Pinheirinho: quando a exceção vira normalidade

Dia 22 de janeiro. São José dos Campos. São Paulo, Brasil. Bairro do Pinheirinho. Cerca de duas mil famílias. São 5 da manhã. Aproximadamente sete mil pessoas dormem quando a polícia militar orquestra mais um dia de atividades. Em poucos instantes um cenário de guerra se instauraria no lugar. Tropa de choque, bombas, morteiros, disparos de armas de fogo, helicópteros e correria. Despejos e derrubadas. Sangue e morte. A noite cai e a operação é celebrada como “brilhante”. Nos grandes veículos de mídia, o que se lê é a conclusão de mais uma “reintegração de posse de uma área invadida”. Mais um dia aparentemente normal no nosso Estado democrático de direito.

Três dias depois, conseguimos ver os primeiros lamentos, ainda resistentes, de autoridades sobre o que aconteceu no domingo que se passou. A reação desproporcional, arbitrária e desequilibrada é condenada como “uma praça de guerra”. Negociações e outras medidas que poderiam ter sido feitas começam a ser levantadas. Mas são três dias. São 7 mortes. São cerca de sete mil pessoas sem moradia.  Talvez isso pouco importe. O necessário foi feito. O recado foi passado. Na nossa “democracia”, ou você obedece ao seu lugar, ou é tratado como anomalia a ser neutralizada. Como inimigo. Como não humano. A lição de “cidadania” foi dada.

Gira o contexto, permanece o texto. Teresina, Avenida Frei Serafim. Recife, Faculdade de Direito. Brasília, Santuários dos Pajés. São Paulo, seja na Luz, seja na USP. Tudo está muito claro. As hierarquias e os papéis sociais naturalizados devem ser mantidos a qualquer custo. O único lugar concebível para um estudante é na sala de aula. Aluno manifestando por um sistema de transporte justo e eficiente ou contra um sistema de segurança opressor só pode ser um delinquente. Para índios, para os marginalizados da Luz ou para os desalojados de Pinheirinho, o que lhes resta é muito menos que um lugar. Para esses, nossa “democracia” reserva o papel de inimigo. Ou seja, aquele que deve ser excluído, banido, morto ou, ao menos, deixado longe de nossas vistas.

É o nosso cotidiano. São histórias que se entrecruzam em um espaço curto de tempo. São narrativas que dizem algo sobre a sociedade em que vivemos.  Em uma mistura sinistra de panóptico clínico e estado de exceção, temos o cenário perfeito da catástrofe. Uma distribuição perfeita de papéis sociais e de expectativas dos sujeitos, um controle absoluto sobre as condutas individuais e coletivas, e um quadro de normalidade que serve de meio interpretativo dessas ações. Aqueles que fogem às expectativas criadas e adotam uma postura reativa ao papel social de oprimido que lhes foi atribuído, logo sentem a mão normalizante sobre seus corpos. Suas condutas logo são tidas como anormalidades que devem ser expurgadas. Nessa distribuição desequilibrada de cidadania, reside uma economia de poder que se justifica em um estado de exceção permanente. Em uma excepcional normalidade.

Legitimado pelo argumento de que a ordem e a “legalidade” devem ser mantidas a qualquer custo, nosso Estado se utiliza de medidas excepcionais para assegurar que os desvios não integráveis ao sistema político vigente sejam sumariamente eliminados. A sua “democracia” é mantida por meio de atos antidemocráticos. A ordem e a legalidade só são válidas enquanto aquela normalidade de papéis sociais permanece intocável. Quando um marginalizado social requer seu direito à moradia, quando um estudante luta por seu direito a um transporte público digno ou quando um índio briga por seu direito a terras indígenas e à realização cultural, as expectativas sociais são quebradas e as regras vigentes devem ser suspensas para que a ordem seja mantida.

Essa distribuição de poder vai longe, essa suspensão do direito também. Na microfísica elas permanecem: ou o que seria o estupro, legitimado por argumentos que ignoram (suspendem) direitos fundamentais, do que nada mais que uma resposta excepcional a uma mulher que se comporta de forma inadequada ao que julgam ser o seu papel social? A nossa tradição do estado de exceção ensina que a suspensão das liberdades e garantias essenciais serve para manter a normalidade.

No entanto, essa mesma tradição deixa de ensinar duas coisas relacionadas. A primeira é que essa normalidade não significa apenas um espaço temporal em que a ordem jurídica e as regras do jogo permanecem válidas; a normalidade também significa uma distribuição hierarquizada de papéis sociais que deve ser mantida a qualquer custo. Segundo, que o estado de exceção deixou de ser um momento específico no tempo e no espaço, passando a ser um real permanente escorado em argumentos que também se tornaram permanentes: como a segurança pública ou a crise econômica. A suspensão da ordem jurídica para combater qualquer espécie de ruído social é o nosso normal. É o estado de exceção, e não o Estado democrático de direito, que constitui a nossa “construção histórica”.

A data de 22 de janeiro fica marcada como mais um dia comum. Mais um dia de normalidade excepcional. Mais um dia em que a quebra de expectativas de papéis sociais é interpretada como quebra da ordem. Mais um dia em que a “legalidade” é mantida com a suspensão do próprio direito.

Por Marcos Vinícius.

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8 segundos e a desmistificação da questão das drogas no Brasil

8 segundos. Em apenas 8 segundos surge um muro quase instransponível que condena o usuário de crack à indiferença. Sujeira, perigo, ameaça e desumanidade são estigmas comuns imputados a milhares de homens e mulheres que se veem sujeitados todos os dias ao desprezo frio da sarjeta imunda. Imundice. Sarjeta. Frio. Desprezo. Sentimentos comuns e incomodamente próximos aos que desesperadamente anseiam por apenas mais 8 segundos. Apenas 8 segundos. Tempo indisponível àqueles que dividem espaço com as lixeiras. Lixo. 8 segundos e nem um único olhar de ternura. 8 segundos. E a compaixão lhes é negada em um fluxo ininterrupto. 8 Segundos. Espera infrutífera e desoladora. 8 segundos. Esperança ocultada pela fuligem dos carros que passam intrépidos e desconfiados. Antigos moribundos e crianças alucinadas se amontoam em vielas a espera. A espera de. Não vem. Mais uma pedra. Só mais uma pedra e volto pra. Não voltam. As suas marcas não permitem, na maioria dos casos, um retorno. Imaculados pelo falso mito da irrecuperabilidade que apenas se verifica em ações em que o usuário é internado em clínicas de recuperação de maneira compulsória. Ao forçar homens e mulheres a se sujeitarem contra suas vontades o índice de eficácia do tratamento é baixíssimo – com até 98% de recaídas. Mais 8 segundos. Dizem que o dependente experimenta a sensação de 8 orgasmos durante esse curtíssimo espaço de tempo. Subjaz incrustado nas práticas implementadas pelos governos – e na atual operação movida na cidade de São Paulo – o discurso que nega o dependente químico. O mesmo discurso que afirma ser a Cracolândia simplesmente um problema de segurança pública que deve ser brutalmente extirpado. Mas ao não contemplar as nuances claras de exclusão e o contexto de violência em que essas pessoas estão imersas o poder público não consegue perceber o óbvio: o problema da região é o abandono, não o dependente químico. Segundo dados oficiais do próprio estado de São Paulo a maior parte dos usuários de crack apresenta dados socioeconômicos abaixo dos da média do restante da população paulistana e 77% deles vivem nas ruas. Os que trabalham fazem bico. Bico que os mantêm na rua. Moradores de rua? Não, pessoas em situação de rua. Ninguém vive nas ruas, a sério. Pelo menos não os enxergamos. Profissionais do sexo. Guardas de carro. Catadores. Invisíveis. Silenciosos. Incomodam apenas quando requeremos os espaços que estes e estas singram durante as noites imperturbáveis.

Os “nóias” – termo pejorativo que se refere aos toxicômanos – se misturam quase imperceptíveis às ruas e avenidas. Paisagem. Suor e lágrimas não são relevantes o suficiente para serem detalhados nos rostos esculpidos pelos jornais. Quando a máscara se torna mais real que a própria face. Mais 8 segundos. A voz que embarga ao contar sobre o passado dá lugar ao ódio e medo insuflado pela mídia que soluça em uníssono o mesmo muxoxo. O usuário de crack é encarado como um ente indesejado e infalivelmente perdido. E é exatamente esse conceito que justifica muitas vezes o descaso e a quase inexistência de estruturas que possam auxiliar e proteger os dependentes. A ausência de busca por alternativas que não recorram à violência e ao uso exclusivo do aparato policialesco acaba sendo grandemente prejudicada por essa postura que os grandes veículos de informação acabam no mínimo tacitamente apoiando. Uma postura higiênico-sanitarista ainda se faz muito presente em várias medidas propostas pelo legislativo e executivo quando se tematiza o uso de narcóticos no país. E esses 8 segundos se multiplicam e se perdem em muitas mais 8 segundos e vidas humanas.

Mas para chegar a uma interpretação não superficial do Brasil de hoje, que é o que realmente interessa, necessitamos revisitar momentos e conceitos que parecem longínquos, mas que ainda nos cercam de todos os lados. Ao não tocar no cerne da questão da precariedade que caracteriza as vidas da maioria das pessoas que se encontram em situação de vulnerabilidade perde-se a chance de se resolver definitivamente o problema do uso de drogas em sua raiz. A história epidemiológica e a experiência clínica demonstram que o projeto de uma sociedade sem consumo de drogas é ilusório. As posturas proibicionistas e repressivas são geralmente inócuas. O fenômeno representado pelos narcóticos é extremamente complexo. Ao calcar a erradicação do consumo apenas na abstinência forçada – cortando o fornecimento e ou penalizando o usuário – o dependente vê-se isolado e encurralado na maior parte das vezes. Um sistema de proteção e acompanhamento não consegue se firmar em meio a políticas de repressão e culpabilização extremas. Ausência de confiança, de ambas as partes. Fica claro que nem sempre o combate às drogas visa ao bem-estar dos homens e mulheres que se defrontam a um estágio acentuado de exclusão ao longo desse processo.

A prefeitura de São Paulo ao preconizar um enorme projeto de revitalização do bairro da Luz – espaço físico em que se situa a maioria dos toxicômanos – acaba recaindo em um erro crasso de percepção. Tentam revitalizar um bairro que historicamente foi ocupado por setores populares da sociedade paulistana excluindo esses mesmos grupos do setor, e em específico os usuários de crack. Mas a Cracolândia não é um lugar, mas sim um grupo de pessoas itinerante. Territorialidade itinerante que a truculência e o engessamento das políticas públicas adotadas não conseguem captar. Ao reconstruir um bairro com requinte e esmero esperam miraculosamente afastar os dependentes e cortar o fornecimento de crack do centro de São Paulo. Medidas dessa espécie, já abandonadas há décadas em países desenvolvidos como a Suíça e a Alemanha, são dispendiosas e de difícil manutenção em longo prazo. Tentam ocultar um problema gravíssimo que só pode ser solucionado com um programa integrado entre Estado e sociedade civil por meio de demolições e construção de novos espaços de convivência e lazer. Repressão e demolição que não incide diretamente no quadro social do bairro da Luz. Perpassa essa região problemas estruturais ainda mais graves e profundos que raramente a mídia explora de forma adequada. A precariedade em termos de acesso à moradia, empregos e serviços públicos são características presentes no bairro desde a muito. Entrelaçam-se visceralmente aí problemas como pobreza, exclusão, descaso, tráfico de drogas, violência e preconceito. O fato de a maioria dos usuários ser negro ou mulato ainda é negligenciado. A aparência física das usuárias de crack não se difere muito dos traços característicos das mulheres que integram a enorme massa de desvalidas que vagam todas as noites pelas ruas e avenidas da próspera e desigual comunidade paulistana em busca de comida. As pessoas que marcham sobre o descomunal canteiro de obras a céu aberto ainda continuam a ser advindas das camadas mais carentes da população. Os problemas sociais não cessam a criar novos motivos para que milhares busquem acalento em locais impróprios à vida humana saudável. 8 segundos. Muitas vezes a única mão que se estende a eles e a elas é a mesma que oferece esquecimento e prazer em. 8 segundos.

Já ocorreram dezenas de batidas policiais que ao fim de poucos dias não fazem mais do que se tornar tema para cartunistas perspicazes. Políticas públicas que apregoam simplesmente prisões e internações forçadas não passam de engodos que nos ludibriam por alguns dias de intranquila calma. Passageira. Enquanto o uso de drogas no Brasil não for desmistificado haverá ainda. 8 segundos. O principal intuito de um programa de erradicação – ou limitação do consumo – das drogas em um país deve ser o bem-estar de homens e mulheres que só pode ser alcançado por meio da construção de uma ampla rede de proteção. Um sistema que não relegue à clandestinidade todos os homens e todas as mulheres que em determinado momento de suas vidas incorreram no uso de narcóticos. Sua integridade deve ser resguardada ainda de maneira mais efetiva quando estes e estas são usuários de drogas potencialmente devastadoras. Acima de tudo o combate às drogas deve ser visto como a efetivação do direito dos usuários e das usuárias de crack, por exemplo, a terem garantidos o seu bem-estar – e qualquer política que se relacione aos toxicômanos apenas pode ser legitimada pelo fato de primar por esse direito à proteção irrestrita e permanente. Uma pessoa em cada 20 pessoas se serve habitualmente de alguma droga proibida ao redor do mundo, segundo a ONU. Possuímos assim um número entre 250 e 350 milhões de dependentes químicos. 8 segundos. Em escala planetária e exponencial. Em qualquer contexto os direitos e as garantias desses milhões de seres humanos devem ser resguardados – principalmente de soluções simplistas e julgamentos precipitados.

Por Edson de Sousa

I don’t wanna live on this planet anymore.

As duas últimas semanas foram, talvez, uma das épocas mais conturbadas para os internautas brasileiros: discussões sobre caso de Monique no BBB, protestos contra o SOPA e a disseminação de dois virais: Luíza no Canadá e Julia Bueno. O que esses quatro episódios têm em comum? Como podemos refletir a partir deles?

Sinceramente, gostaria de escrever separadamente sobre cada um, mas, mais uma vez, a velocidade da internet sobrepõe nossas expectativas e, se ontem eu me preparava para explorar o caso de Monique, hoje isso já não passa de uma discussão “superada”. Portanto, vou dizer tudo de uma vez: o que está acontecendo com a internet?

Desconsiderando propositalmente a questão criminal no caso do BBB, considero a ideologia que foi propagada dentro dos sites de relacionamento como um tiro de misericórdia no movimento feminista. Se estávamos todas animadas, pensando que a Marcha das Vadias serviu para alguma coisa, depois daquilo podemos dizer com firmeza: uma mulher que não se porta de acordo com os padrões de santa, não pode ser sujeito passivo do crime de estupro! Pelo que vi, concluo que, provavelmente, um vídeo que mostre um cachorro sendo atropelado causaria mais comoção que uma mulher inconsciente sendo “possivelmente” violada. O benefício da dúvida é muito bem utilizado aqui, não é mesmo? O “suposto” estupro foi filmado, mas, mesmo assim, há quem defenda que devemos esperar a polícia terminar as investigações para falar algo. Fazemos isso quando vemos um vídeo de um deputado recebendo dinheiro? Fazemos isso quando vemos um vídeo de um homem sendo espancado? Mas, com certeza, um “possível” estuprador merece o benefício da dúvida. No fim das contas, considero que sim – é  justo esperar o devido processo legal; mas, se perguntem: por que não houve tanta misericórdia com a enfermeira que espancou o yorkshire?

O que nos leva ao assunto que fez todos esquecerem completamente qualquer outro: Luíza no Canadá. Sugiro que todos aqueles que querem ter uma visão crítica sobre o assunto acessem o post Luiza, o Canadá e a Besteira Virtual no blog Brasil e Desenvolvimento. Limito-me a citar, o meme de Luiza no Canadá “não se trata de uma tentativa do autor do vídeo de  forçar humor ou graça em discurso ou ideia carregada de discriminação social ou racial, mas exatamente o contrário: o público é que enxerga humor num discurso que originalmente não foi elaborado com essa finalidade. É dizer: fazer troça com a besteira comezinha, denunciar a decrepitude de visões deturpadas sobre a realidade e banalizar com inteligência velhos hábitos em franca decadência em nossos dias.” Achou um exagero? Eu não.

Todo mundo estava falando de Luíza, que estava no Canadá, menos Júlia, que estava na suruba, certo? Para mim, essa foi a gota d’água. Júlia Bueno é uma garota cuja vida se tornou um verdadeiro inferno. Aparentemente, alguém invadiu sua conta do Facebook e incluiu fotos em um álbum público de uma suruba – termo acadêmico: sexo com múltiplos indivíduos. Você se depara com essa situação: a privacidade de uma pessoa totalmente violada, exposta, seus direitos fundamentais jogados no lixo. O que você faz: ri e compartilha. Em menos de duas horas o álbum já tinha sido compartilhado por mais de 500 pessoas e já passava de 1.000 comentários, alcançando um incontável número de usuários. Será que essas 500 pessoas não pararam para considerar as consequências desse ato? Mas inconsequência pouca é besteira, ainda precisamos ultrapassar esse nível de desrespeito, ainda temos de perpetuar a ignorância em milhares de comentários cheios de ódio! Vamos humilhar uma garota por sua vida sexual e rotulá-la do ser mais vil de todos: vadia. Mas ainda não é suficiente – temos de atacar os homens também! O que pode ser mais ofensivo? Ah, sim! Vamos falar de sua virilidade, de como eles não são tão homens assim. Exemplificarei com esse comentário, feito por uma mulher, que excede o limite do aceitável: “esses ai vao ser acusados de estupro igual o daniel do bbb, afinal estupro = comer puta bebada hah“. No fim, a própria Julia divulgou uma nota explicando o ocorrido. A nota termina com o seguinte apelo: “Por fim, faço um apelo pessoal a cada um que vinculou meu nome com os atos sexuais praticados nas fotos: imaginem que fizessem o mesmo com vocês?

Júlia, eu realmente acho que as pessoas perderam essa capacidade, o que nos leva ao início do post. Tudo que ocorreu só demonstra como as pessoas usam a internet de maneira leviana, desconsiderando que do outro lado da tela há um ser humano. Não sei mais se eu entro no Facebook ou no /b/. Parece que a internet foi dominada por /b/tards – newfags, ainda por cima. Estamos tão próximos, podemos nos comunicar com um clique, a qualquer hora e em qualquer lugar; estamos, porém, separados por um abismo: não existem mais seres humanos na internet, apenas profiles. Uma ferramenta tão poderosa, com o potencial de realizar a verdadeira democracia, com uma interface que possibilita a verdadeira crítica – a  internet se torna mais um veículo de desinformação. Então, para que lutar contra o SOPA?

Por Gabriela Tavares

Profecias e o limite da razão humana

A figura do homem iluminado, “homo sapiens” no sentido lato, puramente racional, muito embora seja típica de um paradigma já ultrapassado, permanece como uma sombra que, de vez em quando, aparece.  O meio acadêmico-científico é um dos seus ambientes favoritos, onde ela paira sobre os mais desatentos. Não é raro encontrar quem apele em suas teorias a uma “verdade científica”; esquecendo-se que mesmo quando damos voz a uma ou outra tese estamos lidando, para além do lógico-racional, com a emoção.  Ainda não perceberam que o uso da razão, do lógico, da ciência não é e nunca será suficiente para sanar todos os nossos questionamentos.

Por causa dessa figura de “homem racional” a emoção e a espiritualidade são muitas vezes vistas como fraqueza, como empecilho a visão correta de mundo. Mas toda vez que a ciência e suas respostas são insuficientes para o espírito humano inquieto, ou seja, toda vez que essa racionalidade falha ela mesma cede a uma convivência com a emoção. Quando se fala sobre o futuro, ou melhor, quando se faz previsões sobre ele, a racionalidade costuma “dar o braço a torcer”. Ouvimos as palavras probabilidade, estatística, possibilidade, mas dificilmente temos uma resposta concreta que se camufle em única verdade.

As profecias agem assim, no campo limítrofe entre essas duas partes do ser humano. Onde os números dão espaço à numerologia, a astronomia abre espaço à astrologia, as figuras tomam seu aspecto simbólico tantas vezes suprimidos na expectativa sempre do homem racional. Nelas damos lugar àquilo que é simplesmente ignorado por este homem iluminado: que também somos emocionais, que somos irracionais por vezes, que o que está escrito não é tudo, há o subscrito, há o subliminar, o que está acima do que é palpável e concreto, há a alma atrás da mente.

É através da alma e de sua linguagem que dialoga a profecia. Como em Oréstia, a peça grega da qual Ésquilo é autor, Cassandra, outrora amante de Apolo, “amaldiçoada” com o dom da profecia, fala em linguagem simbólica suficiente para ser chamada de louca por muitos, mas clara o suficiente para estremecer a alma de quem se atenta a suas palavras metafóricas. Talvez para o Corifeu, a previsão de que a Rainha Clitemenestra mataria seu esposo Agamêmnon e a própria pitonisa Cassandra fosse obscura, indecifrável tanto quanto o futuro; mas para nós, leitores da história, as frases: “A vaca vence o touro! Envolve-o em seu véu insidioso e pelos cornos negros o domina!” (p. 58) ou mesmo: “Pois a leoa de dois pés, unida ao lobo na ausência do leão feroz, matar-me-á! (…) na taça de veneno que manipula já está a minha parte. (p. 65)” tem o sentido tão forte e palpável como o próprio presente. Numa mistura de razão e emoção, cremos no que vislumbramos com essas palavras, são o palpável, o concreto, mesmo que sua linguagem seja simbólica. O simbólico toma forma.

Isso me tem fascinado na leitura de dois livros bíblicos extremamente carregados de símbolos: Daniel escrito no século II a.C. e Apocalipse, escrito em meados de 90 d.C. Alguns dos seus símbolos estão tão estampados no cotidiano que me espantei, tais como os animais híbridos, as estrelas que caem sobre a terra, a Lua em tom avermelhado, o cavalo negro, o dragão vermelho, a foice, entre tantos outros contidos no livro Apocalipse.

E como seus símbolos, a visão “apocalíptica” de que trata esses livros tem comovido o homem moderno. A idéia de “Fim do mundo” culmina num ápice de angústia quanto à falta de resposta aos nossos questionamentos. É a dicotomia entre a incerteza do que virá com a certeza de que terminará em morte, com a certeza que o futuro é o fim.  Nesse tema, o homem emotivo parece estar vindo à tona de uma forma explosiva.  Por vezes, essa emoção aflora de tal forma que a “profecia”, como fato em si, se torna elemento praticamente dispensável, como vem acontecendo com a tão divulgada “profecia Maia”: a interpretação dada para o fato de um calendário ter uma data final toma forma de profecia de catástrofe. Lembrou-me bastante a ansiedade que causou a data exata de mudança de século. Cria-se nesse caso a expectativa de fim, mesmo que não haja profecia específica sobre tal.

Quanto ao “fim do mundo” Daniel emite profecias obtidas através de interpretações de sonhos. A primeira delas é a exposição e interpretação de um sonho tido e esquecido pelo rei da Babilônia, Nabucodonosor. Nesse episódio, Daniel prevê a existência de 3 reinos posteriores à Babilônia, os quais seriam Grécia, Roma e de um último reino dividido, o qual é citado em Apocalipse como um reino com 10 reis. No Reinado desses 10 reis surgiria um que derrubaria 3 reis e estabeleceria um  reino de paz por um tempo curto culminando em uma verdadeira guerra. O “fim do mundo” viria com a queda desse rei e o estabelecimento do “reino de Deus”.

A questão do simbólico, do espiritual vem retomando seu espaço; por vezes de forma tão impulsiva a ponto de suprimir a lógica, o racional. Apesar disso a possibilidade da convivência não destrutiva entre essas duas facetas do ser é clara, já que elas são complementares para a construção de nosso ponto de vista, e assim da própria identidade do ser. Somos essa dicotomia entre o real e o irreal, entre o visível e o invisível e na percepção disso, dessa condição, as profecias deixam de ser uma loucura para ser a concretização dos símbolos que nos formam, do que é hoje e do que virá.

Por Fernanda Potiguara

Sobre Roteiros, Direito e Cinema

Quando Assurbanipal reuniu diversos contos e lendas sumérias formando a Epopéia de Gilgamesh em VII a.C., nascia o modelo fundamental que iria guiar o desenvolvimento de narrativas ao longo da história, tanto no ocidente como no oriente. O poema épico mesopotâmico é a primeira Arquitrama da qual se tem notícia: trata da história do rei sumério, único protagonista que, lutando contra forças externas, busca a imortalidade, nunca alcançada.  Porém, não quero me aprofundar na história em si, mas em sua forma.

Com seus elementos, a narrativa ali esboçada apresenta estrutura semelhante aquela que é utilizada pelos grandes roteiros de Arquitramas hollywodianas. Essas estórias são assim definidas por McKee, “uma estória construída ao redor de um protagonista ativo, que luta contra forças do antagonismo fundamentalmente externas para perseguir o seu desejo, em tempo contínuo, dentro de uma realidade ficcional consistente e casualmente conectada, levando-o a um final fechado com mudanças absolutas e irreversíveis”.

O mencionado autor em seu livro Story apresenta várias outras características sobre roteiros e seu processo de criação, apontando, sobretudo, para a importância da Arquitrama e seu grande apelo comercial e, também, para a maneira como as cenas e atos de uma estória devem ser desenvolvidos; tudo que aparece na tela deve ter uma motivação e apresentar uma mudança em termos de valores em relação ao protagonista, ou seja, não há tempo a perder com descrições da vida e personalidade dele quando não estão ligadas diretamente à estória ou quando não é possível transmitir tais informações ao mesmo tempo em que se transmite as mudanças que a cenas devem proporcionar.

 Enfim, você deve estar se perguntando, qual o motivo d’eu estar escrevendo essas coisas sobre roteiros?

 Bem, aqui vai meu primeiro esboço de um roteiro.

 1º  Ato

Um jovem nascido na periferia de Brasília, após passar toda sua vida vendo sua mãe sendo espancada por seu pai, dependente químico, deci

de deixar sua casa e tentar ganhar a vida vendendo dvds piratas no centro de Brasília. Já ali, descontente com o resultado de seu novo trabalho, em uma das diversas noites que passava dormindo em uma das galerias subterrâneas da cidade, é apresentado ao mundo do crack e, aos poucos, vai revertendo seus poucos ganhos para sustentar seu vício. Alguns meses após, completamente dominado pela dependência, porém acoado pelas constantes ameaças de mortes vindas de traficantes com os quais tinha dívidas, o jovem, após tentar assaltar uma loja de conveniência, é capturado, porém, durante a fuga, acaba se envolvendo em um terrível acidente de carro que resulta na morte de 2 policiais e uma mulher que dirigia um outro veículo.

2º Ato

Após mais de três meses  de prisão preventiva, o jovem passa a ser réu em uma ação penal pública por homicídio doloso, além de furto e tráfico de drogas. Mal sabia ele que a mulher fatalmente morta no acidente era filha de um influente empresário da sociedade brasiliense, dono de um dos mais renomados jornais da capital federal. A partir daí todos os holofotes da cidade passam a apontar para a ação penal, a sociedade clama por justiça e, por meses e mais meses há cobertura completa do processo que culmina com o Júri. Milhares de pessoas  se cadastram para serem jurados, outras milhares vão ao tribunal assitir a chegada do Réu e recebê-lo com ameaças. O promotor de justiça dá entrevista afirmando que fará de tudo para que a justiça seja alcançada e para que a sociedade tenha certeza de que o réu irá passar o resto de seus dias em uma penitenciaria. O jovem, indignado com a cobertura tenta corrigir as distorções dos jornais através de seus defensores públicos. Em vão. O júri é acompanhado nacionalmente, e por 6 votos a 1 ele é declarado culpado. Passam-se 5 anos, ainda na prisão o jovem torna-se chefe de um esquema de encomenda de assassinatos, além de liderar o tráfico dentro da penitenciaria. Mas, no mesmo dia no qual recebe uma proposta milionária para conseguir orquestrar um assassinato, ele se mata ao perceber que ele jamais havia planejado aquela vida para ele.

FIM.

(Final alternativo: Após 15 anos na prisão, o jovem sai, porém, sua saída é logo noticiada pela mídia, e, impossibilitado de encontrar emprego e sofrendo ameaças físicas em todos os lugares que frequentava ele se mata ao perceber que não teria como levar uma nova vida)

Um roteiro com todas as características de uma Arquitrama: um único protagonista, o jovem viciado, que luta contra forças externas (traficantes, polícia, a mídia) para perseguir seu desejo (primeiro, uma vida melhor, depois recursos financeiro para sustentar o seu vício, na sequência o desejo de uma visão não distorcida sobre os fatos que o levaram perante o júri e, finalmente, a luta pela vida que sonhava) levando-o a um final com uma mudança absoluta e irreversível, no caso, a morte.

Um roteiro que se apresenta diariamente nas páginas de jornais e nos autos de processos penais no Brasil.

Poderia ter escrito minhas linhas gerais para o roteiro utilizando um nome próprio ao invés de me referir ao protagonista apenas como jovem. Mas, chamá-lo por um nome que lhe identificasse de alguma forma seria permitir que parte de sua singularidade pudesse ser manifestada; o jovem são vários e para a mídia, para população, para o judiciário, pouco importa o nome dele, o que importa é que ele é um assassino e deve pagar por isso. É isso uma característica básica da realidade na qual ambiento meu roteiro e preciso obedecê-la, caso contrário minha realidade não é consistente, já que me propus a retratar um determinado cenário.

Eu não tenho como mostrar, em, aproximadamente, 120 minutos de filmagens que esse mesmo jovem cresceu vendo sua mãe ser espancada por seu pai, dependente químico; também não tenho espaço para apresentar o motivo que lhe fez sair de casa, juntar dinheiro para tentar conseguir um diploma técnico; igualmente, não tive espaço para mostrar as torturas as quais foi submetido quando procurou um centro de reabilitação da rede pública de saúde e, também, não tive espaço para mostrar que antes de iniciar a fuga ele havia se entregado, quando foi espancado por um dos policiais e ameaçado por outros dois. Aí sim, ele decide fugir e, desarmado, começa a ter o carro no qual fugia metralhado e, após receber um tiro em um dos braços, perde o controle da direção que causa o fatal acidente. Tal qual Gilgamesh ele procurava a vida eterna, cada qual em seu próprio plano, e, assim como o rei sumério, obteve sua resposta: aos homens a morte, aos deuses (e à segurança da sociedade/judiciário) a vida.

Mas ainda assim, tenho um bom roteiro, amarrado, com início, meio e fim. A estória, ainda que parcialmente, é contada e o público terá matéria suficiente para se divertir. O material adicional vai para versão estendida que, quem sabe, um dia será lançada. Aí o público terá material não só para o entretenimento, mas para reflexão.

McKee diz que um dos grandes desafios de um bom roteirista é conseguir condensar a história de tal maneira que os 120 minutos sejam suficientes, que o principal seja contado, que a estória se desenvolva. O público não precisa saber de tudo, ele não quer saber de tudo, seria muito cansativo e demandaria, no mínimo, o triplo de tempo. Mas o que cortar? O que não é essencial para as mudanças que ocorrem com o protagonista, sobretudo aquela mudança final, decorrente do clímax de estória.

Por mais que apresentasse toda trajetória de vida do jovem ao longo do filme, os jurados jamais seriam sensibilizados por ela. A mídia nunca publicaria tais fatos e, caso forçasse meu roteiro para que a mídia publicasse tais relatos, soaria artificial, inconsistente com a realidade na qual ambiento meu filme, o Brasil atualmente. Então é melhor cortar.

Ações penais públicas, sobretudo aquelas que são submetidas ao júri, são excelentes estórias para um roteiro, Arquitramas por excelência (Na realidade dos fatos, na experiência e sofrimento de vida daqueles que passam por algo semelhante, os “roteiros” que são tais ações se aproximam muito mais de minitramas, protagonistas passivos, com perpétuos conflitos internos e, porque não, uma pitada de antitrama, quando se vislumbra a não linearidade dos processos penais e a ausência de qualquer lógica razoável em seu desenvolvimento). Uma coisa eu tenho certeza, caso um dia me falte criatividade e competência para escrever um roteiro irei até secretaria do tribunal do júri mais próxima de mim; lá, encontrarei autos e mais autos que me apresentarão estórias que poderão ser facilmente adaptadas e transformadas em roteiros, com a facilidade de que tudo que realmente interessa para o desfecho do enredo estará lá, e tão somente isso. O desnecessário, se lá estiver, será discreto o suficiente para não atrapalhar meu trabalho.

Tenho a impressão de que um grande roteirista hollywoodiano está por trás de toda essa indústria do entretenimento que conhecemos como Júri no Brasil. É a sétima arte sensibilizando o direito.

Observação pós publicação: na verdade, se pararmos para analisar mais profundamente, o grande protagonista das arquitramas penais brasileiras é a sociedade/Estado que luta contra o crime, os réus são os antagonistas. Nesse cenário a arquitrama hollywoodiana se concretiza ainda mais, com um final extremamente positivo quando vislumbrado a partir dos valores representados pela ordem pública: a segurança foi alcançada e o criminoso devidamente punido.

A Extraordinária Gente – Uma visita ao sistema penitenciário por meio da literatura

“Dezessete meses de cadeia, para um homem acostumado ao ar livre do mar, à independência do marinheiro, ao espaço, à imensidade, ao infinito! Senhor, dezessete meses de cadeia é mais do que merecem todos os crimes designados na língua humana com mais odiosos nomes!” (Dantés, em O Conde de Monte Cristo)

Alguém comete um crime. O condenamos e o prendemos. E depois? Como fonte de legitimidade, o sistema carcerário se propõe a ser um espaço de ressocialização em que o indivíduo supostamente encontrará “condições para a harmônica integração social” (LEP). Mas será possível que um sistema de características tipicamente totalizantes é capaz de proporcionar tais objetivos? Quais são as reais conseqüências do encarceramento no sujeito condenado?

Para enfrentar essas perguntas, talvez seja necessária uma aproximação ética e de empatia com aqueles que são alvos do sistema carcerário. Tendo isso em vista, buscamos na literatura algumas possíveis respostas para esses questionamentos, levando em conta que nenhuma realidade é passível de compreensão completa e absoluta, sendo necessária a abertura para o outro.

O artigo A Extraordinária Gente, dos petianos Marcos Vinícius Lustosa Queiroz e Rafael de Deus Garcia, busca fazer, por meio das obras de Fiódor Dostoievski e Graciliano Ramos, uma visita ao sistema carcerário e está disponível neste link:

 https://petdirunb.wordpress.com/2012/01/06/a-extraordinaria-gente-uma-visita-ao-sistema-carcerario-por-meio-da-literatura/

PLC 122: Breves observações acerca do conservadorismo


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O PLC 122 (o projeto que pretende criminalizar a homofobia no Brasil) sofre ainda grande resistência em ser aprovado principalmente pela bancada evangélica no senado, o projeto original já sofreu adaptações e restrições no intuito de facilitar a sua adesão, adaptações essas que, inclusive, comprometeram a dimensão esperada anteriormente do projeto e não foram capazes de garantir sua adesão pelos parlamentares, pois, até agora o que se teve foram respostas negativas. O mais curioso acerca dessa situação é que, os principais argumentos que vão contra a PLC 122, pautados principalmente no conservadorismo da política brasileira são, no mínimo, dignos de observação.

O primeiro argumento que me chamou atenção (para não dizer que causou-me profundo incômodo) é o de que uma lei que criminalize a homofobia atenta contra o princípio da liberdade de opinião. Primeiramente há aqui uma subversão do termo ‘’liberdade de opinião’’. Não se deve confundir esse termo com uma legitimação do ódio e da violência. Não é por que eu não gosto de algo, que eu tenho o direito de destruí-lo. Em contrapartida, O PLC 122 tem como principal pretensão permitir que homossexuais vivam sua sexualidade livres da opressão e do preconceito, portanto ele é, de fato, em Imagemprol do princípio da liberdade.  Trata-se aqui da ampliação de direitos constitucionais e, de maneira alguma, da restrição destes. A bancada evangélica do senado alega que a mesma lei afetaria a liberdade de expressão religiosa. Convenhamos que o Estado brasileiro como laico, deve atentar para a preservação da dignidade de seus cidadãos independentemente de sua orientação sexual, isso não inclui o respaldo a instituições religiosas que disseminem o preconceito e o ódio a homossexuais. A liberdade de expressão religiosa será, sem dúvida, preservada, porém, sem a legitimação da propagação de discursos homofóbicos de qualquer espécie pelas mesmas instituições religiosas.

Neste mesmo aspecto não consigo conceber a diferença que possa existir entre uma lei que criminalize a homofobia e as leis que já existem contra o racismo por exemplo. Há uma clara semelhança entre o discurso racista e o discurso homofóbico, são eles propagadores de violência e opressão, desta forma ambos devem ser combatidos com a mesma seriedade para garantia de igualdade e preservação da dignidade da pessoa humana.

Existem afirmações acerca de que os números de crimes ligados à homofobia no Brasil são ínfimos e, por isso, não se faz necessária a criação de uma lei contra homofobia no país. Em 2010, 260 homossexuais foram assassinados. Sendo vítimas de homofobia no Brasil, este número, que significa vidas a menos, está longe de ser ínfimo. O Brasil é um dos países que mais mata homossexuais no Imagemmundo. Além disso, vale lembrar que a homofobia não está apenas no homicídio, ela se encontra em diversas formas de violência como, por exemplo, a verbal e psicológica. Portanto não se faz necessária, porém urgente a criação de uma lei que criminalize a homofobia.

Afirma-se que o PLC 122 criaria ‘’privilégios’’ aos homossexuais e, por isso feriria o princípio da igualdade. Quanto a isso considero pertinente afirmar que, democracia de fato só se alcança com respeito às minorias, ou seja, superado o paradigma do Estado liberal, se faz necessário ações afirmativas para garantia de direitos e proteção das minorias oprimidas. Essas ações visam primordialmente à garantia do princípio da igualdade e a criação da democracia real, o PLC 122 é, sem dúvida, uma delas.

Alega-se que o PLC 122 é um atentado contra a família. Há que se falar aqui da nova abrangência do termo família. Famílias são formadas também por homossexuais e essas devem de direito, serem protegias pelo estado como qualquer outra.

ImagemA luta pela criminalização da homofobia não é recente assim como a luta pelos demais direitos LGBTTTs, dessa forma, é primordial o papel da sociedade na reivindicação desses direitos, reivindicações as quais já obtiveram resultado em 2011 com a aprovação da união estável entre pessoas do mesmo sexo pelo STF. Porém a luta continua. É preciso mobilização ainda maior para que as mesmas famílias que a bancada evangélica alega estar protegendo parem de ter seus filhxs homoafetivos assassinados todos os anos, vítimas da homofobia, sem que nada seja feito para evitar isso.

https://www.youtube.com/watch?v=5-eHGxnzMkg&feature=player_embedded

Por Aurélio Faleiros