Uma questão de escolha?

Por Hugo Sousa da Fonseca

Era uma vez um menino chamado Pedro. Vivia em Brasília e estava tão frio quanto o clima natural de algumas pessoas que moram lá. Ele andava meio calado, triste. Parecia até que fazia um monte de coisa errada por aí e precisava esconder de todo mundo. Ou será que ele só havia arrependido de algo que fez? Não sei! O fato é que ele sempre vinha com uns discursos de lamentações, dizendo que se sentia sem amigas/os e que no fundo via que não podia ser quem era. Mas aonde já se viu? O menino sempre teve tudo o que quis, nunca lhe faltou nada. Até o dever de casa suas mães, duas pessoas maravilhosas e bem-sucedidas, o ajudava a fazer. Será que era preguiça? Será que ele estava inventando problemas pra poder não ir mais à aula?

Pedro parecia desviar de tudo aquilo que suas mães sonharam para ele: se relacionava com umas pessoas estranhas, que usam roupas diferentes. Os seus amigos eram mal falados nos bares e nas ruas. Quanta decepção!  Era oração, era novena… de nada adiantava. Macumba online, cursinho de inglês, francês, violão, vermífugo, nada dava jeito naquele menino. Não se empolgava com a escola, não namorava, era tudo muito estranho.

Pedro novamente dizia: mãe, você me ama? Você me aceita como sou? Ele era esperto, apelava para o lado sentimental da coisa porque sabia que esse era o ponto fraco de suas mães. Elas caíam naquilo e a resposta era sempre muito calorosa.

Era tanto amor, mas tanto amor, que, como pessoas que realmente faziam de tudo para ver seu filho bem, aquelas mães não deixavam que Pedro andasse com quem quisesse e com a roupa que escolhesse. Forçavam alguns nomes, indicavam pessoas certas e repudiava outras, afinal 16 anos já é hora de começar a pensar em trazer a pessoa amada para aquele famoso jantar na casa da sogra. Precioso que era, Pedro estava sempre impedido de fazer o que quisesse da sua vida: uma linda prova de amor, quase uma família perfeita.  Quase perfeita porque ainda assim, mesmo com tanto amor, aquele menino não sorria pra ninguém. Pedro continuava cabisbaixo.

Então, veio a última solução à mente de uma das mães de Pedro: ir a uma psicóloga. É claro, ela vai saber estudar a mente do meu filho e entender seu comportamento. Pedro sentou-se no divã. Passava horas por dia naquele lugar. Falava, falava, falava, ouvia, ouvia, ouvia e nenhuma mudança era perceptível, nada acontecia.

Um dia, a mais histérica das mães saiu gritando pela casa, chorava desesperadamente. O que ela fizera pra Deus para merecer tudo aquilo? Aonde foi que ela tinha errado? Quanta dor, quanta tristeza!

Sua mulher chegou do trabalho e viu toda aquela situação, viu também que sua companheira segurava uma carta: era a letra de Pedro. Mas onde ele estava? No quarto. Fazendo o quê? Nada! Isso mesmo, Pedro não faria mais nada, pois estava morto.

Inconsoladas, as mães leram o que Pedro havia deixado:

Oi, mamães!

Primeiramente quero dizer que amei vocês duas acima de qualquer coisa nessa vida. Vocês eram tudo que eu tinha e, por mais que eu não demonstrasse, sempre respeitei o amor de vocês por mim. Saibam que tudo o que eu vou contar agora é novidade para as senhoras e pode entristecê-las ainda mais, mas não posso deixar de dizer.

Acontece que eu nunca me dei bem com os meus colegas da escola e com tudo que as senhoras planejavam para mim. Eu projetava na minha cabeça um futuro como o que as senhoras queriam, mas meu corpo não obedecia. Até que conheci uma menina na minha aula de xadrez. Ela era engraçada, inteligente, mexia comigo. Todo aquele vazio que eu sempre senti era incrivelmente inexistente quando ela estava perto. Eu sabia que não podia, meninos só podem namorar meninos. Eu homem e ela mulher… mas o fato é que não me controlei e acabei me envolvendo emocionalmente com aquela pessoa.

Dora é o nome dela. Uma menina incrível que me lembra a vocês nos cuidados, na preocupação, no carinho…

Fui à psicóloga que as senhoras me levavam toda semana e contei tudo isso. Ela ficou assustadíssima e eu também: me diagnosticou com uma doença, chamada heterossexualismo. Parece que é uma doença que dá em pessoas que gostam de namorar gente que não foi feita pra namorar. O fato é que, segundo ela, não havia a menor probabilidade de erro de diagnóstico, tendo em vista as pessoas com quem eu andava e o que gostava de fazer. Segundo ela eu estava doente, mas me pediu pra que eu não contasse a vocês e eu tentei fingir que tudo ia bem.

Durante todo esse tempo trabalhávamos intensamente para que eu me curasse. A psicóloga me dizia sempre que aquilo era uma fase, que Dora não era alguém para namorar garotos, que isso deve ter sido influência de más pessoas que andam comigo. Filmes, livros, remédios, eventos, tudo isso foi feito, só que eu não consegui reagir a esse tratamento. Falhei. Era tão triste, tão avassalador. Parece que a minha vontade de conhecer melhor a Dora e também outras pessoas como ela aumentava a cada dia mais. Minha doença tomava conta de mim e eu me senti frágil, impotente, indigno de viver com vocês. Eu não escolhi isso.

Por tudo isso, essa foi a única saída que eu encontrei, já que ser enterrado é o que me resta. Me desculpem por não ter sido forte o suficiente, espero que as senhoras tenham novas/os filhas/os que sejam melhores que eu.

Com amor,

Pedro

Nada além de tristeza, me faltam palavras. Pedro se matou em seu quarto na calada de uma noite chuvosa e aparentemente tranquila. Poxa, um garoto tão novo e tão desequilibrado. Os vizinhos queriam saber o que havia acontecido, os jornais assediavam. Quem conhecia Pedro estava completamente arrasado, ele tinha tudo para dar certo nessa vida.

O cotidiano daquela casa ficou sombrio e as mães de Pedro faziam de tudo para esconder a causa da morte do filho. Elas se sentiam muito culpadas, uma delas, embora sem o menor êxito, tentou se matar também um tempo depois. Pedro agora era lembrança. O quarto ainda tinha seu cheiro, suas coisas ainda estavam jogadas sobre a mesa. Aquelas mães não encontraram força para mexer em nada, tinham agora uma vida paralisada.

O tempo passou e a dor foi sendo amenizada. É uma história muito trágica. Mas se algo existe de positivo em todo esse terror é o fato de, pelo menos agora, aquelas mães terem aprendido a lição: DEVEMOS ESCOLHER BEM NOSSAS/OS PSICÓLOGAS/OS.

Saiba mais sobre a repercussão dessa história na mídia, através desse link: http://blogs.estadao.com.br/roldao-arruda/bancada-evangelica-agora-investe-na-cura-dos-gays/

Seleção PET – Edital 1º/2012 – Resultado Final

O PET-Direito UnB tem o  prazer de divulgar a lista de seus mais novos membros, aprovados em seleção realizada com base no Edital n. 01/2012. Damos as boas-vindas a todas/os e esperamos contar também com aquelas/es que não foram selecionadas/os para que participem das futuras atividades.

DESEMPENHO INDIVIDUAL DAS(OS) CANDIDATAS(OS)

(por ordem de inscrição)

Inclui candidatos aprovados mas não selecionados.

Número de Inscrição

1ª etapa

(Histórico + Prova Escrita)

3ª etapa

(Entrevista)

Nota Final

1

42,88 35 77,88

2

35,11

47,5

82,61

3

4

37,83

40

77,83

5

31,67

35

66.67

6

34,90

30

64,90

7

44,62

42,5

87,12

8

38,00

35

73

9

42,84

32,5

75,34

10

Por Guilherme Crespo.

Esse é um texto curto e um quase-relato pessoal.

Nos encontramos por volta das duas e meia da tarde, como sempre. Como em outras vezes, tínhamos pessoas novas. Mas dessa vez era diferente. Passamos um mês planejando e trabalhando para que esse momento fosse diferente. E seria diferente. Pela primeira vez desde que passamos a efetivamente tocar tudo por nossa conta, praticamente nada estava sob nosso controle. Eu estava ansioso e empolgado.

Chegamos às três da tarde, mas as coisas acabaram atrasando um pouco. Só saímos de lá quase sete da noite, depois de torta, bolo, muita dança. Foi maravilhoso!

Bom, entre o chegar e sair de lá, muita coisa aconteceu. Estou adiando contar esses momentos; talvez nem os conte. Acho que tem a ver com as palavras. Reconheço sua força, mas acho que elas sempre deixam algo para trás. Principalmente as escritas. É como olhar um quadro por fora e descrê-lo ao invés de estar dentro dele, vivendo. Eu me sinto vivo, lá.

“Não fale mal de onde eu moro”. “Ah, mas eu odeio esse lugar”. “Eu nem quero falar disso, acho chato”. “Vamos parar de brigar, por favor!”. “EI, PERA AÍ! E VOCÊ, O QUE ACHA?”. O que você, que nunca pisou aqui, o que acha? Seja lá qual for a sua resposta, queremos mostrar que aqui pode ser bom. É bom. E muito mais.

“Ponham as vendas e dancem”. “Não parem”. “Permaneçam focadas e focados”. “Aprendam a confiar”. “Nós dependemos uns/mas dos/as outros/as”. “Estamos ligadas/os por uma corda imaginária que se desenrola e leva a cada pessoa”. Somos um grupo. E o grupo depende de cada um/a ser o que é, e respeitar e ter afeto por cada outra pessoa ali.

No último sábado, aconteceu uma das etapas de seleção para novas/os integrantes do PET. A atividade consistia na visita a uma das oficinas, que acontecem todo sábado, que o PET desenvolve na Cidade Estrutural. Eu faço parte há pouco mais de um ano da oficina de teatro e do PET e, pela primeira vez, as/os participantes da oficina, moradoras e moradores da Estrutural, montaram por sua conta uma oficina para oferecer às pessoas novas que foram conhecer e que, possivelmente, passarão a frequentar aquele local.

Enquanto eu escrevia esse texto me dei conta de uma coisa. Eu falei que quase nada estava sob nosso controle. Nada estava mesmo, nunca esteve. E sempre esteve. A oficina que elas/es fizeram era nossa também. Assim como as outras que realizamos eram também delas/es. As coisas que planejamos só ganham conteúdo e sentimento quando são vivenciadas, experienciadas. E sempre fizemos isso juntas e juntos, lá. Talvez tenhamos responsabilidades diferentes enquanto estudantes da UnB e elas/es enquanto moradoras/es da Estrutural. Mas sinto que quando estamos todas e todos naquele espaço de compartilhamento e diálogo, essa divisão quase perde o sentido. Eu me sinto feliz de fazer parte desse grupo.

Resultado da 1ª Etapa – Seleção PET Dir – Edital 1º/2012

SELEÇÃO DE BOLSISTAS – PROGRAMA DE EDUCAÇÃO TUTORIAL (PET-DIREITO)

Edital n. 1/2012

Resultado da Primeira Etapa de Seleção

(Análise de histórico + Prova Escrita)

por ordem de inscrição

Resultado da 1ª etapa

Inscrição

Nota

1

42,88

2

35,11

3

——

4

37,83

5

31,67

6

34,90

7

44,62

8

38,00

9

42,84

10

——

Aguardamos todas e todos para a segunda etapa!

Como alguém consegue achar uma preta bonita? – A estética da exclusão.

Por Gabriela Tavares

Comemoramos no dia 20 de novembro o Dia Nacional da Consciência Negra, sendo “comemorar” um verbo apenas usual, uma vez que não há muito que se festejar. Alguns não compreendem ou discordam da existência dessa data, como Morgan Freeman; por razões aceitáveis – principalmente, por concentrar a visibilidade da luta contra o racismo em uma determinada época do ano e esquecer-se no resto da vida cotidina. Não deveria, de fato, ser necessário determinar um mês para a Consciência Negra, o ideal seria que a história e a cultura afrodescendente estivessem presentes sempre em nossas vidas – uma vez que a história da humanidade é, também, a história de todas as etnias sem o demasiado eurocentrismo que observamos. Prefiro dedicar, portanto, essa época para refletir sobre a inclusão/exclusão dos negros e das negras no Brasil e o que podemos fazer durante o próximo ano para efetivar a igualdade. Esse post será dedicado às “negas do cabelo ruim”.

A estética remanesce um grande mistério: não sabemos porque ou o que nos leva a achar algo belo ou repugnante. Não sabemos em que medida temos escolhas, parece que o “gosto” vem como algo natural, algo que teríamos de qualquer forma, independente do que vivemos. Não conseguimos saltar, não somos capazes de comer a barata e lamber seu líquido sem nos sentirmos enojados. Por outro lado, não estranhamos os esqueletos nas passarelas, nem os ogros na academia. Torcemos o nariz para os asiáticos: são todos iguais – somos incapazes de perceber o que há de pessoal no traço deles. O que é belo? O que é feio? Não sabemos explicar, mas sabemos apontar. Conseguimos chamar a Gisele Bündchen de bonita e Vera Verão de feia. Conseguimos até mesmo conceber que algumas pessoas discordarão do nosso senso estético – mas eles estão enganados, o gosto deles é peculiar.

Em 2011, as candidatas negras ao concurso de Miss Universo foram alvo da seguinte pergunta: como alguém consegue achar uma preta bonita? Eu me faço e te faço essa maldita pergunta. Como, em uma sociedade impregnada de racismo, podemos achar uma “preta” bonita? Se você cresce chamando o cabelo dela de ruim, seu rosto de rosto de macaco ou que é “pelo corpo que se reconhece a verdadeira negra”, como diria a Devassa. Se você pesquisa “mulher preta” no Google Imagens, vai receber a sugestão de pesquisa relacionada “mulher preta feia”. Não podemos achar uma preta bonita, não temos essa liberdade. Se o fizermos, estamos tentando ser “moderninhos” ou “esquerdistas”. A negra bonita é, no máximo, aquela da novela que está no vale a pena ver de novo. Lembro-me da repercussão de uma negra protagonizar uma novela, mas vamos lá: a Taís Araújo é uma negra bem “aceitável”, tem traços finos, é magra, cabelo “ruim”, mas cuidado e, além disso, é “mais clarinha” – ora, ela é Da Cor do Pecado. Nem quando nos é permitido achar uma negra bonita, achamos, mas a comparamos com o standard branco e estipulamos seu grau de aceitabilidade.

Muitos dirão que estou exagerando, que acham negras bonitas tanto quanto brancas ou que é uma questão de gosto e não tem nada a ver com racismo, nunca aceitarão que é algo sistêmico. A prof. Gabriela Delgado da Faculdade de Direito da UnB fez um paralelo em sala de aula sobre como a mudança para o modelo Toyotista de produção nas relações trabalhistas reflete uma mudança em toda a esfera social. Nesse sentido, assim como empresa se torna “enxuta” o padrão estético acompanha. Podemos fazer o mesmo paralelo para a questão da etnia. A história, a economia, a educação, a saúde, o direito; todos os nossos sistemas sociais operam privilegiando a população branca. A estética não é diferente: não, não é uma questão de opinião.

Da próxima vez que olhar pessoas na rua (cuidado com o assédio!) perceba sua preferencia, conheça seu gosto e pondere: por quê? O que foi condicionado em mim para que eu pense dessa forma? Se vir uma pessoa branca, pergunte-se qual a impressão que tem dela, mesmo sem conhecê-la – se parece inofensiva, safada, criminosa, inteligente, trabalhadora. Faça o mesmo com pessoas de outras etnias. Pondere se há um padrão entre a etnia e suas conclusões, se esse padrão é positivo ou negativo. Encontre seus preconceitos, questione seus preconceitos, questione os preconceitos dos outros.

Permita-se achar uma mulher preta bonita.

Enfrente seu racismo.

Ao Modo Gabriela

Por Fernanda Potiguara

Gabriela, Cravo e Canela: crônica de uma cidade do interior é um livro cheio de figuras femininas interessantíssimas. No começo, minha sensação foi de dar grandes saltos de contextos, como se a narrativas dessas mulheres estivessem tão distantes, mantendo em todas elas, entretanto, as poderosas cicatrizes de uma opressão ainda tão viva. Mas na personagem Gabriela elas convergem todas. Convergem-se as notas daquilo que elas são, do que queriam ser, do que se espera delas.  E da liberdade, enfim, de ser e só.

Afinal, pra quê essa mania maluca de se ajustar sempre ao determinado? Num ponto a esquecer que as regras servem às pessoas e não elas às regras. Daí cessa de se perceber como o sapato dói, como a roupa social incomoda e como é que cada traço espontâneo da nossa personalidade é multilado a todo momento para se moldar aos padrões. E matamos a música e o ritmo dentro de nós.

Nelas, nas mulheres, isso fica ainda mais claro. Na figura de Glória e sua espera cansada na janela, da tentação de seus seios à mostra; nas marcas da surra Malvina, suas decepções com os rapazes, suas ideias revolucionárias em forma de segredo; na tristeza amarga da sua mãe, sua serviência, seu consentimento; em Jerusa, sua beleza pueril, sua espera inocente por um sinal qualquer do bom partido de Mundinho… em Gabriela, seu sapato, seus vestidos de seda, os eventos sociais, as proibições de ir ao bar: seus cárceres de cada dia. Todas aos poucos forçadas a se esquecer da dor dos pedaços podados para entrar na roupagem social.

Nisso um ode à Gabriela, porque dentro dela ardia a chama: mudar pra que?  Ela entendia não. Porque via, com a perícia dos olhos de uma criança que está a absorver o mundo em volta, que aquilo tudo não fazia nem ela e nem ninguém feliz. Porque faziam então?  Eu também não sei, Gabriela…

Até tenta, pra não magoar, entrar no sapato; sorrir baixinho, falar baixinho, olhar para baixo. Mas é tão difícil ser nada.

Porque o bom mesmo é ser menina, sem se importar que seja “impróprio dançar assim”. Sem que sua inocência dependa de seu comportamento.

É tudo tão fácil, pra quê complicar? Fazer coisas que não gosta, deixar de fazer as que gosta. Porque do circo ela gosta, da bagunça rica das danças na rua, dos amores todos que se sente. Difícil demais conter tudo isso, seja lá o motivo…

O jeito é quebrar as amarras de Dona Saad, tirar os sapatos e correr a cantar e dançar pelas ruas… Num ato tão seu que encoraja Jerusa[1]. E das mulheres à rua: o baile inteiro na rua a brincar.

Que assim seja, Gabriela!


[1] P. 302

Tudo que você precisa saber sobre o PET Direito!

A seleção do PET está chegando, estamos nos últimos dias de inscrições! Você já se inscreveu? Está pensando em se inscrever? Provavelmente devem surgir muitas dúvidas que o edital (ou a mera observação das misteriosas figuras de camisa rosa na sala de vidro) às vezes trazem mais dúvidas do que respostas. Como vai ser essa seleção? Vai ter teste de aptidão física? Precisa de psicotécnico para provar que só entra gente doida? E depois? Vão arrancar o meu couro? Vou perder todos os meus amigos e virar um zumbi que só dorme 2 horas por dia e sobrevive de subway, café e suquinho do RU?

A princípio, a resposta para todas as perguntas é não, mas algumas petianas e petianos resolveram responder algumas das dúvidas mais comuns que já foram levantadas (até por nós mesmos, quando fomos fazer a famigerada seleção), ou que imaginamos ser relevantes:

1) Como é a prova?

A prova escrita é uma etapa que tem na argumentação todo seu critério de excelência. Não existem respostas corretas e muito menos respostas erradas, o que existe é a ânsia por uma defesa de ideias organizadas que valorizem os Direitos Humanos, sob seus diversos aspectos. Não cobraremos o pedantismos de muitos autores citados, tampouco os milhões de artigos existentes no ordenamento jurídico brasileiro. Trata-se, então, de uma avaliação discursiva, pautada na manifestação de opinião fundamentada, cuja obrigação é se mostrar livre para pensar com criticidade o Direito e as suas implicações nas relações de poder na sociedade.

2) Como é/para que serve a entrevista?

A entrevista é o momento de conhecermos melhor o candidato, saber seus interesses, suas atividades. Isso é importante para sabermos se o candidato está alinhado com a proposta do PET-Dir, ou seja, de integrar ensino, pesquisa e extensão se dedicando 20h por semana para isso, com comprometimento. Também é o momento de esclarecer alguns pontos sobre a prova escrita.

3) Como vai ser a visita à Estrutural? Ela vai ser avaliada? Por que estamos indo para lá?

Talvez as atividades pela quais o PET tem mais carinho e garra para construir sejam suas Oficinas de Extensão na Estrutural. Não somente por elas serem divertidas e interessantíssimas, mas por elas conseguirem gerar reflexão em todas as vários outros momentos, seja nas leituras e discussões semanais no grupo de estudos até a sala de aula de Pesquisa Jurídica. Assim, sendo o sopro que mantém vivas todas as atividades do PET, a Estrutural não poderia ficar de fora na Seleção. Logo, os propósitos de levarmos até a Estrutural as pessoas que pretendem ingressar no PET é (i)já mostrarmos que a Extensão tem um valor especial no PET, (ii)escancarar a ideia de que ser petiana/o é também ser extensionista e (iii)possibilitarmos um contato inicial das/os pessoas ingressas com a cidade e a comunidade da Estrutural. A visita não é classificatória, não conta pontos ao final, mas é eliminatória, por isso é preciso justificar a ausência, caso o horário da visita seja excepcionalmente inviável.

4) Quanto tempo preciso me dedicar ao PET?

Ao entrar no PET, nós assinamos um termo de compromisso afirmando uma dedicação semanal de 20 horas. Temos reunião durante toda a tarde de quinta-feira, oficinas de extensão aos sábados (manhã ou tarde, a depender da preferência e disponibilidade da/o petiana/o) e suas reuniões de planejamento durante a semana, as leituras semanais e algumas outras atividades e eventos que são esporádicos e sobrecarregam uma semana ou outra. Parece demais, mas muitas pessoas conseguem, inclusive, conciliar com as horas de estágio. Uma boa organização pessoal permite até uns SS’s.

5) Quanto tempo eu preciso ficar lá?

Para ganhar o certificado do MEC de participação completa no PET é necessário um tempo mínimo de participação de 2 (dois) anos. O tempo máximo em que uma pessoa pode ficar são 3 (três) anos. Qualquer pessoa pode sair no momento que quiser, deixando sua vinculação oficial. Qualquer pessoa pode, porém, integrar todas as atividades do PET mesmo sem nenhum vínculo institucional – são nossas queridas pessoas agregadas, que são sempre muito bem-vindas, pelo tempo que quiserem.

6) Quantas vagas há para essa seleção? Se não for aprovado agora, há chances de eu ser chamado depois?

Nesse edital, foram disponibilizadas 5 vagas – 1 de bolsistas, e 4 de não bolsistas. Porém, como vários das petianas e petianos antigos completam, no final do ano, seus 2 anos de PET, mais vagas serão abertas no começo de 2013. Assim, há a possibilidade de, mesmo sem a aprovação oficial ao final da seleção, algumas pessoas sejam chamadas para começar sua participação oficial depois de fevereiro.

Mais alguma dúvida, questionamento ou angústia? Escreva na caixa de comentários, mande uma mensagem por Facebook ou pergunte para uma das pessoas de rosa na faculdade – faremos o melhor o possível para que possamos ter a melhor seleção o possível!

Vidas em labirinto

Por Edson de Sousa

Das árvores próximas que margeiam a comunidade ainda respingam gotas de chuva da noite anterior. Os pingos d’água agora caem calmamente das folhas e escorrem com dificuldade pelos tetos improvisados com velhas telhas de amianto. A forte chuva da noite anterior lhes dá algo que o governo os nega todos os dias: água pura e saudável. Os poços escavados pelos próprios moradores são insuficientes para proporcionar água na quantidade e na qualidade necessárias. A água, de bem fundamental e disponível a todos e todas, se torna para os que habitam a Chácara Santa Luzia mercadoria que define quem vive e quem morre. As estradas e labirintos que constituem as veias e artérias em que homens e mulheres transitam diariamente são construídos com pás e enxadas encontradas ao acaso. Caminhos de terra socada que entrelaçam e resguardam seus inquilinos em um amalgamado de estórias, experiências e vivências – vidas em labirinto. As reminiscências da chuva da noite anterior se espalham por toda a comunidade. E das poças d’água emergem crianças que, indignamente, se confundem em um mesmo espaço inadequado. Lixo, sujeira e lama se misturam em uma mesma figura terna de uma infância abortada pela exclusão social. Surge uma criança, com o caminhar trôpego de alguém que ainda está a aprender a andar por conta própria, com um carrinho aos pedaços. E ao redor, o instantâneo a ser captado é o de diversas colunas de lixo que encarceram e condicionam a existência futura daquele menino. Restos de madeira, telhas quebradas, sacos cheios com latas de alumínio – aqui preciosa fonte de renda de diversas famílias – se enleiam ao ambiente natural da Chácara Santa Luzia. O carrinho desfigurado em remendos é puxado com dificuldade por caminhos tortuosos que o menino, desde cedo, já conhece tão bem. Cada nova descoberta, cada novo cantinho inospitaleiro, em sua cabeça, torna-se uma brincadeira que os outros devem desvendar. O cheiro rude e acre que emana de alguns pontos do lixão ali próximo já é imperceptível ao menino-homem que singra todos os seus esconderijos e desvenda todos os seus segredos. Como os Capitães da Areia, de Jorge Amado, ele é o poeta que canta e ama as singelezas presentes nesse ambiente misterioso. E como poeta, sua arte de inventar mundos – e de transformá-los – um dia se levantará contra a miséria e o descaso a que são sujeitados os moradores e moradoras de Santa Luzia. Os quebra-cabeças do menino, e a comunidade como um todo, não totalmente homogêneo e coeso, mas unido pelos momentos de urgência extrema, não aceitam passivos e imóveis o destino que lhes foi atribuído. Mobilizam-se.  Há enormes redes de solidariedade social em que os indivíduos dialogam e buscam soluções conjuntas para os problemas mais centrais da terra que habitam. E não são poucos que lá sobrevivem. 4500 famílias – e aumentando. E lá é possível se encontrar famílias que chegam a ter 17, 18 ou mais membros que se amontoam em casas feitas de restos de tocos e paus encontrados ao léu. Aproximadamente um quarto de toda a população da Estrutural aspirou e tentou concretizar o seu sonho de acesso à moradia em terras de Santa Luzia. Ainda assim, é visto com extrema desconfiança por parte das autoridades competentes – e por uma parcela considerável da população restante da Estrutural. Aos moradores e moradoras são negados os direitos mais fundamentais a que qualquer outra pessoa distante a pouco menos de 100 passos da Chácara Santa Luzia é inconcebível não se ter acesso. 100 passos e radicaliza-se a opressão. A opressão do descaso. A opressão de se estar totalmente excluído de qualquer forma institucionalizada de garantia de direitos. A opressão de se estar distante, mesmo tão próximo.

Os moradores da Chácara Santa Luzia não possuem infraestrutura adequada ao enorme contingente de pessoas que lá já se encontram – algumas a mais de duas décadas, e muitas em situação de vulnerabilidade extrema. Não existe qualquer forma de acesso à saúde, ou de saúde comunitária, na região. A educação é precária e toda oferecida além das fronteiras sempre crescentes, mas inalcançáveis ao sistema de educação fundamental. Não existem redes de esgoto ou formas de tratamento de água. A água consumida é toda obtida em poços que os moradores muitas vezes compartilham. Mulheres com baldes cheios d’água são parte do pano de fundo comum existente em Santa Luzia. Água canalizada é pouco provável que exista em algum ponto.  A rede elétrica é outro foco de problemas. Apenas por meio de redes informais de distribuição de energia são acessíveis nas localidades mais interioranas. Mas de forma escassa, instável e perigosa. Inexistem creches públicas. A população feminina perde, dessa forma, parte de sua autonomia por ser inviável a busca por empregos e atividades que lhes proporcionem maior independência financeira de seus núcleos familiares e de seus maridos. As estradas e vias de acesso são todas construídas pelas pessoas que lá moram, sendo, portanto, não asfaltadas. Em épocas de chuva é praticamente inacessível a carros ou sistemas de transporte público – a própria presença de ônibus é ali inexistente. Não é desejável, ou politicamente interessante, que qualquer um saía de lá de forma fácil e rápida. O sustento da maioria das famílias, apesar de existir alguns que trabalhem em ocupações com baixos rendimentos, é tirado, a custo, do próprio lixo. Muitos trabalham com reciclagem. Plástico, metais, vidros e papeis garantem a sobrevivência de famílias inteiras – e absorvem todos os membros desses grupos; crianças, mulheres grávidas, inválidos, muitas vezes contribuem de maneira decisiva para a renda familiar. Moscas e ratos se proliferam pela comunidade infestando todos os cantos e esconderijos com sua presença incômoda. Presença que prejudica ainda mais a busca por soluções vinculadas a questões como saúde e saneamento básico. Situações esdruxulas se apresentam. Indivíduos que não estudam ou não conseguem trabalho fora de Santa Luzia por não possuírem comprovantes de endereço – a ocupação nunca foi regularizada, como ocorrido em outras áreas da Estrutural. Políticas públicas que não compreendem, minimamente, o contexto e os problemas existentes em uma localidade privada da infraestrutura básica necessária. E ao mesmo tempo em que não buscam entender as privações sofridas pela população da Chácara Santa Luzia, as autoridades competentes e a administração local tentam ainda silenciar, inescrupulosa e reiteradamente, todas as formas de reinvindicação autóctones. A população se reduz a curral eleitoral. Curral novamente abandonado após a conquista de seus votos, e que, ciclicamente, volta à tona nos períodos de disputa eleitoral. A maior violência a que são expostos cotidianamente, inclusive, é o processo de escamoteamento de sua realidade. Grito abafado.

Gritos, que de tão repetidos, unem os que vociferam em um mesmo tom. Os clamores surgem de formas infinitamente distintas, mas que compartilham ao menos o próprio ato de se ressentir. A Chácara Santa Luzia é polo vivo de resistência. É grupo que se une e resiste. É povo que percebe as terríveis condições que lhes são destinadas. É cidade que luta por condições mínimas de qualidade de vida. Existe ali a clara percepção por parte dos moradores e moradoras do que acontece no interior e ao redor deles. Não simplesmente as lideranças da região se levantam – ou se aliam a grupos hegemônicos. Diversos grupos, e diversas redes de solidariedade forjadas pelas duras condições de vida, se posicionam acerca dos assuntos que envolvem milhares de pessoas atingidas pelas decisões de alguns poucos – distantes – que desconhecem completamente o panorama vivido e vívido, fervilhante de energia, existente em Santa Luzia. As flores murchas encontradas na entrada da região se distinguem, categoricamente, da capacidade dessas pessoas de construir mundos novos – errupção constante de novos casebres, grupos e sonhos. As casas, frágeis e raquíticas, constantemente destruídas pela implacabilidade e truculência da polícia, evidenciam a sua capacidade de lidar com adversidades e de moldar suas existências a partir dessas matérias primas adquiridas. Resistência. Criatividade. Solidariedade. Características que se efetivam conjuntamente. A Revolução vem da periferia.

UnB para quê?

Por Diego N. Nardi 

Israel Pinheiro insistentemente alardeou Juscelino sobre as inconveniências de uma Universidade em Brasília. Não entendia como poderia existir uma no meio do deserto, e, principalmente, não lhe agradava a ideia de estudantes próximos ao novo centro político do País. Aceitava reservar um terreno fora da cidade, para no futuro, quem sabe, fosse erguida uma Universidade.

Felizmente, por essas conjunturas do destino, não prevaleceu nem a opinião de Israel Pinheiro, nem de tantos outros opositores que ora defendiam a inexistência da Universidade de Brasília, ora tentavam influenciar na sua vocação. Lúcio Costa pensou Brasília com sua Universidade e manteve-se atento às investidas contrárias ao seu projeto. Conforme escreveu certa vez, a nova capital deveria ser “cidade própria ao devaneio intelectual, capaz de tornar-se, com o tempo, além de centro de governo e administração, um foco de cultura dos mais lúcidos e sensíveis do País”.

Concebera-se a Universidade enquanto elemento fundante e indissociável da cidade, pensando-a enquanto verdadeira UniverCidade. Ao lado de Lúcio Costa, estavam Darcy Ribeiro e Anísio Texeira que percorriam os gabinetes do governo, entre o Ministério da Educação, a Presidência e o Congresso, garantindo que a Universidade de Brasília não fosse apenas um projeto, mas realidade. Em 15 de dezembro de 1961, aproveitando-se do caos instaurado pela renúncia de Jânio Quadros, Darcy Ribeiro fez com que a Lei nº 3.998, responsável pela criação da Fundação Universidade de Brasília, fosse aprovada.

Em 9 de abril do ano seguinte, a UnB recebia seus primeiros estudantes. Cinquenta anos se passaram desde então e, afastada de seu projeto original, a UnB por longos anos pareceu agonizar diante das investidas das quais foi alvo. Foram-se os anos de chumbo, veio a redemocratização, mas a pergunta feita por Darcy parece estar longe de ser respondida e alcançada. Afinal, universidade para quê? Ao projetar e construir nossa Universidade, Darcy e Anísio pareciam dar vida à revolucionária resposta que pretendiam apresentar ao menos enquanto pontapé para os questionamentos futuros que não deveriam parar de surgir diante de tal pergunta.

A Universidade de Brasília não é uma universidade qualquer. Fora pensada enquanto “a casa da consciência crítica em que o Brasil se explicaria e encontraria saída para seus descaminhos”. Em oposição à fragmentação, vislumbrou-se a possibilidade de construir uma instituição capaz de vincular as partes e o todo, “capaz de apreender os objetos nos seus contextos, nas suas complexidades, na sua totalidade”. Sua fundação anunciou uma guinada. Não mais enquanto um complemento adicional da paisagem urbana, ou mera instituição de pesquisa e educação: ergueu-se a UnB enquanto instituição indispensável à democracia e com projeto político próprio que deveria ser definido pela e para comunidade da qual fazia parte.

Morada do pensamento complexo com dupla tarefa: na capital federal, cabia-lhe (e ainda cabe) mais que qualquer outra Universidade pensar e problematizar o Brasil em sua totalidade, ao mesmo tempo que deveria (e deve) exercer sua função enquanto instituição fundante de Brasília, articulando-se ao/problematizando o quebra cabeça urbano de inúmeras contradições que se revelou ter construído no planalto central.

A busca incessante pela liberdade através de uma consciência crítica foi o motivo principal que fez com que as armas tentassem calar suas vozes. Abriu-se uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar a profícua subversão que se construía a partir dela, e foi nessa ocasião que alertou-se para o “perigo” que a UnB representava ao Brasil, tornando-se “fator de indisciplina, de intranquilidade, para toda população de Brasília e quiçá para toda a população brasileira”. Felizmente, sua indisciplina colheu frutos e, apesar dos percalços, foi protagonista do processo que levou os militares de volta aos quartéis, abrindo espaço para que o povo ocupasse as ruas.

Em seus tempos iniciais, a UnB era uma ideia autêntica e revolucionária, não seguiu protocolos nem modelos importados. O mundo todo olhava ansioso para a experiência que se realizava no meio do deserto: a construção de uma Universidade diferente de qualquer outra e que já nascia não com amarras deterministas, mas com o papel claro de ser instituição indispensável ao Brasil em sua missão de “produzir na cidade inovadora uma gente nova de mentalidade renovada, sem nenhum complexo de inferioridade colonial e sem nenhuma subserviência classista”.

A UnB parecia surgir enquanto Pós-Universidade[1]: o modelo milenar criado no medievo para combater o dogmatismo que emergia dos conventos já havia deixado o  espírito contestador que marcara sua origem, tornando-se obsoleto e impotente diante de uma realidade cada vez mais fragmentada e complexa, cada vez mais dominada por uma razão instrumental. Se outrora foram elas o berço de revoluções, na década de 50 – e hoje a situação não é distinta, apesar de alguns lampejos nessas últimas décadas, como a de 60 – as universidades já haviam incorporado o papel de conventos modernos: desejavam e desejam ser autoridade única na produção e divulgação do conhecimento, tratando-o não enquanto ferramenta para emancipação, mas enquanto mercadoria capaz de fornecer privilégios e acentuar ainda mais as desigualdades que deveriam ser por elas combatidas.

Passados 50 anos, a UnB luta para não se tornar mais do mesmo. Tarefa difícil. Uma onda conservadora obstinada a privar a universidade de seu papel democrático parece emergir em todos os espaços através de discursos que optam por não refletir sobre problemas reais que afetam não apenas a Universidade, mas Brasília e, principalmente, o Brasil. Opção que se identifica em ataques à construção de uma gestão pautada por um modelo horizontal visando efetiva democracia participativa na Universidade, em ataques à uma universidade sem muros e universal, à construção de um ensino não hierárquico, ao engajamento político transformador e, principalmente, à construção de uma universidade verdadeiramente brasileira e que busca e constrói um conhecimento autônomo e ético.

Felizmente, ao menos a partir das experiências que vivi nesses quase seis anos de UnB, se crescem o número de atores que se identificam com o discurso da neutralidade ou do conservadorismo político, em outras palavras, de um conhecimento não engajado, descomprometido com a transformação social e pela manutenção das relações de opressão e poder na sociedade, multiplicam-se os coletivos e atores engajados em pensar não apenas a proposta política revolucionária que a UnB trouxe consigo, mas pensar e lutar por uma Universidade que seja encarada como elemento indispensável à democracia, onde a realidade é objeto de crítica e matéria para transformação, onde a sociedade não seja mero contexto, mas elemento constituinte sem o qual a Universidade não possui razão de ser e onde o pensamento complexo tem abrigo contra os ataques do pensamento único.

Enfrentar constantemente a pergunta Universidade para quê?, é reafirmar “o papel da universidade como a Casa em que a Nação brasileira se pensa a si mesma como problema e como projeto”, como palco onde a sociedade, sobretudo através dos movimentos sociais,  torna-se protagonista da produção de um conhecimento emancipador que a todo momento busca questionar e transformar a ordem estabelecida, afinal a vocação da Universidade, desde sua origem, é incitar a indisciplina revolucionária através de uma postura “indagativa de autoquestionamento”.  E é justamente a falta de autoquestionamento que devemos evitar, sob o risco de permanecemos obsoletos e incapazes de oferecer qualquer contribuição, possibilitando que o sonho de Israel Pinheiro e não o de Lúcio Costa, Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro ganhe vida.

“Nossa tarefa é o Brasil, mas nossa missão fundamental para que o Brasil se edifique para seu povo é a liberdade”.  Darcy Ribeiro.


[1] Expressão usada pelo Prof. Cristovam Buarque no texto “Universidade e Democracia”, disponível em: http://www.revistasusp.sibi.usp.br/pdf/revusp/n78/08.pdf.

Macabéa e a (não)livre manifestação do eu

Por Aurélio Faleiros

Caro é transformar-se num arremedo de si próprio
a ponto de nem se reconhecer mais. (130 anos – Agridoce)
 

Você seria capaz de dizer quantas vezes sentiu vontade de fazer algo e não o fez simplesmente por pensar que não te entenderiam? Por sentir medo do que as pessoas fossem pensar? Por não ser convencional? Seria capaz de contar ainda quantas vezes teve vontade de fazer algo simples e não o fez? Vontade de cantar, de chorar, de gritar, de vestir-se diferente, de fazer algo diferente.

Tudo que fazemos está em certa medida condicionado por padrões sociais. Esses padrões estão associados a atribuições do que é belo, normal, correto, etc. Baseando-se nisso, a sociedade determina quais condutas são aceitáveis e quais são dignas de sanção. E não se trata aqui da sanção penal, essa sanção manifesta-se na forma de qualquer repreensão que possa ser atribuída a uma conduta, uma risada sarcástica ou um olhar de desaprovação, por exemplo.

É dessa forma que somos constantemente tolhidos no exercício de nossas subjetividades. Muitas vezes não nos colocamos da forma que desejamos por medo de que a sociedade, ao identificar essa conduta como destoante, venha a sancionar essa livre manifestação do ser. Expressar-se de alguma forma, nesse sentido, é uma tarefa perigosa que exige coragem.

O ato de escrever, por exemplo, não está livre de ser condicionado por esses padrões. Tenho certeza que alguns dos possíveis leitores deste texto já escreveram enormes ensaios jogados no lixo simplesmente pelo medo de que as pessoas não possam entendê-los, ou ainda que venham a chamá-los de ridículos, mal escritos, inadequados etc.

Clarice Lispector descreve de forma talvez um pouco confessional através de seu personagem-narrador Rodrigo S. M. de ‘’A hora da estrela’’ como o ato de escrever, como uma manifestação de subjetividade, é também um ato de coragem. Isso é perceptível especialmente em um trecho específico:

“Não estão me entendendo e eu ouço no escuro que estão rindo de mim em risos rápidos e ríspidos de velhos. E ouço passos cadenciados na rua. Tenho um arrepio de medo. Ainda bem que o que vou escrever já deve estar na certa de algum modo escrito em mim. Tenho é que me copiar com uma delicadeza de borboleta branca.”

O medo do riso alheio e a sensação de nunca ser compreendido são reflexos da impossibilidade da livre manifestação do ser gerada pelas sanções impostas à mesma.

Macabéa, a personagem principal de ‘’A hora da Estrela’’ (livro que me incitou a escrever esse texto) é na minha opinião um retrato esdrúxulo construído por Clarice de um processo de tolhimento que todos/as nós sofremos em certa medida.

A moça é nordestina e perdera os pais muito nova, desde então fora criada por uma tia que a reprimia muito. Macabéa por ser sempre muito tolhida pela tia e pelas circunstâncias da vida não tinha consciência de si própria, não sabia quem era e não conseguia refletir sobre isso. A moça era inexpressiva, quase não falava e era incapaz de uma manifestação de subjetividade. Não se considerava triste, era feliz porque acreditava que todos eram obrigados a ser. Era incapaz de mostrar-se, de rebelar-se ou ainda de manifestar o seu ser de alguma forma. A vida carregava Macabéa assim como um jornal antigo que já não é lido e é jogado na rua, sendo carregado pelo vento. Ambos já não transmitiam mensagem, são levados pela inércia da vida.

Nesse sentido, somos todos/as um pouco Macabéa. Muitas vezes não nos expressamos inteiramente por medo, medo do que possam dizer, medo do que possam pensar. E assim a sociedade vai nos moldando. Já não somos nós mesmos, as pessoas tolhidas padronizam seu comportamento, agem sempre de forma semelhante. São fruto de uma cultura normalizadora. É nesse contexto que o manifestar-se se torna um ato de coragem. Despir-se de padrões de mostrar-se por inteiro pode ser muito amedrontador.

A solidão torna-se, muitas vezes, portanto libertadora. Em seu âmbito particular as pessoas são mais capazes de expressar-se, pois livres das sanções impostas pela sociedade, sentem-se seguras.  Assim como Macabéa se sentiu quando ficou sozinha em casa e ‘’Tinha um quarto só pra ela. Mal acreditava que usufruíra do espaço. E nem uma palavra era ouvida. Então dançou num ato de absoluta coragem, pois a tia não a entenderia. Dançava e rodopiava porque ao estar sozinha se tornava: l-i-v-r-e! ‘’

Macabéa nunca tivera coragem de dançar em público então, sozinha, ela pôde dançar e rodopiar, se permitiu ousar sem o medo de ser repremida por ninguém. Aquele momento fora sem dúvida de uma intensidade muito grande.

Esse é um exercício que deve ser praticado por todos/as. Manifestar-se de qualquer forma que seja é um ato extremamente saudável. É preciso que conheçamos mais de nós e que possamos nos mostrar mais, sem medo de repreensões para que não caiamos na armadilha de não ter sido pleno/a. É essencial que fujamos do futuro saudosismo daquilo que não foi, assim como o de Rodrigo S. M. que, em suas próprias palavras: ‘’E agora só queria ter o que tivesse sido e não fui.’’  Para isso é preciso também enxergar o outro/a, permitir que ele/a se expresse de forma livre, sem que seja sancionado/a ou constrangido/a. Isso é fundamental para que  tenhamos cada vez menos de Macabéa e mais de nós mesmos.