Partidos e partidas

*Por Edson J. D. de Sousa

Poesia é coisa de partidos
e de partidas.
É gesto que avança sobre telhado quebrado,
sobre a palavra
e sobre a Lua que desce.

Poesia é coisa de partidos
e de partidas.
É arte submissa de seu abismo,
de que entre intenção e concreto
há ainda o visível.

Poesia é coisa de partidos
e de partidas.
É lugar de passagem, é território
de tudo desatino e do todo que é eterno
– é nossa gramática sobre o abatido.

Poesia é mesmo esse enxugar gelo,
brigar com sua norma na minha rima.
É furar a fila
de partidos e partidas.

Poesia é essa estupidez decantada
de que com o canto tudo fica bem,
e de que parafraseando o corpo e a vida
– linha por linha –
rompemos também a morte.

“De uma cidade , não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas. (1)”

*Por Edson J. D. de Sousa. 

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“Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude (2)”. Pela boca de seu astuto Tancredi, Tomasi di Lampedusa (1896- 1957) define assim, em uma mesma assertiva que se expressará de diversas formas ao longo de seu romance, o momento de incertezas pelo qual seus bisavôs, e todos os contemporâneos da unificação italiana, vivenciaram na segunda metade do século XIX. Filho da nobreza italiana, Tomasi di Lampedusa – Duque de Parma – construiu sua narrativa ao redor de figuras como o príncipe siciliano Don Fabrizio e seu sobrinho, Tancredi, além de figuras históricas como Giuseppe Garibaldi – e seu exército de camisas vermelhas que ocupou e derrubou a monarquia reinante em todo o sul da Itália – e a Casa di Savoia, família do norte industrializado que chefiou a unificação dos diversos reinos existentes no atual território italiano.

A trama do romance, quase um diário do Príncipe de Salina, desenvolve-se em um ambiente de mudanças: diante de seus olhos, uma nova ordem de valores – a burguesa – estava em gestação; ele o percebe, como ficará evidente ao longo de toda a obra. A narrativa desenrola-se centrada em Don Fabrizio, sendo que apenas em dois capítulos a figura central não é o próprio Príncipe – e mesmo nesses momentos, habita o estar-no-mundo aristocrático. A narrativa é intimista; a perspectiva dos fatos apresentada, mesmo quando não exposta a partir da boca de Don Fabrizio, é a palaciana. O narrador, que presumia-se neutro por não tomar parte nos acontecimentos, justifica, também ele, a forma de divisar e dividir a realidade manifesta na figura própria do Príncipe de Salina. Inteligente, dotado de espírito científico, Don Fabrício se constituía no símbolo maior daquela nobreza falida, impotente ante as mudanças trazidas pela revolução, com seus efeitos sobre a rígida estrutura social do reino da Sicília. Fabrizio era consciente de que a monarquia trazia “os sinais da morte no rosto”. Igual clareza da decadência da nobreza e do surgimento de uma nova ordem em gestação tinha também o personagem mais astuto, e também mais preparado para os novos tempos, como ao fim ficará demonstrado: Tancredi, sobrinho de Don Fabrício.

“Se nós não estivermos lá [na revolução], eles fazem uma república. Se queremos que tudo fique como está é preciso que tudo mude. Expliquei-me bem?”. A partir da lição de Tancredi a seu tio, o Príncipe Fabrizio, fica evidente, e em em outros contextos históricos também é aplicável o adágio, que em diversos momentos de grandes mudanças a participação de grupos e classes sociais privilegiadas se trata apenas de um esforço por cristalizar-se uma modernização conservadora – uma transformação radical e profunda, à primeira vista, mas que preserva de forma ainda mais firme e imperceptível o status quo anterior. Apesar de apararentemente opostas, em diversos capítulos da história brasileira, as noções de progresso e de tradição articularam-se a serviço de um mesmo propósito: a construção ativa de uma ordem social segregadora e hierarquizante, e que teve na categoria raça um de seus denominadores mais expressivos.

No Brasil, a partir da constituição de um pensamento nacionalista autoritário, foi possível que grupos historicamente favorecidos permanecessem detentores de primazias sobre a égide mesma de um sistema político republicano e liberal – do tempo dos antigos mercadores de escravos ao período dos donos dos enormes latifúndios de café e indústrias, negócios diversos, mas que extraem seus capitaneadores da mesma elite nacional restrita, o fosso abissal existente entre as comunidades brancas e não-brancas apenas figurou de forma diversa com o advento da Primeira República (1889-1930). Sob o adágio cunhado por Lampedusa, por meio da voz de Tancredi, toda a segunda metade do século XIX, e também o alvorecer século XX, deve ser compreendido à luz das enormes reformas que mudaram, simplesmente, os dispositivos e os agentes de controle – no caso da população negra, recém-liberta no Brasil, os feitores e senhores-de-escravo deram lugar à policiais, sanitaristas e arquitetos; momento em que a produção do espaço e a Cidade tornaram-se instrumentos privilegiados nos processos de hierarquização e de produção de desigualdades.

A partir das discussões suscitadas pelo filósofo marxista francês, Henri Lefebvre, e sua problematização de um necessário Direito à Cidade, torna-se possível apreender várias ocorrências aparentemente contraditórias, mas que são, na verdade, umbilicalmente vinculadas. Hoje, assim como ontem, a Cidade é palco privilegiado de uma dualidade constitutiva de conteúdo conflitante em que fenômenos paradoxais – uma prática social integrativa de uma sociedade que prática a segregação – incidem sobre a realidade urbana. A presença de uma integração desintegrante fica evidente em diversos momentos da história brasileira. O presente texto visa analisar, de forma sucinta, um deles apenas, mesmo por sua importância e influência em outras cidades brasileiras que adotaram parâmetros similares: a reforma Pereira Passos (1903-1906).

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De forma sucinta, a Reforma Pereira Passos consistiu na modernização da capital federal de então, Rio de Janeiro, sob os auspícios dos padrões europeus de urbanização excludente que vicejavam explicitamente à época. Ao longo de quatro anos, o Rio de Janeiro tornou-se um enorme canteiro de obras em que, de forma autoritária e despótica, vários preceitos sanitaristas que aprofundavam ainda mais o abismo existente entre comunidades brancas e não brancas foram implementados – quase ao mesmo tempo em que a constituição liberal e republicana de 1891 se impunha como norma dirigente do país. A partir da analise do ‘Bota-abaixo’ de Pereira Passos, é possível traçar uma discussão sobre a constituição do discurso liberal no Brasil e como este, de forma extremamente criativa e inovadora, proporcionou às classes dirigentes nacionais delimitar, legitimamente, espaços adequados às comunidades negras existentes na capital federal. Controlar o espaço central da cidade tornara-se imperativo.

A racionalidade burocrática prolatada por arquitetos e sanitaristas instaura, sob o manto da ciência neutra do início do século XX, medidas, regulamentos e coações, que sob seu próprio critério são “razoáveis e motivados”; aos conflitos e contradições que lhe escapam, o racionalismo burocrático e produtivista diagnóstica seu próprio aprofundamento. Se o espectro da revolta escrava não mais assusta a elite brasileira e sua ‘República de Eleitos da Nação’, o medo e a velha obsessão são substituídos pela sombra da Cidade que precisa ter suas ruas limpas e salubres, em que a “raça” que desfigura o projeto de Brasil é medicada, afastada, colocada, por fim, em “quarentena”. O medo, dessa forma, emerge como instrumento eficaz de manutenção da ordem estabelecida – a da raça como interdito – e de conciliação dinâmica entre conservação e progresso. O urbanismo vem à tona como ideologia; todos os problemas da sociedade se enquadram enquanto “problemas de espaço”, em espaços malsãos e espaços sãos. O urbanista, o arquiteto-engenheiro de feições higienistas, é escolhido como a figura que detêm o saber para discernir a “patologia do espaço”; “médico do espaço” que conceberia a Cidade enquanto um lugar harmonioso e normalizante. A Reforma Pereira Passos pode ser compreendida como um esforço por tornar o Rio de Janeiro apto à modernidade. O urbano intervém na produção; a Cidade Moderna intensifica, enquadra, organiza a exploração da sociedade como um todo orgânico. Em sua unidade e sincretismo, o Rio de Janeiro de Pereira Passos, dissimula e oculta suas rivalidades e conflitos; “traduz em palavras de ordem, em emprego de tempo” uma minuciosa hierarquia dos lugares, das pessoas, dos instantes, das ocupações, das raças – além de retratar, de forma ainda mais contundente com o “Bota-abaixo”, imperativos num estilo arquitetônico.

A Reforma Pereira Passos desloca a questão da órbita da forma de habitação popular – como até então era compreendida a necessidade de adequação dos famosos cortiços do centro antigo do Rio de Janeiro à padrões estritos de higiene e de salubridade – para a interrogação sobre o espaço normalizado, sobre o hábitat controlado. A raça é medicalizada a partir do espaço – agora permeado por uma nova série de tecnologias e dispositivos que trabalham sob os preceitos do discurso higienista, e não mais sob o espectro do manejo, da imobilização, da adstrição do negro cativo. O espaço público pós-abolição é circuncidado em suas formas; as ruas e avenidas, as superficíes amplas e espaçosas inauguradas sob o governo federal de Rodrigues Alves (1902-1906), representavam/retratavam um projeto político determinado – e que excluía, intrínseca e deliberadamente, os milhares de habitantes negros dos arredores da Capital. Embelezamento, discurso higiênico-sanitarista – com presença expressiva do “fator nacional” – e policiamente duradouro e ostensivo articularam-se em um tecido urbano carioca que acompanhou o próprio processo de desagregação do sistema escravista; a Cidade transmutou-se, reformou-se, para que continuasse, como na lição de Tancredi, a ser dispositivo atual e vigilante de controle das comunidades. As modificações, na realidade, permitiram um domínio ainda mais intenso e irrestrito do que antes, o que era visto favoravelmente já que a mobilidade e a capacidade de mobilização dos grupos subalternos, dilatou-se com o fim da escravidão.

Desta forma, o tecido urbano, no caso em apreciação, fornece uma poderosa imagem da hierarquia do espaço social e de como as assimetrias são construídas, fundadas e intensificadas a partir das categorizações e das localizações dos grupos presentes nas cidades. O que deve estar presente em qualquer estudo acerca da Reforma Pereira Passos, é que a mudança de ruas e avenidas, a demolição de construções populares em detrimento da restauração e ampliação de edificações que melhor representassem os novos hábitos e novos costumes adquiridos pela elite carioca – e, portanto, mais afinados com o conceito de civilidade em voga –, veicula-se ao esforço por tornar a capital federal, de forma ainda mais veemente, um espaço disciplinado e disciplinador. Afeita à “governar por retas”, a ciência neutra, e concomitantemente a serviço dos que defendem sob quaisquer circunstâncias a própria imparcialidade, dirá física e socialmente o espaço adequado às comunidades afro-descendentes. A Rio de Janeiro moderna perpassa o não-negro – e são os valores necessários e universais da estética alemã, a pompa e o exclusivismo da arquitetura francesa e os negociantes ingleses que desfraldaram o capitalismo a partir de nossas baiás, que disporão, já traduzidos à língua portuguesa, de centenas de milhares de negros brasileiros como mercadorias menos raras.

Com a abolição da escravatura, as comunidades negras adentraram o espaço público, antes já o habitavam, enquanto sujeitos plenipotenciários. Era, portanto, necessário outra ordenação e outra hierarquização – um novo dispositivo – entre sociedade branca e comunidade negra que mantivesse, e mesmo reforçasse, a divisão social do Brasil em castas. A cidadania será controlada, e ainda o é, para que não transponha nunca o limite revolucionário que representa a efetiva igualdade dos diversos grupos étnicos presentes no Rio de Janeiro da Primeira República. Foi vedada a apropriação, o valor de uso, que concretamente deflagrasse mudanças radicais nas relações internas à Cidade. A cidadania republicana e liberal continou branca e abstrata – com a cara de seus inventores.

A cidadania permaneceu incólume e com cor determinada; não reconfigurou-se diante das desigualdades evidentes entre as ruas largas de Pereira Passos e os morros cariocas. Não é possível compreender as relações de poder existentes na e a partir da Cidade sem entender a importância central que desempenhou o discurso higiênico-sanitarista na capital federal de idos do século XX; os discursos sobre o espaço determinam o espaço. A representação do espaço é também esquema organizador da prática espacial – o expressa e o estrutura.

Uma contradição sempre latente constitui e constituiu – e com a Reforma Pereira Passos fica ainda mais explícito seu caráter eminentemente político – o tecido urbano da capital federal: no Rio “existiu sempre um embate entre proximidade espacial extrema e projetos políticos de distanciamento social”. O discurso sobre as populações negras como sujeitos de direitos é tão frágil que se quebra diante da primeira manifestação de insubmissão e de indisciplina ao direito de sujeito excluído e segregado que lhe é imposto legitimamente (sic) – no caso dessas comunidades, seu próprio estar é restringido. Operou-se, com a reestruturação do sistema viário a partir das intervenções dos engenheiros e arquitetos sanistaristas, a consecução de uma visão organicista de Cidade em que é fundamental que os diversos órgãos vitais distribuídos ao longo do tecido urbano estejam interligados de forma harmônica. O arquiteto-engenheiro da Rio da Belle Èpoque cafeeira, déspota esclarecido em seu “governo por retas”, é, antes de tudo, o “médico do espaço” que diagnóstica a Cidade compreendida em sua totalidade. O espaço medicalizado, curado, salubre reordena minunciosamente toda uma “ortopedia social” em que as comunidades negras se veem interligadas por uma série de dispositivos tênues, mas ininterruptamente presentes; fortalecidos pelo seu próprio ocultamente, e que, por isso, as controla de forma ainda mais irrestrita e generalizada. Com a Reforma Pereira Passos, toda uma cirurgia urbana é operada a partir das “folhas em branco” do arquiteto.

images (3)“O arquiteto produtor do espaço (porém, nunca sozinho) opera sobre um espaço específico. E como primeira providência, tem diante dele, sobre seus olhos, sua mesa de desenho, sua folha em branco. O encerrado não exerce efeitos diferentes. Essa folha de papel de desenho, quem a vai considerar um simples espelho e por sujeição, como um fiel espelho? Quando, de fato, todo espelho é enganoso e, ademais, essa folha de papel em branco é algo mais que um espelho. O arquiteto a utiliza para traçar seus planos, vocábulo que se deve contemplar em toda sua força: superfície plana, sobre a qual um lápis mais ou menos ágil e habilidoso traça linhas que o autor considera como a representação das coisas, do mundo sensível, quando, de fato, a superfície impõe um decifrado – recifrado do real. Contrariamente ao que facilmente crê, o arquiteto não pode localizar seu pensado e suas percepções sobre a mesa de desenho e visualizar as coisas (necessidades, funções, objetos), projetando-as. Confunde projeção e projeto submergido em uma ideia confusa que ele crê real e, inclusive, rigorosamente concebida, dado que os procedimentos cifrado e decifrado mediante o desenho são usuais e tradicionais; que, a partir desse momento, escapam à sua influência. A folha, ao alcance da mão do desenhista, sobre seus olhos fica em branco, tão branca como plana. A considera como neutra, crê que esse espaço neutro, que recebe passivamente os traços de seu lápis corresponde ao espaço neutro de fora, que recebe as coisas, ponto por ponto, lugar por lugar. Quanto ao plano, não pertence inocentemente sobre a folha de papel. (3)

NOTAS:

(1)   CALVINO, 1990, p.42.

(2)   LAMPEDUSA, 1974, p.42.

(3)   LEFEBVRE apud FERNANDES,  2009, p.63-64.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Tradução por Vinícius Nicastro Honesko. Chapecó, SC: Argos, 2009.

BATISTA, Vera Malaguti. Cidade do Rio de Janeiro: desassossegos e transbordamentos. Diálogos Cariocas:  2009, p. 01-17. Disponível em: http://www.dialogoscariocas.org.br/newsitefiles/docs/veramalaguti_01072009.pdf

CALVINO, Italo. As Cidades Invisíveis. Tradução por Diogo Mainardi. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

FERNANDES, Felipe Moura. Do lugar da busca, à busca de um lugar: a contribuição de Henry Lefebvre. Revista Tamoios. Ano V. Nº 1 – ISSN 1940-4490. Rio de Janeiro: 2009,

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Tradução por Raquel Ramalhete. Petrópolis: Vozes, 1987.

LAMPEDUSA, Giuseppe Tomasi. O Leopardo. Tradução de Rui Cabeçadas. São Paulo: Abril S. A. Cultural e Industria, 1974.

LEFEBVRE, Henri. O direito à cidade. Tradução por Rubens Eduardo Frias. São Paulo: Centauro: 2001.

SANTOS, Milton. Espaço e método. São Paulo: Nobel, 1992.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil – 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

Protesto pra quê?- O que as manifestações revelaram sobre o Brasil.

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*Por Gustavo Lamounier

Há alguns dias minha irmã me acordou quase às 1 da tarde para eu cumprimentar um tio meu. Ele foi nos fazer uma visita e já estava indo embora. Mas antes queria me ver. Massa. Fui até a cozinha, de samba canção, o cumprimentei e peguei uma xícara de café. Em meio a conversa, cujo assunto se tornou os protestos e manifestações no Brasil, quase vomito na minha própria boca ao ouvir a seguinte frase proferida por meu tio: “Nem sei pra quê tanto protesto, o Brasil não tá tão ruim assim”.

(Pô tio, sério?! Caramba hein, como não pude perceber isso antes?! Me faz só um favor, fala isso pra essa galera aqui também.)

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Foi aí que eu comecei a pensar nesse texto. Pensei em várias coisas pra escrever. Muitas já foram escritas por outras/os PETianas/os, sobre a violência policial, sobre o clima de mudanças no ar, sobre os protestos terem virado uma festa( com direito a música eletrônica, cerveja e muita criatividade nos cartazes). Sobre o(s) feminismo(s), sobre como as manifestações tem interesses difusos e até contraditórios. Mas uma coisa não saía da minha cabeça. Sobre como esses protestos e manifestações me revelaram coisas sobre o povo brasileiro (até me fez indagar, existe um povo brasileiro?)

Não vou conseguir escrever aqui tudo o que foi revelado. Mas tem algumas coisas que acredito que não podem passar batido. Não vou falar sobre a polícia, midia, ou os protestos. Vou falar sobre a reação das pessos à polícia, à midia e aos protestos. Pois todas estão, à sua forma, conectadas. É difícil traçar uma linha e saber o que os protestos querem. Vi nas ruas da Esplanada “10% do PIB pra educação”, “Dilma abaixa o imposto do Whey”, “Feliciano me cura que eu como sua mulher”, “Contra a corrupção”, “O Gigante acordou”. Mas na reação dos brasileiros, dá pra encontrar semelhanças.

A primeira reação que percebi foi, de frente à violência policial, pessoas que buscaram legitima-lá/justifica-lá. Foi a primeira pois partiu de dentro da minha casa. A televisão ligada com o Jornal dizendo: “Badernistas iniciaram confronto com a polícia e a polícia conteve a manifestação, que antes era pacífica, depois se tornou bagunça”. Isso foi no dia do 1º jogo da Copa das Confederações.

Meus pais acharam um absurdo o que os “baderneiros” fizeram. Tenho um amigo que foi à manifestação e ele me contou toda a história. Me contou a história de como foi a polícia que iniciou o confronto, de como ele teve seu cartaz arrancado de suas mãos e rasgado por um sargento, de como ele tomou spray de pimenta na cara por simplesmente estar lá , de como a polícia perseguiu manifestantes até o Parque da Cidade com um helicóptero atirando spray neles. Depois de ouvir o que contei minha mãe rapidamente caiu na real, mas ainda tive que ouvir do meu velho: “Mas só apanha quem tá fazendo bagunça, se você ver a bagunça, sai fora”.

(Pô pai, sério?! Caramba hein, como não pude perceber isso antes?! Me faz só um favor, fala isso pra essa mulher aqui.)

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Não foi apenas ele. Tive outro amigo que numa manifestação levou uma coronhada nas costas “de graça”. Não vou escrever todo o juízo de valor que tenho por quem defende esse discurso. Mas é engraçado e trágico, ao mesmo tempo, ouvi-los.

Outra reação engraçada de ser percebida foi a comoção nacional incitada pela mídia pelos ‘vidros quebrados’. A mídia, e, consequentemente, uma parcela da população procuraram deslegitimar uma manifestação com milhares de pessoas, porque alguns indivíduos praticaram atos de “vandalismo”. Qual seria o ato? Quebrar vidros.

Sério?! Assim, sério mesmo?! Na boa?! Vidro quebrado. Por ano são desviados dos cofres públicos cerca de 50 bilhões de reais e de frente à todo esse cenário foi vidro quebrado o que deixou irritadas/os milhares de brasileiras/os?!

Outra reação foi o aparecimento de várias pessoas especialistas em movimentos sociais. “A manifestação deve ser pacífica, se começar a ser violenta, ela perde a razão”. Ah é?! Então qual é a ‘Razão’ da manifestação? O Estado brasileiro e sua polícia são violentos todos os dias, e pra caralho, por que eles não perderam a “razão”?! Por fim, acredito que as manifestações mostraram o que o povo brasileiro (existe O povo brasileiro? Quem ele é?) tem de pior. Falta de empatia com o próximo, invisibização da luta por direitos alheios, reacionismo e um apego irracional a um status quo que cria e reproduz desigualdades ecônomicas e socias, preconceitos, discriminação, opressão. Mostrou que uma boa parte da população condenou aqueles que estavam lutando contra um problema que afeta à todos.

No final, só resta perguntar, protesto pra quê? E pra quem?

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Isto Que É Festa!

carnaval

*Por Guilherme Martins

“Está parecendo um carnaval”.

Sim, uma expressão, dentre outras, que passou pela minha cabeça no final da manifestação. Engraçado foi justamente um grupo de indivíduos proferir o mesmo pensamento, mas colocando em um contexto de diversão. Diversão! Não quero falar mal de todo o movimento que ocorreu ontem (20 de junho) em Brasília. Sim, de fato, ocorreram tantos atos de verter lágrimas de felicidade, bem como verter lágrimas interioranas de tristeza e biológicas (em razão do gás). Mas, achei necessário fazer levantamentos pessoais sobre o que está acontecendo. Não vou entrar muito em uma forma de resumo do contexto social que passa no Brasil desde a semana passada. Focarei apenas na quinta-feira, 20 de junho, em Brasília. Até porque pretendo ser breve na exposição.

Estou, junto a diversas pessoas queridas, me dirigindo a tão esperada manifestação que ocorrirendoria (ler O Restaurante no Fim do Universo, de Douglas Adams). Pessoas já se encontravam lá, outras estavam chegando e, em um momento posterior, havia aquelas só apareceriam já no estágio que considero banalizado. Assim como outras manifestações, não tinha, em nenhum momento, uma pauta específica. Fui lá com o desejo de repudiar a criminalização dos movimentos sociais (mais em relação ao apoio ao MTST e o B&D) bem como a tentativas futuras de considerar terrorismo esses movimentos durante a Copa… caso tenha uma. Olho para direita e vejo aqueles que se dedicam a causa LGBT. Olho para trás e vejo alguns com intuito de reclamar da Copa e o “investimento” desnecessário. A minha frente estavam aqueles indignados com o transporte público. Senti um pouco de desorientação. Mas, me acostumei e me sensibilizei em ver todos se mobilizando a favor de seus ideais. A felicidade maior foi chegar no gramado do Congresso e ver um grupo de indígenas levantando cartazes, lutando por seus direitos. Uma miscelânea de grupos, objetivos, pensamentos. Ou seja, bem como tem sido divulgado na internet, não havia de certo um foco muito bem estabelecido. Existia ali uma nuvem não muito clara, pois tinha formato de coelho ou de dragão. O importante é que tinha um formato de alguma coisa!

Agora a parte triste. Depois de um momento, não lembro muito bem o horário, essa mesma nuvem foi perdendo os contornos. Suas linhas foram sumindo, dando espaço para alguma coisa não muito concreta. Sabe aquela nuvem que você olha e não consegue ver um aspecto de nuvem? Que parece mais uns fiapos e não um algodão doce? Pois, foi exatamente isso que aconteceu. As diversas vozes que estava presenciando tornaram-se somente uma. Uma voz sem contorno. Presenciei apenas uma manifestação sem muito sentido. Veja, não quero generalizar para todos os indivíduos, mas de onde estava as outras vozes foram silenciadas. Escutava, na maioria das vezes, a mesma porcaria que os políticos falam: “mais saúde e educação”, “vamos acabar com a corrupção”. Na minha opinião, a utilização dessas expressões ficou como um xingamento entre amigos, ou falar que ama alguém só para ser fofo… ou seja, algo bastante sem conteúdo, um vazio. Não bastassem os gritos, tinha que observar cartazes com a única intenção de zombar com as figuras políticas. Cadê aquelas vozes que tinha escutado no começo? Acho que estava em um lugar errado na manifestação.

Essa transformação do plural, do diferente, para o uno, o igual, deu margem para, em diversos momentos históricos e até mesmo literários “fictícios”, apoio a verdadeiros golpes contra o que se queria na verdade: democracia (palco de conflito de interesses; não aceitação de uma única vontade). Cheguei a ler em outros blogs onde os escritores faziam um paralelismo com as ditaduras passadas. Estão mais do que certos! Por que pedir a todos usarem branco na segunda (17 de junho), por exemplo? Assistiram o filme A Onda e acharam legal por acaso? (fugi um pouco do contexto). Enfim, essa (não) delimitação do vazio faz com que eu fique com o pé atrás. Foi assim uma das sensações no momento.

Outra coisa que me deixou muito aperreado. Não posso dizer triste, pois foi uma confusão de sentimentos. Estava com raiva, confuso, pessimista. Um aglomerado de coisas nada boas, diga-se de passagem. Quando não suportava mais esse vazio, essa perda de um objetivo bem definido, fui em direção ao carro (por sinal estava bem perto do Congresso… lá no Museu da República). Na caminhada refletia sobre o que estava acontecendo e reparei na mesma massa de indivíduos caminhando em direção a lugar nenhum. Estavam ali, jogados no meio-fio, bebendo cerveja, conversando… Não parecia nada mais nada menos que um carnaval. Sim, carnaval! Com direito a comida e bebidas no caminho. Li o comentário de alguém no facebook que parecia uma festa junina. Acho que é mais cabível essa denominação.

Estava ocorrendo até uma festa gratuita no museu (acredito que já estava estipulada) e as pessoas saíam do movimento para ir lá divertirem-se! O que aconteceu ali? Fomos ou somos programados para fazer manifestação e depois curtir a noite em uma festa que ocorre ao lado, por assim dizer, da mesma manifestação? Isso só mostrou a falta de compromisso que muitos dos que estavam ali possuíam. Ovelhas que procuram seguir ideias. O perigo de se seguir o deturpamento democrático e adotar pensamentos como a tortura é algo legal, bem como a punição é o único meio de salvar/proteger a sociedade, podendo se agravar a uma ideologia em que 2 + 2 são 5…

 manifestações

Nem tudo é música aos ouvidos delas: machismo em 7 tons e várias escalas.

          

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 Por Ingrid Martins e Ladyane Souza

 “Já tive mulheres, de todas as cores…”

Nem tudo é música aos ouvidos delas – estudantes, professoras, advogadas, prostitutas, médicas. Muito da produção musical quer nacional, quer internacional, lança mão de uma imagem de mulher que é objeto sexual ou simples reprodutora – submissa aos ditames masculinos. Uma mulher que não é dona do seu corpo – o próprio Martinho da Vila já teve mulheres de várias idades, de muitos amores. Mas como assim teve? O homem, desde os tempos mais remotos, é o senhor do poder e da palavra, aquele que rege a família e os negócios, o detentor do pátrio poder. Para além da violência física à qual a mulher é vítima, a dominação masculina encontra na violência simbólica outras formas de se impor.

Não raro, as próprias mulheres incorporam essa relação de subserviência ao homem como irreversível em suas vidas, tornam-se Mulheres de Atenas*. É tão naturalizado, que cabe a elas o papel de “objetos receptivos, sensíveis, atraentes e disponíveis”, que na dominação masculina todas devemos ser “femininas, isto é, sorridentes, simpáticas, atenciosas, submissas, discretas, contidas ou mesmo apagadas” (Bourdieu, 2007, p. 82). “Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas, vivem pros seus maridos, orgulho e raça de Atenas” – dizem, com outros termos, mulheres em discursos moralistas, em pleno século XXI, a outras que optam por subverter a dominação – “VADIAS!”

A violência sofrida enquanto dominada é reproduzida, muitas chegam a acreditar que, realmente, “por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher”. Uma mulher que é secundária, é cereja de bolo, é aquela que cumpre os valores da família tradicional, é apresentável aos amigos – a acompanhante ideal ao triunfo profissional do marido. “Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas. Geram pros seus maridos os novos filhos de Atenas. Elas não têm gosto ou vontade, nem defeito, nem qualidade, têm medo apenas, não têm sonhos, só presságios”.

A posse sobre a mulher é tamanha, que nem todas podemos dizer adeus e ir com os seus numa turnê quando se trata de relacionamentos. O não da mulher – sempre disponível – não é levado a sério e, nesse sentido, somos todas Lily Braun. Aquela Lily dos versos do Chico: “mulherão”, sedutora, objetificada, comível com aqueles olhos de comer fotografia. E, por vezes, nos amassam as rosas, nos queimam as fotos, nos beijam no altar, daí em diante, nunca mais romance, nunca mais cinema, nunca mais drinque no dancing, …, uma rosa nunca mais, nunca mais feliz. Quero que meu “NÃO!” tenha força, que o casamento seja cumplicidade e divisão de responsabilidades domésticas – dispenso ser “dona do lar”, não quero sair de cena do meu próprio palco.

Quero ser como a outra Lily Braun, a real, não personagem. A qual era feminista, juntou-se ao partido socialista alemão e lutava para que as mulheres não vivessem apenas com a expectativa de serem mães e esposas. Integrou o início das lutas para que a voz de nós todas fosse ouvida – não como secundária, sombra, muito pelo contrário, desde então até hoje queremos o holofote, o nosso mérito pelo que de fato fizemos. Não somos frágeis como bibelôs, “Não somos mais machos que muito homem”, somos fibra e garra femininas, dispensamos uma linguagem em que o forte é, cristalizadamente, masculinizado.

“Minha força não é bruta – Não sou freira, nem sou puta…”. A mulher hoje, ao se afirmar como tal, enfrenta julgamentos de toda parte, olhares impiedosos e cheios de superioridade de mulheres e homens ultrapassados… Nosso rechaço a isso. Acima de tudo, nossa vontade de sermos respeitadas, nas ruas, nas festas, no trabalho – mais do que um corpo, temos sonhos e muita, muita personalidade. Nossa vida é nosso próprio palco, não somos palhaças do teatro alheio: temos nosso próprio roteiro, e estamos na direção, nossa vida é um caminho, não damos a nenhum homem a ilusão de nos guiar. Cada uma, na sua unicidade e personalidade sabe levar a si própria. “Sou rainha do meu tanque, sou Pagu indignada no palanque”.

Donas de nós, respeitando nossos anseios e nosso valor, nós assumimos! Se ser livre é ser vadia, SOMOS TODAS VADIAS! Convidamos a todas/todos a construírem um mundo de mais amor, mais intensidade e menos preconceito! Vem pra rua marchar com a gente! Somos Mulheres. Universitárias. PETianas. Vadias. Da Lola que fez letras na USP, que adora sexo e é dona de uma personalidade autêntica, até a Lola que gostamos que escreva, Lola, escreva, e diz sobre a marcha em outras cidades: “eu me senti muito amada”. Somos muitas Lolas, entre Lilys – a alemã – Ingrids, Ladyanes, Noharas, Sorhayas, Hannas, Julianas, Lumas, VADIAS.

Fica o convite do PET- Dir a todas/todos para amanhã, conosco, gingar entre músicas e refletir sobre a mulher a partir destas, compor cartazes e, então, marchar juntas/juntos na Marcha das Vadias do DF.

Girls just wanna have fundamental rights.

  O que? Quando? Onde?

– Oficina de cartazes do PET-Dir para a Marcha das Vadias:

22 de junho de 2013 | 10h | Na Faculdade de Direito da UnB

– Marcha das Vadias do DF

22 de junho de 2013 | 14h | Em frente ao Conjunto Nacional (Praça do Chafariz)

Fontes:

BOURDIEU, P. A dominação masculina. Tradução Maria Helena Kühner. 5. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.

http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2013/05/vadias-marchando-por-todo-o-pais.html

http://lolabenvenutti.blogspot.com.br/?zx=289557e4e875a7a5

A história de Lily Braun – Chico Buarque
Mulheres – Martinho da Vila
Pagu – Maria Rita
Mulheres de Atenas – Chico Buarque

Rede e Alteridade – Normatividade emanada do nós.

*Por Edson J. D. de Sousa

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A afirmação de uma contemporânea sociedade em rede (1) encobre um aspecto central da análise. As redes, enquanto formas de relacionamentos intersubjetivos, historicamente sempre estiveram presentes, sendo o sustentáculo que unia indivíduos em torno de uma coletividade. O contraste entre a forma pela qual entendemos a noção de rede se distingue das anteriores por englobarmos ferramentas e tecnologias que promovem e facilitam o intercâmbio de informações e valores. As redes de períodos históricos passados não eram tão abrangentes ou visíveis quanto às atuais. O fato inovador que articula as redes em nosso tempo é a capacidade que estas dispõem de articular instantaneamente relações sociais – e também de instantaneamente superá-las. As redes possuem esse aspecto dual que as definem enquanto sistemas catalizadores: ao mesmo tempo em que proporcionam condições estáveis para que uma sociedade se organize, disponibiliza também, concomitantemente, mecanismos de superação dos processos centrais que caracterizam a sociedade em questão (2). A noção de rede, portanto, transita – e a pertinência da busca por sua compreensão encontra-se exatamente na zona de indiferenciação que prolata – entre formas conservadoras e transformadoras; possui, assim, uma enorme elasticidade que tanto reforça quanto extingue relações preexistentes.

Apesar de estar presente em todas as sociedades em formas bastante diversas entre si, a partir da década de 70 do século XX ocorre o surgimento de novas vidas em rede – um salto qualitativo. Segundo Manuel Castells – e sua extensa obra acerca das relações sociais surgidas no último quartel do século passado -, subsistimos no interior do que ele define como paradigma tecnológico. Simplificadamente, o paradigma tecnológico consiste em um momento histórico em que se estabelece um círculo virtuoso de interação entre as fontes de conhecimento e a aplicação da tecnologia tendo como desdobramento a crescente geração de conhecimentos e o aumento do processamento de informações. Com o advento desse paradigma, a inovação tecnológica – devido à própria lógica do sistema de retroalimentação – não é uma ocorrência isolada. Cada grande avanço em um campo tecnológico específico termina por ampliar os efeitos das tecnologias de informação conexas. A complexidade de sistemas cada vez mais sofisticados e imprevisíveis e a penetrabilidade cada vez maior das novas tecnologias retratam a ruptura que representa essa nova forma de articulação das redes. A interdependência é evidenciada pela convergência de tecnologias específicas que contribuem para a construção de um sistema integrado e totalizante. E desse processo que se pretende total, por romper fronteiras antes inacessíveis, emerge uma cultura da virtualidade real que, em linhas gerais, se trata de um sistema binário (presença/ausência) em que somente a presença nesse sistema permite a socialização da mensagem. O novo sistema abarca e integraliza todas as formas de expressão, define a lógica de reprodução, as linguagens e os pontos de acesso. Apresenta-se uma nova forma, e talvez mais efetiva, de marginalização de indivíduos, grupos, e mensagens: a desconexão.

Também a relação entre Global e Local modifica-se. Não simplesmente os problemas alçam escala planetária, sendo o local um reflexo cândido de um problema maior e mais geral. Na verdade, a ligação entre as duas esferas – localidade e globalidade – se transforma radicalmente. Toda resposta situada e local pode, potencialmente, se mundializar e se reproduzir em outras situações análogas. A alteração em um dos pontos da teia em que indivíduos, grupos, países circum-navegam altera o todo. As relações locais incorporam peculiaridades tópicas e as dimensões globais são processadas e imiscuídas de regionalismos e provincianismos – mesmo que ocultados na forma de leis e valores universalmente válidos.  A distinção entre a parte e o todo é meramente figurativa. Nada é isolado. (3)

A constituição de um espaço de fluxos e de um tempo intemporal, conceitos propostos por Castells para se compreender a dinâmica contemporânea, se contrapõem às noções de um tempo cronológico e de um espaço de lugares. Em síntese, definir esse amplo processo de ampliação da rede em sociedade – e das sociedades em rede – em um único e inexorável sentido é não captar o ruidoso poderio que as teias de relações possuem. O reaparelhamento de nossas ruínas lustrosas e sifilíticas mantem marcas inequívocas de sociedades antiquadas que se debatem na busca por determinar os resultados do incremento de novíssimas tecnologias da informação insculpidas em seus muros e em seus monumentos – poder da tecnologia a serviço da tecnologia do poder; entretanto, devido ao número excessivo de variáveis parcialmente independentes, o resultado dos choques gerados é indeterminado. A própria estrutura das redes – e seus aparatos tecnológicos que se condensam na moderna internet – delimita um campo de conflito entre grupos privilegiados e marginalizados em que a inexistência de um único e central nó de resistência permite a reorganização incessante de interesses. A flagrante distinção existente entre grupos hegemônicos e minoritários tem sua tensão exteriorizada de formas novas, criativas e reflexivas. Castells afirma, inclusive, que a internet é marcada pela presença mais acentuada de grupos minoritários em direitos quando comparada a outras formas de mídia mais centralizadas. O advento da internet, imbricada em um contexto em que a informação segrega ou inclui grupos e indivíduos, não garante a existência de formas não hierárquicas e mais abertas, mas sim, problematiza a necessidade de se buscar maneiras inovadoras de se compreender as relações sociais. As redes estruturalmente construídas a partir de diversos polos igualmente importantes para a coesão do sistema são um modelo ideal para que se transmute a forma como o Direito se legitima. Apesar da instrumentalização/utilização das redes como ferramentas eficazes e silenciosas de controle, é a partir de um sistema que se estrutura em redes que se constitui uma das saídas mais significativas para se interpretar o Direito em nosso tempo. O problema do outro – e da outra (4) – se insere no horizonte de expectativa do ordenamento jurídico de uma sociedade na era da informação e da desconexão.

O fenômeno jurídico apenas é compreendido à luz de seu aspecto relacional. A estrutura das novíssimas sociedades em rede evidencia cada vez mais o descompasso existente entre as normas jurídicas e as formas cada vez mais fluídas da esfera social. As diferenças e heterogeneidades clarificam as fissuras e insuficiências do Estado moderno, centralizado e rigidamente hierarquizado. Em contraposição à falência da norma unificadora emergem novas formas de normatividade: uma normatividade emanada do nós.  Maneiras de compreender as relações jurídicas que não mais diluam existências concretas em relações abstratas e simplificadoras da realidade. A categoria de sujeito de direitos – em substituição ao sujeito palpável – é reduzida por uma ciência jurídica morta que o transforma em conceito. Modus operandi.

Esse tipo de visão sempre acredita que o direito é uma racionalidade controladora de cima para baixo, assimétrica, por princípio, estatocêntrica, cujos polos são seres isolados, individuais, movidos por interesses auto-referentes, que transitam ao lado do social, do natural, dos quase-objetos, como seres ectópicos e a-valorativos. No fundo, por mais que um discurso retórico de dignidade perpasse o discurso jurídico tradicional, o sujeito de direitos é uma excrescência da Terra. (AGUIAR, 2012, p.2)

As redes sociais e jurídicas só operam pela alteridade. É a existência do Outro que garante a articulação das redes, assim como é a visualização do Outro que propicia ao Direito o complexo de interações dinâmicas necessárias à sua concepção. A conformação das redes em formas horizontais, descentralizadas e fruto da contribuição de todos os usuários e usuárias é depositária de uma nova forma de se encarar o Direito. A normatividade das redes efetiva-se a partir da participação. Diferentemente, o direito posto, positivado, é fechado em formas que emanam de cúpulas e grupos cada vez mais restritos. A ineficácia estatal em dar respostas velozes e socialmente adequadas em um contexto de crise de antigas fórmulas e preceitos tem proporcionado lacunas rapidamente ocupadas. Movimentos de resistência e de criação e ampliação de direitos – assim como, muitas vezes, de sua supressão – se cristalizam e proliferam por meio de estatutos inovadores de organização. O Estado, e também o Direito, precisam se reformular no sentido de buscar uma participação mais (cri)ativa e em um contexto novo. As condições sobre as quais historicamente se edificaram são bastante diferentes; formas rígidas e estáticas não correspondem às enormes transformações ocorridas nas últimas décadas, e também não correspondem às expectativas crescentes das populações por mudanças efetivas em suas comunidades. É necessário, e a não aceitação das mudanças significa a esterilização completa das normas jurídicas, que o Direito se reinvente. Mas a tessitura de um Direito novo é possível apenas por meio do diagnóstico de suas atuais deficiências e insuficiências, e pela busca por meios mais participativos, flexíveis e horizontais de estruturação. É preciso democratizar as democracias existentes – e isso apenas é alcançável por meio de um Direito que opera em redes de alteridade, e não mais como racionalização de sistemas de opressão.

NOTAS

(1) Primeiro, definirei o conceito de rede, visto que ela desempenha papel central em minha caracterização da sociedade na era da informação. Rede é um conjunto de nós interconectados. Nó é o ponto no qual uma curva se entrecorta. Concretamente, o que um nó é depende do tipo de redes concretas de que falamos. São mercados de bolsas de valores e suas centrais de serviços auxiliares avançados na rede dos fluxos financeiros globais. São conselhos nacionais de ministros e comissários europeus da rede política que governa a União Europeia. São campos de coca e papoula, laboratórios clandestinos, pistas de aterrisagem secretas, gangues de rua e instituições financeiras para lavagem de dinheiro, na rede de tráfico de drogas que invade as economias, sociedades e Estados no mundo inteiro. São sistemas de televisão, estúdios de entretenimento, meios de computação gráfica, equipes para cobertura jornalística e equipamentos móveis gerando, transmitindo e recebendo sinais na rede global da nova mídia no âmago da expressão cultural e da opinião pública, na era da informação. A topologia definida por redes determina que a distância (ou intensidade e frequência da interação) entre dois pontos (ou posições sociais) é menor (ou mais frequente, ou mais intensa), se ambos os pontos forem nós de uma rede do que se não pertencerem à mesma rede. Por sua vez, dentro de determinada rede os fluxos não tem nenhuma distância, ou a mesma distância, entre os nós. Portanto, a distância (física, social, econômica, política, cultural) para um determinado ponto ou posição varia entre zero (para qualquer nó da mesma rede) e infinito (para qualquer ponto externo à rede). A inclusão/exclusão em redes e a arquitetura das relações em redes, possibilitadas por tecnologias da informação que operam à velocidade da luz, configuram os processos e funções predominantes em nossas sociedades. (CASTELLS, 1999, p 498)

(2) Além disso, essa socialização da informação caminha em duas direções opostas. De um lado, isola as pessoas umas das outras, pela intermediação de artefatos tecnológicos; de outro, estimula diálogos e reconhecimentos entre seres que, em outros tempos, nunca poderiam se comunicar, levando à emergência de movimentos sociais com recortes imprevisíveis, com repercussões não mensuradas, em termos políticos, econômicos ou culturais. É um paradoxal fenômeno de alienação e desalienação proporcionado pelos mesmos novos meios de comunicação. (AGUIAR, 2000, p.146)

(3) (AGUIAR, 2000; 2012).

(4) É importante ressaltar que a inclusão do questionamento da existência do Outro apenas é possível se também abarcar a noção de Outra. Mesmo em análises profundamente permeadas pelos conceitos radicais de alteridade – e de como nos confrontamos com a diferença – ainda permanecem constrições culturais e linguísticas arraigadas do nosso cotidiano. Faz-se necessário afirmar o feminino, tanto como corpo físico quanto como conjunto de características sociais, ante um sistema centrado predominantemente sobre a identificação com o universal masculino. A Outra é representação interdependente e constitutiva que garante o ser-para-o-outro – que garante o ser-para-a-outra.

 

 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGUIAR, Roberto A. R. de. Alteridade e Rede no Direito. Brasília, 2012.

_____________________. Os Filhos da flecha do tempo: pertinências e rupturas. Brasília Letraviva, 2000.

CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. Tradução por Roneide Venâncio Majer. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

Dona A.

Por João Victor Fiocchi

Da caminhada, o encontro.
Pelo só fato de ser, ensinou.
Não pela idade avançada
– os sábios são inférteis
nos limites dos muros.

Ensinou.
Eram as suas marcas.
Elas falavam e impunham sua existência.
Ela as trazia consigo.
Ela as trazia: olhe!

Mãos trêmulas tropeçam na assinatura:
o embaraço.
Pressão latente transborda:
a lágrima aprisionada, a pausa.
Idade avançada, família pra cuidar, processo:
o medo.

Corpo danificado
para além da ação do tempo.

Você, trabalho vivo mortificado
Você, corpo gasto pelo(a) Capital
Você, à flor da pele
Você, presença viva:
dialética exposta de uma promessa que nunca foi.

Acompanhar-te é expor-me,
é segurança momentânea, talvez
Despedir-me é expor-te
novamente, e como sempre,
à suspensão habitual.

Esqueço-me de que lhe é corriqueira a suspensão,
E me despeço de ti com um beijo no rosto,

Dona A.

Como quem se despede de gente.
Mas não é facultado rememorar que se é.
Não a você.
Você é.
Na calma branda e suave
de quem se subleva e grita sem fazer ruído algum:
Aqui estou!

Grito inscrito na mão trêmula.
Grito de uma lágrima proibida.
Grito da família a sustentar.
Grito do corpo que se apresenta.
Aqui estou!

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