O PET, Foucault e o fim

Por Marcos Vinícius Lustosa Queiroz   

Imagem“Há momentos na vida em que a questão de saber se podemos pensar diferentemente do que pensamos e perceber diferentemente do que percebemos é indispensável para continuar a olhar e a refletir… O que é, pois, a filosofia – quero dizer a atividade filosófica – se não é o trabalho crítico do pensamento sobre si mesmo. E se ela não consiste, ao invés de legitimar o que já sabemos, em tentar saber como e até que ponto seria possível pensar diferentemente.” (Palavras de Foucault em seu enterro, lidas na voz de Deleuze).

Em poucos dias meu ciclo oficial como petiano acabará. Nesses dois anos, minha vida mudou completamente e de uma forma que eu nunca esperaria. Realmente, não era de se imaginar que um grupo acadêmico pudesse alterar tantas formas de percepção, compreensão e auto-entendimento. O trecho de Foucault, autor mais lido durante toda essa minha experiência no PET, reflete o que foram esses últimos 24 meses: ir até o limite de minhas convicções; até os limites da mudança; abrir-se para o diferente; compreender de maneira diversa e, assim, ser outra pessoa.

Esse processo pedagógico de desconstrução se deu em diversas frentes. Pelo contato profundo e intenso com pessoas das mais diversas orientações; com a leitura de textos que eu nunca encontraria na obtusa grade curricular do curso de Direito; com a ida ao “mundo lá fora”, proporcionado pela prática extensionista na cidade da Estrutural; com o difícil processo dialético de ser tutorado ao passo que se tentava quebrar as mais pesadas bases hierarquizantes da educação; e, sobretudo, pela empatia e pela alteridade, essas intensas formas de tentar compreender o outro em sua completude, sabendo sempre da própria finitude de qualquer processo de entendimento. Essa dor apaixonada de estar com, sabendo que nunca se estará por inteiro, por completo.

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O PET, para mim, nunca caberá no Aquário, nas nossas pesadas reuniões teóricas e nas nossas briguentas reuniões administrativas. Não caberá nos textos, nos formulários, nos relatórios, nas avaliações do CLA. Não caberá no “conhecimento” acumulado ou nas intermináveis conversas de boteco geradas ao ler aquele texto do Agamben. O PET cabe como uma marca que carregarei comigo daqui para frente, que para Foucault era a tarefa da filosofia, mas que hoje entendo como necessária postura perante o mundo: de nunca ficar inteiramente à vontade com o evidente.

ImagemE como demonstrado na biografia de Foucault, não ficar à vontade com qualquer tipo de essencialismo, é necessariamente sair apenas do campo discursivo, da desconstrução retórica de qualquer metafísica. É fazer a práxis real inscrita na própria atuação do filósofo francês; de se engajar nas causas que para mim valem a pena; de testar as convicções e naturalizações na concretude das condições. É seguir o pensamento que o próprio Foucault combatia no âmbito acadêmico: de que o critério da verdade é a prática, ainda que contextualizável, precária e insuficiente. Mas ainda verdade, oras; infelizmente. É testar, aqui e agora, meus dogmas para além do relativismo discursivo. É tomar uma posição para que assim, necessariamente, eu possa também me desconstruir.

Emociono-me ao estar na minha última reunião como petiano e escutar de outros membros, novos e velhos, aquilo que sempre achei que o PET fosse, pudesse ser. Saber que esse processo não se resumiu a minha singularidade; que outros ali, cada qual a sua maneira, compartilharam experiências diversas, mas parecidas. De que o PET, nesse eterno processo de desconfiar e desconstruir individual e coletivo, representa uma alternativa; uma outra forma de pedagogia; de construção. Pois ontologias só são quebradas em contato com o diferente.

Cito, por fim, Graciliano, em sua simplicidade única capaz de reunir passado e presente em poucas palavras, e que consegue expressar o que eu sentia ao entrar no PET e como eu me sinto durante essa fase de minha vida:

“A convicção da própria insuficiência nos leva a essas abstenções; um mínimo de honestidade nos afasta de empresas que não podemos realizar direito. Mas as circunstâncias nos agarram, nos impõem deveres terríveis. Sem nenhuma preparação, ali me achava a embrenhar-me em dificuldades, prometendo mentalmente seguir o caminho que me parecia razoável.”

Como diria outro petiano: PET, você me faz sentir feliz. Vivo. Obrigado por tudo. 

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