Isto Que É Festa!

carnaval

*Por Guilherme Martins

“Está parecendo um carnaval”.

Sim, uma expressão, dentre outras, que passou pela minha cabeça no final da manifestação. Engraçado foi justamente um grupo de indivíduos proferir o mesmo pensamento, mas colocando em um contexto de diversão. Diversão! Não quero falar mal de todo o movimento que ocorreu ontem (20 de junho) em Brasília. Sim, de fato, ocorreram tantos atos de verter lágrimas de felicidade, bem como verter lágrimas interioranas de tristeza e biológicas (em razão do gás). Mas, achei necessário fazer levantamentos pessoais sobre o que está acontecendo. Não vou entrar muito em uma forma de resumo do contexto social que passa no Brasil desde a semana passada. Focarei apenas na quinta-feira, 20 de junho, em Brasília. Até porque pretendo ser breve na exposição.

Estou, junto a diversas pessoas queridas, me dirigindo a tão esperada manifestação que ocorrirendoria (ler O Restaurante no Fim do Universo, de Douglas Adams). Pessoas já se encontravam lá, outras estavam chegando e, em um momento posterior, havia aquelas só apareceriam já no estágio que considero banalizado. Assim como outras manifestações, não tinha, em nenhum momento, uma pauta específica. Fui lá com o desejo de repudiar a criminalização dos movimentos sociais (mais em relação ao apoio ao MTST e o B&D) bem como a tentativas futuras de considerar terrorismo esses movimentos durante a Copa… caso tenha uma. Olho para direita e vejo aqueles que se dedicam a causa LGBT. Olho para trás e vejo alguns com intuito de reclamar da Copa e o “investimento” desnecessário. A minha frente estavam aqueles indignados com o transporte público. Senti um pouco de desorientação. Mas, me acostumei e me sensibilizei em ver todos se mobilizando a favor de seus ideais. A felicidade maior foi chegar no gramado do Congresso e ver um grupo de indígenas levantando cartazes, lutando por seus direitos. Uma miscelânea de grupos, objetivos, pensamentos. Ou seja, bem como tem sido divulgado na internet, não havia de certo um foco muito bem estabelecido. Existia ali uma nuvem não muito clara, pois tinha formato de coelho ou de dragão. O importante é que tinha um formato de alguma coisa!

Agora a parte triste. Depois de um momento, não lembro muito bem o horário, essa mesma nuvem foi perdendo os contornos. Suas linhas foram sumindo, dando espaço para alguma coisa não muito concreta. Sabe aquela nuvem que você olha e não consegue ver um aspecto de nuvem? Que parece mais uns fiapos e não um algodão doce? Pois, foi exatamente isso que aconteceu. As diversas vozes que estava presenciando tornaram-se somente uma. Uma voz sem contorno. Presenciei apenas uma manifestação sem muito sentido. Veja, não quero generalizar para todos os indivíduos, mas de onde estava as outras vozes foram silenciadas. Escutava, na maioria das vezes, a mesma porcaria que os políticos falam: “mais saúde e educação”, “vamos acabar com a corrupção”. Na minha opinião, a utilização dessas expressões ficou como um xingamento entre amigos, ou falar que ama alguém só para ser fofo… ou seja, algo bastante sem conteúdo, um vazio. Não bastassem os gritos, tinha que observar cartazes com a única intenção de zombar com as figuras políticas. Cadê aquelas vozes que tinha escutado no começo? Acho que estava em um lugar errado na manifestação.

Essa transformação do plural, do diferente, para o uno, o igual, deu margem para, em diversos momentos históricos e até mesmo literários “fictícios”, apoio a verdadeiros golpes contra o que se queria na verdade: democracia (palco de conflito de interesses; não aceitação de uma única vontade). Cheguei a ler em outros blogs onde os escritores faziam um paralelismo com as ditaduras passadas. Estão mais do que certos! Por que pedir a todos usarem branco na segunda (17 de junho), por exemplo? Assistiram o filme A Onda e acharam legal por acaso? (fugi um pouco do contexto). Enfim, essa (não) delimitação do vazio faz com que eu fique com o pé atrás. Foi assim uma das sensações no momento.

Outra coisa que me deixou muito aperreado. Não posso dizer triste, pois foi uma confusão de sentimentos. Estava com raiva, confuso, pessimista. Um aglomerado de coisas nada boas, diga-se de passagem. Quando não suportava mais esse vazio, essa perda de um objetivo bem definido, fui em direção ao carro (por sinal estava bem perto do Congresso… lá no Museu da República). Na caminhada refletia sobre o que estava acontecendo e reparei na mesma massa de indivíduos caminhando em direção a lugar nenhum. Estavam ali, jogados no meio-fio, bebendo cerveja, conversando… Não parecia nada mais nada menos que um carnaval. Sim, carnaval! Com direito a comida e bebidas no caminho. Li o comentário de alguém no facebook que parecia uma festa junina. Acho que é mais cabível essa denominação.

Estava ocorrendo até uma festa gratuita no museu (acredito que já estava estipulada) e as pessoas saíam do movimento para ir lá divertirem-se! O que aconteceu ali? Fomos ou somos programados para fazer manifestação e depois curtir a noite em uma festa que ocorre ao lado, por assim dizer, da mesma manifestação? Isso só mostrou a falta de compromisso que muitos dos que estavam ali possuíam. Ovelhas que procuram seguir ideias. O perigo de se seguir o deturpamento democrático e adotar pensamentos como a tortura é algo legal, bem como a punição é o único meio de salvar/proteger a sociedade, podendo se agravar a uma ideologia em que 2 + 2 são 5…

 manifestações

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Nem tudo é música aos ouvidos delas: machismo em 7 tons e várias escalas.

          

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 Por Ingrid Martins e Ladyane Souza

 “Já tive mulheres, de todas as cores…”

Nem tudo é música aos ouvidos delas – estudantes, professoras, advogadas, prostitutas, médicas. Muito da produção musical quer nacional, quer internacional, lança mão de uma imagem de mulher que é objeto sexual ou simples reprodutora – submissa aos ditames masculinos. Uma mulher que não é dona do seu corpo – o próprio Martinho da Vila já teve mulheres de várias idades, de muitos amores. Mas como assim teve? O homem, desde os tempos mais remotos, é o senhor do poder e da palavra, aquele que rege a família e os negócios, o detentor do pátrio poder. Para além da violência física à qual a mulher é vítima, a dominação masculina encontra na violência simbólica outras formas de se impor.

Não raro, as próprias mulheres incorporam essa relação de subserviência ao homem como irreversível em suas vidas, tornam-se Mulheres de Atenas*. É tão naturalizado, que cabe a elas o papel de “objetos receptivos, sensíveis, atraentes e disponíveis”, que na dominação masculina todas devemos ser “femininas, isto é, sorridentes, simpáticas, atenciosas, submissas, discretas, contidas ou mesmo apagadas” (Bourdieu, 2007, p. 82). “Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas, vivem pros seus maridos, orgulho e raça de Atenas” – dizem, com outros termos, mulheres em discursos moralistas, em pleno século XXI, a outras que optam por subverter a dominação – “VADIAS!”

A violência sofrida enquanto dominada é reproduzida, muitas chegam a acreditar que, realmente, “por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher”. Uma mulher que é secundária, é cereja de bolo, é aquela que cumpre os valores da família tradicional, é apresentável aos amigos – a acompanhante ideal ao triunfo profissional do marido. “Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas. Geram pros seus maridos os novos filhos de Atenas. Elas não têm gosto ou vontade, nem defeito, nem qualidade, têm medo apenas, não têm sonhos, só presságios”.

A posse sobre a mulher é tamanha, que nem todas podemos dizer adeus e ir com os seus numa turnê quando se trata de relacionamentos. O não da mulher – sempre disponível – não é levado a sério e, nesse sentido, somos todas Lily Braun. Aquela Lily dos versos do Chico: “mulherão”, sedutora, objetificada, comível com aqueles olhos de comer fotografia. E, por vezes, nos amassam as rosas, nos queimam as fotos, nos beijam no altar, daí em diante, nunca mais romance, nunca mais cinema, nunca mais drinque no dancing, …, uma rosa nunca mais, nunca mais feliz. Quero que meu “NÃO!” tenha força, que o casamento seja cumplicidade e divisão de responsabilidades domésticas – dispenso ser “dona do lar”, não quero sair de cena do meu próprio palco.

Quero ser como a outra Lily Braun, a real, não personagem. A qual era feminista, juntou-se ao partido socialista alemão e lutava para que as mulheres não vivessem apenas com a expectativa de serem mães e esposas. Integrou o início das lutas para que a voz de nós todas fosse ouvida – não como secundária, sombra, muito pelo contrário, desde então até hoje queremos o holofote, o nosso mérito pelo que de fato fizemos. Não somos frágeis como bibelôs, “Não somos mais machos que muito homem”, somos fibra e garra femininas, dispensamos uma linguagem em que o forte é, cristalizadamente, masculinizado.

“Minha força não é bruta – Não sou freira, nem sou puta…”. A mulher hoje, ao se afirmar como tal, enfrenta julgamentos de toda parte, olhares impiedosos e cheios de superioridade de mulheres e homens ultrapassados… Nosso rechaço a isso. Acima de tudo, nossa vontade de sermos respeitadas, nas ruas, nas festas, no trabalho – mais do que um corpo, temos sonhos e muita, muita personalidade. Nossa vida é nosso próprio palco, não somos palhaças do teatro alheio: temos nosso próprio roteiro, e estamos na direção, nossa vida é um caminho, não damos a nenhum homem a ilusão de nos guiar. Cada uma, na sua unicidade e personalidade sabe levar a si própria. “Sou rainha do meu tanque, sou Pagu indignada no palanque”.

Donas de nós, respeitando nossos anseios e nosso valor, nós assumimos! Se ser livre é ser vadia, SOMOS TODAS VADIAS! Convidamos a todas/todos a construírem um mundo de mais amor, mais intensidade e menos preconceito! Vem pra rua marchar com a gente! Somos Mulheres. Universitárias. PETianas. Vadias. Da Lola que fez letras na USP, que adora sexo e é dona de uma personalidade autêntica, até a Lola que gostamos que escreva, Lola, escreva, e diz sobre a marcha em outras cidades: “eu me senti muito amada”. Somos muitas Lolas, entre Lilys – a alemã – Ingrids, Ladyanes, Noharas, Sorhayas, Hannas, Julianas, Lumas, VADIAS.

Fica o convite do PET- Dir a todas/todos para amanhã, conosco, gingar entre músicas e refletir sobre a mulher a partir destas, compor cartazes e, então, marchar juntas/juntos na Marcha das Vadias do DF.

Girls just wanna have fundamental rights.

  O que? Quando? Onde?

– Oficina de cartazes do PET-Dir para a Marcha das Vadias:

22 de junho de 2013 | 10h | Na Faculdade de Direito da UnB

– Marcha das Vadias do DF

22 de junho de 2013 | 14h | Em frente ao Conjunto Nacional (Praça do Chafariz)

Fontes:

BOURDIEU, P. A dominação masculina. Tradução Maria Helena Kühner. 5. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.

http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2013/05/vadias-marchando-por-todo-o-pais.html

http://lolabenvenutti.blogspot.com.br/?zx=289557e4e875a7a5

A história de Lily Braun – Chico Buarque
Mulheres – Martinho da Vila
Pagu – Maria Rita
Mulheres de Atenas – Chico Buarque

“…Tive Brasília entre os dedos, era um rabisco e pulsava”.

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*Por Edson J. D. de Sousa

Rende-se, pouco a pouco, a luz. Também o céu de Brasília se apaga – nuvens de fuligem. Faróis repletos de noite vão e vem ocupando as penumbras que o dia não desfez; interdição de espaços – em nada. Cidades inteiras subservientes à Reis Momos coloridos e cintilantes; verdes azuis amarelos; reivindicam deferência, vermelhos de cólera. Engarrafados, os olhos mortos dos carros piscam uns aos outros. Chacais que se enrodilham em semáforos – vorazes. Ocupam palácios a céu aberto – recortam cidades e tesourinhas; delimitam poetas e versam em quadras. Ditam trajetos; dão ordens. O espaço urbano torna-se uma grande estrada – História de mão-única. Trilhas possíveis desnudam-se todas em sentido monolítico; movimento pré-determinado, o conforme.

No entanto, a Brasília que vive e vibra, desdobrando-se sobre suas próprias fraturas, sob o Sol rachado e o solo cerrado de sangue, insurge-se. Braços, pernas e cartazes revestem de esplendor o outono dos crepúsculos dourados. As ruas iluminam-se de manifestantes. O clarão de ideias intercepta a barra de concreto; enverga a aritmética lacônica do sonho modernista – a cidade-relógio, a cidade-tic-tac. O juízo analítico das linhas retas – da lei – fracassa ante o desejo de vida que brota em cada quintal ou pixação. A Brasília-que-respira apropria-se, como os lírios indolentes, do solo que habita; floresce em marchas de revolta, todos os dias, pelo solo e pelo asfalto que a nutriu. Apenas uma de tantas primaveras, a manifestação do passe livre (19), da liberdade de trânsito em contraposição ao trânsito livre, é expressão menor das rebeliões cotidianas do povo brasiliense que tira do chão de barro batido – e da arte que roubou pra si – o seu sentido de liberdade: o Direito à Cidade nasce onde o Direito nasce das Ruas.

 
claro calar sobre uma cidade sem ruínas (ruinogramas)
     
     Em Brasília, admirei.
Não a niemeyer lei,
     a vida das pessoas 
penetrando nos esquemas
     como a tinta sangue
no mata-borrão,
     crescendo o vermelho gente, 
entre pedra e pedra, 
    pela terra adentro.
 
     Em Brasília, admirei.
O pequeno restaurante clandestino,
     criminosos por estar 
fora da quadra permitida.
     Sim, Brasília.
Admirei o tempo 
     que já cobre de anos
tuas impecáveis matemáticas.
 
     Adeus, Cidade. 
O erro, claro, não a lei.
     Muito me admirastes,
muito te admirei.

[Paulo Leminski]

Sobre permanências e rupturas: uma Democracia a ser revisitada

Por Aurélio Faleiros, Ladyane Souza e Luiz Carlos Lages

Marchas, movimento, indignação. Parcela do povo toma as ruas. Eis que contra a mobilização popular se ergue a face desfigurada do Estado: repressão policial, crua, brutal.

O que está por trás da atuação da polícia nos recentes protestos que tomam o país? Que ranços, preconceitos, temores, as faces blindadas escondem? Não nos deixemos levar por respostas fáceis: Não nos basta apenas invocar a ditadura, esta pode ter sido um marco, mas é contígua com o que veio antes, e com o que restou até hoje. Autoritarismo e violência são como convidados que excederam sua estadia, mas que lembram sua utilidade com serviços ocasionais, de forma que só o Estado, que toca a casa, tolera suas excentricidades.

O que a atuação da polícia revela, de si e do próprio Estado? Uma pessoa nas ruas, um inimigo a ser perseguido? Fica evidente o tipo de treinamento que a polícia militar ainda recebe: Eis o inimigo em potencial, aqui tens a chance de ser “útil” e aplicar tudo aquilo em que fostes treinado. Cumpre teu desígnio: Doma este caos, nos dê a “ordem”. Dantesco que um órgão de proteção tenha desviado de sua essência, de seu centro, a proteção do ser humano, e afastado tanto de si esta diretriz que tornou-se inclusive incapaz de decidir o que é humano e o que não é:

os manifestantes não são rostos, tornam-se alvos, sob os quais irá pesar uma rígida bota, insensível àquilo que esmaga.

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E assim tornam-se também bandidos. Têm suas ações publicamente criminalizadas como forma de legitimação do uso da linguagem da violência. Colocados como vândalos, baderneiros e criminosos  são desumanizados e têm seus direitos negados. Assim como na favela e na periferia, executa-se a violência como forma legítima de diálogo contra aqueles que já não são dignos de direitos, já não são vistos como humanos. Outra incoerência se revela, um país que utiliza-se de um discurso criminalizante para legitimar suas ações de exceção.  Se reproduz a violência de nossas prisões. “Policia é pra ladrão, manifestante não!”, há que se subverter esse grito, polícia pra ninguém! Não queremos uma polícia que nega os sujeitos e seus direitos, uma polícia que destina apenas a linguagem da violência a determinados grupos. Não queremos essa polícia a serviço de um governo que responde com bombas e pancadas às nossas reivindicações. Uma policia que nos oprime não somente como cidadãos mas também como humanos. E assim,  contra gritos de “sem violência!”, contra flores, contra sorrisos e docilidade, a resposta é única. Poderia ser outra, com o modelo policial que temos?

É preciso dar um basta, não somos criminosos, e mesmo se o fossemos, ainda seríamos cidadãos e temos direitos. Merecemos ser ouvidos, merecemos um Estado que não tente nos calar à força.  A luta é por direitos, por reconhecimento e por visibilidade.

As autoridades soltam a polícia como cães, ou pior, já que os cães ao menos são amigos do homem. A repressão é sem limites, a despeito do nome democracia, ela se esconde no anonimato das fardas para abusar do poder e reprimir manifestantes, jornalistas, toda a sociedade civil. O que diferencia os policiais brasileiros daqueles da Alemanha que tiraram seus capacetes e uniram-se aos revoltosos? Estarão nossos policiais de acordo com os desmandos estatais? Ou o uniforme terá lhes toldado a visão?

Liberdade é nossa palavra de ordem. Não há possibilidade de progresso sem respeito a nossa expressão. Somos o povo. Milhões em marchas, unidos por aquilo que acreditamos ser justo. O sustentáculo da democracia em luta com ela própria, sendo enfrentada pela rigorosa mão estatal, munida de bombas de gás e balas de borracha.

Podemos invocar os tempos já idos da ditadura para justificar os atos, culpar nossa frágil democracia, e mesmo culpar todo o torpor gerado pelo poder de portar armas – “e o fascismo é fascinante deixa a gente ignorante fascinada”, mas a verdade é que cabe a nós, agora, questionar esse comportamento, questionar nosso modelo de polícia e de democracia, e perguntar a todos, com gritos e cartazes: onde está nossa liberdade?

As ruas, dominadas pela vontade popular, são alvos de comentários de todo tipo, do caos gerado que atrapalha o trânsito, que se levanta na contramão atrapalhando o sábado, e isso é interpretado como violência. Mas o importante é reconhecer que a violência vem antes, a violência vem da falsa democracia que nos bate à porta todos os dias, que aumenta o preço de passagens de gente que não tem nem o alimento básico garantido e espera silêncio. A violência vem do estado ineficiente, da falta de educação e do nosso nada saudável panorama social, do povo oprimido nas ruas, nas vilas, favelas. Violento é um Estado que responde com bombas e pancadas à demandas essenciais que são negadas por ele próprio.

Aprendamos pois a chamar depressa de realidade o que vemos hoje, e nos apressemos em tomarmos a parte que nos cabe dela, gritemos, cantemos, um brinde a despeito de toda forma de opressão.

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Pra não dizer que não falei da revolução. Ou começo dela.

 

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*Por Matheus de Paula

Não, não é carnaval em Salvador. Não é Rock in Rio. Não é aniversário de Brasília. Tampouco é aniversário de São Paulo. É o Brasil se movimentando. Não apenas por 0,20 centavos. Não apenas pela corrupção, nem pelo descaso. Sim, é pelo basta.

O povo herói saiu das margens plácidas do Ipiranga e encontra-se nos quatro cantos do país “badernando”, “vandalizando”.  Até porque toda a ineficiência do poder público e de suas políticas não representam um dano ao meu patrimônio, enquanto cidadão, possuidor dos meus direitos e cumpridor fiel das minhas obrigações. Até porque todo e qualquer ato de repressão que me machuca física e psicologicamente não me tolhe nem me dane.  Até porque eu e toda a classe média podemos, com tranquilidade, desembolsar mais dez reais para podermos usufruir de uma transporte público de qualidade… oh, wait… 

Se se protestar a fim de alterar esse quadro lamentável que assola todo o Brasil é “fazer baderna”, eu amo/sou baderneiro. Eu amo/sou baderna. Se a tentativa de chamar a atenção do poder público para todo o descaso e descompromisso por parte de muitas instâncias de autoridades é “ser vândalo”, eu amo/sou vândalo.

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Foram baderneiros/as, vândalos/as que derrubaram a Bastilha. Foram os/as próprios/as que fizeram o período ditatorial ruir. Foram eles/as que reviraram o quadro de eleições, conquistando o direito de se haver eleições diretas.

Eu sou aquele que foi atingido por tiros de borracha, e também aquele que tocou violino em frente a polícia. Sou aquele que chorou e, logo depois, riu ao som do hino nacional. Sou aquela que no lugar de balas (de borracha ou não), distribuiu flores. Eles, mais do que qualquer presidente ou presidenta, me representam. Eles são o Brasil.

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Eu sou a reencarnação deles/as. Lutando pelos mesmos direitos que outrora lutaram. Mostrando que o RECALQUE DA DITADURA BATE NA MINHA GERAÇÃO E VOLTA! A geração mudou, e o país, mudou?

Como disse, eles são o Brasil. Eu, eu amo/sou o Brasil. Até o fim. Pois, “verás que um filho teu não foge à luta”.

Elogio à Baderna – singrando ruas e pixando utopias.

‘As coisas não caem do céu.’

As ruas de Brasília, de São Paulo e de diversas outras cidades atestaram, nos últimos dias, o inequívoco: utopias constroem-se com a população em marcha; com ruas e vias cheias de pernas intranquilas e irriquietas. Baderna construída conjuntamente – profusão. Exuberância de sonhos e ideais erigidos concretamente e a partir da ocupação do espaço público – confusão dos interditos. Manifestações se alastraram como faísca. Ateou-se fogo onde antes havia silêncios. De norte a sul do país, o ‘Mundo de Estátuas’ que nos constitui, que nos integra ao segregar, viu várias de suas colunas centrais ruírem.  Novos horizontes surgiram em cartazes, pinturas, textos, práticas – cirandas. As lutas dos últimos dias são a luta contra os compartimentos, contra os lugares-devidos, contra a cidade dominadora – ruas que definem a direção do movimento.  IMG_1396

A eclosão dos protestos que presenciamos – participamos – vai bastante além dos 20 centavos de aumento no preço da passagem. É a população questionando um modelo de transporte público falido, no qual a mobilidade urbana – um direito de todas e todos, diga-se de passagem – ocupa a posição de mercadoria e não de garantia. São cidadãs e cidadãos que cansaram-se da posição de espectadores e agora alçam a posição de agentes. Agentes que deixam suas timelines do Facebook e fazem das ruas seu espaço de ação – fazendo ecoar um grito de indignação onde antes apenas ouvia-se murmúrios de descontentamento. Deixou-se de lado o silêncio – eloquente – de resignação. Agora ataca-se, retumbante, com grito forte e entoante. Canções de protesto, coro de gente que, sufocada por anos de apatia perniciosa, respira e aspira mudanças radicais. Os protestos não são eventos isolados; são evidências da insatisfação popular frente à obliteração de pautas políticas que presenciamos no Brasil. A luta da outra/outro, antes invisibilizado, também é nossa. O Elogio à Baderna, à bagunça, à desordem, é, primordialmente, um apelo à uma nova concepção de ‘Patrimônio Público’. Nossos patrimônios mais valiosos choram e sentem dor – possuem rostos. É de povo que uma democracia precisa – não de monumentos.

Nos próximos dias, o PET-Direito da Universidade de Brasília apresentará uma série de expressões – textos, imagens, músicas; vivências – em defesa da Baderna [da democracia radical e participativa. ‘Elogio à Baderna’ é uma série de reflexões do grupo acerca de sua própria atuação – sendo a ação indispensável. Regados à suor de marcha, os textos abordarão questões que tangenciam todo o processo que vem se desencadeando nos últimos dias. Acompanhem o blog nos próximos dias, e espalhem as cartas-bomba aqui postuladas. A guerrilha poética inicia-se – não fecha – pelo aviso assoviado por milhares de manifestantes nas ruas estrábicas de Brasília:

‘As coisas não caem do céu.’

 

Como é que se diz…?

Show realizado no Rio de Janeiro. Ao vivo, sem cortes.

 

Eu AMO essa música. Na verdade, a pergunta “Como é que se diz eu te amo?” é tão inquietante para mim que num futuro próximo quero que fique no meu corpo feito tatuagem, parafraseando o Chico.

E o mais legal é que lá pra 3:31 de música, Renato Russo depois de fazer a pergunta dá aquele corte “ah! Pensei que era ‘vamos ficar um pouquinho, gatinha’”. Cara, sensacional! Claro, não posso negar que vivo numa época em que um ‘relacionamento’ se reduz a um beijo. Eu participo disso, tenho a consciência. Mas como seria bom que durasse bem mais que isso! Que parássemos com essa coisa de dar uma olhada, um beijo, mal perguntar o nome e ir embora.

Agora, elevando um pouco essa conversa pra um relacionamento mais duradouro, o que é o ‘eu te amo’ mesmo?  Cheguei à conclusão que essas palavras são apenas para dar aquele bem estar na pessoa mesmo, afinal a frase é a máxima do romantismo. Mas, na boa, são palavras ao vento […]. Acho que as ações são mais importantes.

Aquele gesto de carinho, gentileza ou então “lembrei-me de você ao ver coisa X” demonstram muito mais. O -eu te amo- viria só como um representante das ações.

Enfim, eu só queria deixar no ar essa pergunta: Como Você diz “eu te amo”?  E como dizem isso pra você?

 

 

P.S 1: Acho que quis escrever sobre isso apenas por que sempre quis compartilhar essa música do Renato Russo, que quase ninguém conhece. E também porque nessa de um relacionamento-de-um-beijo simplesmente não tive apenas um beijo, acabei compartilhando de um momento simples, porém peculiar.