O FEMININO, O FEMINISMO E A SARNA

Por Ana Paula Duque

Não raras vezes me peguei “ouvindo de soslaio” conversas ao passar pelos corredores da FA ou participando de debates inflamados sobre feminismo que se desenvolvem, quase sempre, na defesa unânime dos(as) interlocutores(as) acerca da necessidade de iguais direitos entre homens e mulheres. Esse discurso, muito bonito por sinal, não costuma ser questionado. Ouvimos, concordamos, aplaudimos, e seguimos nossas vidas.

O discurso convence (afinal de contas, seria muito feio dizer o contrário). Por mais que se pense, lá Imagemno íntimo, que tudo isso é coisa de gente que não tem mais o que fazer(sic),que vivemos hoje um patrulhamento ideológico imposto pela milícia feminazi mal resolvida(sic),  e por mais que, numa discussão, o primeiro xingamento que venha a mente dessas pessoas seja “mal comida” ao se referir a uma mulher, enche-se a boca e infla-se o peito para afirmar categoricamente que não, eu não sou machista.

Sinceramente? Isso não me impressiona. Nem por um segundo. O que me choca, me irrita e acima de tudo, me entristece muito, é constatar que em meio a esses debates existem sim pessoas que pensam diferente, mas agem de forma igual. Explico: se por um lado se fala tanto em igualdade de direitos mas pensa-se e age-se de forma contrária, com o velho “mas não sou machista” no final da frase, ouve-se pouco ou quase nunca um “sou feminista” no desfecho da conversa por parte daqueles que verdadeiramente compactuam com o discurso proferido.

ImagemQue tenha-se a necessidade de não se afirmar machista o tempo todo vá lá, eu entendo. Afinal de contas, ainda que suas atitudes mostrem exatamente o contrário, dizer isso em alto e bom som é ter coragem de se assumir como se é: e ser machista é feio, não pega bem. Talvez na sua rodinha de amigos, na mesa de bar pra descontrair o ambiente (afinal de contas é engraçadão ser misógino e preconceituoso, não é mesmo?), no facebook da galera (é só uma piada, oras!)… agora, na “vida real”, no jantar em família, no escritório com os chefes? Não. Aí não. Melhor deixar esses esqueletos bem guardados no seu armário.

De qualquer forma, o que eu me questiono não é a necessidade de não se afirmar machista. O que me tira o sono é tentar entender o medo, o terror, o verdadeiro pânico das pessoas em se reconhecerem feministas, como se isso fosse motivo de vergonha. Como se, no minuto em que se afirma que se é feminista, imediatamente feridas purulentas começassem a brotar pelo corpo, o asco imediato dos presentes fosse capaz de te amputar um braço e a qualquer minuto o mundo inteiro fosse te apedrejar e esbravejar palavras de ódio e repulsa em sua direção.

Pausa para o esclarecimento mais que necessário: o feminismo não machuca, não mata, não dói. O feminismo constrói, salva e liberta.Imagem

Assumir-se feminista não é, nem nunca foi, não ser “feminina”[1]. Não é não gostar de maquiagem/salto alto/fazer compras/cozinhar/querer casar de véu e grinalda ou qualquer outra coisa que sempre foi associada à construção social (bem senso comum) do feminino. É apenas não se reduzir a nada disso pelo simples fato de ser mulher. É entender que se pode gostar de cozinhar porque se gosta de cozinhar, simples assim. Não por ser mulher, não porque esse é seu irremediável destino enquanto portadora de uma vagina. É não aceitar que existam destinos pré traçados com potencialidade previamente determinadas para homens e mulheres, baseados única e exclusivamente nas diferenças de ordem sexual. É poder do gostar do que se gosta, só porque se gosta. Ponto final.

ImagemSer feminista é assumir que homens e mulheres são iguais em direitos, e ainda que tenham inquestionáveis diferenças biológicas, estas não possam ser usadas como justificativa para hierarquizar os sexos e construir relações assimétricas de poder que rebaixam, humilham e subjugam as mulheres. É não aceitar ser maltratada, espancada, submetida a todo tipo de violência física e psicológica porque isso é “natural” para o sexo feminino. É acreditar que somos igualmente capazes, que devemos ser respeitadas em nossas diferenças (por mais piegas que isso possa parecer e parece, ainda que soe tão ameaçador para alguns). É ter consciência de que ainda que o mundo inteiro tente, incessantemente, nos fazer acreditar que a sociedade pode normatizar nossos corpos, definir nossos gostos e condicionar nosso comportamento alicerçando tudo isso numa justificativa “biológica” e “naturalizante”, nós mulheres não nos reduzimos a isso. Nós somos mais, nós podemos mais.

Se você acredita nisso, se você concorda, se você se identifica… você é feminista. E sinceramente? Eu me orgulho muito de você.

Imagem

 


[1] “Feminina” aqui entendida de acordo com as construções sociais do que é ser feminino, do senso comum mesmo. Ainda que, de forma alguma, a feminilidade se limite ou se defina com base nisso.

Anúncios

Por que o Direito?

Por Augusto César Valle Rodrigues da Costa

Acho que todo mundo tem dúvidas quanto a uma escolha, mesmo depois de fazê-la. E claro, a minha escolha pelo curso de Direito não poderia ser exceção. Então, por que o Direito?

Minha trajetória para entrar na Universidade foi repleta de dúvidas. Eu não fazia ideia de que curso escolher, mas não era nem por falta de escolhas nem por não gostar de nenhum curso. Pelo contrário: eu gostava de tudo, tudo sempre me encantou, e isso me trouxe dificuldades no momento de escolher o que estudar na graduação. Eu me interessava por artes (visuais, cênicas e música), engenharias, arquitetura, fisioterapia, ciências sociais, filosofia, educação física, comunicação social, psicologia, relações internacionais, ciência política. Só tinha certeza de que não queria medicina.

Na verdade nem pensava muito em estudar Direito. Até que nos últimos seis meses do ensino médio eu percebi que teria que fazer uma escolha, e rápido. Começaram a surgir indicações para o curso de Direito, com um teste vocacional e conversas com familiares, e eu comecei a considerá-lo como uma boa opção. Uma boa opção porque o Direito é uma área muito ampla, que abre um grande leque de possibilidades de atuação, não se restringindo apenas à advocacia e à magistratura, como indica uma ideia ainda muito comum no imaginário dos vestibulandos. Uma boa opção também porque eu poderia me consolidar como agente transformador da sociedade por meio de minha profissão, um objetivo que sempre considerei como da mais alta hierarquia. Uma boa opção ainda porque, sendo jurista, inevitavelmente eu estaria em contato com as pessoas, algo que me encanta e surpreende a cada dia.

Assim, considerando essas reflexões, optei pelo Direito, sem descartar a possibilidade de fazer outra graduação caso o curso não me agradasse. Optei – compreendo hoje – com acerto, pois, apesar de alguns aspectos que me desagradam, o curso tem virtudes que eu não esperava encontrar e que me fazem querer vivenciar o curso de Direito, e não apenas passar por avaliações para conseguir um diploma depois de alguns anos vivendo de obrigações.

O ambiente e as possibilidades que a Universidade oferece estão aí para todos os graduandos, mas encontrei na Faculdade de Direito oportunidades que me fazem aproveitar com alegria o curso. Tanto o ensino, a pesquisa, a extensão, as festas, as conversas, os livros são estímulos que me movem no sentido da troca de conhecimento que o ambiente universitário proporciona. Encontrei ainda uma nova visão do Direito, que busca acabar com um paradigma jurídico reducionista, simplista, positivista e conformista.

O Direito como sistema em busca da liberdade, sistema complexo no qual a sociedade dialoga e constrói, considerando de maneira igual o “outro”, numa constante busca

pela Justiça Social. Esse Direito era de fato desconhecido para mim, mas quando me foi apresentado, logo me cativou, pela proposta e pela realidade que ele reflete. Não se
reduz à lei ou aos tribunais, que são apenas pequenos espelhos da realidade social que nos circunda e que podemos alterar de diversas formas.

Eu escolhi transformar essa realidade da melhor forma que conseguir: com consciência de sua complexidade, com trabalho conjunto com seus diversos atores, com horizontalidade, com alteridade, com respeito, com liberdade, com aprendizado, com fascínio, com arte, com o Direito e com a Rua.

Prolegômenos para um debate sobre o Direito Achado na Rua

O Direito Achado na Rua é, para além das diversas opiniões que existam, um dos grandes protagonistas de muitas discussões entre estudantes de Direito. Não é difícil encontrar  aqueles que o defendem apaixonadamente, bem como aquelas que o repudiam com todo vigor. Infelizmente, é comum escutar pessoas e mais pessoas bradando por aí opiniões que não refletem em nada sua real proposta, seja por pura ignorância ou por um preconceito decorrente da reprodução de argumentos que são frequentemente manifestados nas salas de aula, corredores da Universidade e, até mesmo, nos grandes meios de comunicação. Nas linhas abaixo espero apresentar, resumidamente, um pouco da apreensão dessa escola e, com isso, possibilitar que outras pessoas busquem, verdadeiramente, estudá-la, seja para tornar-se um agente da transformação que ela busca concretizar, seja para criticar e, com isso, enriquecer o debate.

O Direito Achado na Rua é uma proposta teórica (e vivencial) fundamentada, principalmente, na alteridade; busca abrir o direito à sensibilidade e, sobretudo, ao outro, na medida em que faz dele não um sistema na sociedade, mas sim um sistema da sociedade, enfatizando que é ele “um aspecto do processo social”. Como disse Roberto Lyra Filho, “direito é processo dentro do processo histórico: não é uma coisa feita, perfeita e acabada; é aquele vir-a-ser que se enriquece nos movimentos de libertação das classes e grupos ascendentes e que definha nas explorações e opressões que o contradizem, mas de cujas próprias contradições brotarão novas conquistas”.

Essa visão traz consigo a proposta de inserir o conflito social como elemento central para leitura da realidade, buscando superar um modelo ideológico que “visa pensar o mundo pela sua exteriorização jurídica, numa visão normativista e substantivista, que faz da norma a unidade de análise da realidade”. Com isso, busca-se não reduzir a complexidade social, mas, antes, explicitá-la, enxergando no direito um valioso instrumento de emancipação coletiva e individual.

O nome Direito Achado na Rua, não é, portanto, apenas um verso retirado de um poema: é, sobretudo, a metáfora que coloca a rua como espaço central dos processos emergentes e transformadores que constituem o direito, o local em que “se dá a formação de sociabilidades reinventadas que permitem abrir a consciência de novos sujeitos para uma cultura de cidadania e participação democrática”.

Há uma preocupação constante em garantir o reconhecimento à diferença, condição indispensável para concretização de um projeto emancipatório do direito, já que apenas assim é possível que ele se abra à percepção e reconhecimento das mudanças sociais, sobretudo a emergência de novos sujeitos de direitos, os quais trazem consigo demandas por direitos reprimidos ou novos direitos. Conferindo ênfase ao reconhecimento, portanto, o Direito Achado na Rua aponta para uma percepção pluralista da sociedade, na qual, para além de simples atores no plano formal, os sujeitos marginalizados, como, por exemplo, minorias raciais ou religiosas vítimas de preconceitos negativos, constituem a própria sociedade.

Porém, como proposta crítica, o Direito Achado na Rua vai além. Para que suas idéias não se transformem apenas em uma promessa,  busca superar as barreiras impostas por uma postura epistemológica que privilegia uma interpretação individualista do direito, herança do racionalismo moderno, cujo ideal central no campo jurídico é a apreensão dos fenômenos sociais, reduzindo qualquer forma de diferença à uniformidade e que, além disso, propõe uma reafirmação do eu monístico, desconsiderando a importância das relações intersubjetivas para a construção de relações colaborativas, as quais reafirmam a solidariedade indispensável à constituição dessa sociedade plural.

O que fica claro no Direto Achado na Rua, ressaltando o poder transformador do protagonismo social,  é que, por maior que seja o esforço da racionalidade moderna em alcançar sua missão epistemológica da redução totalizante, há experiências que lhe fogem à compreensão e, todavia, são capazes de afetar as relações estabelecidas. Apesar de muitas vezes tal protagonismo ser completamente ignorado pelas instituições e sujeitos inseridos no campo hegemônico, mais e mais é possível perceber os reflexos das lutas promovidas pelos sujeitos marginalizados, que “longe de se limitarem a chorar na exclusão, cada vez mais reclamam, individual e colectivamente, serem ouvidos e organizam-se para resistir contra a impunidade”, reconhecendo neles mesmos sujeitos de direitos.

Trata-se, portanto, de uma proposta radical que aponta para a necessidade de se abandonar o Eu como elemento referencial central do sistema jurídico, adotando-se, em contrapartida, a perspectiva do outro que clama não ser reduzido a um objeto na relação com o sujeito que conhece, mas, antes, ser pensando efetivamente como outro, como algo que escapa ao mesmo, permanecendo singular. Assim, ao adotar o outro como referencial, o qual não deve ser reduzido e apreendido, mas, considerado e respeitado como outro, o direito se abre à alteridade essencial e à emancipação, na medida em que abrir-se ao outro é abrir-se ao diferente e deixar-se afetar, buscando retirar da indeterminação aqueles sujeitos que se encontram no plano contra hegemônico.

O Direito Achado na Rua busca, no fim, uma ampliação da liberdade dos sujeitos por meio da realização da mencionada Justiça Social. Portanto, cabe ao Direito possibilitar e, por que não, promover tal ampliação, também, a partir da dimensão (re)distributiva, uma vez que é fundamental suplantar as barreiras materiais que impedem os sujeitos de direitos de serem reconhecidos como tais e exercerem suas capacidades individuais, indispensáveis para a construção e afirmação de um projeto de vida próprio. Isso não significa uma planificação econômica, como muitos levianamente apontam por aí, mas sim um amplo compromisso com a igualdade social. E esse compromisso é permanente no Direito Achado na Rua, afinal, não é possível falar em reconhecimento sem abordar a questão da marginalização gerada por uma má distribuição de riquezas e oportunidades e por relações de dominação reproduzidas por um determinado modo de produção.

Os membros do PETDir UnB prosseguirão com outros textos desenvolvendo os diversos aspectos que foram aqui apresentados, aprofundando em seus desdobramentos e discutindo as muitas questões que com eles se relacionam. Com isso, esperamos contribuir para um debate amplo sobre os temas que surgem quando discutimos o Direito Achado na Rua.

Sawabona

Sawabona é um cumprimento usado no sul da África e quer dizer “eu te respeito, eu te valorizo, tu és importante para mim.” Em resposta as pessoas dizem shikoba, que é “então, eu existo para ti.” 

 

Recentemente, em uma das infindáveis reuniões de tantas coisas que estão acontecendo na universidade, ouvi a voz de uma mulher que falava sobre a infância, sobre cidadania, sobre civilidade, respeito e tantas outras coisas. A mulher em questão havia sido chamada para dar-nos algumas indicações de como lidarmos com alguns desafios em nosso projeto de extensão – Universitários Vão à Escola. O que aconteceu naquela reunião foi que repentinamente fui transportada para o universo escolar da pré-escola e do ensino fundamental e tomada por um enorme choque!

O universo escolar ideal, aquele muito bem pensado por pedagogas e pedagogos, está imerso em um grau de amadurecimento espantoso de civilidade e respeito – repleto de amorosidade. Em seus mínimos detalhes, a metodologia mostra como se deve respeitar a individualidade de cada criança, como cada uma delas é um cristal, talvez cheio de arestas, mas incrivelmente precioso. O princípio de que estou falando é que, ao lidarmos com esses pequeninos, devemos nos esforçar ao máximo para compreender os caminhos pelos quais percorrem para entender esse peso que tem o mundo. Não vejo maior sinal de amor que esforçar-se para colocar-se no lugar do outro para não abortá-lo em sua sinceridade cognitiva diante do mundo. Já falei em outro texto no blog sobre esse processo de abortamento cognitivo ao ignorarmos as percepções infantis e impormos violentamente as convenções irrefletidamente.

Esse respeito, essa humanidade dos nossos primeiros anos não se deve, no entanto, ao fato de que são crianças, frágeis. É tão ingênuo pensarmos que automaticamente saímos de nossas infâncias apenas porque ganhamos anos. Aliás, quantas são as nossas características que comumente atribuímos à infância, mas persistem por todas as nossas vidas? Quero defender aqui que essas fragilidades da infância talvez sejam fragilidades propriamente humanas ocultadas por orgulhos, vaidades e convenções impostas, persistentes nas nossas vidas e que talvez esses princípios de amorosidade e civilidade não tenha esse prazo de validade tão certo.

O espanto que me tomou naquela conversa com a pedagoga reside na percepção de que os padrões aprendidos em nossas infâncias são lá deixados como se fossem questões a serem abandonadas juntamente com os nossos primeiros anos. Se conjugou na minha frente a gritante diferença entre a educação infantil e a educação jurídica. Por que descartamos tudo? A morte do corpo, o internamento, a decadência da criatividade e, o pior de tudo, a morte da sensibilidade em relação ao outro é perfeitamente ensinado na nossa Faculdade de Direito sem paralela maestria. Essa fumaça de autoridade, tradições, formalismos, rigidez, frigidez vai se infiltrando em todos os lugares, em todos os espíritos.

Escrevo esse artigo como tentativa de não me deixar morrer.

______________

Por Amanda Tiemi em co-autoria com Oberdan Costa