O outro

Por Carolina Freire

Fazer Direito na Universidade de Brasília é selo de privilégio, e de privilégio a maioria de seus cursistas conhece bem. O berço nobre, por vezes jurista, lhes garante uma imensidão de acessos. De cursos que fazem volume no lattes até viagens ao exterior, os capitais cultural e acadêmico se recheiam de tudo que parece relevante no quesito saber.

Composto por discentes e docentes que parecem compartilhar da mesma história de vida já narrada, o elitismo do curso não é velado. Viver entre iguais é rotina que se interrompe em alguns raros momentos, tais como o estágio obrigatório realizado no Núcleo de Prática Jurídica (NPJ)¹ e a extensão.

No núcleo, a orientação recebida é de necessidade de polidez no atendimento ao público de baixa renda e cuja escolaridade é reflexo disso. São demandas diversas onde o cunho jurídico precisa ser retirado do emaranhado de informações trazido pelos assessorados, em cronologia não linear e com filtro de relevância bem diferente do utilizado pelo jurista. Aqui a perspectiva é clientelista, de serviço prestado, de favor, corroborada todas as vezes em que nos chamam de ‘doutor(a)’.

Por outro lado, quando se fala em extensão a sugestão é de horizontalidade. Mesmo assim o estranhamento do outro distante – espacial e socialmente – é latente. É estranhamento que se desdobra em fetiche do exótico, é visita ao zoológico social, é alma boa fazendo caridade, é serviço jesuítico moderno com inspiração iluminista levando de uma só vez a salvação e o conhecimento àquelas almas em escuridão.

Por vezes confundida com serviço voluntário, a troca de saberes corre o risco de ser apenas colonização. Assim como a horizontalidade, a bilateralidade do fluxo de conhecimentos também depende de exercício contínuo. Há de se entender, neste processo, que os conhecimentos não se encontram em mesmo patamar, não porque valem mais ou menos – comparativamente – mas porque são valorados de diferentes formas. Disso deriva a necessidade de não ser ingênuo, não basta fazer-se de bom moço que valoriza toda forma de saber, se ali chegará com o distanciamento digno de cientista em trabalho laboratorial, se vai instrumentalizar, transformando aquelas pessoas em meros objetos de estudo, matéria prima para artigo publicado. Extensão não é cursada, é vivida.

Em ambos os casos se requer o exercício da capacidade comunicativa, é sobre compreensão mútua. E nessa esfera, me desculpem dizer, mas pouco vale saber outros idiomas, conhecer o jargão jurista ou ter todas as expressões de latim ao pé da letra. Aqui é sobre escuta ativa – guardem esse termo – é sobre interpretação não cobrada pelo CESPE, sobre paciência e também carinho. Por outro lado, também é sobre escolhas, de palavras, de expressões, de construção do enunciado. Para além de questões de fala, é gesto, é contato, é gente.

E quem sabe assim, aprendendo a utilizar a linguagem pra entender e ser entendido em vez de selecionar verbete que silencia, os abismos que distanciam os acadêmicos da ‘comunidade’ possam ser reduzidos. Talvez compreendendo a linguagem como instrumento dual de acesso e dominação que esconde infinita disputa de poder por trás da falsa neutralidade, poderemos nadar contra a corrente em escolher a comunicação em detrimento do atrativo e reprovável hábito de fazer-se incompreensível como carimbo de status.

Eu curso Direito e por meio da extensão encontro pertencimento e sonho que este seja realidade para a infinidade de ‘outros’ que me rodeiam. Eu sou acadêmica, mas também sou comunidade; eu sou a graduanda com quem você esbarra no corredor, mas também sou o outro do qual você se distancia. Eu sou o silêncio dos meus iguais que não conseguiram estar em espaços como estes, mas também sou seu grito sempre que ocupo, seu orgulho sempre que resisto. Eu tenho nome sem origem estrangeira e endereço onde você nunca pisou, e eu vou fazer diferença, senão para os seus, para os meus.

¹ Espaço da UnB localizado na Ceilândia e onde há o acolhimento de demandas jurídicas de moradores da cidade que tenham o rendimento limitado a 3 salários mínimos.

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A rua é nossa

Por Beatriz Barbosa

Há quem diga que a rua é nossa.

Nossa? Eu me pergunto. Quem é esse nós? Será que esse nós tem classe? Cor? Gênero? Será que todos nós somos donos igualmente das ruas?

Será que a rua é minha quando eu, mulher, ando sozinha a noite? Quando eu insisto em não ter a companhia de um homem ao meu lado? Quando eu uso alguma roupa que realça o meu corpo? Quando eu utilizo o transporte público? Quando eu decido que não quero mais escutar “elogios” estúpidos?

Infelizmente, eu acho que as regras das ruas não foram feitas para mim, ou para qualquer outra mulher. Ainda nova aprendi a conviver com o medo. Cresci tendo a certeza que se anoitecer e eu estiver sozinha na rua eu não estou segura. E se mesmo assim eu tentar a sorte, se acontecer algo a culpa é minha. “Menina atrevida, sabe como as coisas são e mesmo assim tenta desafiar a vida.”

Sim, eu tento e com o tempo eu aprendo a conviver, ou melhor, eu aceito a realidade. Minha relação com a rua oscila entre o medo e a coragem. O primeiro é um sentimento constante. Graças a ele, você aprende a andar prestando atenção em tudo, principalmente se for noite e tiver uma pessoa perto, você observa a distância, calcula a velocidade, a visão se amplia, o volume da música diminui, cada ruído é importante. O nervosismo é inevitável quando você percebe que está em um lugar isolado e tem um cara próximo, o primeiro pensamento é criar distância, mas se a situação continua você logo pensa “por favor, se for para acontecer algo, que seja apenas um assalto, eu passo o celular e a bolsa tranquilamente”. Por outro lado, é inexplicável o alivio que se sente quando você percebe que é uma mulher que está do seu lado.

É difícil aprender a conviver com esse sentimento, o medo constante de ser violentada por simplesmente ser mulher. Violentada com olhares, com assobios, com carros que param, com palavras que envergonham, com gestos que assustam, com reações que zombam da impotência que nos invade, e será que preciso falar do medo do estupro que nos ronda? Há quem diga que são as mulheres que causam tal reação, são nossas roupas, nossos corpos, nossos jeitos que seduzem, que convidam, que provocam, provocamos os motoristas, os cobradores, os pedestres, os professores.. enfim provocamos todos os homens inocentes que nos agridem cotidianamente. E já que é assim, se eu tenho que lidar que o simples fato de existir provoca os homens, se eu tenho que conviver com o medo constante de poder ser estuprada, vocês homens que aprendam a lidar quando nós mulheres falarmos que todo homem é um estuprador em potencial, ou que não confiamos em vocês, ou então que não nos sentimos seguras. Desculpe ‘homens de bem’, porém eu não ligo se isso soa como ofensa, se machuca seu orgulho, muito menos ligo para as tentativas de mostrar que estou exagerando, pois eu estou aqui para falar da minha sobrevivência, e não da de vocês.

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Na imagem: “Homens! Deixem os assobios para os pássaros.”, autora desconhecida.

Vivemos em uma sociedade marcada pelo patriarcado, pela cultura do estupro, pela violência constante contra as mulheres. Nossa sociedade como está estruturada foi feita por homens para homens. Estatísticas indicam que a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil. Isso não é papo chato de feminista, esta é a verdade, nós mulheres estamos morrendo todos os dias por sermos mulheres e nossos agressores não são monstros, são homens comuns que foram criados achando que são donos das mulheres. E a cada notícia nova de uma mulher que foi agredida, eu sinto a dor em mim, porque eu não sei quem vai ser a próxima. Eu queria que o feminismo não precisasse existir, eu queria não ser a radical das rodinhas, mas eu não consigo desver todo machismo e violência que existe, e se eu tentasse fazer isso no mínimo eu estaria sendo hipócrita.

Mas agora vamos falando de coragem. Coragem esta que me dá forças para todo dia levantar e não deixar o medo me oprimir, que não me deixa desistir da batalha. Eu escolhi ser a dona da minha vida. Eu escolhi reagir e conquistar o meu espaço. Eu quero a rua. Eu quero direitos iguais. Eu exijo ser respeitada. Eu quero que o mundo entenda que o corpo é meu, e de ninguém mais. Eu levanto a bandeira da liberdade, igualdade e segurança para toda e qualquer mina. E eu não aceito que homem nenhum invada meu espaço. Eu não sou um pedaço de carne, muito menos o prato do dia. Eu não sou um objeto, então não ache que estou aqui pra sua serventia. Eu não quero conviver com seus assédios disfarçados de elogios. Não quero os seus beijos invasivos, muito menos os seus toques. Eu não quero ser parte da sua fantasia. E eu me sinto cada vez mais forte, porque eu sei que comigo eu carrego a força de várias outras minas que se empoderam todos os dias. E que vão fazer questão de lembrar que não estamos aqui simplesmente para agradar.

Cotidiano

Por Carolina Freire

Acordei cedo, me vesti, parei, pensei … Já podia ouvir a opressão gratuita em forma de olhares, gritos, cantadas (??) Troquei de roupa, tapei meu corpo, perdi conforto, só como um meio tosco de me proteger.

Saí de casa. No trabalho, cumprimento, sou pontual, executo meu ofício com modesta competência. Mas afinal, de que vale tanto esforço? Aqui já ouço como sou incapaz de ser promovida; não falam diretamente, não são tão corajosos, mas batem na minha cara (que não é frágil) o tempo todo com enaltecidos argumentos de que sou excessivamente emotiva e ocupada demais com os filhos. É … parece que a racionalidade vem estocada em um saco pesado de testosterona daqueles que fazem, mas não criam, filhos.

Saio do trabalho de cabeça baixa, mas não derrotada; não, o dia ainda não acabou. Na condução, aperto, apalpo, abuso e passageiros cegos, só eu vejo, só eu sinto … nojo.

Na faculdade, procuro crescer, mesmo sendo menos escutada, menos relevante (parece), eu continuo. Continuo porque quero meu intelecto à prova, quero ser a competente, a que trabalha bem; chega de ser a gostosa ou baranga, a feia ou bonita; chega! Quero sair do concurso de beleza que a vida me impõe, quero respeito.

A aula acaba, já é tarde e sinto medo. Aqui a mulher forte esmorece, se encolhe, é hora de ir pra casa e tenho medo. Porque eu sei que à noite e sozinha eu não estou segura. Engulo esse medo e, assim como os não’s que a vida me dá, ele desce pela garganta e corta e fere e dói…

Chego enfim em casa e meus filhos precisam de mim, a casa precisa de mim, eu preciso de mim. Me ocupo nesses últimos instantes do dia com um serviço repetitivo e mecânico, mas ainda assim agradeço pela fé que me resta. Porque à essa altura, coisificada, subjugada, diminuída, oprimida, rechaçada, esperança foi só o que sobrou pra mim.

O sono me arrebata porque o cansaço físico me toma e aquieta a mente. Já o sonho, esse me ilude com a projeção de um lugar onde não sexualizam meu corpo, não me dizem o que fazer e não sufocam minha voz. Mas eu então acordo e a realidade me traz de volta porque o dia começa de novo e eu não quero chorar … eu não posso chorar … não posso … não posso … não posso, mas as lágrimas não demoram a cair …

PAUSA

Por Vívian Viana

Quando o mundo real passa para uma tela, quando temos mais contato com a representação, do que com a apresentação, quando as relações sociais se tornam relações virtuais é necessário uma pausa. Uma pausa, um retorno ao ponto em que nos perdemos e perdemos nossa essência. É imperioso esse tempo de reflexão, para que então tenhamos autonomia e dimensão do play que a vida requer. É lastimável ver o mundo de cabeça baixa. Fui ensinada a manter sempre a cabeça erguida, diante de todo e qualquer desafio. “Engole o choro. Cabeça erguida. Segue em frente”. Cabeça baixa é sinônimo de tristeza. É claro que temos nossos momentos em que é necessário abaixar a cabeça, olhar para nosso interior e amadurecer. Contudo, não é para esse fim que estamos abaixando a cabeça. Abaixamos a cabeça para olhar o mundo. Calma. Tem alguma coisa errada nisso. A lógica era: levanta a cabeça, siga em frente, siga forte, admire o mundo ao seu redor, critique o mundo ao seu redor, construa o mundo ao seu redor, desconstrua o mundo ao seu redor. A lógica virou: touch, digital, “digito logo existo”. É perigoso ver o tato humano se tornado touch screen. É arriscado não falarmos disso.

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As relações humanas foram substituídas por um enter. Por estar online. Offline. Gravando  um áudio. Digitando …

E seguimos nessa direção. Ou seria melhor dizer, seguimos nessa rede. Ou ainda, nos enrolamos nessa rede.

Quando um digitando conseguiu substituir o  conversando. O gravando um áudio substituiu a voz ouvida ao vivo. A discussão atinge níveis robóticos. São rápidas,  irracionais, desmedidas. Perdemos pouco a pouco o tato humano. Bem, acredito que o tato humano é essencial, é com ele que percebemos no outro a essência do que nos aproxima. O sermos humanos. Resolvi aprender que, para além dessa tela, tem um ser humano que sente, que tem um olhar único, uma história única, tal qual somos todos. Estou do lado de cá da tela. Não sou o lado de cá da tela. Tampouco você é o lado de lá da tela. Você está.

Soa paradoxal usar o meio virtual para propagar essa reflexão. Mas o faço na expectativa de que olhando para baixo, ou olhando para tela, nós possamos nos conectar e juntos olharmos para fora.

Vivemos em sociedade. Sociedades. Sócias. Sociais. Só. Mas quando as redes virtuais – não consigo chamá-las de sociais, não mais – deletam o olhar, apagam o olho no olho, o que vemos são dedos nervosos bradando ódio, sem se quer perceber que se trata de outra PESSOA, ser humano do outro lado. Estamos conectados. Mas não pelos dedos entrelaçados, pelos abraços. Estamos ligados por fios, ou Wi-Fi se preferir. Temos uma conexão virtual.

Quando foi que perdemos o assunto, a piada, o debate. Ah está tudo no Google, isso deve bastar. Não basta Google. Não basta. Basta.

É claro que a internet e a tecnologia trouxeram benefícios grandiosos. A internet presencia lutas lindas, lutos necessários. Todavia, é mister que essas lutas antes de virtuais sejam reais, que esses lutos antes de se tornarem capa de redes sociais sejam sentidos, e não meras demonstrações de massa. É preciso que cada ser humano sinta, antes de falar. Reflita nos outros seres humanos interligados antes de bradar discursos de intolerância. É necessário que as lutas sejam antes de tudo consolidadas fora da rede, nos corações de quem as carrega, sob pena de se tornarem meros discursos de rede.

Já previa George Orwell, seríamos vigiados por um grande olho, em todo lugar que fôssemos, “O GRANDE IRMÃO ESTÁ DE OLHO EM VOCÊ.” O irônico é que esse Grande Irmão, ou para demonstrar sofisticação e universalidade, esse “Big Brother”, deveria nos incomodar. Deveria ser alvo de insatisfação e não de convalescimento. Mas somos, hoje, parte integrante desse grande irmão. Com um porém: queremos mostrar apenas nossas faces felizes a ele.

A sociedade necessita de ser humanos humanos. Médicos que conversem, que examinem para além do receituário. Advogados que olhem além da altura de seu Vade Mecum mais atualizado – ele não é tão alto assim. Que os engenheiros se preocupem mais com a força existente dentro de um abraço, que meçam formas de aproximar pessoas. O mundo precisa de professores que elogiem, que construam para além do vestibular, para além dessa barreia que separa os mundos. De Seres humanos que se atualizem na humanidade e não mais nos aplicativos.

É imperioso o pensar, o agir, o lembrar sem consultar o celular. Lembrar o nome, lembrar a data de aniversário não porque o Facebook te avisou, lembrar a importância do olho no olho, da conversa bem conversada, do diálogo bem medido, bem estruturado. E só assim será possível uma desconstrução verdadeira. Quando ultrapassarmos do muro touch.

Que a cabeça baixa seja para o crescimento. Que a cabeça erguida nos permita olhar no olho. Que a cabeça baixa não demonstre a fraqueza virtual que nos cerca. Que a cabeça erguida seja para olharmos além. Que a cabeça baixa não seja para o digitando, gravando um áudio. Que a cabeça erguida seja para o conversando. Que a cabeça baixa seja para semear. E a cabeça erguida para admirar e colher os frutos. E se precisar de uma “mãozinha” para colher esse fruto, que seja humana e não touch.

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A voz do outro

Por Beatriz Souza

Um dia, após ler “A Cor Púrpura”, me lembrei do romance do poeta escravizado Juan Francisco Manzano, o único latino-americano a escrever uma autobiografia sobre a sua experiência. As duas obras tem como um ponto comum a linguagem: Celie é uma personagem mulher negra que escreve cartas para Deus em inglês popular, enquanto Manzano foi um homem cubano de carne e osso que escreveu sua autobiografia no espanhol que aprendeu sozinho (e que, segundo a sociedade da época, não deveria nem mesmo ter aprendido enquanto pessoa escravizada).

Incomoda, a princípio. Não são leituras fáceis; a leitura da autobiografia é ainda mais difícil, já que a sintaxe, a pontuação e o ritmo são bem mais irregulares do que os do romance, justamente por ser real. Várias pessoas se sentiram incomodadas – desde a publicação (tardia) em 1937, o testemunho de Manzano já sofreu várias tentativas de correção, reescritura e mudança de estilo. Mas é possível localizar dentro de nós o porquê de tanto incômodo?

Na minha opinião, tem a ver com o desconforto que provoca a diferença, que conduz como consequência à tentativa de padronização. No entanto, transcrever essas prosas em norma culta significaria anular as suas posições enquanto Outro, já que na correção está implícito o fato de serem incapazes de falarem por si mesmos: qualquer coisa escrevam, falem ou pensem, deve se adequar à disposição “normal” da língua para que possam ser entendidas por nós, pessoas leitoras normativas e “educadas.” Nesses casos, o sentido pode muito bem ser entendido – não existe uma impossibilidade de comunicação. O problema está no fato de nós, falantes “cultos” da língua, não podermos nos dispor a ler uma coisa do gênero – o que, por fim, parece ser o mesmo mecanismo que está por trás do preconceito linguístico.

Como leitora, é notável a diferença que a linguagem faz na força da narrativa. No caso do livro de Alice Walker, basta notar a sensação que se tem quando se lê as cartas da Celie e as cartas da Nettie, a personagem que é sua irmã e professora, que escreve em inglês-padrão. A sensação também se repete no caso da autobiografia; basta comparar um trecho traduzido em norma padrão com outra edição que manteve a escrita original. Isso porque a escrita original permite não só entender abstratamente falando, não só saber da vida na escravidão (que já aprendemos na escola), mas sim experimentar a vida do homem escravizado e da mulher negra através de seus olhos (e talvez por isso Alice Walker tenha ganhado um prêmio Pulitzer pela sua história de ficção). Os erros de ortografia, gramática e sintaxe nos deveriam inspirar respeito, porque não são verdadeiramente erros, mas provas das suas trajetórias de vida enquanto negros. Como bem definiu Alex Castro (tradutor da autobiografia), corrigi-los significa em prática apagar sua história, silenciar seus sofrimentos e rasurar suas vidas.

De uma maneira muito abrangente, vejo como isso se repete no preconceito linguístico; como apontar os erros de português de uma pessoa terminam por minimizar a experiência de vida das inúmeras pessoas que se exprimem em formas que não tem prestígio social. Por isso talvez seja melhor pensar duas vezes antes de desqualificar a fala de outra pessoa porque “não sabe escrever”, ou ainda, se gabar dizendo dominar a norma culta (o que é apenas a expressão de um privilégio). Porque o preconceito linguístico é, enfim, um indicador dos preconceitos que se tem – contra pobres, negros, nordestinos e qualquer grupo que diferente do padrão.

Para ilustrar tudo isso, segue um trecho da voz de Manzano:

“Hum dia, este dia de rezignaçaõ prinsipio de quantos bens e males o mundo me deu pa. provar foi como se segue era sabado antes do almoço segundo era nosso custume eu tinha qe. assear-me pois vestia duas vezes por semana, pa. isso fui ao banheiro do tacho qe. distava huns trinta pasos num declive á frente da caza em quanto me banhava me chamaraõ pr. ordem da sinhá ja se pode imaginar como sahiria; me recebeo perguntando o qe. fazia no banho respondi qe. me asseava pa. vestir-me, com qe. lisensa o fizeste? com nenhuma respondi. e pr. que foste? pa. assear-me, esta sena foi no comedor ou varanda na porta da rua, alli mesmo me quebraraõ o nariz e fui pa. dentro vertendo duas veias de sangue, isto me afligiu e envergonhou pr. qe. na porta ao lado vivia huma mulatinha de minha edade a primeira qe. me inspirou huma couza qe. eu naõ conhecia  era huma inclinaçaõ angelical hum amor como si foce minha irmã eu le prezenteava com pencas de maravilhas coloridas qe. ella recebia dando-me algum doce seco ou fruta eu le tinha dido qe. era livre qe. minha maẽ tinha morrido avia naõ muinto; naõ bastando o ja dito perto das dez minha ama me fez tirar os sapatos me rasparaõ a cabeça, embora isto foce mui freqüente, esta vez me cauzou a maior mortificaçaõ. (…)”

“A chata”

Por Fernanda Martins

             Foi assim que eu fiquei conhecida depois que me assumi como feminista. Passei a ser tachada de louca, de neurótica, de pessoa que não sabe brincar e que questiona tudo. Virei motivo de piada entre vários colegas. “Lá vem ela”, “você leva tudo muito a sério”, “nossa, mas não pode mais nem brincar”, “você reclama de tudo”. Todas essas frases se tornaram frequentes para mim. Percebi que me reconhecer como feminista é um ato de empoderamento, mas que, ao mesmo tempo, deixa feridas.

             O processo de entender o feminismo e de me compreender dentro disso foi – e continua sendo – conturbado. Eu sinto que cresço e amadureço todos os dias e que faço amizades incríveis que me acompanham ao longo dessa caminhada. Mas, ao mesmo tempo, esse é um processo que machuca. Machuca porque me afasta de muita gente que antes eu sentia o prazer de conviver e hoje não mais. Machuca porque vejo gente por quem eu nutria verdadeiro afeto achando que hoje eu só quero ser “a do contra”. Machuca porque desisti de frequentar lugares que antes eu adorava. Machuca porque eu também me questiono, questiono minhas falas, minhas atitudes. Machuca porque de repente eu me pego cantando uma música que sempre gostei e quando presto atenção na letra me sinto angustiada. Machuca porque hoje eu percebo que uma série de relacionamentos (meus e das minhas amigas) que antes eu julgava como normais, são ou foram, na verdade, abusivos. Machuca muito me assumir como feminista porque travar batalhas contra séculos de patriarcado não é tarefa fácil.  Exige muito de nós.

            Exige paciência, exige força, exige coragem, exige união. É e na união que a gente encontra mais e mais força. Porque são nas conversas travadas nos grupos de minas, nos desabafos, nesses espaços de sororidade que gente vê que não está sozinha, que a gente se reconhece em histórias que não são nossas, que a gente percebe que nossos medos são os mesmos, que a gente entende que juntas podemos mais. São esses espaços que nos dão esperança, que nos encorajam a continuar lutando, que fazem com que as feridas das batalhas cotidianas sejam atenuadas. São essas companheiras, amigas, colegas de luta que nos oferecem rosas no meio de tantos espinhos.

             Eu preciso do feminismo. Sim, eu já posso votar, posso estudar e trabalhar fora. Mas isso não basta e é por essa razão que a luta continua. Não basta porque mulheres ainda recebem salários menores, porque mulheres ainda são minoria na política e em cargos de comando, porque mulheres ainda são mortas pelo simples fato de serem mulheres, porque mulheres são estupradas e ainda tem cara que pergunta sobre a roupa que elas estavam usando. Não basta porque mulheres sofrem violência doméstica todos os dias, porque o nosso medo de andar sozinha na rua não é o medo de perder o celular ou a bolsa. Não basta porque ainda tem homem que não sabe que “não” significa não, porque tem homem que acha que mulher é propriedade sua.

            Não basta por uma infinidade de violências diárias que sofremos todos os dias e enquanto tudo isso acontecer eu vou continuar sendo a tal chata, vou continuar questionando, reclamando e incomodando.  Não é fácil, machuca e deixa feridas. Mas tem um monte de outras “chatas” junto comigo e com elas é mais fácil seguir em frente.  Gratidão, queridas!

é preciso ter coragem

A reação do humor e dos memes

       Por Amanda Conti

          A fluidez do mundo que vivemos hoje nos assusta, nos contagia, nos dá vislumbre para um país das maravilhas que parece ao mesmo tempo fantástico e medonho. Nesse mundo em que somos Alices vislumbrando essas maravilhas sem limites, vemos também que as rainhas de copas são muitas. A regulação informacional na internet nos deixou em um mundo em que sentimos a onipotência e impotência quase que ao mesmo tempo. Vemos discursos de ódio, página de apologia ao estupro, grupos extremistas, pornografia infantil correndo quase que livremente, ao mesmo tempo que nos vemos castrados em nossas ideologias, os cale-ses quando páginas são derrubadas, quando fotos de empoderamento são banidas por conteúdo pornográfico (mas páginas de pornografia infantil não), em que nossa sexualidade, nosso gênero, nosso eu é castrado, ao mesmo tempo que buscamos sobreviver.

            E sobrevivemos, das formas mais impressionantes possíveis, e uma das formas mais maravilhosas que vemos dessa sobrevivência é o riso. O riso vigora como um grito de resistência, o humor abre espaço entre o ódio, a resistência é Unicórnio, é festa, é riso, é piada. Essa não é uma ideia nova, mas uma forma de batalha que acompanhamos em toda história humana. Artistas como Charles Chaplin conseguiram fazer isso de forma maravilhosa, conseguindo, em um momento crítico, tocar a ferida não apenas dos americanos, mas de todo um mundo que se via sempre a um passo de uma bomba nuclear.

            Temos uma guerra política cibernética, que toma o humor como seu ponto base, o meme é sua revolta, e a reação não busca tiros, nem brigas, mas o cômico. Não significa que outras formas de luta, passeatas, palestras, debates, não existam mais, ou que perderam simplesmente sua importância, mas que há hoje um modelo mais rápido e fluído de comunicação, uma rede de indivíduos que busca, de um lado, a identificação, uma forma de compreensão do eu pelo reflexo do outro, uma busca não de um arquétipo em um líder, em um herói, mas um movimento difuso com vários líderes, e de outros a forma de luta através do riso, da crítica ácida e mordaz, através de tirinhas como Mafalda, de ícones como Inês Brasil, e desenhos de artistas famosos e anônimos.

            E, novamente, Chaplin nos mostra como a comédia é capaz de tocar fundo e mostrar um lado do ser humano, de nós que tentamos negar. “Nós não queremos odiar e detestar uns aos outros. (…) O caminho da vida pode ser livre e belo, mas perdemos essa estrada. (…) Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de bondade e gentileza. (…) O ódio do homem irá passar, os ditadores irão morrer, e o poder que tomaram do povo será a ele devolvido. (…) Então, em nome da democracia, deixe-nos usar esse poder, deixe-nos, a todos, unir-nos. (…) Por essa promessa, os brutos chegaram ao poder. Mas eles mentem! Eles não cumprem a promessa. E jamais irão. Ditadores se libertam, mas escravizam a população.”.

            Discursos como esse, apresentado ainda em uma tela em preto e branco, foram capazes de mudar ao menos um pouco da nossa percepção, fazer com que o humor se tornasse a crítica ferrenha que ressoa na nossa mente, que busca uma explicação para o inexplicável. O filme de 2015, Er ist wieder da, mostram não apenas o poder do humor, de trazer uma crítica ao mundo, a nós, como nossa naturalização das coisas não percebe que os monstros que cultivamos, que observamos, não são monstros, mas humanos não muito diferentes dos que vemos nos espelhos. Ao apresentar Hitler em um contexto de 2014 confundido com um comediante, vemos a facilidade de acreditar em ideias fáceis, de nos deixar levar por uma verdade plausível e uma solução agradável, em vez de buscar fontes, saídas que, ainda que sejam mais tortuosas, não levem a um horror a metade da população.

            No cenário político em que vivemos, vigora o medo de que Hitlers assumam, que uma nova ditadura se erga sobre nós como uma sombra, sem percebemos o Hitler humano que nos habita. A comédia, o humor e o riso são capazes de nos mostrar os absurdos de um mundo caricaturesco, que não compreende suas próprias caricaturas, mas que se satiriza como forma de mostrar esse mundo por trás do mundo. Mas precisa-se de força e de consciência para perceber esse humor mordaz, essa crítica ferrenha, e a ironia ao focar no nós que seguimos certos passos, sem perceber que andamos pelo mesmo caminho daqueles que criticamos. Continuemos com o humor, com essa forma tão maravilhosa de luta, mas prestemos atenção na luta como tal, para não acreditarmos que piadas como a heterofobia são reais.

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O riso, a crítica e a lágrima: três palavras que às vezes não imaginamos quão unidas estão.