A rua é nossa

Por Beatriz Barbosa

Há quem diga que a rua é nossa.

Nossa? Eu me pergunto. Quem é esse nós? Será que esse nós tem classe? Cor? Gênero? Será que todos nós somos donos igualmente das ruas?

Será que a rua é minha quando eu, mulher, ando sozinha a noite? Quando eu insisto em não ter a companhia de um homem ao meu lado? Quando eu uso alguma roupa que realça o meu corpo? Quando eu utilizo o transporte público? Quando eu decido que não quero mais escutar “elogios” estúpidos?

Infelizmente, eu acho que as regras das ruas não foram feitas para mim, ou para qualquer outra mulher. Ainda nova aprendi a conviver com o medo. Cresci tendo a certeza que se anoitecer e eu estiver sozinha na rua eu não estou segura. E se mesmo assim eu tentar a sorte, se acontecer algo a culpa é minha. “Menina atrevida, sabe como as coisas são e mesmo assim tenta desafiar a vida.”

Sim, eu tento e com o tempo eu aprendo a conviver, ou melhor, eu aceito a realidade. Minha relação com a rua oscila entre o medo e a coragem. O primeiro é um sentimento constante. Graças a ele, você aprende a andar prestando atenção em tudo, principalmente se for noite e tiver uma pessoa perto, você observa a distância, calcula a velocidade, a visão se amplia, o volume da música diminui, cada ruído é importante. O nervosismo é inevitável quando você percebe que está em um lugar isolado e tem um cara próximo, o primeiro pensamento é criar distância, mas se a situação continua você logo pensa “por favor, se for para acontecer algo, que seja apenas um assalto, eu passo o celular e a bolsa tranquilamente”. Por outro lado, é inexplicável o alivio que se sente quando você percebe que é uma mulher que está do seu lado.

É difícil aprender a conviver com esse sentimento, o medo constante de ser violentada por simplesmente ser mulher. Violentada com olhares, com assobios, com carros que param, com palavras que envergonham, com gestos que assustam, com reações que zombam da impotência que nos invade, e será que preciso falar do medo do estupro que nos ronda? Há quem diga que são as mulheres que causam tal reação, são nossas roupas, nossos corpos, nossos jeitos que seduzem, que convidam, que provocam, provocamos os motoristas, os cobradores, os pedestres, os professores.. enfim provocamos todos os homens inocentes que nos agridem cotidianamente. E já que é assim, se eu tenho que lidar que o simples fato de existir provoca os homens, se eu tenho que conviver com o medo constante de poder ser estuprada, vocês homens que aprendam a lidar quando nós mulheres falarmos que todo homem é um estuprador em potencial, ou que não confiamos em vocês, ou então que não nos sentimos seguras. Desculpe ‘homens de bem’, porém eu não ligo se isso soa como ofensa, se machuca seu orgulho, muito menos ligo para as tentativas de mostrar que estou exagerando, pois eu estou aqui para falar da minha sobrevivência, e não da de vocês.

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Na imagem: “Homens! Deixem os assobios para os pássaros.”, autora desconhecida.

Vivemos em uma sociedade marcada pelo patriarcado, pela cultura do estupro, pela violência constante contra as mulheres. Nossa sociedade como está estruturada foi feita por homens para homens. Estatísticas indicam que a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil. Isso não é papo chato de feminista, esta é a verdade, nós mulheres estamos morrendo todos os dias por sermos mulheres e nossos agressores não são monstros, são homens comuns que foram criados achando que são donos das mulheres. E a cada notícia nova de uma mulher que foi agredida, eu sinto a dor em mim, porque eu não sei quem vai ser a próxima. Eu queria que o feminismo não precisasse existir, eu queria não ser a radical das rodinhas, mas eu não consigo desver todo machismo e violência que existe, e se eu tentasse fazer isso no mínimo eu estaria sendo hipócrita.

Mas agora vamos falando de coragem. Coragem esta que me dá forças para todo dia levantar e não deixar o medo me oprimir, que não me deixa desistir da batalha. Eu escolhi ser a dona da minha vida. Eu escolhi reagir e conquistar o meu espaço. Eu quero a rua. Eu quero direitos iguais. Eu exijo ser respeitada. Eu quero que o mundo entenda que o corpo é meu, e de ninguém mais. Eu levanto a bandeira da liberdade, igualdade e segurança para toda e qualquer mina. E eu não aceito que homem nenhum invada meu espaço. Eu não sou um pedaço de carne, muito menos o prato do dia. Eu não sou um objeto, então não ache que estou aqui pra sua serventia. Eu não quero conviver com seus assédios disfarçados de elogios. Não quero os seus beijos invasivos, muito menos os seus toques. Eu não quero ser parte da sua fantasia. E eu me sinto cada vez mais forte, porque eu sei que comigo eu carrego a força de várias outras minas que se empoderam todos os dias. E que vão fazer questão de lembrar que não estamos aqui simplesmente para agradar.

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Cotidiano

Por Carolina Freire

Acordei cedo, me vesti, parei, pensei … Já podia ouvir a opressão gratuita em forma de olhares, gritos, cantadas (??) Troquei de roupa, tapei meu corpo, perdi conforto, só como um meio tosco de me proteger.

Saí de casa. No trabalho, cumprimento, sou pontual, executo meu ofício com modesta competência. Mas afinal, de que vale tanto esforço? Aqui já ouço como sou incapaz de ser promovida; não falam diretamente, não são tão corajosos, mas batem na minha cara (que não é frágil) o tempo todo com enaltecidos argumentos de que sou excessivamente emotiva e ocupada demais com os filhos. É … parece que a racionalidade vem estocada em um saco pesado de testosterona daqueles que fazem, mas não criam, filhos.

Saio do trabalho de cabeça baixa, mas não derrotada; não, o dia ainda não acabou. Na condução, aperto, apalpo, abuso e passageiros cegos, só eu vejo, só eu sinto … nojo.

Na faculdade, procuro crescer, mesmo sendo menos escutada, menos relevante (parece), eu continuo. Continuo porque quero meu intelecto à prova, quero ser a competente, a que trabalha bem; chega de ser a gostosa ou baranga, a feia ou bonita; chega! Quero sair do concurso de beleza que a vida me impõe, quero respeito.

A aula acaba, já é tarde e sinto medo. Aqui a mulher forte esmorece, se encolhe, é hora de ir pra casa e tenho medo. Porque eu sei que à noite e sozinha eu não estou segura. Engulo esse medo e, assim como os não’s que a vida me dá, ele desce pela garganta e corta e fere e dói…

Chego enfim em casa e meus filhos precisam de mim, a casa precisa de mim, eu preciso de mim. Me ocupo nesses últimos instantes do dia com um serviço repetitivo e mecânico, mas ainda assim agradeço pela fé que me resta. Porque à essa altura, coisificada, subjugada, diminuída, oprimida, rechaçada, esperança foi só o que sobrou pra mim.

O sono me arrebata porque o cansaço físico me toma e aquieta a mente. Já o sonho, esse me ilude com a projeção de um lugar onde não sexualizam meu corpo, não me dizem o que fazer e não sufocam minha voz. Mas eu então acordo e a realidade me traz de volta porque o dia começa de novo e eu não quero chorar … eu não posso chorar … não posso … não posso … não posso, mas as lágrimas não demoram a cair …

“A chata”

Por Fernanda Martins

             Foi assim que eu fiquei conhecida depois que me assumi como feminista. Passei a ser tachada de louca, de neurótica, de pessoa que não sabe brincar e que questiona tudo. Virei motivo de piada entre vários colegas. “Lá vem ela”, “você leva tudo muito a sério”, “nossa, mas não pode mais nem brincar”, “você reclama de tudo”. Todas essas frases se tornaram frequentes para mim. Percebi que me reconhecer como feminista é um ato de empoderamento, mas que, ao mesmo tempo, deixa feridas.

             O processo de entender o feminismo e de me compreender dentro disso foi – e continua sendo – conturbado. Eu sinto que cresço e amadureço todos os dias e que faço amizades incríveis que me acompanham ao longo dessa caminhada. Mas, ao mesmo tempo, esse é um processo que machuca. Machuca porque me afasta de muita gente que antes eu sentia o prazer de conviver e hoje não mais. Machuca porque vejo gente por quem eu nutria verdadeiro afeto achando que hoje eu só quero ser “a do contra”. Machuca porque desisti de frequentar lugares que antes eu adorava. Machuca porque eu também me questiono, questiono minhas falas, minhas atitudes. Machuca porque de repente eu me pego cantando uma música que sempre gostei e quando presto atenção na letra me sinto angustiada. Machuca porque hoje eu percebo que uma série de relacionamentos (meus e das minhas amigas) que antes eu julgava como normais, são ou foram, na verdade, abusivos. Machuca muito me assumir como feminista porque travar batalhas contra séculos de patriarcado não é tarefa fácil.  Exige muito de nós.

            Exige paciência, exige força, exige coragem, exige união. É e na união que a gente encontra mais e mais força. Porque são nas conversas travadas nos grupos de minas, nos desabafos, nesses espaços de sororidade que gente vê que não está sozinha, que a gente se reconhece em histórias que não são nossas, que a gente percebe que nossos medos são os mesmos, que a gente entende que juntas podemos mais. São esses espaços que nos dão esperança, que nos encorajam a continuar lutando, que fazem com que as feridas das batalhas cotidianas sejam atenuadas. São essas companheiras, amigas, colegas de luta que nos oferecem rosas no meio de tantos espinhos.

             Eu preciso do feminismo. Sim, eu já posso votar, posso estudar e trabalhar fora. Mas isso não basta e é por essa razão que a luta continua. Não basta porque mulheres ainda recebem salários menores, porque mulheres ainda são minoria na política e em cargos de comando, porque mulheres ainda são mortas pelo simples fato de serem mulheres, porque mulheres são estupradas e ainda tem cara que pergunta sobre a roupa que elas estavam usando. Não basta porque mulheres sofrem violência doméstica todos os dias, porque o nosso medo de andar sozinha na rua não é o medo de perder o celular ou a bolsa. Não basta porque ainda tem homem que não sabe que “não” significa não, porque tem homem que acha que mulher é propriedade sua.

            Não basta por uma infinidade de violências diárias que sofremos todos os dias e enquanto tudo isso acontecer eu vou continuar sendo a tal chata, vou continuar questionando, reclamando e incomodando.  Não é fácil, machuca e deixa feridas. Mas tem um monte de outras “chatas” junto comigo e com elas é mais fácil seguir em frente.  Gratidão, queridas!

é preciso ter coragem

Se eu fosse um garoto

Por Nathálya Ananias

Se eu fosse um garoto
Nem que fosse por um dia
Eu não teria brinquedos que remetem ao meu futuro de dona de casa
Não teria uma boneca para cuidar
Brincaria de tudo o que eu quisesse
E seria sempre o super herói da história
Não teria que amadurecer logo cedo
Olharia debaixo das saias das meninas
Porque vocês ririam das minhas peripécias

Se eu fosse um garoto
Eu não planejaria a minha vida com base em uma família
Me imaginaria uma estrela do rock
Transaria sem me preocupar em ser taxado
Não seria exclusivo, porque afinal ninguém me possui
Se branco, me imaginaria sempre nos cargos mais altos
Eu teria um mundo todo para desbravar
Porque sei que grandes não seriam as dificuldades para mim

Se eu fosse um garoto
Beberia com os amigos
Faria coisas estúpidas sem me importar
E seria protegido
Me colocaria em primeiro lugar
E me vestiria como quisesse
Não teria problemas ao cortar meu cabelo curto
E mesmo estando acima do peso me veria desejado
Porque afinal eu seria um cara normal

Se eu fosse um garoto
Dirigiria sem o pressuposto de mau motorista
Não aceitaria um não como resposta
Voltaria sozinho para casa a noite
Iria para as forças armadas
E defenderia meu país
Abortaria quando quisesse
Ficaria nervoso a qualquer momento
Não teria receio em ser mal educado
E teria um mundo todo construído para mim

Mas eu não sou garoto
E preciso viver restritamente
Meus brinquedos me mostram a posição que eu devo assumir dentro de casa
Preciso sentar sempre de pernas fechadas
Não posso usar um decote sem ser provocante

Não posso ter o cabelo curto e ser “feminina”
Não tenho o direito de ser quem eu quero
De decidir o que quero fazer com o meu corpo
Porque independente do que eu faça serei vadia

E quando eu acho que tudo isso está errado
E decido me livrar do que você me impõe
Sou louca, histérica
Feminista sem coração que defende a morte
Sou a mal amada
A que precisa de um homem para me mostrar o que é certo

Mas eu decidi jogar seus preconceitos pro ar
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E com esta decisão percebi que não estou sozinha
Muitas estão ao meu lado lutando
E juntas, permaneceremos lutando
Até o dia em que nós mulheres tenhamos os mesmos direitos dos homens
Até o dia em que não sejamos culpabilizadas por algo que foi feito a nós
Até o dia em que possamos decidir sobre a nossa vida sem ter você nos julgando
Nos excluindo de grupos sociais
Podem nos chamar do que quiserem
Mas avançamos e não aceitaremos retroceder jamais!

As dores do processo do empoderamento feminino

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Por Luiza Miranda

Quando entrei na Universidade, há 3 anos atrás, ainda estava com a cabeça lá no Ensino Médio. Achava que a mulher deveria “se dar o respeito” e todos esses tipos de bobagens construídas socialmente que penetram nosso inconsciente desde cedo. Eu namorava há mais ou menos 1 ano e era vista como a garotinha exemplar, santa, que serve ao namorado e que mantém a relação perfeita. Mentira. Tudo mentira. Nada passava de aparências que a sociedade me rotulava e que eu tentava ao máximo não me desviar.

Eu achava que o sexo era basicamente uma forma de dar prazer ao homem e que dependia do meu desempenho sexual/afetivo/submisso a garantia de não-traição por parte do namoradinho. Mas isso durou até os primeiros meses de faculdade. O namoro acabou, fiz novos amigos e passei a me interessar mais por política. E foi na Universidade que aprendi o que é o feminismo e todo o meu processo de empoderamento começou.

Sempre fui uma pessoa muito extrovertida na presença de amigos e amigas. Então peguei o jeito rápido da vida universitária de “curtir a vida adoidado”. Comecei a beber socialmente e a sair para festas (ambientes que eu nem imaginava frequentar antes da universidade). Beijar na boca de desconhecidos então, quem nunca? As ficadas casuais passaram a fazer parte da minha vida. Mas todo esse processo de empoderamento, de beijar quem eu quisesse, beber o quanto eu quisesse, usar as roupas que eu quisesse e entender melhor meu corpo e minhas limitações, trouxe consigo as violências.

Decidi escrever esse texto porque ninguém me avisou que a partir do momento que eu me apresentasse como uma mulher independente, feminista eu ia sofrer algumas violências que eu não sofria quando ainda estava no casulo. Eu realmente achava que, aprendendo as coisas que aprendi sobre feminismo, sobre abusos em relacionamentos, sobre liberdade sexual feminina, eu não iria mais passar por nenhuma situação de violência. Oras, eu sei como me prevenir, não? Não. Eu estava bem enganada. Não importa o tanto de teorias que lemos que nos dizem frases do tipo “meu corpo, minhas regras”, “o feminismo liberta”,  sem termos a consciência de que o processo de libertação vem acompanhado de abusos de vários tipos.

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Por isso, faço uma pequena lista das violências que mulheres em seu processo de empoderamento podem se identificar (e espero, mas ao mesmo tempo não espero, que se identifiquem):

1. O “não-merecimento de respeito”

Quando as mulheres começam a ter relações sexuais casuais, muitas do tipo “one night stand”, podemos nos confrontar com caras que acreditam que, por sermos mulheres que quando temos vontade transar, transamos, não somos merecedoras do respeito deles. Isso pode acontecer de várias formas. Desde o cara que não te cumprimenta mais quando te vê em espaços públicos até aquele que sai contando pros amiguinhos tudo que vocês fizeram na cama e como você é uma vadia mesmo, do jeito que falam por aí! Essa violência creio ser muito comum e uma das mais doloridas.

2. “Ué, mas você pegou meu amigo!”

Você está na balada se divertindo com seus amigos, despreocupada, a fim de dançar, quando chega um sujeito e começa a dar em cima loucamente. Você diz NÃO enfaticamente e o que ele diz? “Ué, mas você pegou meu amigo! Se você não tem problemas em ficar com qualquer um, por que não comigo?”. Já perdi as contas de quantos caras acham que, por eu beijar quando quero beijar, isso é sinônimo de “pego qualquer um, até quem eu não me sinto atraída”. Eu beijo quem EU quiser, e isso vai excluir muita gente, porque a minha seletividade ainda existe e sempre existirá.

3. A recusa da camisinha

Um comportamento violento que nem sempre é reconhecido dessa forma é a recusa do uso da camisinha. Vários rapazes utilizam o argumento de que “broxam” de camisinha ou então de que “escolhem as pessoas com que transam, por isso não tem que haver preocupações” ou mesmo alguns chegam a usar tom agressivo: “você ta achando que eu tenho alguma doença?”. O que essa rapaziada não entende é que DSTs não têm gênero, raça, orientação sexual e nem classe. E, quando as minas reclamam ou insistem no uso do preservativo, são inúmeras as  reações de repreensão por partes dos homens. Desde falas como: “você é fresca”, até a recusa do ato sexual por completo. Além disso, nem toda mina toma pílula anticoncepcional, e se ela não quiser, nem vai tomar mesmo e pronto. Não é o seu corpo, cara, que está sendo bombardeado de hormônios com vários riscos de efeitos colaterais. Se a camisinha te broxa ou qualquer outra desculpa, não interessa. Coloca a camisinha e não reclama.

4. As festas

Pode parecer que eu estou generalizando ao atribuir a esse tópico o título de “festas”. Muitas festas são realmente ambientes em que as minas se sentem confortáveis, como as festas LGBT, em sua maioria. Mas muitas festas, muitas mesmo, são ambientes de violência latente contra a mulher. Como uma mulher solteira, por não ter um namorado do lado (esses machos só respeitam machos!), acabo ficando mais vulnerável a certos tipos de abusos. Caras que se acham no direito de passar a mão nas suas partes íntimas, que chegam agarrando, que não se contentam com o simples “não” são muitos comuns nas festinhas que rolam por aí. As festas são um espaço de muita violência.

Propus-me a escrever esse texto baseado unicamente nas minhas experiências como mulher solteira que possui relações casuais heterossexuais. O processo de empoderamento para mim foi e ainda é muito doloroso. As violências sofridas deixam marcas, tanto na alma quanto no corpo. Não desencorajo nenhuma mulher a procurar o caminho do empoderamento. Pelo contrário, é um caminho necessário e que traz muitos bons frutos. Mas é preciso alertar que ele vai ser doloroso em muitos aspectos. Mas não desistamos. Seguimos juntas.

“Ah, mas eu não era assim até…”

Por Marcos Vinícius Lustosa Queiroz

Nesses meus anos de Universidade, sempre me deparei com um discurso pra lá de curioso, interessante e que me despertava um sentimento de dúvida. Esse argumento se baseia no seguinte raciocínio: eu não era desse jeito, mas daí apareceram esses/as radicais e me fizeram mudar de pensamento. Até então eu não era contra isso, mas depois que começaram com esse papo, eu mudei de postura. Exemplificando para ficar mais claro e para nos atermos a um caso específico. Muitos/as dizem que não eram machistas ou que não defendiam discriminações de gênero, no entanto, depois que tiveram contato com o feminismo, adotaram comportamento diverso, no qual relativizam os direitos das mulheres ou não são afetos à luta emancipatória feminina.

Junto a esse discurso, ideias de que a constância de certos argumentos, a necessidade de afirmação cotidiana de certos posicionamentos e a “implicância” de certos grupos geram um afastamento daqueles/as que poderiam aderir à causa feminista. Por trás disso, há a afirmação de que o contato com esse/a outro/a, diferente e reivindicatório/a, gera a própria negação ou distanciamento daquilo que os/as caracteriza. Ademais, está atrelada uma postura de reação, na qual diante do discurso diferente, há a ação de um comportamento de defesa contra esses argumentos “radicais”.

Não quero entrar nas particularidades que esse debate poderia gerar, mas gostaria de me deter na afirmação de que “eu não era assim até me aparecerem com esse discurso radical” a partir da noção gadameriana da compreensão, para dessa forma questionar os limites da veracidade desse tipo de argumentação. Além disso, procurar observar se por traz desse discurso não há o escamoteamento de uma postura que busca negar a própria alteridade.

Segundo Gadamer, o ato de compreender é sempre a elaboração de um projeto prévio, o qual implica a necessidade de opiniões anteriores e não arbitrárias. A compreensão, em sua estrutura circular, baseia-se na própria ideia de pré-juízo, em que o conhecimento posterior sempre apresentará uma transformação imperceptível da tradição anterior. Assim, o ato de compreender o mundo não aparece como ato puro da subjetividade, mas como um mover-se a um acontecimento da própria tradição, na qual ocorre a mediação do passado e do presente.

O ato hermenêutico de interpretação da realidade encontra-se sempre no movimento dinâmico da pré-compreensão, que é reatualizada constantemente no contato e abertura com novos pontos de partida, de perspectiva e de mundo. Compreender, portanto, está sempre relacionado com nossas expectativas anteriormente criadas, em que a possibilidade hermenêutica é determinada pela situação histórica do ser que interpreta a realidade.

Diante dessa noção, a frase “ah, eu não era assim…” ganha uma problemática tremenda e reveladora. Primeiramente e em sua consequência, nota-se complicado alguém se afirmar como machista logo após o contato com o “radicalismo”, pois a própria compreensão machista, de acordo com a estrutura circular da compreensão, já estava, em alguma medida, introjetada nos pré-juízos daquele/a que interpreta e age sobre o mundo. Se afirmar como “transformado em machista” justamente após uma relação abrupta – e somente por isso – é negar a própria possibilidade da compreensão; é negar o passado dentro do qual o presente se possibilita, se realiza e se constitui.

Essa noção não foge em nada das análises que estruturam os comportamentos machistas enquanto frutos de padrões de socialização, os quais formarão, em grande medida, a própria possibilidade de compreensão do mundo. O machismo constitui uma das lentes de nossa subjetividade, reconheçamos ou não. Mas antes que se caia no imobilismo essencialista, dirijamos para o segundo problema da afirmação “ah, eu não era assim”.

Ao adotar uma postura reativa aos discursos de grupos feministas, essas pessoas estão dogmatizando sua própria tradição machista imperceptível, estabelecendo uma metafísica comportamental e relacional que não possibilita justamente o exercício da alteridade. O/a outro/a, enquanto tentativa de construção de uma tradição diversa, portador de uma generalidade divergente e que busca compreender a partir de outra perspectiva, é a própria possibilidade da abertura do ato de compreender. Em sua diversidade, a alteridade faz com que a tradição individual se autofundamente constantemente na tentativa, sempre incompleta, de compreender o/a outro/a. A inclusão pessoal do/da diferente é o ponto de crítica que possibilita a própria quebra da metafísica compreensiva.

Portanto, a frase “ah, eu não era machista até as feministas radicais aparecerem”, além de negar a própria tradição histórica na qual se situa o comportamento machista formador da possibilidade de nossa compreensão, exclui, ao dogmatizar esse passado/presente por meio da invisibilização, a força crítica e transformadora da alteridade. No fundo, e por traz dessa metafísica comportamental, talvez se esconda não só uma reação ao diferente, mas o medo de (se) transformar ou uma conivência com o estabelecido.

Lição feminista nº1: O que é feminismo?

Estamos tão acostumados a textos, livros e palestras que nos esquecemos o quanto podemos aprender com apenas uma imagem, um gesto ou um sorriso. ‘Lição Feminista‘ é uma série de quadrinhos curtos e diretos, que tem por objetivo trazer as principais pautas e discussões do movimento feminista de uma forma acessível e bem humorada. Nossa protagonista pretende passar pelos conceitos mais básicos – como igualdade, machismo, violência; até temas avançados – como cisnormativismo, masculinismo, cultura de estupro, teoria queer etc.

Espera-se que, dessa forma, mais pessoas se interessem pelas discussões de gênero para que o movimento se engrandeça com novas ideias, pontos de vista e, principalmente, críticas! É certo que o ativismo contribui imensamente para um mundo igualitário; os movimentos, entretanto, devem se manter sempre abertos para o debate ou arriscarão se tornar tão opressores quanto aqueles que criticam.

Portanto, críticas, sugestões e temas para as próximas edições são mais que bem-vindos!

Por Gabriela Tavares