Nota de repúdio às eleições para o Conselho Tutelar

Por Natália Guedes   

No dia 16/12, foram realizadas as eleições para 165 Conselheiros Tutelares e 165 Suplentes no Distrito Federal. O processo eleitoral, que aparentemente seria mais democrático e benéfico política e socialmente à população, se mostrou uma verdadeira falácia. A mídia local relatou várias falhas durante a votação (G1: http://g1.globo.com/distrito-federal/noticia/2012/12/eleicao-para-conselho-tutelar-do-df-registra-problemas-em-5-regioes.html; Record: http://rederecord.r7.com/video/falha-nos-equipamentos-atrapalharam-eleicoes-do-conselho-tutelar-do-df-50cf64f6fc9b5894bedc1106/), o que foi abafado pelo GDF, basta olhar a notícia que divulgaram sobre a eleição, que destaca somente o número positivo de eleitores (http://www.df.gov.br/noticias/item/4638-elei%C3%A7%C3%A3o-para-conselheiro-tutelar-registra-mais-de-360-mil-votos.html).

As notícias dos jornais locais destacaram muito bem as falhas dos equipamentos fornecidos pela empresa que ganhou o processo licitatório milionário (3 milhões de reais), a qual utilizou a tecnologia de tablets, no lugar das urnas eletrônicas (como ocorre no Estado de São Paulo, que, na eleição para o Conselho Tutelar, pede ao Tribunal Superior Eleitoral as mesmas urnas eletrônicas usadas nas eleições governamentais), velhas conhecidas da população. Mas a Secretaria de Estado da Criança do Distrito Federal, em nota de esclarecimento, resolveu minimizar esses problemas e declarar que a eleição ocorreu dentro da legalidade (http://www.crianca.df.gov.br./noticias/item/2093-esclarecimento.html). O que a Secretaria parece ignorar é que os problemas técnicos não foram os únicos. Segue nota de repúdio de uma moradora da Cidade Estrutural, que participa das Oficinas de Direitos Humanos realizadas na sua comunidade (projeto de extensão do PET-Dir UnB) e era candidata ao Conselho Tutelar.

Nota de Repúdio

Aqui quem vos fala é uma cidadã indignada com a fragilidade das leis que regem a nação e com a corrupção que toma conta das pessoas cada vez mais.

Eu, como uma das candidatas ao Cargo de Conselheira Tutelar da Cidade Estrutural, pude observar e sentir bem o caos estabelecido dentro do processo de escolha, o qual foi finalizado neste último domingo. Segui à risca todas as exigências impostas pelo CDCA, mas, infelizmente, o mesmo não aconteceu em relação a determinados companheiros de luta.

Durante 38 anos de minha existência nunca precisei usar de mentiras ou enganação para conseguir coisa alguma e não seria diferente agora. Portanto, recusei ajuda política que me foi oferecida por algumas “lideranças comunitárias” e usei apenas o chamado “boca-a-boca” e a distribuição de panfletos na divulgação de minha candidatura. Fui convidada a fazer parte de reuniões e debates com fins escusos e recusei veementemente pelos mesmos motivos supracitados. Teve também a problemática ocasionada pelo uso do tablet no processo eleitoral, sendo que a maioria das pessoas da comunidade, inclusive eu, não tem acesso a esse tipo de tecnologia.

Diante disso, o que restou-me: a última colocação no processo de escolha. Aí eu pergunto: Será mesmo que essa eleição foi justa e igualitária, ou seja, democrática, como deveria ter sido de fato e de direito? Será que para atingir um certo objetivo temos eu nos sujeitar à podridão que atinge as esferas do poder? E aos cidadãos comuns: Quando irão acordar e perceber que estão sendo usados como suportes ou degraus pela elite governamental para alcançar suas metas escusas?

Posso afirmar, embora não tenha provas cabais, de que, aqui na minha cidade, houve favorecimento político a alguns candidatos. Eu mesma ouvi – no momento de votação dentro da escola em que votei – pessoas afirmarem estarem sendo pagas para “trazer” eleitores para o candidato “fulano de tal” e outras afirmarem terem visto ou mesmo aceitarem a “compra de voto” (R$ 50,00 por voto), além da “boca de urna” escancarada na porta da escola e até mesmo dentro dela. Como eu estava preocupada apenas em ser fiel às regras estabelecidas, não gravei nem colhi provas necessárias à acusação formal sobre quem quer que seja, mas fica o meu apelo de que cabe uma investigação mais apurada dos fatos, pois desde o início do processo pessoas da comunidade já me diziam que isso era um “jogo de cartas marcadas”. Eu não acreditei e investi todo o meu tempo e dedicação, contraí dívidas para a confecção do material de propaganda, restando-me apenas um esgotamento físico e emocional muito grande. Se era pra ser esse “jogo de vale tudo”, penso que seria melhor que simplesmente se nomeasse tais pessoas, ao invés de fazer com que a gente passasse por tantos transtornos e desgastes desnecessários.

É lamentável que, em pleno século XXI, e na Capital Federal, ocorram situações tão vexatórias quanto estas, onde o exemplo de retidão e transparência deveria ser visivelmente maior. Infelizmente, estamos suscetíveis a tudo isso, visto que a humanidade ainda é falha e o poder corrompe facilmente aqueles que não têm boa índole ou não seguem padrões éticos.

Gostaria que ficasse registrado esse meu desabafo como forma de protesto e ao mesmo tempo alerta para as eleições futuras. Que o processo se dê de modo mais transparente, justo e igualitário para todos os candidatos em quaisquer regiões administrativas. Que sejam respeitados por igual tanto os votados quanto aos votantes. Fica, portanto, os meus sinceros agradecimentos aos que, ainda assim, conseguiram votar em mim. E, aos que se deixaram “vender”, deixo a seguinte reflexão:

Quando as coisas não acontecerem como deveriam… quando os direitos das crianças e adolescentes forem violados e vocês não puderem cobrar, pois suas escolhas estarão acorrentadas àqueles que pagaram por elas e que, por sua vez, estarão devendo favores políticos e não poderão fazer nada (ou ao menos, nada que incomode àqueles que os “patrocinaram”), então pergunto eu: Quem perde com essa sujeirada? Nossas crianças à mercê dos ditames do poder local.

Eu posso afirmar que saí vitoriosa, pois não me sujeitei a nenhuma espécie de falcatrua ou conchavo político e que nenhum respingo de lama caiu sobre mim. Entrei e saí limpa.

“Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça!”

Mariza Lene Batista Araújo

Brasília, 18 de dezembro de 2012.

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