O preto e o filósofo

Por Pedro Argolo

Este texto não é sobre Hegel. Não escrevi um texto. Pra ser lido. Isto nem mesmo é um texto. Escrevi um não texto pra ser lido. Um texto pra ser não lido. Espanto-me[1]. Aquilo não existe? Sei-das-coisas. Desconfio.

Este texto é res nullius. Não somos racistas. Rês?

A comunicação me força à regra.

Isto não é filosofia. Este texto não é sobre Hegel.

Primeiro mandamento: Não te salvarás pelas notas de rodapé.

Não conheço filósofo de nome Edmundo.

ImagemOs livros de Susan Buck-Morss dificilmente não aparecerão como bibliografia complementar de um bom curso de filosofia que tenha como tema a produção teórica alemã, sobretudo a do último século. À exceção dos demais, seu livro “Hegel, Haiti e História Universal” (sem tradução para o português) consta em poucas estantes de filósofos/as eruditos/as. Nele, Buck-Morss lança mão dos já conhecidos recursos da boa exegese: reconstrói biografias, examina os textos na língua original e os confronta com traduções para outros idiomas, apresenta conceitos desenvolvidos ao longo da obra do autor e faz sobre estes comentários laterais. Nenhuma surpresa para os/as já acostumados/as com a seriedade com que ela conduz seus trabalhos. Há também (muitos) outros trabalhos sobre Hegel que seguem o mesmo método com igual rigor.

Em vez de se limitar, no entanto, ao comentário ou à discussão de um ponto específico na teoria do filósofo alemão, a autora lança uma tese: para além da marca recebida da tradição do pensamento filosófico europeu, o pensamento de Hegel, sobretudo a sua dialética do senhor e do escravo, teria sido influenciado por acontecimentos da história contemporânea, principalmente a Revolução do Haiti. Após reconstruir o discurso iluminista acerca da igualdade (concomitante, como se sabe, à violência e à opressão a que eram submetidas as colônias do “Novo Mundo”), a autora não apenas defende que sua consumação de fato se deu na revolução conduzida por escravos caribenhos negros contra seus senhores, como foi esta que acabou por inspirar o filósofo alemão a construir aquelas que são talvez as teses mais influentes da história do pensamento ocidental.

Em suas obras de maturidade, no entanto, Hegel substitui a radicalidade da luta por liberdade pela explícita reprodução do racismo, comum na filosofia europeia. Representantes do ser humano em sua dimensão “natural, selvagem e indomável”, os negros não seriam capazes de apreender a essência do humano, não conheceriam objetividades fixas como deus ou mesmo as leis. O “fanatismo” e a cultura “fetichista” colocariam a África Subsaariana fora da história. O que quer que tenha acontecido nas outras partes do continente africano pertenceria ao continente europeu ou ao asiático. A verdade das teses de Susan Buck-Morss produz, contudo, uma situação irônica. Para a autora, a influencia da Revolução do Haiti teria como consequência o fato de que teria sido Franz Fanon, psiquiatra e filósofo negro nascido nas Antilhas, aquele que chegou mais próximo de compreender as relações daquela com a filosofia hegeliana e as desta, portanto, com a escravidão e com o próprio racismo.

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O curioso é que o livro de Susan Buck-Morss não se alinha ao coro recente defensor do abandono da categoria de Universalidade ou do próprio pensamento de Hegel. Ao contrário, os jacobinos negros possibilitariam uma releitura da história universal humana e sua reconstrução sobre novas bases. Apesar disso, tudo ocorre como se o livro não existisse. Uma interessante técnica ideológica consiste em se deslocar a responsabilidade por processos de exclusão para a própria vítima, tratando o seu caso como uma questão específica, que nada diz sobre uma suposta lógica sistêmica que já a produz enquanto tal. Não são raras, dessa forma, as afirmações que procuram atribuir a algum pensador/a latino-americano/a, por exemplo, a culpa por não ocupar um lugar de destaque no rol de ilustres. Os requisitos necessários para filosofar estão dados, sejam quanto às temáticas ou à forma, e não cumpri-los é justificativa suficiente para sua marginalização. Como de Susan Buck-Morss não se pode falar, pelo menos no que diz respeito a sua tematização da liberdade ou ao modo com que ela conduz o exame dos textos de Hegel, é necessário calar. Seu nome, assim, continua trazendo à memória apenas a imagem de uma boa comentadora.

O caso de Hegel e Haiti apresenta as barreiras coloniais do conhecimento em sua dimensão mais perversa. Em vez dos gritos histéricos de um ilustre professor a nos lembrar de que ‘Isto não é filosofia!”, temos o silêncio mórbido da pobreza de experiências. Sistemas filosóficos inteiros e com eles muitos/as filósofos/as são produzidos/as como não-existentes. A Colonialidade é tão eficaz que dispensa a prestação de serviço contínua dos cães de guarda do saber. Os Planos de Curso nos confortam. Não precisam nos dizer que Buck-Morss é imprecisa ou que os textos de Fanon são política e não filosofia (como se uma excluísse a outra), simplesmente deles/as não se fala. Privam-nos de conhecer aquilo que é produzido na América Latina e na África, mas nos compensam com doses precisas de autêntico pensamento europeu, para alento dos/as hipocondríacos/as.

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A colonialidade é uma espécie de atualização cotidiana da colonização. Ela se nutre dos efeitos desta, dos corpos racializados, marcados como naturalmente inferiores, ou do conhecimento embranquecido, já que a este/a Outro/a, cujo status de diferente foi epidermizado, é negada qualquer possibilidade de pensamento e de participação na história. É ela que garante ao bárbaro o lugar que lhe é devido. Aliada a uma pedagogia autoritária que trata o/a estudante como depósito de conhecidos dados, é ela que o/a lembra com quem (ou de quem?) ele/a está falando.

A colonialidade cria um universo psicótico capaz de punir a ousadia com a não-existência. Admitir Hegel e Haiti implica na desnaturalização de cartografias. O texto de Susan Buck-Morss realiza uma inversão topológica do conhecimento, ao propor que o discurso da liberdade construído na Europa deve ser contrastado com as práticas de extermínio e escravidão adotadas nas colônias e que um dos maiores sistemas filosóficos europeus traz consigo os sinais de uma Revolução conduzida por escravos negros. Hegel e Haiti tensiona o monólogo narcisista do conhecimento eurocêntrico que nega o pensamento dos “povos sem história”.  Com isso, centros se deslocam, filosofias ganham (e perdem) sentido, Universais são pintados de outra cor. O Espírito ante o preto e não Napoleão.

***

A primeira parte do livro “Hegel, Haiti e História Universal”, intitulada “Hegel e Haiti”, foi traduzida por Sebastião Nascimento e se encontra disponível no link: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-33002011000200010&script=sci_arttext


[1] Nota do Tradutor: É sabido que o espanto é um estado de espírito típica e exclusivamente europeu. Sobre isso, deve-se conferir os manuais de História da Filosofia. O/A leitor/a deve relevar a falta de conhecimentos do autor. Qualquer descrição que ele faça e que procure elevar seus pruridos à nobreza de um espanto deve ser desconsiderada.

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Corpo

*Por Edson J. D. de Sousa.

 

Estou indefeso

O corpo, o meu, convida-me à intimidade.

Resiliente, perco-me em vísceras

–  labirintos de vida –

Perco-me no sangue que escorre em vasos

e na alma enfezada de doente.

Meus músculos,

antes motores à combustão

– inflamáveis como meu mau humor–,

comprimem-se em gás inerte.

Inodores, não mais alçam meu voo suicida pela vida.

– O cotidiano é meu analgésico –

 

O preço cobrado pela vida

é a própria vida que se autoconsome.

A dilaceração de dias e noites bem vividos

– a fatura de-vida –,

é como a poesia fagocitada vida por vida.

 

Defeso é apenas

a Ode à vida e aos vírus.

 

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Obra de Egon Schiele (Tulln an der Donau, 12 de Junho de 1890 — Viena, 31 de Outubro de 1918), pintor austríaco ligado ao movimento expressionista.