Eu, minha negritude e meus amigos brancos

Por Laiana Rodrigues

Em quase 20 anos de vida nunca me vi como uma pessoa subserviente. Talvez como uma garota emocional, pacífica, intermediadora, cuidadora; mas subserviente, não. Afinal, como poderia o ser? Tenho uma linda família afrocentrada, que desde os meus primeiros anos de vida me ensinou o que é ter orgulho, me ensinou como me impor diante da branquitude. Avós, avôs, mãe, pai, tias, tios e até meus irmãos. Todos carregando na pele, no cabelo, nas roupas e nas músicas ouvidas, compostas e interpretadas, as dores e as delícias de ser negro.

Como eu, Laiana – com meus cabelos crespos, ora soltos, ora envoltos por magníficos turbantes – poderia ser uma negra subserviente tendo em vista que milito, estudo, vivo, respiro e transpiro debate de raça?

– IMPOSSÍVEL! – Costumava a dizer a mim, em pensamento – Talvez antes, mas não nessa etapa da minha vida! Sou uma nova mulher.

Mas, às vezes, a gente se trai. E se trai feio.

Esse texto não foi escrito para duvidar do meu empoderamento enquanto negra. Na realidade, ele foi escrito para mostrar o quanto ainda caio em certas armadilhas, o quanto naturalizo muita violência que sofro, chegando a duvidar da pertinência dos meus sentimentos nessas ocasiões. O quanto me faço passar por uma negra subserviente, e como me encaixo direitinho no papel da amiga que o branco quer ter:

Aquela que finge que não vê racismo nas ações dos amigos;

Aquela que não reclama;

Aquela que não se chateia;

Aquela que compreende todas as burradas que os amigos fazem;

Aquela que prefere ignorar ou se afastar para evitar contendas;

Aquela que pede desculpas na mínima rusga;

Aquela que se preocupa com o bem-estar de todos, menos com o seu.

Na realidade, essa conduta foi sempre uma estratégia de sobrevivência social. Vivi meu período escolar inteiro sendo a amiga de todo mundo, “a melhor pessoa”, aquela que nunca teve uma única inimizade. E o agravante principal é o fato de que sempre fui cercada de pessoas brancas, com pequenas participações especiais de crianças negras. Quando me mudei do Gama para Brasília, essa situação piorou exponencialmente.

Apesar de me anular muito nesse processo, pode-se dizer que pelo menos não fui relegada ao ostracismo – vocês bem sabem que crianças e adolescentes podem ser muito más. Agindo dessa forma, garanti meus convites para as festas, meus grupos para os trabalhos (pois ser inteligente não é o suficiente para ser selecionada), minhas companhias para o recreio, meus rolês para o fim de semana, etc.

Mas quantas vezes não voltei para casa dilacerada com um comentário racista que fingi não ter ouvido? Quantas vezes prendi o choro quando me deparava brincadeiras a respeito do meu cabelo? Quantas e quantas vezes não reclamei, apesar de ofendida, de falas a respeito do meu corpo do tamanho dos meus seios ou do volume da minha bunda?

Chamar os pais a escola, nessas ocasiões, para mim era uma atitude de desespero. Não porque não confiava na capacidade deles em tratar com a devida seriedade e respeito esses eventos; mas porque tinha medo da perda. Tinha medo de perder todas as relações até então construídas. Na realidade, essa solidão ainda me apavora.

Chegando à Universidade, experimentei muitas mudanças na minha vida, inclusive no que tange “ser negra”. Experienciei, pela primeira vez, a sororidade fora do núcleo familiar; encontrei gente (inclusive branca) disposta a me ouvir, conheci a militância, conheci o feminismo negro, conheci teóricas e teóricos negros nunca abordados anteriormente em minha formação. Obviamente me apaixonei, me iludi… como não podia deixar de ser, me decepcionei.

Em meio a essa vivência de militância, guardei para mim três lemas principais: paciência, didática e desconstrução. Esse tripé, ao meu ver, era essencial se quiséssemos mudar o mundo. Apesar de compreender a importância de perfis “Malcom-X” nunca me vi desempenhando um papel semelhante, até porque, para mim, essa não seria a melhor das estratégias na atual conjuntura. Martin Luther King sempre foi mais a minha praia.

Sendo assim, sempre tratei de pensar nas pessoas como seres complexos em constante processo de aprendizagem. Seres capazes de se desconstruir, rever privilégios e mudar de conduta.

Mas há momentos em que as pessoas se permitem fazer essas coisas. E continuam fazendo besteira, e continuam oprimindo.

– É AÍ QUE A GENTE METE O PÉ NA PORTA, NÃO É?

– NÃO… – Eu dizia, mesmo que imensamente incomodada – NÃO EM SE TRATANDO DE AMIGOS OU PESSOAS PRÓXIMAS… NÓS NÃO SOMOS RESPONSÁVEIS POR QUEM CATIVAMOS? NÃO SUPORTARIA MAGOA-LOS…

Sobre todo esse sentimento de responsabilidade, encontrei solução na astrologia. Nela aprendi a naturalizar um pouco toda essa minha preocupação excessiva com os outros….  Afinal, tendo o Mapa Astral como o meu, como ser diferente?

Realmente, nunca fui afeita a discussões, e sim, isso é um traço de personalidade; mas o que eu nunca parei para pensar, até dias atrás, é que seleciono com quem vou alterar meu tom de voz ou em quem vou “dar gelo”. E duvido que isso tenha a ver com meu Sol, Vênus e Mercúrio em Câncer.

Mesmo quando tenho razão, acho que nunca entrei em atrito com pessoas brancas sem me sentir culpada, ou duvidar da necessidade das minhas atitudes. NUNQUINHA NA VIDA! Até porque, na maioria das vezes nem chego a entrar em conflito com elas.

Por outro lado, em se tratando de gente preta, tenho mais segurança na fala, consigo expor a raiva ou a decepção que sinto; e com exceção dos momentos em que estou errada, nunca cogito pedir desculpas. Curiosamente, na única vez que fui (explicitamente) escrota com alguém, que não fosse da minha família, foi com uma amiga negra.

Consigo, no momento, encontrar duas justificativas para isso:

1- Contando com a sororidade e com a empatia que recebo por parte dos meus pares, me sinto mais confortável para me expressar emocionalmente, com a certeza de que serei, de alguma forma, correspondida;

2- Tenho quase que a total certeza que os laços afetivos não serão desfeitos na mínima contenda, em se tratando de negras e negros. A mesma certeza não tenho em se tratando de brancos. Não me vejo apontando para nenhum amigo branco que ele está sendo racista, não explicitamente, não de uma forma efusiva;

Daí percebo que ainda sou a mesma Lai da época da escola. Aquela que rechaço por alisar o cabelo, por ser careta, por ser temerosa e ansiosa. Aquela utilizada como reforço argumentativo por parte dos racistas para falar “Olha, eu não sou racista não, eu tenho até uma amiga negra”; porque se eu não exponho o racismo, acabo anuindo com suas condutas.

Eu, Laiana Rodrigues, ainda sou a amiga negra que todo branco quer ter:

Aquela que finge que não vê racismo nas ações dos amigos;

Aquela que não reclama;

Aquela que não se chateia;

Aquela que compreende todas as burradas que os amigos fazem;

Aquela que prefere ignorar ou se afastar para evitar contendas;

Aquela que pede desculpas na mínima rusga;

Aquela que se preocupa com o bem-estar de todos, menos com o seu.

Geralmente, muitas preocupações inundam a minha cabeça. Mas ultimamente, só tenho um foco: a mudança.

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Mariana És Tu

Por Hanna Thuin.

A memória de Mariana tem, na infância, a vivacidade das cores de uma pintura fauvista. Branca e de classe média, sua história se confunde com a de outras tantas meninas – opressões que transitam entre os diferentes aportes econômicos; opressões mutativas a instaurar-se dentro e fora do gênero.

Mariana acordava sempre às seis e meia; vestia seu uniforme escolar – que variava apenas a vestimenta de baixo: short-saia ou calça, nunca bermuda-, comia seu misto quente, tomava um copo de leite com Nescau e juntava-se com seus irmãos no carro; a mãe os deixava na escola.

Do maternal, Mariana não se recorda de muita coisa. Brincava com massinha e tirava fotos em datas comemorativas: foi um leãozinho no dia das mães, sorriu em camiseta no dia dos pais. O Jardim de Infância passaria isento não fosse Tia Cláudia e seus abraços de urso. Já no Pré, as lembranças tomam forma. Aos seis anos de idade, Mariana estava sendo preparada para ler e escrever. Ela costumava ouvir da professora “Que feio, Mariana, isso não é letra de menina. Cadê o capricho?”. Mariana jura de pés-juntinhos que caprichava, que se empenhava em cada exercício de caligrafia; o esforço era tanto que chega o corpo fazia curva como se pudesse endireitar o lápis e registrar o be-a-bá mais redondo; a energia despendida, contudo, nunca era suficiente.

Superado o pré e sem atingir muita melhora no tal capricho-sujeito esse o qual Mariana não compreendia a devoção pelas colegas e professoras-, Mari conquista a série que deflagra os recreios livres. O sino era sagrado: gastava, rotineiramente, aqueles vinte minutos jogando futebol –era a única menina a dispor esse tempo sob o Sol. Após o último sinal, corria para o ginásio; ficava lá até que o pai a viesse buscar. O futebol a preenchia, a deixava feliz.

Aos nove anos, ganhou o primeiro apelido. Mesmo que pequena, podia compreender que algo estava fora do lugar. O futebol de todo dia desencadeou em sua pele alguma melanina rara que a fez, aos olhos dxs colegas, uma espécie diferente – uma tal de “menina-macho”. Não que Mari precisasse do pejorativo para se sentir deslocada e não que ela necessitasse o entender por completo para saber que não era um vocativo que a elegia popular. Aliás, este plano social nunca foi vontade – ela enxergava naqueles seres que o habitavam verdadeiros selvagens: valiam-se de uma linguagem que ela não codificava, falavam de assuntos que ela não dominava e sequer tinha interesse.

A sexualidade tardou a chegar. Nem meninos nem meninas, Mari só queria saber de jogar bola, subir em árvore, pular portão, atazanar vigias, pegar as moedinhas no carro do avô para comprar balinha. As notas iam bem, obrigada; assim como o seu relacionamento com os professores e funcionários sempre fora em paz. Com dez anos, porém, uma guerra começa, e começa de dentro para fora. Era a 4ª série. Uma festinha na casa de um colega de classe. O convite era claro : meninos, tragam a camiseta do time de futebol; meninas, tragam roupa de banho. A leitura de Mariana era seletiva: ia ter f-u-t-e-b-o-l. Escondeu a camiseta rubro negra na mochila. Mariana não se misturava com elas; não se encaixava entre os vestidos e a disputa pelo coração do Guilherme ou do Matheus ou de qualquer outro que fosse o príncipe eleito pelo resto das garotas. Passou o aniversário inteiro na quadra. Quando sua mãe foi buscá-la, presenciou o discurso ultimato de sua liberdade futebolística:“sua filha parece uma Ronaldinha, passou a tarde inteira jogando bola com os meninos”. Foi uma fala acompanhada por sorriso, m as a mãe de Mariana não riu. Fez do percurso à casa uma lista de compras de mês: era tanta coisa errada em Mariana que parecia mais fácil comprar uma nova.

1) Futebol é coisa de homem! Quantas vezes eu vou ter que repetir isso?!

2) Você me envergonha, olha o mico que eu paguei! Agora todo mundo vai ficar comentando que minha filha é um machozinho.

3) E a forma como você anda?

4) Senta direito! Isso não é jeito de mocinha sentar!

5) E chega de usar tênis. Já passou da hora de usar sapatos decentes.

6) Acabou o futebol, pode esquecer. Vou te pôr em algo condizente.

7) Por que você não consegue ser uma menina normal, meu pai!

8) E joga essa camiseta fora. Ouviu, Mariana?!

Claro que Mariana ouviu. A segunda-feira seguinte começou com a matrícula no ballet. Colã. Sapatilha. Saia. Cabelo preso em coque. Palco. Tudo o que tirava Mariana do eixo, mas a mãe acreditava no oposto. Sem zelo e sem gosto, Mariana foi levando aquele corretivo nas coxas. Não tinha perfil para o clássico; sua silhueta, como bem lembrava a régua da professora, não era de uma verdadeira bailarina: “tem gente precisando emagrecer, hein”.

Depois de algum tempo e muita cara fechada, o ballet e as apresentações ficaram para trás. Não havia, portanto, mais o palco para mostrar como Mariana estava progredindo: o rostinho coberto de maquiagem, bem mais mocinha, mais ‘delicada’. Voltou furtivamente para o futebol. Um dia, porém, perdeu o cálculo da hora: sua travessura em flagrante pelo pai. O episódio que se seguiu talvez seja uma das lembranças mais lúcidas de Mariana. A mãe, de tesoura em punho, correndo atrás dela em círculos ao redor da mesa de jantar, com o rosto enfurecido, com a voz presa aos gritos. Mariana recorda bem o timbre e as palavras: “vou cortar esse seu cabelo. Não quer ser um menino, então vem aqui que eu vou cortar seu cabelo, machinho”.Desesperada, Mariana chorava e corria, corria e implorava “mãe, pára, mãe; pára, por favor”. Correu para fora de casa e se escondeu até que o escuro a botasse mais medo que a ideia do retorno. Mari tinha apenas dez anos.

Mariana, sob a ótica de seu universo, era uma criança comum. Branca, pais casados, boas notas, escola católica, dois irmãos, tinha um bom relacionamento com funcionários e professores – destes, gostava. Mariana não entendia, contudo, algumas implicâncias com sua rotina. Mariana não entendia o por quê de não poder usar bermuda; não entendia o por quê de seus pais desaprovarem o futebol; não entendia o por quê de tanta expectativa e crítica sobre sua caligrafia; não entendia o por quê de não poder gostar de azul e só poder vestir em rosa; não entendia o por quê de só ganhar bonecas quando o que havia pedido era um carrinho ou uma bola; não entendia o por quê de não poder, nas brincadeiras de final de tarde com os irmãos, ser o Batman ao invés da mocinha vulnerável a ser resgatada, o por quê da louça de domingo ser sempre dela enquanto seus irmãos ficavam livres para brincar lá fora. Mariana não entendia e por isso continuava. Continuava a gastar recreios e finais de aula jogando bola, continuava com a caligrafia fora do “capricho”, continuava a gostar de azul e a pedir bolas e carrinhos em datas festivas, continuava a reclamar da tarefa doméstica que lhe era exclusivamente entregue. Mariana continuava e continuou até que as críticas saíram do plano do discurso e deixaram de ser meramente falas ignoradas; progrediram em ações. Ações que se concluíram em penalidades. Penalidades que ontem e hoje se traduzem em exclusão. Mariana, antes dos doze, tornou-se a Outra e, por isto, teve de tornar-se outra.

O ponto de inflexão veio com a repressão mais dura: seu corpo era objeto de críticas e normatizações. “Pega a gorda”, gritou o colega de pelada. Humilhada, abandonou a partida. Os irmãos fizeram chacota; em casa, o vocativo favorito que destinavam a ela era ‘baleia’. Ao reclamar com o pai, a gota final: não penalizaria os filhos, porque era “verdade mesmo”. Mariana pediu à mãe que a levasse em uma nutricionista. Perdeu três quilos no primeiro mês. Ao final do sexto, a balança sinalizava uma subtração de quinze. Vestindo muitas – muitas- medidas a menos, iniciou o ano letivo. Sétima série. Treze anos. Muitas mudanças. Não foi só o corpo de Mariana que mudou: a maneira de ser percebida pelos olhares alheios também. A cintura fina a introduziu no centro: conversas, convites para festas, interesses outros que não a cópia do dever de casa. Abortos, muitos. Abdicou do futebol – queria desvencilhar-se do apelido já tão maltratado pelo uso. Ao sonho e prazer de Mariana, coube uma alternativa: guardá-los.  Mariana, aos poucos, continuou a se adaptar para, então, se incluir e ser incluída. Trocou o suor pelo perfume. A calça pelo short-colado. As orelha vazias por brincos visíveis. Mariana despiu-se de tudo que pudesse entregá-la de novo à margem.

A manutenção dessa nova posição no microuniverso da escola teve seus custos e sua vingança. Emagrecer não fora um ato voluntário – a opção pela dieta partiu de um esgotamento psicológico. A reeducação alimentar transformou-se numa obsessão. Mariana quase não comia mais– vivia a base de líquidos. Quando ultrapassava as poucas gramas que se autorizava a comer, ela corria para o expurgo da culpa. Trancava-se no banheiro, confessava-se para o espelho e fazia da escova de dente instrumento para chamar o vômito. Depois de tudo posto para fora, perdoava-se.

Junto à bulimia, anorexia nervosa. Não importava qual era o objeto a lhe dar reflexo, na sua retina só se desenhava uma Mariana gorda – sempre distante do peso e do corpo ideal. Os ossos todos saltados. As bochechas secas. As pernas, antes grossas, não passavam de dois filetes. Dentro de casa, novos apelidos. Nariz de batata. Tripa seca. Esqueleto. Seus irmãos não a perdoavam. Sua falta de apetite preocupava os pais. Depois de alguma negociação, um retorno à nutricionista e uma nova dieta: Mariana precisava engordar.

Da calça 38 para a 34, da 34 para a 36. Da margem para algum lugar menos distante do centro. Do âmbito restrito da sala de aula para amizades novas: encontro com medidas distintas de Marianas – outras.

Quem, afinal, é Mariana?

Beauvoir, no Segundo Sexo, escreve que não se nasce mulher, mas se torna uma. Não são aspectos biológicos que determinarão a figura feminina; é, na verdade, uma construção social que a produz – construção essa em que as regras foram e ainda são, em grande medida, definidas por homens.

A separação entre o que se pode e o que não se pode ser começa na infância. A criança, seja menina ou menino, tem o mesmo interesse: ambos procuram pelo peito, ambos choram pelo leite. Aos poucos, o desmamamento – essa separação do corpo inicia a procura de sua auto-projeção para o mundo por caminhos outros que não o seio materno. Pela metáfora do espelho, a criança extrai da imagem dos pais a mímica-reflexo; são eles o ponto de partida da construção de uma identidade.  Seria o que Lacan chama de fase do espelho: a criança inicia sua relação com os sistemas simbólicos fora dela mesma e é este o momento de sua entrada nos vários sistemas de representação simbólica – incluindo a língua, a cultura e a diferenciação sexual (Stuart Hall. A Identidade Cultural Da Pós-Modernidade. Pg. 39).Na via dupla, os pais fazem desse reflexo um objeto, objeto esse a ser exposto reincidentemente para o mundo.

Na procura por aprovação, tanto pai e mãe quanto filho e filha agem estrategicamente. O menino aprende cedo que homem não chora, não brinca de boneca, não fala manso, não tem medo. A menina, por sua vez, é ensinada a etiqueta, a maneira “certa” de se sentar, a ser delicada, a ser indefesa, a esperar o resgate pelo príncipe encantado. Ao menino que será um homem é dado o movimento, à menina que pode vir a se tornar mulher, presenteia-se com a inércia. Presente de grego ou não, aqui se olham os dentes; nesse embate entre independência vs. vulnerabilidade, encontra-se um dos vários sentidos do enunciado de Beauvoir: a menina que destoa e subverte as normas heterossexuais não se torna mulher. No meio do caminho, uma pedra: se essa pedra caleja a inserção e showing- off dos filhos para o universo em que a família está inserida, deflagra-se uma verdadeira batalha para removê-la de lá e, nisso, encontramo-nos, novamente, com Mariana.

A escola é um microuniverso assim como o é a Universidade. Poder-se-ia dizer que ambas são reduzidas telas de reprodução do externo; as relações de poder que acontecem nestes dois ambientes ocorrem, igualmente e em larga medida, fora dos muros que cercam essas instituições. Instituições essas fundadas em um modelo curricular falido – que reverbera políticas públicas e práticas sociais impostas por grupos pequenos, porém dominantes. Não há crítica, da arquitetura aos discursos em sala , não há verdadeiramente construção de saberes e de pessoas; predominam verdades caolhas, íris turvas e corrompidas pelos mesmos poderes que ordenam e mantêm as opressões do lado de fora . Quando Mariana demonstrou que detestava vestido e que seu lugar ao Sol era no pátio da escola suando a camisa e calçando chuteiras, sirenes eclodiram entre seus pais: era preciso agir. Houve uma tentativa de colocá-la de volta dentro das caixinhas que o sistema heteronormativo oferece – não importa o natural, a normalidade só acontece dentro de determinados parâmetros e esses parâmetros devem ser mantidos. Não se admite a pedra no meio do caminho, ela deve ser empurrada à margem, retiradas dos olhares públicos.

Tentou-se, por meio do ballet, mostrar à sociedade que Mariana era sim uma mocinha- uma imagem delicadamente composta por sapatilha, meia-calça, postura ereta, passos clássicos, bochechas em blush. Por um momento, um alívio: “Mariana está salva e nós também”. Estavam salvos dos cochichos da vizinhança, das comparações com Ronaldinhos, dos olhares tortos, de pitacos intrusos sobre a sexualidade da filha. Naquele momento em que Mariana subvertia os papeis que desde cedo lhe foram prescritos e interpretava o outro lado do gênero, deixava ela de ser um objeto – Mariana não servia para ser exposta, para ser mostrada. Quando a pedra parece ser irremovível e as intervenções e medidas corretivas falharam, abandonou-se a pretensão de (re)moldá-la; o esforço passa a ser para escondê-la. Mariana, dentro dos processos de trocas sociais, é uma moeda defectiva. Ela existe e circula porque ainda possui seu valor monetário, mas não é desejada, mostrada com brio aos outros. É deixada na carteira: primeiro os filhos, bem machos e viris, do jeito como ordena o protocolo; depois –e se necessário for- ela. Mariana deixa de ser o objeto para os outros e passa a ser ela mesma o Outro: Mariana é uma Outsider.

Outsider é alguém que não vive de acordo com as regras de um grupo. Outsider, claro, é um rótulo e por assim o ser acarreta a recíproca: a pessoa que assim é classificada comumente considera os seus juízes como os verdadeiros outsiders. Mariana não se pensava errada, considerava a crítica alheia uma chatice reincidente; Mariana, em verdade, foi convencida de que anormal.

A premissa do senso comum é justamente essa:  que existe algo inerentemente desviante (qualitativamente distinto) em atos que infringem (ou parecem infringir) regras sociais¹. Atos, aqui, incluem as performances dos sujeitos. Tanto juiz quanto réu estão inseridos dentro desse fenômeno de (re)produção de outsiders, que varia em nuances de acordo com o local e a cultura – o que não exclui a proximidade e universalidade de procedimentos e resultados, já que a base estruturante das sociedades (pós)modernas é,ainda, a mesma: heteronormativa. Existe a regra e o que dela se diferencie ou o que a conteste é visto como pejorativo e, em alguns muitos casos, como doença. O leigo situa a fonte do desvio dentro do indivíduo desviante; aquele não consegue ver o próprio julgamento como parte decisiva do fenômeno².

O desvio, portanto, é a quebra de alguma regra social aceita e, tal como Franksteine, sua criação se dá pelas mãos de um determinado grupo ou indivíduo dentro do corpo social. O desvio não é, portanto, uma qualidade do ato que a pessoa comete, mas uma consequência da aplicação por outros de regras e sanções a um “infrator”³. Mariana, no momento em que não segue a caligrafia esperada, torna-se uma infratora; no momento em que escolhe a bola no lugar da boneca, torna-se uma infratora; no momento em que escolhe a bermuda no lugar do vestido, torna-se uma infratora; no momento em que não se incomoda em ser gorda, torna-se uma infratora.  Às regras maculadas, aplicam-se penalidades e essas penalidades se dão de acordo com o grau em que as pessoas reagem ao ato desviante. E todas e todos nós sabemos que as regras não se aplicam de forma igual. A partir disso, é válido problematizar outros aspectos: e se Mariana fosse negra? e se Mariana fosse pobre? e se Mariana fosse filha de uma família homoafetiva? e se Mariana destinasse sua fé a outra religião que não a cristã? e se Mariana fosse lésbica?

Sendo o Outro e recebendo tratamento distinto tanto na microesfera da escola quanto no ambiente familiar, o comportamento de Mariana passa a ser consequência da reação pública aos seus desvios. Ela escolhe adaptar-se ao discurso dominante para melhor viver. Submete-se à normatização do corpo, suprime práticas e posterga desejos – dá outro formato às suas expectativas. Obriga-se a percorrer caminhos desviantes (em relação ao seu natural) para alcançar resultados que são automáticos para as pessoas normais, i.e, pessoas encaixadas na norma.

Não vou aqui adentrar na parte histórica de formação e manutenção dessas normas, porque isso envolve falar de machismo e para falar dele não posso me abster de citar o patriarcado, o sexismo, o racismo, a homofobia – isso fica para uma próxima conversa. Quero, agora, pincelar sobre a postura salvacionista que os pais assumem perante Mariana. Na medida em que tentam subjugá-la novamente à sombra do eixo dominante, assumem  o papel do que Becker chama de empreendedores morais. Transformam o “conflito” do que Mariana é e o que deveria ser em uma cruzada moral. Veem na menina um mal a ser extirpado e não importa aqui os meios, apenas os fins. Se para forçar a menina a parar o futebol, não importava se teriam que agredi-la fisicamente toda vez que houvesse o flagrante ou se teriam que ocupar todos os horários da garota com atividades que achassem condizentes. O cruzado ( pai e mãe, neste caso) não está interessado apenas em levar outras pessoas a fazerem o que julga certo. Ele acredita que se fizerem o que é certo será bom para elas.(pg. 153).  É uma cruzada institucionalizada na medida em que ocorre em locais e tempos distintos.

Por fim, a última linkagem.  O desvio é combatido porque é ele um perigo a norma, isso é óbvio. Quando Beauvoir fala que não se nasce mulher mas se torna mulher, no sentido mais amplo, ela quer dizer isto: ou a pessoa se encaixa no padrão heteronormativo ou não é ela uma mulher, não importa se a biologia afirma o contrário. A lésbica não é mulher, porque foge à condenação biológica da reprodução. A mulher que se veste como o sexo oposto é qualquer outra coisa, mas mulher? Não. Há nuances também entre ser ou não ser. A mãe solteira é mulher, mas não uma muito boa, porque solteira, né? A mulher gorda é mulher, mas não uma muito desejada porque toda gorda é feia e não transa direito, né? A mulher executiva, ocupante de um cargo alto, é mulher, mas aposto que passou pelo sofá de alguém para chegar onde está, né? A prostituta é mulher boa para o garoto perder o cabaço e deputado passar noite, mas antes e depois disso é uma mulher baixa, né? Ah, mulher que dá no primeiro encontro é puta, não serve para nada além do gozo, né? Né? Né? Né? Os exemplos e os graus que se inventam para nos classificar são inúmeros. As pesquisas não mentem sobre a realidade que estamos inseridas: 50% dos homens acham que as tarefas domésticas são deveres exclusivamente nossos Desde o momento em que se descobre “ é menina!” até a velhice estamos sujeitas as mais diversas combinações opressivas: do sexismo ao feminicídio, da linguagem ao real, do discurso ao silêncio, somos expostas a tudo.

Mariana és tu; Mariana somos todoxs nós desviantes.

Mariana somos todxs nós que, de alguma ou muitas maneiras, destoamos do padrão. Somos esse coletivo de gentes e corações constantemente empurrados à margem.  Somos as mulheres que não pensam em casamento e que adoram uma cervejinha no fim de semana. Somos as mulheres que não seguram o desejo- damos e comemos quando e quem queremos.  Somos as mulheres que não querem ter filhos.  Somos as lésbicas. Somos as travestis. Somos as negras. Somos as índias. Somos carne e osso que também fraqueja e que por vezes se deixa sufocar pelo sistema, mas que não se entrega, não se resigna ao igual. Somos as médicas vindas de Cuba – com ou sem cara de empregada. Somos a estudante. Somos a doméstica. Somos a executiva. Somos e estamos em toda parte.

Conseguem ampliar o espectro dessa história e ver que ela toca muito além de um nome (ou de um sexo)? Quantas e quantos de nós somos desviantes? Quantas e quantos de nós fomos e somos sujeitos-objetos dentro dessas cruzadas que nada têm de morais? Quantas e quantos de nós já nos escondemos por não nos adequarmos e nos forçamos a mudança para melhor (sobre)viver no dia-a-dia? Quantas e quantos de nós somos moldados e preparados para, usando aqui a própria definição binária, o masculino?  Para esses outros, todas e todos nós que contestamos e desobedecemos à norma somos desviantes, somos o Outro, com a vogal maiúscula mesmo. A recíproca, contudo, chama o resgate: o fenômeno não se produz e não se modifica só. Juízes e réus, os papeis estão expostos à conquista, os discursos ao convencimento. Uma ruptura de fora pra dentro, da margem para o centro: os verdadeiros outsiders são eles.

Um salve para todas as pedras dispostas no caminho: Drummond ficaria orgulhoso de vê-las resistir.

¹ Becker, Howard. Outsiders. Pg.17.
² Becker, Howard. Outsiders. Pg. 21.
³ Becker, Howard. Outsiders. Pg.22.

4 Becker, Howard. Outsiders. Pg.153.

Masculinidade, ser homem e ser mais

Tive oportunidade de participar, durante a III Semana Gênero e Direito da UnB, de uma oficina que discutiu como principal tema as chamadas “masculinidades”, problematizando o assunto com o filme Gran Torino, de Clint Eastwood.

Primeiro gostaria de fazer duas anotações que indicam um modelo muito interessante que poderia ser mais usado na educação jurídica (tema que o PET tanto debate e que está fervilhando com a proximidade de um novo Projeto Pedagógico na Faculdade de Direito). Quão interessante pode ser a utilização de mídias diversas para introduzir um debate, no sentido de criar uma referência para se discutir. Parece realmente dar muito certo. Ademais, como esse formato, aliado a um grupo reduzido de pessoas (vulgo ‘turmas pequenas’) e uma proposta de democratização do debate (onde todas/os são ouvidas/os e falam suas opiniões e percepções sem receio) pode ser eficaz e engrandecedor para quem participa.

Voltemos à oficina. O filme de Clint não apresenta nenhum rompimento com os comportamentos e sentimentos comumente relacionados ao homem, ao “macho”. O filme realmente não tem a pretensão de discutir alguma divisão desigual dos sexos ou algo do tipo. É mais uma abordagem de choque cultural (no caso, entre os famigerados “chinas” e o homem americano). Porém, por conta de reforçar tão enfaticamente os papeis sociais de gênero, o filme acaba por ser uma grande chave para se iniciar essa discussão.

Sr. Kowalski (Clint Eastwood) é um veterano de guerra americano que mora num bairro hoje tomado por imigrantes orientais. A morte de sua esposa e o desprezo por seu filho e sua neta o levam a uma situação de isolamento, que por variadas circunstâncias e acontecimentos, aproximam-no de seus vizinhos orientais. Um dos moradores da casa, Thao, é um garoto tímido, que arruma o jardim, lava a louça, entre outras tarefas domésticas, e é pressionado por seus familiares a se tornar o homem da casa. Seu primo, que é de uma gangue, também insatisfeito com suas atividades de “menina”, quer cooptá-lo para entrar na gangue. Kowalski o conhece nessa situação, e passa a ser seu mentor na intenção de torná-lo um “homem”.

Nesse ponto cabe ressaltar um fato curioso do filme: Thao tem comportamentos e atitudes que não combinam com os papeis sociais que um homem deve assumir, segundo a clássica divisão entre masculino/feminino. Nesse sentido, tanto sua família, quanto seu primo, quanto Kowalski, quase que inimigos entre si, concordam que Thao precisa assumir-se como “homem”, se quiser se inserir na sociedade. No fim, essa tarefa acaba ficando para Kowalski: o homem americano branco com uma moral tradicional ultrapassada, mas ainda assim a melhor opção.

A partir daí começa uma verdadeira aula de como ser homem, na visão limitada de Clint Eastwood: cuspir, falar palavrão, consertar coisas, beber cerveja, ter um carro, um emprego, uma mulher e fazer com que os outros homens saibam disso. A cena final é bem ilustrativa: Thao toma o lugar de Kowalski, com seu Gran Torino, seu cachorro, sua namorada, seu emprego, sua “american way of life”.

Há mimúcias muito interessantes no filme, sobre as quais eu poderia me debruçar e analisar (coisa que fizemos na oficina, em grande medida)*. Mas quero apenas pegar o que eu já expus para tratar mais refletidamente sobre os impactos da masculinidade sobre nós, homens.

Bourdieu estabelece claramente que os homens são quem detêm mais capital simbólico na relação entre as pessoas. Nossos símbolos, comportamentos, papeis, linguagem, atitudes, etc. etc. etc. são os dominantes na sociedade. Não nos custa muito sermos homens, afinal, ao assumirmos essa condição, já estamos no topo das relações de poder.

Isso se torna uma violência contra as mulheres. Tudo que elas fazem e representam é desvalorizado. Ser mulher, com efeito, é aceitar se subjugar. E ser homem é aceitar subjugar. É assumir essa responsabilidade.

Isso cria alguns problemas. As mulheres já há muito tempo dizem: “ser mulher não é aceitar se subjugar, nem, ao contrário, subjugar. É apenas ser igual.” A reivindicação é por igualdade, por liberdade de ser o que se quer. Essas mulheres existem e, ainda que exista muita gente que não goste delas, suas lutas avançam e crescem.

E com relação aos homens que não querem subjugar? Pode ser difícil estabelecer essa relação entre dominação e ter um carro, mas deem uma olhada em blogs como testosterona ou similar (e constatem como as feministas não são esquizofrênicas). O que um homem gosta? Cerveja, futebol, carros, mulheres. E também ter sexo oral da sua mulher a hora que ele quiser. O que um homem não gosta? Sensibilidade, conversa fiada, músicas que não sejam “de homem”, e uma lista enorme de coisas que “só mulheres gostam”.

Eu penso que a masculinidade normativa tradicional é uma forma de violência, não apenas com as mulheres, mas também os homens que não se encaixam nessa forma limitada de viver. Isso nos limita como seres humanos. Eu gosto muito de cerveja, futebol, carros, mulheres, mas também quero poder desenvolver minha sensibilidade, poder falar muito, curtir qualquer tipo de música/dança/arte etc. Assim como tem mulher que usa maquiagem, se depila e gosta de assistir futebol ou MMA. Desvalorizar comportamentos e papeis sociais (e conformá-los, homonegeizando erroneamente uma mistura de identidade de gênero, sexo e opção sexual) só porque eles não se encaixam em uma divisão rígida binária daquilo que é permitido para homens e mulheres é desvalorizar todas as pessoas. Não nascemos brutamontes ou dondocas, querer essa divisão é eliminar subjetividades e possibilidades de ser. Acho que Hannah Arendt dizia que o que nos iguala é o fato de que cada um/a de nós é única/o. A diferença é o que nos torna humanas e humanos. Clint Eastwood renuncia a essa discussão. E você, não acha que é hora dos homens começarem a discutir suas possibilidades de ser mais (como diria Paulo Freire)?

Por Guilherme Crespo

* Pensemos, por exemplo, no papel por vezes secundário da irmã de Thao, que funciona como sensibilizadora de Kowalski, uma ponte entre ele e Thao. Como, após ser violentada, o foco da dor que ela sofreu recai muito menos sobre ela do que sobre a consciência de Kowalski e o sentimento de vingança de Thao. Como a cultura machista, racista etc. do homem branco americano é melhor só por ser “americana” (Sue diz isso), e como funciona, no fim, como fator estabilizador dos conflitos naquela comunidade. Há muita coisa que pode ser discutida no filme, além dessas.

Lição feminista nº1: O que é feminismo?

Estamos tão acostumados a textos, livros e palestras que nos esquecemos o quanto podemos aprender com apenas uma imagem, um gesto ou um sorriso. ‘Lição Feminista‘ é uma série de quadrinhos curtos e diretos, que tem por objetivo trazer as principais pautas e discussões do movimento feminista de uma forma acessível e bem humorada. Nossa protagonista pretende passar pelos conceitos mais básicos – como igualdade, machismo, violência; até temas avançados – como cisnormativismo, masculinismo, cultura de estupro, teoria queer etc.

Espera-se que, dessa forma, mais pessoas se interessem pelas discussões de gênero para que o movimento se engrandeça com novas ideias, pontos de vista e, principalmente, críticas! É certo que o ativismo contribui imensamente para um mundo igualitário; os movimentos, entretanto, devem se manter sempre abertos para o debate ou arriscarão se tornar tão opressores quanto aqueles que criticam.

Portanto, críticas, sugestões e temas para as próximas edições são mais que bem-vindos!

Por Gabriela Tavares

Por que a língua portuguesa não é machista

Quando criança, eu nunca gostei de quando minha mãe se referia a mim e ao meu irmão como “vocês”, a não ser quando era para elogiar, porque aí tudo bem. O problema era quando um de nós fazia algo de errado e ela acabava brigando com os dois, no plural. Se sua mãe não tinha essas manias, você certamente teve professores que o fizeram, como naqueles momentos mais que enfadonhos quando a sala inteira era obrigada a ouvir galhofas sobre o que alguns poucos, ou apenas um aluno fizera de errado.

São duas as coisas que me incomodam tanto quanto ouvir os sermões da minha mãe ou dos meus antigos professores. A primeira delas é dar à linguagem um caráter metanarrativo, que é diferente do meu discurso; a segunda, é negar minha individualidade, ou, em outras palavras, fazer com que toda minha forma de pensar, que é diferente, ou apenas minha, seja restrita à estrutura da língua e não ao modo como penso, embora concorde com um pensamento aqui e outro ali, porque, convenhamos, é um pouco difícil ser totalmente original.

Como diz o título, estou me referindo à linguagem inclusiva. O nome remete à inclusão das mulheres num discurso (ou metadiscurso?)[1] no qual elas eram desde sempre excluídas, de acordo com essas próprias mulheres. Nossa língua, com quase nenhum resquício do gênero neutro (como os pronomes “aquilo” e “isto”), sempre deu mais ênfase ao gênero masculino. Quando, por exemplo, nos referimos a um homem e a uma mulher, nós usamos o pronome pessoal “eles”, mesmo se forem duas mulheres e apenas um homem.

Uma breve retomada ao aspecto histórico da língua pode nos responder por que o português tem preferência sobre as desinências masculinas às femininas. A língua portuguesa foi-se transformando a partir do latim (ou, especificamente, do latim vulgar, conhecido como sermo vulgaris), que possui o gênero neutro além dos outros dois. Quando declinamos os pronomes pessoais is, ea, id (ele, ela, isso), temos no caso ablativo: eo, ea, eo (para ele, para ela, para ele); no genitivo plural: eorum, earum, eorum (deles, delas, deles), sem citar os casos genitivo singular e dativo, nos quais as três declinações de gênero são iguais (ejus, ei, respectivamente).

Outros exemplos como o adjetivo “bom” (bonus, -a, -um) tornam mais explícita a semelhança. No genitivo: boni, bonae, boni (de bom, de boa, de bom), como em “de boa vontade”, bonae spontis; no ablativo: bono, bona, bono (para o bom, para a boa, para o bom), em “para o bom menino”, bono puero. E os exemplos são quase inesgotáveis. Os idiomas vindos do latim suprimiram o gênero neutro pois o gênero masculino já cumpria sua função. Assim, ao invés de se usar o neutro para se referir a duas pessoas de gêneros diferentes, utiliza-se, portanto, o masculino.

No idioma holandês não existe essa diferença entre os pronomes pessoais relativos à maiorias ou artigos masculinos e femininos (quando há um homem e duas mulheres, diz-se “zij” – pronuncia-se zéi, sendo o contrário também verdadeiro). O verbete “de” é utilizado para se referir tanto à “de man” (o homem) quanto à “de vrouw” (a mulher); do mesmo modo, “het” relaciona-se aos substantivos neutros, como em “het strand” (a praia). O plural de todas as palavras, masculinas, femininas e neutras é representado por “de”, como em “de kinderen” (as crianças) ou “de huizen” (as casas).

O bom de tudo isso é que, desde a criação do idioma holandês, o uso do mesmo artigo para o singular e o plural, ou masculino e feminino, nunca foi sonoramente estranho a seus falantes pelo simples fato de as pessoas não terem tido tempo de se acostumar com o contrário. Poderíamos até pensar em usar outras vogais para nos referirmos a homens e mulheres no português, mas soaria tão estranho que o bom senso me leva a acreditar que as pessoas nunca se acostumariam com isso – em outras palavras, não daria certo.

Idiomas como o português, o francês e o italiano[3] dão relevância às desinências masculinas sobre as femininas pois vieram do latim, como já explicado. A justificação do “machismo” por trás da língua portuguesa viera daí, uma vez que a sociedade romana era rigidamente patriarcal (centrada na figura do paterfamilias), embora também o fossem os países de língua inglesa, onde a figura do homem também representava o núcleo familiar e social, enquanto a mulher se ocupava dos afazeres domésticos e dos filhos. Apesar disso, a língua inglesa não faz qualquer distinção de gênero a partir de maiorias – quando há duas mulheres e um homem, usa-se o pronome “they”, como no caso do idioma holandês.

A Holanda foi, curiosamente, um dos primeiros países do mundo a conferir o direito de voto às mulheres, em 1917. Apesar disso, a Rússia, cujo idioma se utiliza de pronomes diferentes para o masculino (Он), feminino (Онa) e o plural (Oни), dando prioridade ao masculino, também o fez logo no mesmo ano durante a Revolução Bolchevique. Nos Estados Unidos, a luta pelo direito de voto das mulheres começou em 1848, tendo sido “concretizada” apenas em 1920, quando foi aprovada a Emenda Constitucional nº 19 e 36 dos 48 estados americanos tiveram de ratificá-la. Estados conservadores como o Mississipi só a ratificaram décadas depois, em 1984.

E por que falar do voto? Ora, se o voto não é uma das expressões sociais mais significativas? Foi o voto que deu às mulheres maior possibilidade de serem ouvidas no âmbito político e social, além de fazer valer suas vontades como as dos homens, ainda que de modo restrito, pois as leis não abrangem de todo o pensamento das pessoas. O fato é que usei desse exemplo para dizer que não, a estrutura da língua não pode limitar o modo de pensar de uma sociedade ou de um indivíduo.

O voto não diz que não haja machismos na sociedade pelo fato de ter sido concedido o direito de voto às mulheres e sim que há uma parte daquela sociedade que não é machista. Apesar de lados diferentes contemplarem a mesma língua, há pessoas que são machistas e pessoas que não o são. O caso se torna mais explícito quando analisamos o aspecto da língua sobre as colônias que receberam o idioma do país colonizador como seu. Dentre elas está a Nova Zelândia, colônia inglesa e o primeiro país do mundo a dar o direito de voto para as mulheres, em 1893!

Tal como minha mãe e meus professores ao desconsiderarem o comportamento dos demais alunos, dizer que a estrutura das palavras oprime pelo simples fato de dar relevância para as desinências masculinas em prol das femininas (lembrando mais uma vez que o português não possui desinências neutras e, mesmo se houvesse, elas se pareceriam bem mais com as masculinas, pois “aquilo” ou “isto” terminam com “o”) é dizer que há um metadiscurso específico por trás da fala de cada pessoa, um metadiscurso que exclui, mesmo sem querer, a intenção do locutor.

Em outras palavras, é dizer que tudo o que eu penso ou acredito é condicionado pela forma como a estrutura de uma frase se constrói e não pelo modo ou o contexto em que a uso. Se assim o fosse, não poderíamos jamais dizer que alguém usou de algum contexto ironicamente, embora eu não entenda muito de ironias, pois estaríamos analisando apenas a estrutura semântica/sintática da frase, deixando de lado toda a intenção por trás do discurso.

Um dos meios criados para contornar essa “opressão” é citar as desinências femininas separadas por algum sinal junto às masculinas, embora as femininas, na maioria das vezes, estejam sempre a frente, como exemplo, dizer “as/os alunas/os” ou até usar “x” e “@”, como “alunxs” e “alun@s”. O grande problema disso é que a maioria das pessoas não consegue terminar de ler uma frase inteira assim sem se cansar, conquanto a maioria dos textos do Direito consiga fazê-lo sem ter que se utilizar de repetições desnecessárias, apesar de também fazer uso dessas mesmas repetições.

Admito que a ideia por trás da linguagem inclusiva é das melhores, mas que é praticamente, para não dizer de todo, intangível em nosso idioma. Nos acordos ortográficos que promovem mudanças na língua portuguesa é sempre tomado bastante cuidado ao se suprimir acentos gráficos, deixando a fonética quase sempre inalterada, uma vez que é de conhecimento geral que a palavra começaria a soar de forma estranha e o termo logo cairia em desuso, podendo o acordo ser, inclusive, desconsiderado por seus falantes.

Há algum tempo, li um manual muito interessante sobre o “uso não sexista” da língua portuguesa, o que concilia bem os dois lados, tanto das feministas, quanto dos demais leitores que não precisam se cansar para terminar de ler um texto. O único detalhe é que, embora seja uma ótima proposta, talvez as pessoas não estejam acostumadas a substituir um “os habitantes nunca estão contentes com o transporte” por “nunca se está contente com o transporte”, por uma simples questão de praticidade, como exemplo do próprio manual – a mesma praticidade que transformou, sucessivamente, o “vossa mercê” em “você”.

Por fim, podemos substituir palavras como “os juízes” por “poder judiciário” ou “os assessores” por “a assessoria” sem quase nenhuma dificuldade. Talvez o fato demandasse algum tempo para que as pessoas se acostumassem, mas, antes de tudo, devemos entender que o discurso nunca é realmente neutro e que a linguagem nunca fala por si só, principalmente em uma sociedade tão multicultural como o Brasil do século XXI. No caso americano, a sociedade possuía costumes diametralmente opostos entre o norte e o sul, como no caso do Mississipi, e ainda assim compartilhavam do mesmo idioma, que não faz distinção de desinências. Podemos dizer, então, que o inglês retratava o machismo do sul nas regiões do norte? A resposta fica por sua conta.

Não podemos negar que existem prerrogativas em uma fala, embora elas não se refiram a um contexto estranho ao conhecimento do locutor, mas, sim, a cada pessoa separadamente (com todas as suas implicações históricas e sociais). Tomar tal premissa como certa é fazer justamente o contrário do que a linguagem inclusiva propõe, que é descaracterizar a expressão por trás da fala de cada pessoa, como as próprias leis o faziam ao tentar calar os anseios de tantas mulheres, que foram pouco a pouco garantindo seus direitos através do voto, principalmente o direito de poderem se expressar sem que suas falas estivessem ligadas a um discurso característico daquela mesma sociedade machista que ainda deixa seus resquícios por entre os tempos.

Marconi de Paiva Lenza


[1] Uso o termo “metadiscurso” no sentido de um discurso além do discurso. Um discurso que é estranho ao meu, como dizer que minha fala é machista (metadiscurso) por usar “Bom dia, alunos”, querendo me referir a todas as pessoas presentes na sala (meu discurso). Reparem que minha intenção não foi negar o fato de que nossas ideias são condicionadas pela convivência no mundo e com outras pessoas, mas tão somente criticar a premissa de que a estrutura de uma língua pode falar por si própria conquanto a intenção do falante é desconsiderada.

[2] Declinar uma palavra significa flexioná-la de acordo com a função que ela exerce numa frase (caso). Por exemplo: regina (rainha) é escrito assim quando exerce a função de sujeito ou predicativo do sujeito. Se fosse um objeto direto, seria escrito como reginam (regin – radical; am – desinência do caso acusativo singular, que representa os objetos diretos). Nautae reginam vocabant (Os marinheiros chamavam a rainha).

[3] Na linguagem do dia-a-dia, usa-se comumente o pronome “loro” para se referir ao plural. No entanto, a literatura italiana, principalmente tradicional, do mesmo modo que faz uso do passato remoto no lugar do passato prossimo, apesar de possuírem o mesmo significado, também se utiliza de pronomes como “egli” (ele) ao invés do “lui“, “ella” (ela) no lugar de “lei” e, por fim, “essi” (eles) e “esse” (elas) ao invés do pronome “loro” (eles), que não faz distinção de gênero na referência.

Quando o óbvio precisa ser dito

“Essas feministas são muito radicais… e na UnB não se pode falar nada que você é machista”. É o que ouço reiteradamente em muitos espaços da UnB. Comparar pejorativamente feminismo com radicalismo é uma prática tão comum quanto preconceituosa. A luta feminista não é coisa bizarra que brota na UnB para patrulhar os chamados politicamente incorretos (utilizo a expressão, pois muitas/os a ostentam com certo orgulho), mas é um processo histórico, uma construção, uma luta de décadas por igualdade. Sim, igualdade. Igualdade que algumas pessoas defendem que já foi alcançada, simplesmente porque em termos formais ela já é reconhecida e, afinal, muita coisa já melhorou, certo? ‘O que essas mulheres querem mais?’ Essa é outra reprodução comum de que mudanças estruturais na sociedade ocorrem como um movimento natural, e apenas as lutas do passado fazem sentido. ‘Já passamos por algo muito pior, por que se preocupar com isso agora?’ E as novas lutas são tratadas como sem sentido ou saudosistas de um passado que não se viveu. Não tenho referências sobre isso, mas essa deslegitimação das lutas do presente por seus/suas contemporâneos/as, pelo fato de que já se conquistaram avanços quando a “barra tava mesmo pesada”, parece algo que qualquer geração acaba passando, invariavelmente. Infelizmente.

Mais peculiar é o curioso fenômeno daqueles/as que se sentem tolhidos na sua liberdade de expressão por movimentos de afirmação de direitos das mulheres e visibilização da violação desses direitos. Numa sociedade em que o discurso hegemônico, machista e heteronormativo, encontra aporte na grande maioria e ocupa e domina os mais diversos espaços de poder (senão todos) e, com efeito, garante voz e publicidade em grande escala (e com isso, uma grande legitimação), e que, além de tudo é naturalizado e não refletido, soa como desonestidade, cinismo ou, talvez, ingenuidade, afirmar que seu discurso antifeminista é censurado. A Universidade é um lugar (certamente, não o único, nem mais importante) de debate crítico acerca de questões de gênero e de discussão em nível simbólico (sem prejuízo das demais violências) sobre a violência que as mulheres sofrem por conta de serem mulheres. Como se não bastasse a limitação de espaços de visibilidade do movimento, ainda é taxado como uma ditadura do politicamente correto. É um processo diário de depreciação, descaracterização, deslegitimação e estigmatização do movimento feminista (e, infelizmente, de grande parte dos movimentos de luta por direitos e igualdade). O argumento do politicamente correto é usado para manter um status quo, frear a mudança, tornar as lutas por direitos uma piada de mau gosto. Em última instância para manter-se os privilégios discursivos e práticos daqueles/as que se beneficiam da situação atual.

Ademais, a luta feminista se refere muito mais a uma estrutura social que se sustenta sobre bases machistas, e sua reprodução em âmbitos políticos, culturais, profissionais, domésticos etc, que acaba por violentar mulheres, do que a um ataque pessoal a quem não concorda. Todas e todos nós reproduzimos discursos e práticas machistas (em alguma medida), somos frutos de uma criação e de interações que desigualam negativamente as mulheres. E é por isso que a (auto)crítica é um imperativo. O feminismo é uma transformação de si para si, de si para outros, de si com o mundo. Para mim, ouvir que o feminismo é radicalismo sem conteúdo, uma luta vazia (que é um argumento que provavelmente é repetido desde que as lutas feministas surgiram), é uma desqualificação de um processo que não é uma invenção dessas “feministas chatas” da UnB, mas a continuidade de um processo de luta que não terminou. Mais: é a desconsideração da diferença como condição que nos iguala e, portanto, não pode ser hierarquizada. É a obstaculização do conflito, da mudança, e daquilo que a provoca: a luta. As conquistas não são obra de uma coisa invisível que vai melhorando as coisas, mas provêm de lutas, de enfrentamentos contra a ordem dominante que se impõe e tenta estabilizar, padronizar, parar o tempo e manter estruturas de poder características. O feminismo é radical, não por ser uma ideia esquizofrênica e vazia, mas porque combate aquilo que mais naturalizamos, uma separação desigual entre homens e mulheres. Igualar é dizer que homens e mulheres são iguais em possibilidades, em escolha de projetos de vida, em condições para realizar esses projetos, em assumir os papeis sociais que desejam, em não ter que conviver com e combater tantos signos que estigmatizam, em não sofrerem violências ao longo desse processo. O feminismo sim é censurado, estigmatizado, mal-interpretado. Simplesmente por ser “a ideia radical de que homens são iguais a mulheres”.

Por Guilherme Crespo

P.S.: Curtiu as imagens do texto? Elas são de uma campanha promovida pela organização da Marcha das Vadias-DF, como forma de divulgação (e de reflexão!) da próxima Marcha das Vadias que vai acontecer em Brasília no próximo dia 26.

A “liberdade” que violenta

Por Diego Nardi e Guilherme Crespo

Recentemente, na Bahia, o poder legislativo estadual propôs projeto de lei que proibe a contratação com verbas públicas de artistas que degradem a imagem da mulher. Não foram poucos os que bradaram sobre a inconstitucionalidade da lei estadual por exercer, indiretamente, restrição da liberdade de expressão. Não é de se admirar que boa parte das críticas venha da industria fonográfica e do entertenimento; de certa forma, eles reconhecem em si promotores dos discursos que a lei busca combater.

Embricamentos e interesses econômicos de lado, a liberdade de expressão tem sido nos últimos tempos a grande base das argumentações que tentam deslegitimar qualquer tentativa de banir da esfera pública práticas que perpetuam uma violência sobre outros que está para além da manifestação física; tais tentativs buscam de combater o plano simbólico da violência, aquela agressão que existe e se desenvolve, consciente ou inconscientemente, no plano das relações sociais por intermédio, principalmente, do discurso, criando crenças que fazem com que o indivíduo se posicione no espaço social segundo critérios e padrões do discurso dominante. [1]

É evidente que não cabe ao Estado exercer juízo sobre a moral dos indivíduos ou, até mesmo, julgar, com bases morais, o conteúdo de uma canção, por exemplo. Fazer isso seria extrapolar sua esfera de atuação limitando, sem qualquer sombra de dúvidas, a garantia à liberdade de expressão que é essencial à democracia. Porém, juízo moral é estabelecido com base na distinção entre o que é certo e o que é errado, distinção essa que não é homogênea para todos os indivíduos que vivem em uma mesma comunidade. A partir do momento no qual o Estado passa a pautar sua conduta de restrição das liberdades dos indivíduos com base em fundamentos morais, estamos diante de um problema que, de fato, é contrário à liberdade de expressão.

Porém, coibir manifestações que carregam em si juízos de valores que atentam contra a dignidade de indivíduos ou grupos de indivíduos não é o mesmo que coibir manifestações que carregam em si juízos de valores que discordam da atuação política de indivíduos ou grupos de indivíduos. A diferenciação não é das mais difíceis, mas, infelizmente, a violência do discurso que não deixa marcas físicas ainda é deixada de lado, sendo caracterizada como algo incapaz de gerar efeitos verdadeiramente negativos. Assim, não é raro encontrar aqueles que abominam episódios de agressão doméstica mas, ao mesmo tempo, não veem nada demais em uma música que diz que mulher tem apenas o direito de sentar e ficar caladinha.

É claro que a violência física possui um grau de afetação muito mais explícito que o discurso sexista veiculado por uma canção, afinal, em última instância, a agressão que deixa marcas busca suprimir a existência do outro indivíduo da forma mais drástica possível, eliminando a vida.

Se por um lado a canção não deixa traços claros de violência, por outro ela legitima condutas que deixam; reproduz crenças e valores que acabam por exercer uma poderosa influência negativa na construção das identidades às quais indivíduos são forçados a se adequarem em decorrência das pressões sociais. Em relação às mulheres, trata-se de um estereótipo que vê nela senão um objeto sexual com responsabilidades essencialmente maternas e domésticas, não sendo possível negar as consequências nefastas da atitude sexista que as coloca nessa situação.

Para além das músicas, exemplos não faltam. Talvez o mais evidente seja a da cerveja que associa o produto ao corpo da mulher enquanto meio para satisfação masculina, levando a reificação aos extremos. Escolha uma loira, negra ou ruiva; elas estão aí para serem consumidas, nasceram para servir e dar prazer. Devassa é o adjetivo que as define.

Para a maioria das pessoas, trata-se apenas de uma cerveja e nada mais que isso.

A construção social de gênero e papeis sociais atribuídos a cada um desses gêneros, por se estabelecerem quase à margem de uma clara percepção racional desse processo, acabam por naturalizarem um padrão de normalidade, onde o exemplo mais claro é a mulher dona-de-casa e o homem provedor. Embora muitos advoguem que essa divisão é esdrúxula e já foi superada, notamos que essa representação se estende para além dos espaços privados de convivência; o simbólico, que condiciona o espaço público da mulher apenas à exploração do seu corpo (de diversas formas), acaba por formar a base para uma cultura machista que acredita ter o domínio sobre esse corpo – colocado à venda ou disponível ao uso a qualquer tempo. E não parece difícil estabelecer uma relação direta entre posse do corpo e violência física concreta que mulheres sofrem todos os dias. Expressões artísticas que reproduzem essa lógica da posse apenas reforçam, corroboram, legitimam toda uma cultura que mata mulheres (no espaço privado, socialmente ou de fato).

Quando discursos deixam de deslegitimar tão somente ações ou opiniões passando a deslegitimar o indivíduo em decorrência de características que fazem parte de sua identidade, estamos diante de discursos de violência. Tais discursos, destrutivos, quando não pregam a supressão do indivíduo, pregam a violência contra ele de modo a tornar sua existência menos digna.

É evidente que esses discursos não encontram espaço na liberdade de expressão, uma vez que não contribuem para o fluxo comunicativo, já que buscam excluir indivíduos/grupos de indivíduos dos espaços públicos. Ou seja, há intenção de limitação da liberdade do outro e aqui vale o velho brocardo sobre os limites da liberdade, afinal só há liberdade com o outro, jamais sem ele.

Assumir um padrão heteronormativo de normalidade tanto para as mulheres que acabarão submetidas a esse padrão quanto para aquelas que o desafiarão é muito custoso, ao mesmo tempo em que afeta de forma direta o Direito. Ora, se vivemos sob um paradigma do direito constitucional democrático, onde a mudança e o direito à diferença são fundamentais para própria sobrevivência desse sistema, experiências culturais que reforcem valores que objetificam a mulher e que, portanto, a desumanizam (contribuindo para a naturalização dessa condição), são no mínimo antidemocráticas, antijurídicas, inconstitucionais. E se é papel do Estado democrático de direito, através de seus espaços institucionais resguardar o que é mais caro à Constituição e o que a fundamenta, parece não ser só um absurdo argumentar contra intervenção estatal, como é essencial que o Estado não se mantenha passivo no tocante a essas manifestações.

Assim, projetos de lei que busquem impedir, de alguma forma, a reprodução das diversas formas de expressão e perpetuação da violência encontram amparo não apenas na Constituição, mas, antes, no papel transformador e emancipador que deve ter o Direito ao lidar com as questões sociais que lhe são apresentadas. Combater a desigualdade de gênero é assumir a razão de ser do constitucionalismo democrático em sua essencialidade, possibilitando que os indivíduos possam ter pleno domínio sobre seus projetos de vida, os quais não podem estar previamente determinados por convenções sociais ou ameaçados por contextos de violência.