu pau de arara. As suas ordens. Em que posso servi-lo? Onde quer que eu o leve?

Confundir a quem servir gera um estranhamento muito grande. Não que à figura de determinadas pessoas seja aceitável esse encurvamento, mas é que essa prática segue uma lógica bem marcante, não mais apreendida por esse cão perdido em meio à mecanização de seu ofício. O Cachorro traz um debate no sentido de que autoridades não são qualquer um(a). Jamais alguém como o Burro estaria à altura de uma reverência! O Cachorro se esqueceu, mas nossa sociedade divide muito bem os papeis que cada pessoa merece representar. Recortes classistas e raciais, por exemplo, controlam a possibilidade ou não de hierarquizar as relações entre pessoas e os meios para que isso aconteça.

Em Globalização e as Consequências Humanas, Bauman fala de Turistas e Vagabundos. Esse cão me remonta à figura do vagabundo. Alguém sem escolhas: que não tem espaço onde está e que não pode se mover para um lugar melhor, um “viajante sem ter para onde ir”, servo daquilo que o marginaliza. O cão/vagabundo é alguém que, ao se ofuscar, dá brilho ao espírito Turista, que, por sua vez, transforma muita gente em Vagabundos, em cães a seu dispor, para se manter em uma posição confortável de privilégio.

 O próprio teatro segue essa lógica. Alguém que entra em cena é apenas uma nova personagem na trama, com importância a ser aferida com o decorrer da peça. Alguém que entra em cena e faz com que todas as outras personagens se voltem para si de modo subalterno, se configura como um(a) soberano/a. A conclusão a que se chega é que sem pequenos, não há grande(s). No fim das contas, há de haver um Burro limpando o chão por onde pisarão as pessoas a quem os cães abanarão suas mãos, chamando-as de Senhores… sim, Senhores!

Burro e Cachorro formam juntos, primeiramente, um duo. Caminham. Mas não estarão sozinhos por muito tempo. Logo aparece a galinha, cujo dono matou toda cria e a faria de canja logo, logo. São um trio, estão empolgados, mas não fechados. Tem gente chegando!

IV – A gata e sua bolha

 O meu mundo era apartamento

Chega miando a Gata. Manhosa, preguiçosa e, à priori, com um inimigo: o Cachorro. Ele não gosta de gatos e já avisa a todos. O único motivo que apresenta é o fato de que seu avô o mandava reproduzir isso, de modo que odiava gatos porque sempre foi assim. O Burro adverte e isso nos faz entender muito acerca das opressões que existem no nosso mundo. Irritado, o jumento desabafa:

Jumento Chega ! Chega ! Ahhhhhhh …. pelo jeito vai ser difícil domar esse cachorro que acha normal seguir uma tradição, que gostava de maltratar o seu próprio semelhante! Primeira lição do dia : O melhor amigo do bicho , é o Bicho!

Com o argumento da tradição desconstruído, a Gata é inserida com boas vindas ao grupo. O cachorro se dá conta da imbecilidade daquele ódio com relação à gata. Ela conta sua história. Vivia em um apartamento, trancada, não podia tomar vento. Tinha tudo do bom e do melhor, mas não se divertia, sequer podia correr. Um dia, sendo aliciada pela gataria, teve a experiência da rua. Relatou que nunca se sentiu tão livre em toda sua vida. A Gata, assim, nos mostra a importância de ocuparmos os espaços que são públicos, de darmos uma menor importância ao virtual, ao individual, que só afasta as pessoas, e termos audácia de estar sob o céu aberto compartilhando vida com os Outros.

Pobres, porém livres. É o grande lema dessa gata que, agora, vive uma nova rotina: não mais de comida boa e sempre na mão, mas de diversão e liberdade. Expulsa de casa, mas empoderada, liberta, dona de si. Ela também é Saltimbanco, e caminha com os demais rumo à cidade: essa caminhada é longa e já está cansativa…

V – Animais sem-teto

Já andaram muito! Cansados, os Saltimbancos param em uma pousada para poderem dormir. Querem comida e um lugar tranquilo, porque no dia seguinte começa tudo de novo. Porém, se deparam com a seguinte placa:

Proibida a entrada

Exijo gravata e dados pessoais

Proibido aos mendigos e aos animais

Ahhhhhhhhhhhhhh!!!

E mais dia menos diaLealdade, Teimosia

O espaço da exclusão toma corpo. Proibido aos mendigos, proibido aos animais, proibido aos animais-mendigos… para onde ir? A nenhum lugar. A solução é ficar, ressignificar os espaços, ocupando-o. Essa placa deve ser desconsiderada e foi!

A lei da selva vai mudar

Todos juntos somos fortes

Somos flecha e somos arco

Todos nós no mesmo barco

Não há nada pra temer

Todos juntos somos fortes

Somos flecha e somos arco

Todos nós no mesmo barco

Não há nada pra temer

Ao meu lado há um amigo

Que é preciso proteger

Todos juntos somos fortes

Não há nada pra temer

E no entanto dizem que são tantos

Saltimbancos como nós

Os Saltimbancos se organizaram e não aceitaram como natural o fato de não terem onde dormir. Juntas/os, foram vitoriosos. Puderam dormir em paz. Não preciso nem dizer que isso nos remonta aos movimentos sociais, na luta que não termina pelo acesso à terra e o direito à cidade.

VI – Cidade ideal, só que não.

Enfim, chegamos ao ponto que toca a cidade. Tanto caminhar, tantas dificuldades, tantas experiências novas para chegar até aqui. A cidade é mencionada a todo momento. Muitos idealismos são imaginados ao longo da viagem. Cada animal vai formando nas suas mentes o que aquela cidade deveria ter, para ser perfeita. O cão, por exemplo, queria vários postes e, assim, uma cidade ideal ia sendo construída.

Deve ter alamedas verdes

O sonho é meu e eu sonho que

A cidade dos meus amores

Porém, experiente que é, o burro já advertia:

A cidade é uma estranha senhora

Que hoje sorri e amanhã te devora

O sonho da cidade ideal foi, então, roubado por essa realidade desigual. Que espaço em uma cidade tem uma trupe de artistas, que chega querendo mostrar sua música? Sendo formada por burros e cães, gatos e galinha fugidos, dentre outras personagens socialmente excluídas, não há algo mais a se esperar além de favelização e marginalidade aos Saltimbancos.

Porém, o fim da história não vem ao caso, mas o pouco que ficou até aqui já sugere diversos fins. Os Saltimbancos chegam à cidade? Fazem o quê lá? Param naquela pousada? Não quero dizer. Concluir, aqui, pode representar uma taxação desnecessária. O fato é que, bons ou ruins, os finais dependem da reprodução ou não de determinadas situações. Apresentar toda essa história faz sentido no teatro na medida em que entramos em cena no palco da vida, com o objetivo de refletir e, principalmente, de intervir.

Vai aqui, então, um final pra esse que texto que é na verdade um começo. É o começo do nosso trabalho com Os Saltimbancos, mas já pode servir como um modelo de como será.

VII – Saltimbancos?

Não estou maluco repetindo título, nem desatento ao ponto de não reparar um erro de formatação. Minha idéia aqui é reafirmar o que estava no começo, quando expliquei a idéia do nome da peça. Enfim, é só para lembrar que, se somos Saltimbancos, é porque incorporamos aquele espírito de utilização das garras para nos tornarmos cada vez melhores e isso legitima nossa imperfeição.

No mais, obrigado pela leitura. Seja bem-vind@ aos Saltimbancos!

Haicai do CineCAL – Que País é Esse?

Por Guilherme Crespo

O Haicai é um poema de origem japonesa, tradicionalmente composto por três versos curtos. Sua “versão ocidental” e mais moderna traz alguma flexibilidade em relação à forma e ao conteúdo, apesar de ainda conservar os três versos (fonte: recanto das letras).

Inspirado pelo próximo CineCAL no Museu Nacional – Que País é Esse?, resolvi fazer alguns haicais relacionados com os filmes que serão exibidos e debatidos.

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ANJOS DO SOL
I
Roupa, alimento
De que adianta quando
A cama é tormento
 
II
Sou menina
Cinco conto e sou mulher
Prazer, Maria
 
 
CORTINA DE FUMAÇA 
I
Um, dois, três
Tragos, tiros. Silêncio.
Fui pro céu de vez
 
II
Rivotril Ritalina
Lugar de maconheiro
É na estufilha
 
MADAME SATÃ
I
Beijo, fantasio
Desde quando meu amor
é feito lixo?
 
II
Pobre, doente
Quer dizer então que
Não sou gente?
 
UM LUGAR AO SOL
I
Casa de atriz
Aqui de cima vejo tudo
Até a ponta do nariz
 
II
Pivete, bandida?
Elevador, garagem
E inseticida
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Que País é esse? CineCAL no Museu Nacional

Mais uma realização do PET-Dir UnB!


Partindo da interrogação: “Que país é esse?”, o CineCAL no Museu, em parceria com o Programa de Educação Tutorial (PET-Dir) da UnB, refaz o caminho da discussão sobre a conjuntura histórica brasileira, abrindo atalhos para a concretização de novos processos de cidadania e discute, por meio do cinema , temas como prostituição infantil, política nacional das drogas, marginalidade, paisagem urbana e mentalidade da elite. “Nossa intenção é indagar sobre a “cara” do Brasil, país tão encoberto e envolvido em preconceitos e entraves sociais”, enfatiza Antonio Carlos Maranhão, coordenador do projeto Cinema da Casa da Cultura da América Latina.

Realizado nos dias 18, 19, 20 e 21 de setembro, a partir das 19h30, no Museu Nacional da República, em Brasília, o evento vai reunir, sob a coordenação do professor da Faculdade de Direito da UnB, Alexandrino Bernardino, diversos especialistas para refletir sobre os temas abordados pelas produções audiovisuais realizadas, entre 2002 e 2010, por quatro cineastas brasileiros.

Horas complementares: Estudantes dos cursos de graduação que comparecerem a 75% do total do evento receberão certificado do PET-UnB relativo à 16h complementares.

Programação:

Dia 18 de setembro (terça-feira)
Anjos do Sol (Brasil). Direção de Rudi Lagemann, 2006, 92 minutos. Narra a trajetória de Maria, uma garota do interior do Maranhão prestes a completar doze anos de idade, que, no verão de 2002, é vendida pela família a um recrutador de prostitutas. Pensando que a filha estaria indo morar em uma casa de boa família, os pais não sabiam que Maria seria comprada em um leilão de meninas virgens e enviada para um prostíbulo localizado numa pequena cidade, vizinha a um garimpo, na floresta amazônica. Censura 14 anos

Após a sessão, haverá debate com Carolina Tokarski, professora de Direito da Universidade Católica de Brasília e funcionária da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. Natália Guedes, aluna do curso de Direito da UnB, e membro do PET, será a responsável pela mediação.

Dia 19 de setembro (quarta-feira)
Cortina de Fumaça (Brasil). Direção de Rodrigo MacNiven, 2010, 94 minutos. Com depoimentos de sociólogos, médicos e de pessoas como o jornalista e ativista, Fernando Gabeira, e do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o filme põe em xeque a política nacional e mundial de combate ás drogas. Censura 14 anos

O professor do Instituto de Biologia da Universidade de Brasília, Renato Malcher, é o convidado do debate, que será mediado por Augusto César, aluno de Direito e membro do PET/ UnB.

Dia 20 de setembro (quinta-feira)
Madame Satã (Brasil). Direção de Karim Aïnouz, 2002, 105 minutos. Cinebiografia do célebre transformista, João Francisco dos Santos, personagem lendário conhecido como Madame Satã. Malandro, artista, presidiário, pai adotivo de sete filhos, negro, pobre, nordestino, homossexual, freqüentador assíduo dos redutos marginais do bairro boêmio da Lapa, no Rio de Janeiro. Censura 18 anos.

Os convidados para o debate são o diretor da Casa da Cultura da América Latina e coordenador do Festival Latino-americano e Africano de Arte e Cultura (Flaac 2012), Zulu Araújo, e o professor de Direito, Processo Penal e Criminologia da UnB, Evandro Piza.

Dia 21 de setembro (sexta-feira)
Um Lugar ao Sol (Brasil). Direção de Gabriel Mascaro, 2009, 71 minutos. Moradores de coberturas em prédios de Recife, Rio de Janeiro e São Paulo abrem seus apartamentos para revelar seus anseios, desejos, reflexões e incertezas, promovendo um debate sobre visibilidade, insegurança, status e poder. O cineasta tomou como base uma publicação que catalogou 125 proprietários de coberturas no Brasil, dos quais apenas oito aceitaram dar depoimentos. Censura livre

A discussão estará a cargo de Caroline Soares, doutoranda em Ciência Política pela UnB, e do psicanalista Volker Egon Bohne, secretário de Planejamento e Projetos da Escola Superior do Ministério Público da União.

Serviço
Mostra de cinema CineCAL no Museu: Que país é esse?
Dias 18, 19, 20 e 21 de setembro de 2012
Local: Auditório II, do Museu Nacional do Complexo Cultural da República (Esplanada dos Ministérios) / Brasília (DF)
Hora: 19h30
Entrada franca

Turismo

Por Gabriela Tavares

Seu nome é Francisco, tem 27 anos, mas, pelas feições, não dariam menos de 35. Acorda todos os dias às 7 horas de manhã ou mais cedo. Pega os camarões na bacia que a esposa deixou preparada desde ontem a noite. Sai de ônibus para a praia. Vai vender camarão.

Mariana tem 12 anos. Acorda tarde porque dorme tarde. Quando vai ficando de noitinha, Ele bate na porta. Ela sabe o que vai fazer: toma banho, se arruma e depois desce. Entra no carro. Ele, Lulu e Dóris já estavam esperando. Ela sempre é a mais enrolada. Pelo menos não apanhou hoje. Eles vão para um hotel cinco estrelas. Ele fala com homem branco e muito bonito. Tem mais dois homens no quarto. Vai diverti-los.

Hugo tem 23 anos, está com os amigos no voo e irritado com o atraso. Eles tecem cantadas à aeromoça que fica constrangida, mas não fala nada. Mal pode esperar para chegar à praia depois de doze meses trabalhando que nem cachorro. Fala mal do chefe. O Amigo de Hugo conhece Ele e já arranjou tudo para a recepção. O hotel é cinco estrelas e mesmo chegando tarde vão se divertir. Que ótimo começo de férias.

Finalmente Ele chega com as três garotas. Hugo pergunta se elas são maiores de idade, o Amigo diz para não se preocupar. Elediz que elas são ótimas e muito experientes. Hugo prefere não pensar sobre o assunto. Mariana gostou de Hugo, mas foi oAmigo a viu primeiro. Eles se divertem.

De manhã, Ele já levou as garotas, é muito eficiente. Mariana conseguiu roubar a carteira do Outro Amigo quando ele dormiu. Vai esconder cinquenta reais na calcinha e dar os cartões para Ele. Não vai apanhar por algumas semanas. Está quase juntando duzentos reais.

Os amigos vão à praia, encontram Francisco e reclamam que o camarão está muito caro. O Amigo conta que leu na internet que não se deve comprar comida na praia. Francisco não vendeu quase nada hoje. Hugo o convence a vender mais barato, porque está mal descascado. O Outro Amigo pede para Hugo pagar, acha que esqueceu sua carteira no hotel.

Francisco vai bater na mulher essa noite por causa disso. Antes vai beber uma cachaça, porque ninguém é de ferro. Ele não gosta de beber. Sempre se lembra de sua filha Mariana e da saudade que tem dela. Segura o choro. Tem certeza que aquele gringo lhe deu uma vida melhor.

O Amigo espera que ele vá embora para dizer que os ambulantes compram o camarão muito mais barato no fim da feira. Ele passa uma hora explicando cálculos complicados sobre lucro e chega a conclusão que Francisco lucra cinquenta centavos por camarão. Ele ganha cinco mil reais por mês e vai demorar seis meses para pagar a passagem de avião.

O Outro Amigo não acha a carteira no hotel e vai reclamar na recepção. A camareira fica apavorada, diz que não pegou nada. O Chefe assegura que vai demiti-la e libera o consumo do bar até o fim da viagem para os amigos. Ela é demitida. Apanha de Francisco que chegou bêbado em casa. Lembra de Mariana enquanto descasca os camarões de madrugada.

Hugo twitta bêbado “Como exploram os turistas!” e recebe mais de duzentos retweets.

Retire-se, por favor.

por Diego Nardi

R$ 400.000,000 reais é quanto custa um terreno de aproximadamente 400m² na Cidade Estrutural. Um preço razoável para o mercado imobiliário de Brasília, mas quando se pensa que se trata de uma das comunidades mais vulneráveis economicamente do Distrito Federal, a razoabilidade já não é tão evidente. E os preços elevados não se limitam à propriedade imóvel: bens de consumo, desde vestuário, passando por eletrodomésticos e alimentação possuem maior custo na localidade, fator que leva os moradores a não consumirem ali, mas nos comércios das cidades vizinhas. Dinheiro que sai para dificilmente voltar. E essa não é uma realidade apenas da Cidade Estrutural. Ela se repete nas demais capitais do nosso País e em outras cidades pelo mundo.

Em tempos nos quais o foco central das lutas de resistência na cidade é a remoção realizada pelo Estado através da desapropriação das terras, um processo mais lento e mais perverso vem afetando a vida de comunidades que durante décadas lutaram pelo direito de morar no centro espacial da cidade e não em sua periferia. Asfalto, luz, escolas, hospitais, saneamento, transporte e outras intervenções no espaço dessas comunidades acabam por ocasionar a valorização dos imóveis naquela localidade, elevando, principalmente, o valor dos aluguéis. Ao longo do tempo, o custo de vida se eleva e os moradores que, na maior parte das vezes, não obtiveram um aumento em sua renda suficiente para permanecerem ali, são forçados a se retirarem para buscar moradia em áreas afastadas, sem qualquer infra-estrutura.

 “Boa parte das pessoas que moravam aqui quando cheguei, já não moram mais e em alguns anos a Estrutural será um bairro só para pessoas ricas”, foi o que me disse uma das moradoras enquanto tomávamos um café. Perguntei se ela sabia o que era gentrificação, mas ela disse que não, quando, na verdade, poucos minutos antes, havia explicado para mim toda a lógica dos acontecimentos que mencionei acima. Primeiro o direito à moradia, depois a realização do direito à uma vida digna, com acesso aos serviços públicos essenciais e, sem que se perceba, o que se conquistou através de uma árdua luta é retirado aos poucos pelas regras de um mercado que está para além do controle daquela comunidade.

Urbanização pela urbanização não é melhoria, é privação. “Vamos urbanizar a comunidade!” é uma declaração tácita de remoção quando não acompanhada de políticas públicas que impeçam ou amenizem a especulação imobiliária ali. Na maior parte das vezes, a urbanização é ação externa impulsionada por um grupo privilegiado que quer amenizar a desvalorização de seus imóveis em decorrência da proximidade de comunidades economicamente pobres. No longo prazo, pode originar uma troca completa da população do bairro “urbanizado”, que deixa de ser oposição para ser complementariedade. Exemplos não faltam: Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro, Paris, Londres, Nova Iorque e por aí vai.

Obrigado, Gentrificação! Os impostos cresceram, proprietários aumentaram, etnicidades dispersaram… agora nós somos os melhores jogadores do bairro!

Urbanização não pode estar disvinculada da participação direta da comunidade nem de políticas de planejamento que impeçam os efeitos já mencionados. Alternativas não faltam: Community Land Trust (http://neweconomicsinstitute.org/content/community-land-trust-pamphlet), Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS), além de iniciativas que buscam fortalecer a economia local dessas comunidades, assim como seus vínculos sociais, possibilitando um aumento da riqueza ali que corresponda a um aumento da renda dos moradores, os quais não serão forçados a deixarem suas moradias.

Infelizmente, a realidade das intervenções no espaço urbano das nossas cidades está marcada pelo que podemos chamar de urbanização perversa, que almeja não a garantia de uma vida digna aos moradores da comunidade urbanizada, mas o enriquecimento dos proprietários dos imóveis lindeiros à comunidade e a remoção invisível que o aumento do custo de vida acarreta. Consequencia que poucos assimilam no curto prazo, percebendo quando já é tarde. Não se engane, intervenções que anunciam melhoria de vida na favelas e comunidades economicamente vulneráveis de nossas cidades têm se revelado um verdadeiro cavalo de tróia, minando o direito à cidade por dentro. E essa realidade só se alterará quando trocarmos (como bem falou Francisco Bosco hoje em sua coluna no jornal O Globo) “o modelo de cidade-butique, de megaeventos, que pode se tornar [e, infelizmente, já é] megaexcludente, por um projeto que não faça da população de baixa renda moeda de troca barata, a ser realocada, desapropriada ou convidada a se retirar pela gentrificação”.

Às voltas com Lady das Trevas – ou como (não-)se construir masculinidades.

Por Edson De Sousa

1.     A bicicleta.

Roxa, elegante e com todos os dispositivos de segurança para ruas inseguras. Aro 26 e turbinada com uma encantadora cestinha cor favos d’mel. Graciosa. O modelo não importa. Ela relincha em desespero de bicicleta quando lhe chamam de Caloi HTX. Lady das Trevas não se conforma a essas siglas ridículas que utilizam para veículos plebeus . Imaginem se aceitaria pacificamente ser reduzida, uma integrante legítima da realeza de Duas Rodas, a um cândido emblema que definiria toda sua subjetividade de bicicleta. Ainda assim vendedores de suas companheiras insistem em impressionar crianças com esses nomes pomposos e banais que não indicam nada sobre a personalidade das bicicletas. Como se fosse possível definir qual espaço é destinado a uma bicicleta – e quem ela aceita como parceiro – pelo rótulo que lhe é dada. Pelas cores, curvas, rebolados e ausência de cromados e rodas largas dizem que Lady das Trevas é bicicleta de menininha. Como se sua cestinha impusesse até que ponto ela pode ser off-road. Inaceitável. Isso quando não há algum ciclista idiota querendo modifica-la a seu bel-prazer. A sua vontade de bicicleta é dispensável sendo que ela também é parte indispensável da problemática relação existente com os seres humanos. Lady das Trevas os acha todos uns possesivos. Escolhem o nome de suas irmãs, mudam suas formas e ainda as culpam quando estás sofrem algum acidente e precisam de reparos exatamente pelo desrespeito com que são tratadas. Dispõem sobre suas peças e, quando o dinheiro aperta, as vendem. Quando já não possuem utilidade, apesar dos longos anos de serviço, as mandam para o cemitério das bicicletas onde ficam abandonadas.  É quase sem fim o nível de possessão e de controle a que a grandiosa comunidade sobre duas rodas fica a mercê – e que, com certeza, é apenas reflexo da forma como os seres humanos se relacionam entre si. Seja no trânsito ou no parquinho próximo, adultos ou crianças, os seres humanos tolhem as subjetividades e a liberdade das bicicletas.

Tentaram lhe chamar de várias formas. Magrela, Camelo, Doida, Cabrinha, Bike e toda uma imensidão de nomes hereges na Religião das Bicicletas. Lady das Trevas tem muito orgulho por não ter sido absorvida por todos esses nomes infames – e de já bem novinha, recém montada, ter recebido de batismo algo que refletisse sua individualidade negada por esses termos que os humanos usam para vender bicicletas. Lady das Trevas, apenas conseguiu esse nome ao afirmar – soberana – que não queria ter nome algum. Queria ser aquela que não deve ser nomeada – e classificada. Em coro, as crianças ao seu redor, ao ouvirem a queixa da bicicleta, gritaram em altos brados “Lord Voldemort”. Em tom de riso, as várias pessoas que estavam na loja de bicicletas, cunharam o termo com o qual ela ficaria conhecida: Lady das Trevas.

Lady das Trevas, a bicicleta que não queria ser enquadrada pelos símbolos linguísticos opressores dos homens, buscou uma forma em que não fosse delimitada a sua liberdade – liberdade de não ser – por possuir um cestinha cor de mel . O roxo de seu vestido de metal se refere a muito mais que uma escolha estética em que se oculta o significado político. A forma como era enquadrada por um olhar estranho e ordenador, dizia respeito à forma como nas sociedades humanas o (não-) conforme é observado. Lady das Trevas, a bicicleta que queria ser livre da forma como suas duas rodas prometiam, poderia o sê-lo, apenas quando colocasse à prova – em um curto passeio pela cidade – os estereótipos que a incutiam nas ruas e desbravasse outro lócus amedrontador – a construção da masculinidade na sociedade humana.

2.     O menino.

Em algum momento indistinto, mas quase sempre presente, meninos se tornam homens – se tornam machucadores. Essas crianças que já creditam a si o status de homens revolucionam suas formas de ver e de se impor cotidianamente. Muitos se deixam vencer pelos valores dominantes em que sentir é algo a ser afastado. Desse cálice homens não bebem, o tomam de mãos mais sensíveis que as suas. Passam a obliterar como forma de autoafirmação. Mães, tias e avós já não mais os tocam e assim não devem fazê-lo, caso queiram que suas crianças se tornem, de fato, machucadores. Ocorre toda uma transformação em que a doçura e o enternecimento não são características aceitáveis – e todos que recusarem o papel destinado de causar dor, serão assimilados ao extremo oposto, o vazio, o feminino. A dicotomia entre masculino machucador e feminino machucável é plenamente desenvolvida quando os meninos se autoproclamam senhores de si – e, por consequência, senhores de todos aqueles e aquelas ao seu redor que não se encaixam no estrito padrão de masculinidade.

E ao se apropriar da identidade masculina, os meninos-homens esperam que seus espólios e objetos sejam reflexos de sua nova forma de se impor ante o mundo. O mais íntimo detalhe, a forma mais ínfima de se portar, será decisivo quando de sua inserção do mundo masculino e adulto – mundos separados, mas umbilicalmente interligados por relações de poder. A própria sociedade que ele submete como machucador será seu algoz ao analisar cada espectro se sua vida em busca de fragilidades e atitudes afeminadas. Uma bicicleta roxa, herdada da irmã, não será perdoada. Um cesta cor de mel, emprestada pela namorada, será motivo suficiente para que ele seja, por alguns momentos pelo menos, excluído do mundo a que ele foi ensinado a desejar. O mundo do masculino, do empoderamento, da visibilidade, do poder de gládio, ser-lhe-á bloqueado. E a sanção virá muitas vezes das mesmas pessoas que ele submeteu pelo poder simbólico e universalmente presente do masculino. Tudo o que ele utilizou ao longo de sua vida faz referência à presença ou não do masculino – sua sociedade se ancora sobre essa distinção artificialmente construída.  O poder retumbante que ele possui pelo simples fato corriqueiro e hodierno de ser homem – homem em uma sociedade falocêntrica – lhe será negado. Negado pelo mesmo motivo que ele um dia o possuiu. Negado por uma identidade que construíram para ele, e que moldaram de forma a que ele desejasse tê-la da forma exata em que a imporão. Uma graciosa bicicleta roxa, e um passeio curto ao longo da cidade, pode suscitar uma série de reflexões acerca de como sua (não-) masculinidade foi estipulada. Estipulada por uma norma mais opressora por não estar pregada em muros ou cercado por cancelas, mas apenas jazer em discursos e objetos cotidianos.

3.     O masculino.

Existe bicicleta no masculino ou menino no feminino? Ou melhor, como a noção de masculino, inclusive para bicicletas, é construída também cotidianamente? A própria noção de masculino, de tão estrita e fechada, imbui os objetos ao nosso redor de uma aura de inacessível para certos grupos. A noção de masculinidade, para que permaneça como um privilégio, deve ser restritiva – e, controlar, meninos e homens que dela se desviarem por meio de sanções. Uma linda bicicleta roxa se torna, dessa forma, por ser destinada a menininhas em nossa sociedade machista, mais adequada e mais atrelada a um conceito de feminilidade. E esse feminino, ao ser equiparado sempre a uma ausência, toma ares pejorativos a que os meninos machucadores desejam desesperadamente se distanciarem. Cria-se, assim, uma série de estigmas, características e lugares-comuns que definirão quão plena a masculinidade de algum menino é desenvolvida. E bicicletas roxas com cestinhas não fazem parte do Universo construído para o masculino.

O machismo, e a necessidade de se evitar o ausente que representa o feminino, povoarão em mesma medida os objetos que ao longo do tempo foram sendo definidos para cada um dos dois polos existentes na sociedade – feminino como o ausente e masculino como o (oni)potente. Bicicletas serão aqui elementos relevantes na disputa incessante e diária da construção de masculinidades. As próprias bicicletas serão afetadas pelas pechas de afeminadas, em determinados contextos. Provavelmente, de tão amplas as consequências do machismo, e suas formas impositivas de construção de identidades, as próprias bicicletas terão de se revoltar contra toda a imagética que criamos para elas e se auto afirmarão como livres em suas escolhas – e batalharão por não definirmos suas subjetividades de bicicletas por serem roxas, baixinhas, com cestinhas ou cheias de cromados. A querela do feminino e do masculino migrará – permanecendo, claro, ainda presente no ambiente humano das relações – para a construção de identidades de objetos que classificamos como inanimados, mas que, com certeza, também são machucados pelas formas de machismos evidentes ou não de nosso tempo. A liberdade que as duas rodas das bicicletas prometem, deverão ser estendidas às nossas práticas cotidianas que definem possibilidades de homens, mulheres e também de bicicletas – roxas ou não.

Agradecimentos a Luisa Hedler, a sua bicicleta encantadora e as enormes contribuições presentes ao longo do texto.