Cotidiano

Por Carolina Freire

Acordei cedo, me vesti, parei, pensei … Já podia ouvir a opressão gratuita em forma de olhares, gritos, cantadas (??) Troquei de roupa, tapei meu corpo, perdi conforto, só como um meio tosco de me proteger.

Saí de casa. No trabalho, cumprimento, sou pontual, executo meu ofício com modesta competência. Mas afinal, de que vale tanto esforço? Aqui já ouço como sou incapaz de ser promovida; não falam diretamente, não são tão corajosos, mas batem na minha cara (que não é frágil) o tempo todo com enaltecidos argumentos de que sou excessivamente emotiva e ocupada demais com os filhos. É … parece que a racionalidade vem estocada em um saco pesado de testosterona daqueles que fazem, mas não criam, filhos.

Saio do trabalho de cabeça baixa, mas não derrotada; não, o dia ainda não acabou. Na condução, aperto, apalpo, abuso e passageiros cegos, só eu vejo, só eu sinto … nojo.

Na faculdade, procuro crescer, mesmo sendo menos escutada, menos relevante (parece), eu continuo. Continuo porque quero meu intelecto à prova, quero ser a competente, a que trabalha bem; chega de ser a gostosa ou baranga, a feia ou bonita; chega! Quero sair do concurso de beleza que a vida me impõe, quero respeito.

A aula acaba, já é tarde e sinto medo. Aqui a mulher forte esmorece, se encolhe, é hora de ir pra casa e tenho medo. Porque eu sei que à noite e sozinha eu não estou segura. Engulo esse medo e, assim como os não’s que a vida me dá, ele desce pela garganta e corta e fere e dói…

Chego enfim em casa e meus filhos precisam de mim, a casa precisa de mim, eu preciso de mim. Me ocupo nesses últimos instantes do dia com um serviço repetitivo e mecânico, mas ainda assim agradeço pela fé que me resta. Porque à essa altura, coisificada, subjugada, diminuída, oprimida, rechaçada, esperança foi só o que sobrou pra mim.

O sono me arrebata porque o cansaço físico me toma e aquieta a mente. Já o sonho, esse me ilude com a projeção de um lugar onde não sexualizam meu corpo, não me dizem o que fazer e não sufocam minha voz. Mas eu então acordo e a realidade me traz de volta porque o dia começa de novo e eu não quero chorar … eu não posso chorar … não posso … não posso … não posso, mas as lágrimas não demoram a cair …

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PAUSA

Por Vívian Viana

Quando o mundo real passa para uma tela, quando temos mais contato com a representação, do que com a apresentação, quando as relações sociais se tornam relações virtuais é necessário uma pausa. Uma pausa, um retorno ao ponto em que nos perdemos e perdemos nossa essência. É imperioso esse tempo de reflexão, para que então tenhamos autonomia e dimensão do play que a vida requer. É lastimável ver o mundo de cabeça baixa. Fui ensinada a manter sempre a cabeça erguida, diante de todo e qualquer desafio. “Engole o choro. Cabeça erguida. Segue em frente”. Cabeça baixa é sinônimo de tristeza. É claro que temos nossos momentos em que é necessário abaixar a cabeça, olhar para nosso interior e amadurecer. Contudo, não é para esse fim que estamos abaixando a cabeça. Abaixamos a cabeça para olhar o mundo. Calma. Tem alguma coisa errada nisso. A lógica era: levanta a cabeça, siga em frente, siga forte, admire o mundo ao seu redor, critique o mundo ao seu redor, construa o mundo ao seu redor, desconstrua o mundo ao seu redor. A lógica virou: touch, digital, “digito logo existo”. É perigoso ver o tato humano se tornado touch screen. É arriscado não falarmos disso.

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As relações humanas foram substituídas por um enter. Por estar online. Offline. Gravando  um áudio. Digitando …

E seguimos nessa direção. Ou seria melhor dizer, seguimos nessa rede. Ou ainda, nos enrolamos nessa rede.

Quando um digitando conseguiu substituir o  conversando. O gravando um áudio substituiu a voz ouvida ao vivo. A discussão atinge níveis robóticos. São rápidas,  irracionais, desmedidas. Perdemos pouco a pouco o tato humano. Bem, acredito que o tato humano é essencial, é com ele que percebemos no outro a essência do que nos aproxima. O sermos humanos. Resolvi aprender que, para além dessa tela, tem um ser humano que sente, que tem um olhar único, uma história única, tal qual somos todos. Estou do lado de cá da tela. Não sou o lado de cá da tela. Tampouco você é o lado de lá da tela. Você está.

Soa paradoxal usar o meio virtual para propagar essa reflexão. Mas o faço na expectativa de que olhando para baixo, ou olhando para tela, nós possamos nos conectar e juntos olharmos para fora.

Vivemos em sociedade. Sociedades. Sócias. Sociais. Só. Mas quando as redes virtuais – não consigo chamá-las de sociais, não mais – deletam o olhar, apagam o olho no olho, o que vemos são dedos nervosos bradando ódio, sem se quer perceber que se trata de outra PESSOA, ser humano do outro lado. Estamos conectados. Mas não pelos dedos entrelaçados, pelos abraços. Estamos ligados por fios, ou Wi-Fi se preferir. Temos uma conexão virtual.

Quando foi que perdemos o assunto, a piada, o debate. Ah está tudo no Google, isso deve bastar. Não basta Google. Não basta. Basta.

É claro que a internet e a tecnologia trouxeram benefícios grandiosos. A internet presencia lutas lindas, lutos necessários. Todavia, é mister que essas lutas antes de virtuais sejam reais, que esses lutos antes de se tornarem capa de redes sociais sejam sentidos, e não meras demonstrações de massa. É preciso que cada ser humano sinta, antes de falar. Reflita nos outros seres humanos interligados antes de bradar discursos de intolerância. É necessário que as lutas sejam antes de tudo consolidadas fora da rede, nos corações de quem as carrega, sob pena de se tornarem meros discursos de rede.

Já previa George Orwell, seríamos vigiados por um grande olho, em todo lugar que fôssemos, “O GRANDE IRMÃO ESTÁ DE OLHO EM VOCÊ.” O irônico é que esse Grande Irmão, ou para demonstrar sofisticação e universalidade, esse “Big Brother”, deveria nos incomodar. Deveria ser alvo de insatisfação e não de convalescimento. Mas somos, hoje, parte integrante desse grande irmão. Com um porém: queremos mostrar apenas nossas faces felizes a ele.

A sociedade necessita de ser humanos humanos. Médicos que conversem, que examinem para além do receituário. Advogados que olhem além da altura de seu Vade Mecum mais atualizado – ele não é tão alto assim. Que os engenheiros se preocupem mais com a força existente dentro de um abraço, que meçam formas de aproximar pessoas. O mundo precisa de professores que elogiem, que construam para além do vestibular, para além dessa barreia que separa os mundos. De Seres humanos que se atualizem na humanidade e não mais nos aplicativos.

É imperioso o pensar, o agir, o lembrar sem consultar o celular. Lembrar o nome, lembrar a data de aniversário não porque o Facebook te avisou, lembrar a importância do olho no olho, da conversa bem conversada, do diálogo bem medido, bem estruturado. E só assim será possível uma desconstrução verdadeira. Quando ultrapassarmos do muro touch.

Que a cabeça baixa seja para o crescimento. Que a cabeça erguida nos permita olhar no olho. Que a cabeça baixa não demonstre a fraqueza virtual que nos cerca. Que a cabeça erguida seja para olharmos além. Que a cabeça baixa não seja para o digitando, gravando um áudio. Que a cabeça erguida seja para o conversando. Que a cabeça baixa seja para semear. E a cabeça erguida para admirar e colher os frutos. E se precisar de uma “mãozinha” para colher esse fruto, que seja humana e não touch.

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