A reação do humor e dos memes

       Por Amanda Conti

          A fluidez do mundo que vivemos hoje nos assusta, nos contagia, nos dá vislumbre para um país das maravilhas que parece ao mesmo tempo fantástico e medonho. Nesse mundo em que somos Alices vislumbrando essas maravilhas sem limites, vemos também que as rainhas de copas são muitas. A regulação informacional na internet nos deixou em um mundo em que sentimos a onipotência e impotência quase que ao mesmo tempo. Vemos discursos de ódio, página de apologia ao estupro, grupos extremistas, pornografia infantil correndo quase que livremente, ao mesmo tempo que nos vemos castrados em nossas ideologias, os cale-ses quando páginas são derrubadas, quando fotos de empoderamento são banidas por conteúdo pornográfico (mas páginas de pornografia infantil não), em que nossa sexualidade, nosso gênero, nosso eu é castrado, ao mesmo tempo que buscamos sobreviver.

            E sobrevivemos, das formas mais impressionantes possíveis, e uma das formas mais maravilhosas que vemos dessa sobrevivência é o riso. O riso vigora como um grito de resistência, o humor abre espaço entre o ódio, a resistência é Unicórnio, é festa, é riso, é piada. Essa não é uma ideia nova, mas uma forma de batalha que acompanhamos em toda história humana. Artistas como Charles Chaplin conseguiram fazer isso de forma maravilhosa, conseguindo, em um momento crítico, tocar a ferida não apenas dos americanos, mas de todo um mundo que se via sempre a um passo de uma bomba nuclear.

            Temos uma guerra política cibernética, que toma o humor como seu ponto base, o meme é sua revolta, e a reação não busca tiros, nem brigas, mas o cômico. Não significa que outras formas de luta, passeatas, palestras, debates, não existam mais, ou que perderam simplesmente sua importância, mas que há hoje um modelo mais rápido e fluído de comunicação, uma rede de indivíduos que busca, de um lado, a identificação, uma forma de compreensão do eu pelo reflexo do outro, uma busca não de um arquétipo em um líder, em um herói, mas um movimento difuso com vários líderes, e de outros a forma de luta através do riso, da crítica ácida e mordaz, através de tirinhas como Mafalda, de ícones como Inês Brasil, e desenhos de artistas famosos e anônimos.

            E, novamente, Chaplin nos mostra como a comédia é capaz de tocar fundo e mostrar um lado do ser humano, de nós que tentamos negar. “Nós não queremos odiar e detestar uns aos outros. (…) O caminho da vida pode ser livre e belo, mas perdemos essa estrada. (…) Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de bondade e gentileza. (…) O ódio do homem irá passar, os ditadores irão morrer, e o poder que tomaram do povo será a ele devolvido. (…) Então, em nome da democracia, deixe-nos usar esse poder, deixe-nos, a todos, unir-nos. (…) Por essa promessa, os brutos chegaram ao poder. Mas eles mentem! Eles não cumprem a promessa. E jamais irão. Ditadores se libertam, mas escravizam a população.”.

            Discursos como esse, apresentado ainda em uma tela em preto e branco, foram capazes de mudar ao menos um pouco da nossa percepção, fazer com que o humor se tornasse a crítica ferrenha que ressoa na nossa mente, que busca uma explicação para o inexplicável. O filme de 2015, Er ist wieder da, mostram não apenas o poder do humor, de trazer uma crítica ao mundo, a nós, como nossa naturalização das coisas não percebe que os monstros que cultivamos, que observamos, não são monstros, mas humanos não muito diferentes dos que vemos nos espelhos. Ao apresentar Hitler em um contexto de 2014 confundido com um comediante, vemos a facilidade de acreditar em ideias fáceis, de nos deixar levar por uma verdade plausível e uma solução agradável, em vez de buscar fontes, saídas que, ainda que sejam mais tortuosas, não levem a um horror a metade da população.

            No cenário político em que vivemos, vigora o medo de que Hitlers assumam, que uma nova ditadura se erga sobre nós como uma sombra, sem percebemos o Hitler humano que nos habita. A comédia, o humor e o riso são capazes de nos mostrar os absurdos de um mundo caricaturesco, que não compreende suas próprias caricaturas, mas que se satiriza como forma de mostrar esse mundo por trás do mundo. Mas precisa-se de força e de consciência para perceber esse humor mordaz, essa crítica ferrenha, e a ironia ao focar no nós que seguimos certos passos, sem perceber que andamos pelo mesmo caminho daqueles que criticamos. Continuemos com o humor, com essa forma tão maravilhosa de luta, mas prestemos atenção na luta como tal, para não acreditarmos que piadas como a heterofobia são reais.

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O riso, a crítica e a lágrima: três palavras que às vezes não imaginamos quão unidas estão.
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Carta a Brasília

Por Havi Borges

Três de Abril de 2013. Meu desembarque definitivo no aeroporto de Brasília. Sozinho, meus neurônios me levavam da felicidade à euforia de encarar a vida nesse ícone mundial da arquitetura e urbanismo. E haja beleza! As linhas do Plano Piloto até hoje me seduzem e eu quase nunca resisto a dar uma volta no deck norte ou a assistir ao pôr do sol de qualquer lugar dessa amplidão de céu azul e terra vermelha.

Existir em Brasília, aos olhos ingênuos de um adolescente, parecia mesmo uma linda proposta de vida comunitária. A beleza das suaves linhas de seus palácios e monumentos, aos sentidos de quem a sente, jamais transpareceriam sua violenta e excludente história. Infelizmente, esse lado cruel de Brasília é o planopilotense quem se dedica a bradar: são os moradores das asas (e águas) dessa embarcação que regurgitam racismo, classismo, machismo e ódio por suas polidamente asfaltadas vias.  A cor e a civilidade – vejam só, quanta ironia – vêm do entorno – e dos ipês em tempos primaveris – para dar a beleza que Brasília suplica a essa tão burocracinza Esplanada dos Ministérios.

De norte a sul, é o entorno que ocupa o Museu com a música e a dança que acendem a cidade. É o entorno que grafita pela vastidão de concreto e dá cor à cidade. É o entorno que varre a sujeira da leitosa burguesia e dá civilidade à cidade. De sul a norte, o que se vê é um Plano Piloto ingrato, que torce o nariz aos que lhe dão vida. Que nega transporte público aos que diariamente se esforçam por esse avião. Que olha torto pra crespa que ousa desfilar no Iguatemi. Que dá baculejo na cor dos que vem de longe ganhar a vida no Conic. Que promove feminicídio ao longo de toda a W3. Que queima índio em parada de ônibus. Que dizima aldeia no Noroeste.

Teus traços não negam tua sensibilidade! Mas por que, Brasília? Por que te negas aos filhos e netos dos que, a duras penas, te cravaram no coração do Brasil? Não percebes o desatino dos teus contrastes? Como te calas perante a branquitude do Lago Sul e te exasperas perante os que morrem nas batidas policiais da Ceilândia? Acorda, Brasília! É sempre tempo! Acolhe teus filhos, ampara os que já tanto sofreram por tuas curvas. Relembra teu povo, refaz as memórias dos que tu abandonastes, repara os danos que tua governança corrompida causou aos que não podem com teus esquemas de suborno e lavagem de dinheiro.

Nesse teu aniversário, eu te desejo coragem pra enfrentar teu racismo institucional, tua heteronormatividade assassina, teu preconceito de classe e tua misoginia hedionda sem perder a ternura. Meu coração soteropolitano sofre, mas me diz para não desistir de ti, e por isso sigo, fazendo de mim mesmo uma tesourinha a cortar o monopólio branco dos espaços de poder desse bucólico aviãozinho.

HAVI

Extensão por que?

Por Pedro Porto

             Formar em direito numa das melhores universidades do país. Assistir às aulas com professores que são os grandes juristas, ministros e advogados; aprender sobre as doutrinas, leis e jurisprudências. Por fim, escrever. Pensar apenas em produzir artigos e ter o tão sonhado lattes de 15 páginas. Esse é o projeto da maioria das* estudantes de direito, quando entram na Faculdade. Uma perspectiva de formação acadêmica, ao meu ver, limitada, autocentrada e academicista. Nela não se considera a importância de viver a Universidade, de entender que não há como se pensar em fazer um curso sem que se saia dele, dos seus limites e, mais ainda, do próprio ambiente acadêmico. É preciso romper as cordas que nos prendem nesse espaço, é preciso viver as inúmeras experiências que nos são oferecidas, é preciso se ver como agente de transformação social.

            É necessário que nos perguntemos que tipo de Universidade queremos, que tipo de educação, além de se pensar que tipo de profissional pretendemos formar. Primeiro, entendo que a Universidade não deva ser um espaço de manutenção, um local de corroboração de status quo, onde sempre se produz mais do mesmo. O ambiente universitário deve ser marcado pela reflexão, pela criticidade, pela atenção às demandas sociais, pela transformação. Darcy Ribeiro, no seu texto “Universidade pra quê?”, faz a seguinte citação: “Toda ideia é provisória, toda ideia tem que ser posta em causa, questionada. Tudo é discutível, sobretudo numa univer­sidade”. Mas, pergunto-me, como esperar mudança, como ser uma agente de transformação permanecendo restrito ao espaço físico da sala de aula? Não é possível. Estudantes, não se limitem no que foi exposto pelo seu tão exímio professor doutor, não se limitem aos seus livros e mais livros de direito, não deixem que a sala de aula atrapalhe sua Universidade, pois esse é o maior erro que se pode cometer. Aqui, irei destacar o que vejo como mais importante e necessário na experiência universitária: a Extensão.

            Tomo como pressuposto a Extensão Popular, Freiriana, pautada pela comunicação dialógica, horizontalidade e interdisciplinaridade; promotora de uma troca de saberes mútua. Mas por que tão importante? Somente por meio dela é possível promover o contato e diálogo entre a sociedade e Universidade. Pois, somente assim, podemos ressignificar esse espaço, mostrando a importância do conhecimento popular e tornando o ambiente efetivamente democrático e plural. Somente assim, podemos repensar o que realmente é conhecimento acadêmico. Somente assim, podemos pensar como academia se estrutura, quem fala por ela e como é importante modificar isso. Somente assim, o ambiente universitário pode se tornar transformador e emancipador, capaz de criar estudantes em processo de emancipação, para que se tornem agentes de sua própria história e de mudança. Somente assim, vamos questionar a educação vertical vista em sala de aula. Por fim, somente assim, a Universidade pode cumprir seu papel.

            Não se pode mais aceitar um curso de Direito marcado pela cultura bacharelesca, marcado pelo apego às formas e discursos rebuscados. Um direito que se exime de debater toda complexidade e dificuldades da realidade. Afinal, o curso não deve perpetuar e manter exclusões e opressões, deve lutar contra elas. A extensão ocupa e traz novos polos de conhecimento, abala as estruturas do formalismo. Ela abre a academia e mostra como o curso deve ser atento a lutas sociais e a protagonismos antes invibilizados, dela derivam novas interpretações e problemáticas.

            Dessa maneira, amigas estudantes, não sejam fechados, não sejam a profissional desatenta à sociedade e suas demandas, não se limitem à sala de aula, não sejam apolíticas/os ou acríticas/os, não esqueçam da função da Universidade. Ressignifique esse espaço, torne-o democrático, emancipador, transformador. Não há como se aproveitar e fazer Universidade sem se sair dela. Devemos todos aproveitar as experiências a nós oferecidas. Devemos todos conhecer e defender a Extensão.

imagem pro texto

*Nesse texto, irá se utilizar o feminino como universal da linguagem.