Arma dura

por Vitor Salazar

Sobre a fina membrana que traz a cor
Repousa uma imóvel carapaça rígida,
De cuja dureza não faz aparentar a dor
Que se dilui tanto mais quanto a tez híbrida

Sob a epiderme marcada que não descama
Há dúvida silente se também se sente
Se não jaz oco, corpo em drama de ser cama
Ou se faz estéril por legado ausente

E sobre-sob peles nos encarnam a distância
A liga estanca entre nós naufragada
No fundo escuro, tendo de lhe ser caçada

E na procura por refúgios na vida
Se encontra o descaminho autofágico
Que corrói a pele sem amenizar o Trágico.

Vitor Salazar, Dia da Marcha, 2015.

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Ações Afirmativas

por Thalita Najara

Afirmo.
Afirmo que estudei história europeia,
língua portuguesa
e música erudita alemã.
Prestei vestibular por uma escola pública
que não me ensinava outra coisa, a não ser cidadã.
Bate horário.
Fecha portão.
Patrão desconta o salário.
Opa, era só ensaio!
Mais um dia na escola no Varjão.

Afirmo que entrei numa sala branca.
A preta só se dizia respeito a gente do outro lado da cena:
Preta que aborta;
Preto que é preso.
O que é direito?
Negação.

Sou objeto de estudo de uma fila de ônibus
Ao lado da fila de ônibus da Papuda.
110, vai UnB?
Ou exatamente ao lado:
Roupas brancas para o seu marido ou seu irmão?

Cotista.
Isso me dizia respeito?
Corredores. Intervalo. Gente branca.
Nunca me perguntaram,
porque para eles era óbvio!
Uma das poucas pretas aqui,
só podia ser cotista ali.

A História se repetia.
Doutrinador alemão. Jurisprudência estadunidense.
Vestimenta preta para advogado penalista.
Já vai enterrar alguém.
Afirmo.
Afirmo o que?

Epistemicídio por uma gente que paga para ter aula de samba.
Enquanto não nos dirige nem um “Bom dia”.
Que me acusa de parcialidade,
enquanto só cita cara italiano do século XVI.
Vou te contar o que é letra de câmbio
às dez horas da noite nas 500 de Samambaia:
liquidez do negócio jurídico rápida e certa.

Afirmo.
Não uso nome de escrava.
Turbante vai na roupa social sim.
E te respondo nessa rima.
Que ris com seus colegas
nas aulas de Direito Internacional
E se assusta com dez negros de Black e rasta reunidos no terreno.
Direito?
Isto é quilombo.
Se te incomoda a minha cor,
saber Direito tanto quanto ti é que te deixa de cabelo em pé.
Não como meu sarará criolo.
Que este fi, está cheio de acestralidade.
Cresce para cima para lembrar às irmãs.
Afirmo: sou negra.

Universidade que percorre todo o topo do mundo
Menos o meu.
Que recusa conhecimento de minha própria esquina,
por ser terra de terreiro.

Afirmo porque não me destes uma cota deste patuá.
Não é cota, mas ações.
Ações afirmativas.
Porque estou cansada de suas boas intenções.
E más também.
Ações.
Porque afirmo.
Que racismo é história silenciada.
Mas que magicamente você aprendeu.
A me ver como elemento suspeito.

Não é sentimento,
apesar de você detonar meu psicológico.
É racismo estruturante.
Estrutural.
Catadoras de materiais recicláveis.
Cato esperança, mas cai na real.
Sou preta. Preta livre.
E não o que queres me chamar: apenas liberta.
Ações. Pois afirmo. Ações afirmativas de minha gente.

Foice o tempo (?)

por Laiana Rodrigues

Quando o dia dura mais que uma semana
 O tempo se reverte, preguiçoso, rasteja
 Às vezes, tal qual asno, empaca
 Emanando tensão
 De mim ele graceja
 Mas, e eu?
 Muita ansiedade
 E até mesmo apatia
 Tem horas que sou desânimo
 Tem horas que sinto perder a estribeira
 Rezando para que, chegando ao meio-dia,

 Ainda não seja terça-feira

Ainda não seja enxaqueca
Ainda não seja estafa
Que seja festa, que seja farra
Entretanto, os problemas não são solucionados por decreto
Quisera eu que fosse
E esse meu delírio que, por intensidade, é eterno
Quando menos espero: foi-se



                                                                                 

                                         

 

Eu cotista

Por Juliana Lopes

Da constelação de mentiras coloniais obscenas,
Do delírio da cordialidade das raças,
Das falácias liberais ditas neutras,
Enuncia-se:

Olha só que dó
Desse povo cor de café,
Forjado no engenho a paulada,
Desses bichos sem história que não tem o que comer.

Vejam que beleza essa pele morena mulata exportação!
Eu te fodo, e você cala a boca.
Só mais um ou dois estupros pra atingirmos o perfeito equilíbrio.

Olha lá!
Esses pretos preguiçosos que vivem de esmola,
Que aceitam de bom grado seu lugar de inferior.

No meu primeiro dia na Faculdade de Direito, eu me senti inferior.
No segundo, eu senti vergonha.
No terceiro, eu me senti tremendamente solitária.

12/0034140
Número que me deu um registro no sistema,
Um punhado de privilégios,
Nenhuma garantia de permanência, e um segredo:
Entrei por cotas, porra!

Costurar sentidos de existência neste corpo a partir da experiência universitária é batalha
diária
Por encontrar sobrevivência no aquilombar-se,
Tateando novas formas de resistir num universo que nos nega.

Cota é sangue negro e suor de luta,
Não concessão
politicamente correta de ninguém.
Nem se incomode em cuspir novamente inverdades sobre a nossa história.
E que história!

Seu panteão de homens tão nobres, tão brancos, tão aristocráticos e velhos, e ao mesmo
tempo tão tão neutros,
Soam a mim não como excelência acadêmica,
Mas simplesmente eurocentrismo genocida.

Não duvidem da eloquência desse couro preto no interior destas paredes.
Respeitem meus cabelos, brancos!
Respeitem a minha história e o meu povo.
Respeitem aquilo que digo, porque digo com a propriedade do objeto que tomou pra si o
microscópio.

Isso é pra você que diz que não vê os racismos
Sentidos no trato da moça da limpeza e dos porteiros,
Nas ausências docentes e discentes,
Nos silêncios curriculares
E nas violências diárias que não causam nem espanto nem processos.

Aos que bradam que querem “pintar a universidade de povo” eu respondo:
Não sou decorativa pra pintar a sua universidade de preto.
Não me darei por satisfeita com cotas, apesar de ainda 10 anos depois ser obrigada a lutar por
elas.
Lutar, eu repito; pois não estamos recebendo nada de presente.
Tomamos pela unha o que é nosso por direito!

Não assistirei passiva ao curso da minha própria história,
Não me sentarei nestes bancos de cabeça baixa
Para os que querem, literalmente, a ferro e fogo
Arrancar a humanidade de quem cultiva coroas na cabeça.