Partidos e partidas

*Por Edson J. D. de Sousa

Poesia é coisa de partidos
e de partidas.
É gesto que avança sobre telhado quebrado,
sobre a palavra
e sobre a Lua que desce.

Poesia é coisa de partidos
e de partidas.
É arte submissa de seu abismo,
de que entre intenção e concreto
há ainda o visível.

Poesia é coisa de partidos
e de partidas.
É lugar de passagem, é território
de tudo desatino e do todo que é eterno
– é nossa gramática sobre o abatido.

Poesia é mesmo esse enxugar gelo,
brigar com sua norma na minha rima.
É furar a fila
de partidos e partidas.

Poesia é essa estupidez decantada
de que com o canto tudo fica bem,
e de que parafraseando o corpo e a vida
– linha por linha –
rompemos também a morte.

Onde está Antônio?

Por Vítor Magalhães

Gente no chão, pincéis a mão.

Passagem de quem vem e vai

Ao plano do dia –

Para as pessoas, feriado

Para à Republica, sua proclamação

– O que isso?

– Produção de cartazes pelo aparecimento de Antônio.

– Quem é Antônio?

Uma boa questão.

Quem estava ao chão respondia:

– Antônio é desaparecido, foi levado pela polícia…

Este é Maurício, seu irmão. Procura-o

Como quem procura a própria salvação.

– Que coisa! Outro desaparecido? Isso é a mesma coisa que aconteceu com Amarildo, né?

– Exatamente, foi levado pela polícia e nunca mais apareceu.

– É uma pena, boa sorte!

Maurício

É, sim, uma pena. A pior pena possível – pior que a própria privação da vida, porque a engloba e vai além: é a própria negação do existir, do discurso, do debate, da memória. Negação da memória porque tenta nos impor a impossibilidade de ousar dialogar com o real; negação do discurso porque o impedimento desse diálogo nos obriga a esquecer. Confusa?

Antônio Pereira de Araújo, mecânico de carros, 32 anos. No dia 27 de maio, Antônio desapareceu.Na última vez que foi visto, estava sendo detido por policiais em frente a uma chácara, onde estaria sentado em baixo de uma árvore. Os testemunhos variam, alguns diziam que estava machucado, alguns diziam que ele tinha sido baleado pelo dono da chácara, um policial. Na delegacia, nenhuma queixa, nenhum registro, nenhuma pesquisa de seu nome nos registros policiais – nada.

– O que aconteceu? O que podemos fazer para resolver esse problema? O que pode mudar para que isso não volte a acontecer?

– Simples – querem saber o que aconteceu com Antônio e o que fazer a respeito? A políciajá disse:

– Ele tem claramente o perfil de quem abandona o lar… Ele bebe inclusive, não é? Fugiu, com certeza, acontece sempre. Se quiserem, ajudamos a procurar.

Pronto, ai está! Fugiu de casa, logo após ter sido detido em frente à granja de um policial – isso como vários outros e outras já fizeram antes – nada de novo por aqui: nenhum problema a sanar, nada a fazer, nada a mudar. Nada. Nada?

Mais de 170 dias depois de seu desaparecimento, de denúncias à corregedoria da polícia não respondidas, de nenhuma movimentação efetiva por parte do Estado para apuração do fato, e que enfim, toda e qualquer instância e organismo do Estado já foi procurado e não obtiveram nenhuma resposta factível.  Para eles, sim – nada.

Hanna

Felizmente, temos o poder da fala, da organização política, certo? Poderíamos questionar esse discurso alienador, silente, calado e culpado, certo? Se tivéssemos poderíamos nos insurgir, exigir, nos opor a essa imposição do discurso de que está tudo bem, da negação de uma vida e do direito de memória, certo?

Claro – podemos fazer isso até que prendam quem se insurge por empurrar (isso, empurrar, não “destruir”) a linha que dividia a calçada e a ruadas 150 pessoas que manifestavam pelo aparecimento de Antônio no dia de comemoração da proclamação da república, 15 de novembro. Das 150 pessoas, cinquenta pessoas foram detidas, 15 das e dos quais não foram liberadas e liberados em seguida e dormiram em detenção. Inclusive, três delas foram enviadas provisoriamente para o presídio da Colméia, no dia seguinte. Os outros 12 haviam sido avisados que em breve seriam enviados para a Papuda. O discurso contra quem protestou contra a polícia dessa vez, vejamos… Ah! Aqui está: depredação de patrimônio público e formação de quadrilha.

Querem saber o resultado desse discurso? Ele varia. Na maioria das casas de quem nunca perdeu Antônio, geralmente esse discurso faz parte da oração de uma religião que prega não ver outra realidade que não a sua. Antes de comer, lendo a revista, sem dar as mãos para não violar outras de suas crenças: “de novo esses badernistas? No meu tempo a gente acreditava na democracia, no diálogo. Esse pessoal só quer saber de aparecer.” Na delegacia, o clima é, pelo menos, de amizade: “e aí Maurício, já achou o pinguinha? (risadas)”. Mas na casa de Antônio seus irmãos e sua mãe ainda se perguntam: “Meu Deus, onde está Antônio?”.

– Antônio sumiu fugido e não temos nada a ver com isso. Ficar invadindo as ruas protestando por Antônio só pode ser uma forma de perturbação da paz pública, destruição de patrimônio e formação de quadrilha. Que vergonha disso.

– Isso é a versão controversa, esquizofrênica e dissimulada de vocês. Não me deram qualquer espaço para questionar essa imposição, não me dão qualquer caminho, rua ou cartaz para colocar minha opinião. Mas eu, Maurício, e minha família não desistiremos de procurá-lo, não.

Sorhaya

Seria muito simples concordar com o discurso posto que isso é um caso isolado, com tratamento apropriado pelo estado – e não só pela polícia, mas de quem a controla e de outras instâncias do aparelho estatal. Que nada tem a ver com a segurança, a forma como está estruturada, concebida. Que, inclusive, nada tem a ver a quê e para quem serve esse modelo de pensar e estruturar a polícia. Simples, mesmo: Antônio é Antônio – fugiu.

O que podemos tirar desse confronto é que com certeza podemos saber que há mais do que o dito pela polícia. Que esta situação precisa ser vista de uma maneira mais complexa que o “nada”. Todo esse discurso, toda essa fala reprimida em busca da memória, de fala presa na garganta de que há algo errado, nas ruas e algemas. Tudo isso nos indicam que há algo a mais. Mais pessoas. Mais problemas que os apontados pelos responsáveis como causa desse desaparecimento. Mais angústias. Mais falas reprimidas. Mais discursos mascarados. Mais direitos desrespeitados. Mais impossibilidade de efetivamente viver a democracia. Mais. Muito mais…

A história contada nesse tom reverbera uma pergunta novamente: quem é Antônio, então? Fato: Antônio tem sua subjetividade, sua história – enfim, sua singularidade. Essa singularidade permitiu a resposta dada: “irmão de Maurício, desaparecido pela polícia” e impede qualquer conforto a sua família até alguma notícia especificamente sua. Mas…já sabemos que por aqui deve haver algo mais, certo?

O sujeito desaparecido, com um desaparecimento esquecido, não se identifica apenas com a pessoa de Antônio. Antônio é um individuo – dos vários – símbolo de todos e todas aquelas que sumiram da mesma forma e somem diuturnamente no distrito federal, no Brasil, na América Latina, no mundo.  Indivíduo e símbolo de quem sumiu por não interessarem a quem se preocupa com suas existências, com o discurso posto.Ex-sujeitos. Mutiladas e mutilados. Esquecidas e esquecidos. Desaparecidas e desaparecidos.

Antônio é Amarildo, Honestino Guimarães, Ieda Delgado, Lyda da Silva, Antônio é a estudantezinha desaparecida da Estrutural que nunca ninguém ficou sabendo, João Alfredo Dias, David Capistrano da Costa, Eduardo Collier Filho, Antônio é Eduardo Collen Leite, o carpinteiro desaparecido em planaltina que ninguém ficou sabendo, Carlos Marighella, Ana Maria Nacinovic Corrêa, Amaro Luíz de Carvalho, Antônio é Alexander José Ibsen Voeroes e a faxineira que sumiu em Ceilândia e ninguém ficou sabendo.

Peraí -Antônio somos todos, Antônio somos todas? Depende. Diferentemente daquelas e daqueles que sumiram em épocas que não podia-se ousar propor um novo modelo de sociedade no Brasil, ser Antônio está associado apenas com o que se pode ser ou deixar de ser: depende de sua classe social, de onde você mora, de qual a cor da sua pele, seu gênero, seu fenótipo sexual, sua orientação sexual, sua religião – depende se seu desaparecimento ocorreu porque seu nome não vale a pena ser lembrado.A puta, o bêbado, a pobre, a travesti, a que não teve transporte público, o usuário de drogas, a criança abandonada, o favelado.

Professor

Mas isso não nos impede de nos identificarmos com Antônio. Não impede ninguém de dizer “somos todas e todos Antônio” – e o podemos porque podemos ver que sempre sumiram aquelas e aqueles que não deixaram nomes a serem procurados. Porque vemos que isso tem algo a dizer sobre a realidade que vivemos, sobre quem somos e o que podemos fazer. Porque nos importamos com quem perdeu o direito a ser, a ter nome e memória. Quantos? Quem eram? Quais eram seus nomes? Poderia ser – quase – qualquer um(a), e por isso são todas e todos.

Procurar por Antônio é dar nome ao que foi esquecido e antes nunca nomeado. Procurar por Antônio é mostrar que ainda há quem se indigne com a injustiça contra quem não precisamos saber o nome. Procurar por Antônio é fazer o mínimo, o primeiro passo para uma sociedade mais justa. Porque se não o podem ter de volta, se não há qualquer tipo de conforto na sua ausência, saber onde está Antônio é o mínimo que sua família deveria saber para conseguir ficar em paz. Procurar por Antônio é entender que também podemos ser Antônio. Por quê? Porque saber onde está Antônio é o mínimo que seria proporcionado por um Estado que efetivamente respeitasse a todas e todos nós.

As dúvidas e curiosidades movem as pessoas e grupos – as fazem investigar, aprender, mudar de opinião. Há, então, uma dúvida central para qualquer cidadão, qualquer projeto político e social em nossa sociedade – se você sonha com dias melhores, chegou a hora de se indagar: “onde está Antônio?”.

João Victor e Aurélio

 Por Guilherme Crespo Ele sempre gostou do barulho da brita caindo no chão, cascateando. Aquelas pedrinhas sujavam a mão como fosse farelo, farinha, machucavam os pés descalços. Mas ele gostava de pegá-las e, acompanhado, fazia desenhos caminhos espalhava juntava pelo chão. Chão é onde ele gosta de brincagirar. TUM TUM. Ele ouve sente o chão […]

Companheiro, seja.

*Edson J. D. de Sousa

Escrevo,
porque o verbo ainda é o não
entre a ordem e o silêncio.

Escrevo,
com os sem vez e com os sem voz,
contra o calo do mundo.

Escrevo,
à favor da irrupção
de um novo mundo e de novo da rima.

Escrevo,
pelo meu amigo
rendido às fileiras do fazer sentido.

Quero um poema
um que seja revolução da máquina-palavra
e que te sirva como braço armado e irmão.

– companheiro, seja.

Artistas-plasticos-da-literatura1

Joga pedra, Geni

                                                                                               Por Ingrid Martins

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No meio do caminho tinha uma pedra.
Tinha uma pedra no meio do caminho.
A pedra era ela.
“Joga pedra na Geni!”

Diz que deu, diz que dá, que dará pra quem quiser.
Dizem que Deus dará: castigo!
“ – Essa moça não tem família?
Olha o tamanho da saia dela!”

No meio do caminho tinha uma pedra.
Tinha uma pedra no meio do caminho.
A pedra era mal falada, feita pra apanhar, boa de cuspir.
Era pra comer em uma noite e não ligar no dia seguinte.
Era pra ser diversão dele, não a mãe dos seus filhos.

Pedra não diz que não, pedra nem dizer diz…
Ela queria.
“ – NÃO! Me solta!”
NÃO. NÃO. NÃOOOO
Ele queria.
“ – Eu sei que você quer, não precisa fazer charme!”
Ele ejacula. Ela se contorce – de medo, não de prazer.

Nunca me esquecerei desse acontecimento.
Na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Vara de família. Pensão alimentícia.
“ – Ela ainda quer o meu dinheiro? Que vá trabalhar!
Haja pedra no meu sapato!”

É falo, é pedra, não é o fim do caminho.
Geni juntou as pedras. Joga pedra, Geni, em quem te julgou, em quem te abusou, em quem te objetificou.
Somos todas Geni.

Entre Estrelas e Esperanças

Por Matheus de Paula

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“Por enquanto preciso segurar esta tua mão – mesmo que não consiga inventar teu rosto e teus olhos e tua boca”.

A Paixão Segundo G.H.

Era mais ou menos dessa forma que Pedro se sentia. Apoiado em alguém que, mesmo que não pudesse ver, sentia. E era bom. No mínimo reconfortante. Aliviava. Eu nem falei sobre Pedro, não é? Que péssimo narrador sou eu, perdão.

Pedro. 17 anos. Estudante de ensino médio. De família média, pai advogado e mãe psicóloga. Homem médio. Homem médio não, adolescente médio. Apesar de ser o orgulho da família, o xodó das/os amigas/os e o príncipe das meninas, Pedro não consegue pensar em nada que não seja a mentira que é sua vida.

Lembra, aos 4 anos, do primeiro brinquedo que ganhou: um carro de miniatura. Todo equipado com luzes, rodonas invocadas e um som de dar inveja a qualquer um de seus coleguinhas. Contudo, o que seria apenas um um brinquedo passou a ser a força motriz de toda uma tortura mental pela qual Pedro jamais se livraria. Pelo menos assim pensava ele. Pedro, definitivamente não gostava de carrinhos. Pedro gostava de brincar de casinha com sua irmã, Larissa. Pedro se sentia realizado brincando de fazer comidinha e de arrumar casa. Quem não se sentia nada realizado com isso era seu pai, que lhe forçava a ficar horas “brincando” de carrinho porque, segundo ele, “homenzinho brinca de carrinho e bola. Cuidar de casa, Pedrinho, é coisa de mulherzinha.”. Sua mãe, apesar de psicóloga, pensava o mesmo.

O Pedrinho cresceu. Virou Pedro. Pedro-com-todas-as-responsabilidades- dos-15 anos: escolher uma carreira, pensar em qual faculdade passar, se dedicar mais aos esportes… e arranjar uma namorada. “Seus amigos de 15 anos ja tem namorada, Pedro, e quando você vai arranjar uma namoradinha, meu filho?” indagava sua vó. Ele desconversava sempre respondendo que um dia arranjaria uma. Que estava esperando uma que fosse ao seus pés, pois era um menino bem criado demais, oras.

Os pais de Pedro quase morreram quando o viram chorando ao ler um livro. *Divagando aqui, Pedro amava ler. Se encontrava na leitura*. Seu pai lhe toliu severamente dizendo que homem que é homem não chora lendo livro. Isso é coisa de veado. Veado não. Veadinho. Aquele que faz questão de mostrar pra todo mundo que é. Sua mãe, tentando acalmar os ânimos de seu pai, disse que Pedro não era gay. Pedro era apenas “sensível”. Para ela, gay era o filho do/a outro/a. Aquele que ela analisava. O filho dela era apenas “delicado”.

Pedro era gay. Sabia que era gay. Sabia desde os seus remotos 4 anos. Sua primeira paixão foi por um menino de sua sala. Não se imaginava formando uma vida amorosa com o outro se não fosse O outro. Mas, Pedro não contava. Não contava pros pais porque, segundo eles, não haveria desgosto maior na Terra do que um filho gay. Filho tem de ser rei, ladrão, polícia, capitão. Gay não. Não contava pros amigos porque tinha medo da rejeição, apesar de todos eles alegarem não serem preconceituosos e até “terem amigos gays, cabeleireiros gays..”. Pedro, como eu disse, caro/a leitor/a, só se apoiava. Se apoiava em alguém que mesmo não sabendo quem era, sabia que lhe reconfortava o suficiente para um dia se assumir. Pedro era apaixonado platonicamente por essa pessoa que, mesmo ele não conhecendo, seria o estopim pra sua aceitação e pra sua “saída Nárnia.”

Todavia, Pedro foi percebendo, com o passar da idade, que não dependia do outro pra ser o que era. Pedro é gay. Estando com outro ou não, Pedro é gay. E, assim, Pedro foi começando a se aceitar e se entender mais, mesmo sempre pensando que não há nada mais martirizador do que ter de aceitar que era assim. Se ninguém se aceita como hetero, porque logo ele era o obrigado a se autoimpor e impor aos outros essa aceitação? Esse processo, pra ele, não deveria ser tão doloroso assim porque é normal. Ser gay é normal. Aceitem. Entendam.photo

Seria ótimo terminar essa história falando que Pedro hoje se aceita completamente e tem uma vida profissional e amorosa impecável que dá inveja a qualquer heterossexual, seja ele homem ou mulher. Mas, a história segue o curso da vida, e, na vida real, nem sempre é assim. Pedro ainda não se assumiu e está ainda em seu processo de aceitação, mesmo sabendo que não deveria ser doloroso assim. Mas, é fácil teorizar quando não é você o oprimido. É um processo diário. É quase uma luta diária. Você não precisa saber o sobrenome de Pedro ou mais sobre sua vida pra se sentir mais comovido com sua história. Há muitos Pedros por aí. Pelo mundo todo.

São muitos Pedros que, como Pedro, vivem com a cabeça na estrelas, idealizando um mundo perfeito, sem preconceito e aceitando toda expressão de amor, e os pés na esperança, depositando toda sua energia para que esse dia chegue de forma repentina e natural, como mais-um-dia-normal. São Pedros, apesar de tudo, vivem entre estrelas e esperanças.