10 Alucinações Musicais

Por Luisa Hedler   
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O livro “alucinações musicais”, do neurologista Oliver Sacks, fala sobre as curiosas interações entre a música e o cérebro em suas mil formas de manifestação – desde as “músicas chiclete” que grudam nos ouvidos até pessoa que não conseguem ouvir música. Mas, lendo o livro, quem alucinava era eu – trechos de músicas mencionadas ficavam rondando minha mente durante minha leitura, cantarolava pedaços de música que surgiam aleatoriamente em minha cabeça, e tinha que parar de ler, atordoada, por estar não só lendo, mas cansando a orquestra da minha mente com mil exercícios estranhos.

E desta curiosa experiência que me veio a idéia de aplicar um ótimo exercício de escrita – a inspiração de 10 pequenos textos por 10 músicas aleatórias – para falar, justamente, de música. Uma meta-inspiração, assim por se dizer, da música para a música – pois nada melhor para um recomeço do que falar sobre o grande motor da minh’alma. Eis, então, minhas 10 alucinações musicais:

1 – Apologize – One Republic

Ouvi algumas vezes que existem algumas músicas que nos tocam de uma maneira mais forte porque a batida dela se assemelha a uma batida de coração. Mas depois de fazer uma sonografia no coração e ouvir as minhas válvulas mexendo – e ver um som vagamente parecido nessa música – acabo concluindo que é o contrário que acontece. As válvulas do coração podem continuar, apressadas, em seu trabalho de levar todo o sangue para onde ele deve estar, mas o corpo se mexe vagamente, cabeça, pernas, braços, e daqui a pouco até a minha digitação segue o ritmo de uma  música. O coração – aquele metafórico, aquela vaga sensação no peito que levou os antigos a acharem que era ele, e não o cérebro, o centro das emoções e pensamentos – é que adapta-se conforme a melodia, o ritmo e sua conjugação com a letra, fazendo viver um passado que não volta e um futuro que talvez não chegue, mas naqueles minutos, são tão reais quanto o ar que respiramos…

2 – Prelúdio #3 – Heitor Villa-Lobos

Qual será a relação entre tocar e ouvir? Será que mudam as imagens mentais, o foco da atenção no turbilhão de notas que forma cada música? Vejo, no dedilhado de violão, uma fita colorida que se enrola em um fundo escuro, mais fina, mais densa, mais rápida ou mais lenta, mas sempre leve e delicada. Se soubesse tocar violão, veria os acordes e os dedos calejados apertando as cordas? Sentiria a vontade de dominar a melodia e torná-la minha, de virar a fonte dos acordes que agora me tocam de fora? Confesso que não sentiria – eu já sinto. Já penso nos dedos doloridos, nas bolhas, nas horas de estudo, nas repetições de cada acorde, cada dedilhado, na frustra

ção, em tocar a música mil vezes em minha cabeça e algumas nos sonhos… E, enfim, transbordar a alma através de movimentos que já estão gravados nos meus músculos (quando estiver com Alzheimer no asilo, seu corpo ainda vai saber tocar, dizia o professor), para fazer de alma, corpo e mente uma só entidade, da total compleição que é tocar – não apenas executar, mas realmente tocar – uma música.

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3 – Lovers (title song – The House of Flying Daggers) – Kathleen Battle, Shigeru Umebayashi

Tem gente que não gosta de ópera. Ok, muita gente não gosta de ópera. Enfim, talvez quase ninguém goste. Ou tenha paciência. Ou sequer tenha tido a vontade de conhecer o que é além do estereótipo da senhora obesa com um capacete de chifres. Mas talvez o mesmo se aplique a tantos outros estilos – as músicas tradicionais de culturas que não conhecemos – sejam de países diferentes, regiões do mesmo país ou mesmo grupos sociais diferentes.  Então enfiam-se os “experts” em suas respectivas torres de marfim, defendendo seu gênero musical como se fosse o último bastião de pureza – seja no tempo ou no espaço – esquecendo-se de que a música é, antes de tudo, algo que vive… O que inclui crescer e modificar-se. Encontrar elementos novos, misturar-se, perder-se em caminhos tortuosos e diferentes, para encontrar-se, emocionada e bela, com suas irmãs mais improváveis através de culturas e épocas. Pois não choram sentidos tanto o violino chinês quanto a voz de uma cantora lírica? Não sobem aos céus os sons das missas tocadas com instrumentos dos incas? Depois de um estranhamento inicial, (lembram de nossa amiga alteridade?), no final das contas, temos a força viva da música.

Kathleen Battle, a maravilhosa cantora dessa música ^^
Kathleen Battle, a maravilhosa cantora dessa música ^^

4 – Ali Jaisten Vetten – Korpiklaani

A primeira informação que eu recebo é do meu corpo: pule, menina. De preferência, com um violino em uma mão, e uma faca na outra.  Minha imaginação transforma o meu quarto em uma taberna mal-iluminada, as mesas de madeira tremem com o peso da comida, das canecas e dos punhos batendo na mesa, o violino equilibrando-se quase perigosamente em um ombro dançante – enquanto, fisicamente, só um tímido pezinho bate no ritmo contagiante. É o conhecimento “técnico” de musicista abre caminho pela multidão dançante – ah sim, compasso 2/4 é realmente um negócio pulante… A combinação de um violino e acordeão com os instrumentos mais pesados realmente dá um efeito interessante. Isso até lembra vagamente… – e a técnica é emudecida pelo solo de violino e começa a dançar também.

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5 – Que luz é essa? – Raul Seixas

Incomoda o fato da voz que ouvimos dos alto-falantes e fones já estar morta? O fenômeno físico que tornou possível esse cantar, aquelas cordas vocais, já não existem mais. Viraram matéria orgânica, decomposta dentro de um caixão. Mas nesse momento de parar o tempo, ouvimos uma voz, uma respiração, o trabalho de uma mente curiosa. E ela nos fala! Talvez seja mais chocante do que tocar uma música de um compositor já falecido – afinal, é a mente dele que revive em sua obra – mas a gravação traz à tona um cenário quase sombrio. Capturada para a eternidade está um fenômeno tão biológico quanto o canto dos pássaros, esse cantar, que nos chega por uma máquina – uma verdadeira máquina do tempo que reproduz um momento em um estúdio de gravação anos atrás, mas transporta junto com ela todo o sentimento, o humor, as sutilezas que são singulares de cada pessoa que canta. E ainda é música viva, o corpo reage, a mente entende, as emoções afloram – e, pela música, a ilusão de linearidade do tempo é quebrada – o Raul tá vivo!

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6 – Das Schloss am Meer – Faun

Existe alguma língua que não é feita para cantar? Não sei bem por que há tantas bandas de tantos países que cantam só em inglês. Talvez seja uma questão de chegar a um público maior; talvez seja uma questão de hegemonia cultural (vide as óperas em italiano, as missas em latim…) – mas também levanta a questão de haver (ou não) uma língua “própria” para cada gênero musical. Latim para as missas, italiano para as óperas, inglês para o rock e o metal, a língua nativa para cada música tradicional… Lembro que, em uma Oficina de Música, um rapaz tocava um concerto de Sibelius (um finlandês), quando o professor apontou que a acentuação das frases precisava ter um “sotaque” mais nórdico, e recomendou ouvir alguém falando ou cantando em finlandês. Então temos língua, cultura e música enroladas em um só momento, uma série de características interligadas que as tornam únicas, mas por acaso mais adequadas a um ou outro tipo de música? É aqui que entrariam os estereótipos: o alemão é uma língua dura, o português é macio e fluido, o inglês é conciso e prático. Mas todas sabem cantar de amor, de tristeza, de protesto e alegria boba. Podem fluir como água ou atingir como pedradas… Mas alçada pela força de uma melodia, para mim, não existe língua que consiga separar o ser humano de sua amada música…

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7 – Looking for Angels – Skillet

A música aproxima as pessoas.  Não sei como dizer esse tipo de coisa sem soar piegas – mas, brega ou não, é um fato. Subjetivo, histórico, talvez até objetivo (se é que esse tal de “fato objetivo” realmente existe) – eu sei, eu sinto. Sinto o momento em que estou tocando em conjunto, que meu senso de si se dissolve para dar lugar a harmonia da música que não se faz em solidão, da atenção aos outros; da paciência do pianista que acompanha as crianças pequenas nas apresentações individuais; no sentimento de comunhão que surge entre pessoas que realmente gostam de uma música e fazem questão de cantá-la a plenos pulmões toda vez que ela toca, em qualquer situação; nas danças bobinhas que tem o misterioso dom de colocar tantas pessoas, tão diferentes, fazendo um papel de ridículo igualitário em seus movimentos conhecidos; no fato de pessoas que não conseguem falar a mesma língua conseguirem tocar, ensinar e aprender música – pelo fato de praticamente todas as culturas conhecidas terem uma forma de música como elemento de socialização… “Todos os seres humanos se tornam irmãos por onde sua asa passa”, diz Schiller sobre a Alegria, na famosa 9ª sinfonia de Beethoven – mas ele poderia muito bem estar falando de música. Até mesmo soldados na 1ª Guerra Mundial, em uma trincheira na noite de Natal de 1914, cessam o confronto pelo dia e cantam juntos “Noite Feliz”… Tão perigoso esse potencial da música que, depois daquele natal, todo soldado que fosse pego fazendo isso seria fuzilado. Então, sim, a música – perigosamente – aproxima as pessoas.

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8 – The Dark I Know Well – Spring Awakening

Como podemos falar o indizível? Não digo só das coisas bonitas, de falar de amor – mas digo de falar de guerra, falar de horror, de trauma, dos assuntos que são tão dolorosos que as palavras ficam pequenas e assépticas diante da enormidade de uma situação, insignificantes perto da intensidade da experiência… Talvez seja por isso que toda cena dramática em filmes precisa de uma música, cada declaração tensa precisa de uma trilha sonora. Por isso que assistir um filme de terror sem a música perde boa parte do suspense ou do susto, não importa o quão horrível seja o monstro. Nas letras de música, a palavra – e nos filmes, a imagem – ganha uma poderosa forma de comunicação com uma profundidade que toca e arrepia muito mais do que as palavras individuais. As palavras tocam a nossa mente, mas é com a música que movemos algo mais. Aí, é só escolher a metáfora de preferência – o coração, as emoções, a alma – mas ninguém está pensando nos acordes em tom menor enquanto uma letra, uma mesma letra, ganha significados e nuances bem distintas a depender da música que acompanha suas sílabas. E então conseguimos reverberar a tristeza, saudade, alegria, raiva, indignação, esperança, terror ou coragem que a música nos envia, encontrar toda essa palheta de emoções em nossa própria mente e realmente sentir junto, pelo minutos que sustentam o som, aquilo que já moveu uma outra alma – e que (aí está a mágica) talvez farão tantas outras pessoas serem movidas também.

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9 – Elle me Dit – Mika

Ouvir uma música com a música e a letra contrastantes é um exercício interessante sobre a predominância de um tipo ou outro de percepção – qual deles predomina? Qual deles é mais significante ao ouvir a música como um todo? Isso não se apresenta um problema para quem mal presta atenção no que a música possa querer dizer, e apenas vê uma melodia engraçadinha – mas pode causar grandes surpresas para quem, ao aprender a língua em que a música é cantada, ou ler ou mesmo só prestar atenção, acaba descobrindo sentidos surpreendentes… E nem sempre agradáveis. Às vezes me pergunto se a discrepância de sentido da letra e tom da melodia é algo deliberado ou apenas falha de comunicação. Às vezes uma música dramática e triste acaba tendo algum som meio romântico – ou, pior a idéia de romance de quem escreve a música é que pode ser algo deprimente ou até perturbador para causar a discrepância. Mas uma discrepância deliberada pode ser, quando bem colocada, simplesmente genial. Principalmente quando é algo profundo, triste e até mesmo completamente deprimente colocado em uma “embalagem melódica” alegre e quase bobinha. Superficialmente, parece música para animar festas, ouvir em momentos descontraídos e reclamar por ser “feliz e bobinha demais” – mas, secretamente, os desavisados estão dançando, comemorando e festejando um desespero e uma tristeza profunda, que nunca chegaria deliberadamente naquele espaço… Uma metáfora tão rica que, em si, explica um tanto de coisa nesse mundo…

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10 – Felicidade – Tom Jobim

O paradoxo entre finalidade e continuidade se estende também à música – uma música realmente termina? Claro que a faixa de música gravada diz um tempo exato para a música começar e acabar, mas a música, a Música – quando acaba, quando começa? Da primeira idéia flutuante na cabeça de quem compõe ou adapta – de onde veio? De qual melodia primordial ela brota – ou de que canto do cérebro se combina? Depois vem quem interpreta, a música começa no desejo de tocar ao ouvir, no primeiro olhar na partitura, nas horas de treinamento ou nos minutos de apresentação? E para quem ouve, acaba no instante em que o som para, ou engloba também a atmosfera etérea que toma o espaço enquanto as últimas notas ecoam, ou as repetições incessantes na memória e na imaginação depois de cada experiência notável? A música em uma partitura, ou gravada em um CD, só é música quando executada ou é perene, mesmo em silêncio? Será a música uma fênix que vive e morre quando executada, para ressurgir nas cinzas em mentes inquietas ou novos dedos intérpretes? Será ela uma Deusa imortal que só toma diferentes formas ao longo da história humana? Será uma rosa de Adônis que vive tão intensamente que só vê a luz de um dia, para morrer, e deixar uma descendente para a próxima execução? Ou talvez um eterno zumbi chamado da morte por cada músico necromante que toca uma vez mais depois da imaginação da mente original – ou talvez mil outras metáforas ligeiramente perturbadoras que minha imaginação possa encontrar. Mas por mais que eu pense e tente encaixar nos nossos limitados conceitos de tempo e espaço, só consigo chegar à conclusão – ou, mais do que conclusão, à rendição completa ao grande mistério desse fenômeno sem início, sem fim, sem tempo nem espaço – inexplicável e imprescindível, simplesmente música.

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