Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro. Te chamam de…

Por Aurélio Faleiros

Preto, puta, piranha;
Boiola, biscate, bandido;    
Viado, vaca, vadia;
Macaco, malandro;
Galinha, Gorila;
Sapatão.

 

Sempre nos deparamos com essas palavras no dia-a-dia em diferentes contextos. Em alguns deles, as mesmas palavras são consideradas completamente ofensivas; em outros, totalmente aceitáveis. Mas qual critério determina em que contexto determinada palavra é aceitável ou não? É assim que se determina se alguma palavra é politicamente correta ou incorreta?

A resposta para essas perguntas vai além de considerar qual fora a intenção do locutor ao reproduzir determinado termo ao invés de outro. Mesmo que o que se tenha intentado dizer não seja ofensivo, a utilização de algumas expressões apresenta-se como opressora, pois se relaciona com estereótipos associados a grupos historicamente oprimidos.

Isto acontece porque algumas palavras carregam uma forte significação simbólica. O simbólico é aquilo que não é evidenciado de forma clara, é invisível, porém dotado de significado.

Uma evidência dessa carga simbólica presente nas palavras está na sua apropriação intencional como forma de combate às opressões que elas expressam. A marcha das vadias, por exemplo, com intuito irônico adotou o termo “vadia” que historicamente fora utilizado como forma de oprimir as mulheres para nomear um movimento que luta justamente contra este tipo de opressão.

O simbólico, no entanto, nem sempre é utilizado desta forma. O termo “preto”, por exemplo, usado para dirigir-se a pessoas afrodescendentes, é constantemente utilizado, ora com intenções pejorativas ora não. É necessário, porém, perceber a carga simbólica que esse termo carrega quando se leva em consideração sua utilização histórica para se referir pejorativamente a seres humanos que eram tratados como mercadorias e vendidos em praças públicas.

Quando uma música dirige-se a mulheres como gostosas ou “popozudas”, pode inicialmente alegar-se estar fazendo um simples elogio ao corpo feminino, porém a partir de um olhar mais crítico, esses termos reproduzem um discurso de objetificação da mulher. O mesmo discurso, historicamente combatido pelo movimento feminista, tem pela mulher apenas um corpo, um objeto e não mais sujeito. Assim, o termo “gostosa” ou “popozuda”, tido como um elogio, apresenta uma carga simbólica extremamente opressora.

Vivemos em uma sociedade hierarquizada e desigual e essa desigualdade também se expressa por meio da linguagem. Muitas vezes, o sexismo, racismo ou homofobia, evidenciados na linguagem, passam despercebidos, mas isso não significa que eles não estejam sendo constantemente reproduzidos.

A estreia do programa de Pedro Bial na Rede Globo pretendeu debater a questão da utilização de termos politicamente corretos. O apresentador afirma em uma de suas últimas falas que a forma como nos dirigimos a determinado grupo de fato não afeta suas condições, além disso, evidencia que a necessidade de utilização de termos politicamente corretos é uma ofensa a liberdade de expressão.

 Em resposta aos argumentos expressos no programa, a jornalista Maria Azevedo, em seu texto Na Moral, respeite a minha existência, faz uma crítica contundente.  A argumentação utilizada pela jornalista vai contra o argumento de que o uso desta ou daquela palavra não afeta a identidade de um grupo. Maria afirma que a utilização do politicamente correto passa pelo respeito ao próximo e pela alteridade. Destaca a quantidade de crianças que largam a escola por não gostarem de serem chamadas de “preta do cabelo ruim”, de “viadinho” ou de “sapatona”. É sim necessário que levemos em consideração como o/a outro/a quer ser chamado/a, pois a utilização de termos opressores afeta de forma direta a vida dessas pessoas. Maria Azevedo pertinentemente afirma ainda que não se pode confundir liberdade de expressão com liberdade de opressão.

A linguagem pautada pelo que se considera politicamente correto dizer não afeta a liberdade de expressão; pelo contrário, para que esta seja efetivada é necessário garantir um processo essencialmente democrático de respeito às minorias que se constrói também a partir do banimento dos termos que as oprimem.

O politicamente correto gera um processo emancipatório. A utilização desses termos faz-se extremamente necessária em uma sociedade plural que se pretende democrática. Para tanto, a classificação entre politicamente correto ou incorreto não deve ser arbitrária, deve levar em consideração a carga simbólica que cada palavra apresenta e lutar contra a reprodução de discursos implícitos que reafirmam opressões históricas.

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Ruas: virtual e real

Por Augusto César Valle

Escrevo esse texto inspirado na canção da banda Engenheiros do Hawaii chamada “Muros e grades”, que traz, a meu ver, algumas reflexões muito interessantes sobre a sociedade brasileira atual. Link da canção aqui.

Vivemos numa sociedade tomada pelo medo. Pelo medo da violência, da exposição da própria figura, da exposição do corpo, do ridículo, do fracasso e da vida, da vida real. Por isso nos escondemos, colocando-nos atrás de muros e grades, do anonimato, do silêncio e dos perfis de redes sociais. Nos enfurnamos em nossas casas-fortalezas, colocando não só muros entre nós e o mundo, mas máquinas tecnológicas: computadores, celulares e tablets.

Não nos encontramos na rua, porque não andamos, não estamos na rua. Estamos em casa, com nossos computadores e tablets. Estamos na aula, com nossos computadores e tablets. Estamos no trabalho, com nossos computadores. Estamos em qualquer lugar, com nossos celulares e tablets. Mas não estamos na rua, com as pessoas. E não estamos na rua porque a rua é perigosa, ainda mais se estamos com nossos computadores, celulares e tablets.

É dessa forma que estamos em contato com tudo, mas ao mesmo tempo em contato com nada. Tudo virtual, nada real. E vivemos uma vida superficial. Mas essa sociedade é paradoxal, precisamos reconhecer.

Eu tenho medo da exposição, mas compartilho minha vida com pessoas que nem conheço! Atualizo meu perfil com informações pessoais e compartilho tudo com pessoas que nem conheço! A maioria das pessoas que vai ver essas atualizações são pessoas com quem eu troco um “oi”, talvez. E eu sei da vida das pessoas que só me dão “oi”. Pra quê?!

Sou “amigo” virtual de quem eu encontro no elevador do meu bloco ou no corredor da faculdade. Ou daquele amigo do amigo meu, que estava na festa da amiga de uma amiga minha. Mas não nos encontramos na rua… Não conversamos sobre nossos interesses na
rua, somente compartilhamos nossos vídeos favoritos no nosso perfil virtual. Por quê?

A rua é escura e vazia, é muito perigosa. Temos que colocar muros, câmeras e polícia na rua, para proteger o que deixamos ali (carros, placas de formatura, nossas casas etc). Mas não colocaremos calçadas, iluminação e vida na rua, para que as pessoas possam estar na
rua. Não! Isso seria um absurdo! Imagina, as pessoas se encontrando de verdade! Pode ser que elas se organizem mais do que se organizam no mundo virtual! Essa troca de ideias não é saudável para a sociedade, ainda mais se ela não estiver sendo vigiada/controlada por câmeras e agentes do Estado!

George Orwell já havia demonstrado isso com sua obra “1984”. Para um Estado e uma sociedade fortes, é preciso controlar a população, impedindo sua articulação e vigiando-a constantemente. Esse modelo já prosperou em muitos países, especialmente na América Latina no século passado. O Brasil teve sua grande Revolução em 1964, instaurando o progresso no país!

Só que não.

Não há progresso em eliminar as individualidades, as subjetividades. Não é saudável viver com medo da rua, esse lugar de construção coletiva e de interação. A rua não pode ser vista como algo negativo, como demonstram as expressões: “moleque de rua” ou “já pra rua”.¹ Pelo contrário, a rua é onde o povo se encontra, para se divertir e para construir direitos. É ambiente alegre e sério ao mesmo
tempo, lugar de intersubjetividades.

O nosso ponto de encontro virtual, a internet, é também lugar de lazer e construção. Mas não pode se limitar a ser o único espaço de comunicação e relação entre as pessoas. É preciso saber utilizá-lo para complementar a rua real. Cada um deve pensar a melhor maneira de utilizar as ferramentas que têm disponíveis para viver como quiser e alcançar os seus propósitos.

Eu quero encontrar as pessoas na rua, na qual haja infraestrutura (luz, calçamento, praças, comércio etc) e vida (eventos culturais, políticos etc). Quero interagir com as pessoas na rua e na internet. Mas na rua há os corpos e as possibilidades que os corpos nos brindam são magníficas. Eu quero viver os corpos, com liberdade.

E sinceramente, eu não quero saber o que um conhecido meu come ou deixa de comer. Nem quero que ele saiba onde e com quem estou todos os dias da minha semana.

Como eu adoro configurações de privacidade e opções de visualização de atualizações!

 

Muros e Grades – (Engenheiros do Hawaii)

Nas grandes cidades do pequeno dia-a-dia
O medo nos leva a tudo, sobretudo a fantasia
Então erguemos muros que nos dão a garantia
De que morreremos cheios de uma vida tão vazia
Erguemos Muros

Nas grandes cidades de um país tão violento
Os muros e as grades nos protegem de quase tudo
Mas o quase tudo quase sempre é quase nada
E nada nos protege de uma vida sem sentido
O quase tudo quase sempre é quase nada

Um dia super
Uma noite super
Uma vida superficial
Entre cobras
Entre as sobras
Da nossa escassez

Um dia super
Uma noite super
Uma vida superficial
Entre sombras
Entre escombros
Da nossa solidez

Nas grandes cidades de um país tão surreal
Os muros e as grades
Nos protegem de nosso próprio mal
Levamos uma vida que não nos leva a nada
Levamos muito tempo prá descobrir
Que não é por aí…não é por nada não
Não, não pode ser…é claro que não é
Será?

Meninos de rua, delírios de ruína
Violência nua e crua, verdade clandestina
Delírios de ruína, delitos e delícias
A violência travestida, faz seu trottoir
Em armar de brinquedo, medo de brincar
Em anúncios luminosos, lâminas de barbear!

Um dia super
Uma noite super
Uma vida superficial
Entre cobras
Entre as sobras
Da nossa escassez

Uma voz sublime
Uma palavra sublime
Um discurso subliminar
Entre sombras
Entre escombros
Da nossa solidez

Viver assim é um absurdo
Como outro qualquer
Como tentar um suicídio
Ou amar uma mulher
Viver assim é um absurdo

É um absurdo


[1] DAMATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis: uma sociologia do dilema brasileiro. 6ª ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

Pergunte ao Roberto Aguiar!

Primeiramente, uma notícia: O PET-Direito da UnB está em processo de finalizar a primeira edição de sua revista!

Uma das seções, praxe nesse tipo de publicação, é a clássica entrevista de uma pessoa convidada. No caso, convidamos o professor ROBERTO AGUIAR – já aprovado como Emérito pelo Conselho da FD – e ex-reitor pro tempore da UnB.

Queremos sua ajuda na elaboração das perguntas!

(Podem usar os comentários abaixo)

A entrevista se realizará nesta sexta-feira.

Alguns links: wikipedia e lattes.

Londres 2012: A Olimpíada das Mulheres

Por Ana Paula Duque e Luisa Hedler

ImagemConclamados por alguns jornais como “Olimpíadas da mulher”, os jogos olímpicos de Londres em 2012 se tornaram um marco. Cento e dezesseis anos após a primeira edição dos jogos da era moderna [1], em que só era permitida a participação de homens, as olimpíadas de Londres surpreenderam ao serem os primeiros jogos em que todas as delegações enviaram atletas mulheres.

Se tal fato representa uma enorme conquista por todo o simbolismo que carrega, deixando muito claro para todas as pessoas o fato de que nós, mulheres, somos igualmente capazes e temos o direito de participar de todo e qualquer espaço público que desejemos, para outros tantos isso passa despercebido. Para estes, o maior número de mulheres nas olimpíadas assume diversas outras significações que não a crescente autonomia feminina e necessidade de reconhecê-la.

São essas as pessoas que pensam em mulheres tenistas não como atletas que jogam tênis, mas como corpos em saias curtas. São as mesmas pessoas que assistem ao vôlei de praia pelas roupas Imagemjustíssimas, e não pelo prazer do esporte. Nadadoras, ginastas? Longe disso, apenas maiôs em corpos malhados, padrões de um ideal de beleza vendido como única forma de alcançar a felicidade, sucesso ou a aceitação social.

Se as Olimpíadas de 2012 inovam pela presença massiva de atletas mulheres, não surpreende em nada pela cobertura da mídia a qual se viu sujeita. Mais uma vez, para os jornais e tabloides: antes de tenistas, corpos. Antes de jogadoras de futebol, corpos. Antes de nadadoras, corpos. Antes de qualquer modalidade atlética, corpos: disponíveis para serem admirados e elogiados, ou menosprezados e achincalhados. Objetos, passíveis de classificação em “musas” ou “másculas”. De novo, e constantemente, vendidas em jornais como pedaços indistintos, em fotos que focam ora seios, ora bundas, ora coxas. Despedaçadas. Desmembradas enquanto sujeitos e objetificadas pela mídia de massa.

Essa objetificação, além de ser um veneno cultural pelas construções de narrativas sobre a função da mulher na sociedade para as milhões de mulheres, meninas (e também os homens) que assistem, se colocam como um obstáculo visível e extremamente danoso às próprias mulheres esportistas. Muitas vezes forçadas a usarem uniformes mais colados ao corpo e reveladores pelas respectivas federações para “dar mais ibope”, as atletas que tem um corpo não conformado aos padrões de beleza encontram enormes dificuldades em obter patrocínio, ou qualquer tipo de incentivo para sua profissão. Aparentemente, ter o seu corpo como uma ferramenta para atingir metas incríveis (que não sejam passar fome para ter um corpo magro) não é algo desejável para a nossa sociedade. É só assim que conseguimos explicar porquê das seleções do Japão de futebol masculino e feminino – que são, respectivamente, número 20 e número 3 no mundo – viajaram separados para Londres – os homens na classe executiva, enquanto as medalhistas de prata vieram na classe econômica.

Mesmo assim, com todos os percalços, dificuldades e, principalmente, discriminação, as mulheres estão Imagemlá, já vitoriosas pelo próprio fato de conseguirem chegar nas Olimpíadas. Com a notoriedade que ganham, são novos exemplos de mulheres que trabalham seus corpos de formas diferentes das tradicionais, sem deixar preocupações estéticas impedi-las em seus objetivos; como tantas mulheres o fazem nos mais diferentes campos, são também desbravadoras de espaços que anteriormente eram reservados apenas para homens. Mostram força, destreza, agilidade e determinação – se mostram, enfim, como sujeitos de seus corpos, vidas e ações, sem se contentarem com o papel tradicionalmente definido para as mulheres de serem apenas olhadas.

ImagemTalvez seja por isso que haja tantas pessoas querendo objetificar, classificar e reprovar os corpos dessas mulheres: porque elas não se conformam em serem objetos submissos, preocupadas, como tal, em  manter uma aparência agradável para os outros. A mesma coisa acontece a mulheres em qualquer outro tipo de posição de poder – seja economicamente, seja na política, ou outro tipo de proeminência na sociedade: ao invés de terem analisados suas ações como pessoas públicas, são sempre os seus corpos ou suas roupas em evidência: um ranço machista de simplesmente não conseguir olhar para uma mulher como um sujeito pleno, que se coloca nos espaços para agir, e não só para ser observada.

A resposta a isso vem dos lábios de uma halterofilista inglesa, quando questionada sobre seu corpo ser “muito musculoso e anti-feminino” – “Não levantamos peso para ficarmos gostosas, principalmente para os gostos de caras dessa laia. O que os faz pensar que nós sequer queremos que eles nos achem atraentes? Se você acha, muito obrigada, estamos lisonjeadas. Mas se você não acha, por que você Imagemprecisa dar sua opinião em primeiro lugar, e o que faz com que você pense que nós damos a mínima que você, pessoalmente, não nos acha atraentes? O que vc quer que façamos? Devemos parar de levantar peso, mudar nossa dieta para nos livrar dos nossos músculos ‘masculinos’, e nos tornar donas de casa na esperança que um dia você nos veja favoravelmente e nós possamos ter uma chance com você? Porque vc é claramente o homem mais gentil e mais atraente a engrandecer a Terra com a sua presença”

Frente a tudo que as 4620 atletas mulheres presentes nas Olimpíadas nos ensinaram, o que fica como lembrança dos jogos de 2012 é que sim, essa de fato foi a Olimpíada das Mulheres: que mais do que “desfilar” ou “embelezar” ambientes, lutam, sonham, e vencem.

 Imagem
[1] Que ocorreram em 1886, em Atenas.

A PRIVADA ALÉM DO ARCO-ÍRIS: “EU VENHO DO SALSICHEIRO”

Por Pedro Argolo

Como Carol cortou o cabelo, eu comprarei um porco. Por óbvio, eu rejeitei o SPA. Meu porco terá um cabelo com cachinhos iguais aos de Carol. E meias. Sempre achei que um porco de meias era uma imagem engraçada. Dificilmente se é feliz hoje se não se tem um porco. Não pense que se trata do animal que é tradicionalmente conhecido, aquele que fede, é grande e vive na lama. Os “micropigs”, como são chamados, são bem menores que a versão original, são limpos e escutam música clássica. Sim, espante-se, eles são limpos!

Carol, ao contrário do que se pode estar imaginando, não é uma porca e sim a personagem que o diretor Todd Haynes encontrou para criticar o modelo de vida da sociedade de consumo. Interpretada por Julianne Moore, ela é a protagonista de A salvo (Safe, 1995), cuja vida no começo do filme não vai além de fofocas e chá com biscoitos; isso, claro, divide espaço em sua rotina com aulas de aeróbica, com as horas dedicadas em deixar as plantas de seu jardim perfeitas e com sua enorme preocupação relativa à decoração da casa. Os minutos passam rápido e o relógio é implacável: Carol precisa de algo novo. Naquela que é talvez a melhor cena do filme, ela decide, em um ato de quase desespero, que tal mudança viria através de seu visual. Os fios longos e ruivos perdem espaço e são substituídos por cachinhos, que acompanhariam suas unhas recém-pintadas. Não sabe que a estrada de tijolos amarelos leva necessariamente a Oz. Nenhuma mudança. Carol, literalmente, perde o fôlego; ainda que isso ocorra nos momentos em que se percebe fazendo as mesmas coisas, com as mesmas pessoas, interpreta isso como uma aversão à sujeira. Interna-se em uma espécie de SPA, o que a manteria longe o bastante das roupas com ácaros e das manchas de gordura.

Carol é a radicalização da privada, a descarga dos excrementos levada ao máximo. Freud costumava dizer que o relacionamento do ser humano com as fezes muda com o desenvolvimento de seu psiquismo. Para a criança, as fezes representariam algo como um presente dado por ela a alguém que ama. No adulto, ao contrário, o sentimento seria de nojo e repulsa. Ainda que ocorra a participação daquilo que ele chama de “repressão orgânica”, Freud salienta a participação da educação no sentido de tornar mais rápida a passagem para o estágio das “fezes sem valor”. Nossa posição diante da merda não seria a mesma se esconder os próprios excrementos não fosse tão importante para a civilização; o ser humano que não o faz, é sujo, não demonstra respeito pelo outro e o ofende. Torna-se digno dos mais usuais xingamentos: porco ou cachorro. Apesar de serem os melhores amigos do ser humano (sim, os porcos, a partir da versão “mini”, também!), costuma-se utilizá-los para se referir a quem é sujo. Afinal, eles não se envergonham da merda que fazem.

Não se deixe enganar: há algo de Oz no salsicheiro; o (mini)porco está além do arco-íris. No Seminário sobre as Psicoses, Lacan narra o caso de uma paciente que, ao sair de sua casa, depara-se com o amante de uma de suas vizinhas que lhe diz um palavrão. Ela, antes, havia lhe dito: “Eu venho do salsicheiro”. No decorrer da análise, descobre-se que ouviu o homem dizer: “Porca”. Nesse caso, a mulher recebe do outro sua própria fala; outro que é ela mesma, seu “reflexo no espelho”. A paciente, por meio desse outro que ela encontra na rua, fala de si por alusão: “Eu, a porca, venho do salsicheiro, já sou desconjuntada, corpo espedaçado, delirante, e meu mundo se vai em pedaços, assim como eu mesma”. O delírio surge como uma tentativa de se colocar algo no lugar do buraco entre o eu e o mundo. É bastante provável, nesse sentido, que não haja realidade mais esburacada que a de Dorothy; pela estrada de tijolos amarelos ela chega a um lugar em que já está. Oz é uma fantasmagoria daquilo com que Dorothy está acostumada, sua própria mensagem; suas farsas e imperfeições, como o Mágico, são as mesmas que ela encontrava no Kansas. Lacan dizia que, quando há alucinação, é a realidade que fala. Por meio de Oz, é o Kansas que fala. No filme, o para-além se mostra sempre-já aqui, sem muitas novidades.

Em uma das matérias na internet que noticiavam os “micropigs” como a nova moda, havia um interessante comentário: um leitor dizia “meio nojento” em referência à matéria na qual se lia que, após as celebridades, agora era a vez das pessoas “não-famosas” pagarem mais de R$ 1000 por um porco em versão reduzida. A sociedade atual, no entanto, conseguiu produzir um (aparente) paradoxo: mesmo com um porco, continua-se sentado na privada. Os “micropigs” não representam uma regressão ao erotismo anal, como se poderia pensar inicialmente. Em vez de um sentimento de amor que lembraria aquele que se tem pelas fezes nos primeiros anos de vida, é a demanda social pela limpeza que surge pela curiosa camuflagem delirante. Uma forma curiosa e muito mais eficiente encontrada para que a descarga não se transforme em uma obsessão, como ocorre com Carol. O miniporco evita que a aversão pela sujeira se transforme em uma neurose que tenha como consequência última um isolamento em um SPA, longe das inúmeras mercadorias que se tem à disposição.

Aquele ou aquela que visita um site de vendas descobre, logo após ser informada(o) das inúmeras possibilidades diferentes de pagamento, que os “micropigs” podem ser adestrados, atendem pelo nome e, o mais importante, fazem suas necessidades no local certo quando ensinados. Os “micropigs” são mais do mesmo; uma (velha) forma de entretenimento “limpo”. Não existe nada mais civilizado.

A toga do réu

Por Rafael de Deus Garcia

O momento em que o juiz ou a juíza veste a toga é um ritual de purificação. É o momento em que a pessoalidade, intrinsecamente ligada a valores morais e ideologias, cede espaço ao instrumento da lei. O ritual sustenta que, em verdade, não é a pessoa que veste a toga, mas a toga que veste a pessoa.

O uso dessa veste talar, que há muito figura entre nós, hoje se mantém pela tradição, pelo respeito que impõe, por toda sua simbologia inerente que, pouco estudada e muito transmitida, traz consigo também consequências que passam despercebidas, ou que são estrategicamente ignoradas. Trata-se de uma imposição, presente na ideologia de um Direito moderno, do afastamento do eu. Um afastamento que se diz ser necessário para um julgamento (pretensiosamente) neutro.

Com todo esse ritual, ao lado da disposição mobiliária da sala de audiência, está completa a simbologia que demonstra o apego do judiciário a formalismos ‘vetustos’ e também a filosofias que hoje só se mantém por burrice ou por mero masoquismo. Nessa grande encenação (e de violência) simbólica, a toga se levanta como a principal metáfora do aparato judicial, o artefato pelo qual o juiz e a juíza poderá se arvorar para justificar todo seu poder.

E há de se frisar, a toga não é somente uma tradição que se transmite de olhos fechados. É efetivamente um discurso defendido intensamente nos mais altos tribunais do país, onde a retórica de palavras robustas exaltam sua importância e necessidade. Questioná-la é questionar a própria Justiça, e ai de quem o faça na prova para a magistratura.

Do outro lado da mesa de audiência, uma figura indispensável, a parte ré. Não se apresenta em vestes cerimoniais caras e ornamentadas, não está acompanhada das pompas do mecanismo judicial e nem tem as mãos livres para folhear o processo do qual é
protagonista. Tem sim a agonia das algemas, a companhia de dois policiais bem armados, o cheiro de banhos mal/não tomados e uma feição que demonstra os meses de prisão provisória, da qual lhe disseram ser necessária apesar de ser inocente até a condenação. Nesse cenário, tem também sua própria toga, obrigatória aqui na penitenciária da Papuda: a veste branca.

De um lado o ritual de cor preta. Em sua antípoda, o de cor branca. Em ambos, uma similaridade perversa, o afastamento do eu. De quem julga, um afastamento pela pretensa subtração da pessoalidade em direção à aplicação mecânica e imparcial da lei. Ao mesmo tempo, as consequências dessa prática, que só faz reproduzir acriticamente uma ideologia antiquada, punitivista e maniqueísta. Da parte do réu, o afastamento forçado de um eu que é obrigado a travestir-se no papel já transbordante de estigmas.

Não se trata de defender o que alguns mal intencionados chamam de “direito penal do coitadinho do bandido”, mas sim de defender garantias constitucionais, que preveem um procedimento judiciário que não indique a culpa antes mesmo do julgamento. Sinais são transmitidos, linguagem corporal é enviesada, e todo o tom do filme de suspense, em que claramente se aponta o antagonista com a indispensável necessidade de guarda policial e algemas, já indica o seu desfecho. E tudo isso é ainda muito mais crítico no tribunal do júri.

Tem-se que as vendas da Senhora Justiça funcionam errantes. Um olhar introspectivo de fato bloqueado e um olhar para fora que se divide. Um dos olhos ao espelho, cujo reflexo é o vaidoso orgulho das vestes que tanto defende e faz questão. A simbologia necessária. E o outro olho a um cenário montado onde o réu se perde em tantas representações de si já pré-constituídas. Estrangeiro em seu próprio processo, é vestido na toga branca. A simbologia ignorada.

Assume-se que a toga preta exerce sua força, presença, impõe respeito e autoridade; mas diz que a toga branca não exerce qualquer influência sobre o julgamento do juízo. Um julgamento de pessoas livres, inocentes até que se prove o contrário, deveria estar eivado de tantas simbologias ocultas? Pode o mesmo judiciário reiterar inveteradamente a importância simbólica da toga preta e ao mesmo tempo ignorar por completo a influência da carga simbólica da toga branca?

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Indicação de vídeo de Luisa Hedler: La Nuit de Varennes: Majesté! 

Indicação de imagem de Diego Veloso: The Accused – Almos Jaschik