Bate-se em um (bom) velhinho: O suplício de Papai Noel

Por Pedro Argolo   

Eu nada sei sobre os intestinos de Papai Noel. Apenas sei que se bate num (bom) velhinho. Quanto sacrilégio. É evidente que Papai Noel tem boca, come, mas não usa latrina.

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Não se deixe iludir: não houve nada mais animador que o Natal de 1951. Insatisfeitas com o que chamavam de uma crescente “paganização” do dia 25 de dezembro, autoridades eclesiásticas denunciavam o afastamento da comemoração de seu sentido tradicional cristão por sua proximidade a um mito sem qualquer significado religioso. Em vez da celebração da data de nascimento do Salvador, havia o culto a uma figura pagã e, inclusive, sua introdução nas escolas públicas, com a consequente remoção dos presépios.

A cruzada contra Papai Noel culminou em seu enforcamento. Os jornais franceses na véspera da comemoração anunciavam que Noel fora queimado no átrio da catedral de Dijon na presença de crianças de orfanatos. Sua barba consumida pelo fogo; Papai Noel se esvaindo em meio à fumaça. O que se viu não foi um mero espetáculo; o (bom) velhinho fora sacrificado em um ato carregado de simbolismos. Os religiosos não sabiam que o (bom) velhinho sempre-já pertence ao altar. Graças ao clero daquela cidade, os moradores poderiam aguardar sua ressurreição no dia seguinte.

ImagemHá um resíduo profanador no altar de Dijon. O Natal devém profanação. A ironia é que a atitude dos religiosos apenas tornou mais explícitos os vínculos arcaicos da comemoração de fim de dezembro. Contra aquelas pessoas que veem na universalização do Natal um mero reflexo do aumento da influência dos Estados Unidos, Lévi-Strauss[1] a percebe como uma “difusão por estímulo”; não uma simples incorporação, mas a catalisação de um costume que já existia enquanto potência. Papai Noel pertence à categoria das divindades; não é mito, lenda tampouco. A diferença em relação a um deus de verdade é que nele os adultos não acreditam; o (bom) velhinho demarca, portanto, uma distinção entre esses últimos e os jovens, de um lado, e as crianças, do outro.

A (não-)iniciação que o Natal imprime às crianças as caracteriza como estando em um estado de privação, de ilusão, definido negativamente, possuindo ainda um caráter positivo. Papai Noel medeia uma relação complementar entre vivos e mortos. Ninguém melhor que aqueles/aquelas que ainda não estão integrados ao grupo, os não-iniciados, para personificar a imagem da morte. A festa dos mortos é, em sua essência, uma festa do(s) outro(s), pois a ideia de um inapreensível não-eu é a que mais facilmente se forma acerca da morte. Não se roga aos mortos; roga-se pelos mortos. Presentes são dados às crianças e sua fé na figura do (bom) velhinho instigada como forma de esconder sua oferta ao além. Sacrifício à arte de viver para não se perceber ser-com as crianças e, assim, ser-para-a-morte. Oferenda religiosa que reforça as separações.

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Monet: Nenúfares

Para que o deslocamento seja eficiente, Papai Noel não pode ter intestinos. Há algo de anti-trágico em nossa relação com a privada. Ela se ergue do chão dos banheiros como “a flor branca do nenúfar” para que aquele/aquela que sobre ela se senta não se veja como corpo, nada mais que corpo finito, que apenas existe para comer e defecar. A privada traz consigo um ideal estético que exclui o inaceitável da existência humana; sublime, enquanto domesticação estética do horrível. Precisa-se dos canos: ver-se diante dos excrementos é confrontar-se com o abismo, é perceber que o luminoso edifício de seres olímpicos criados pelo ser humano para mediar sua relação com o mundo não existe; que é na obscenidade do fora-de-sentido dos ditos que existo como pensamento. Sentado/a na privada, eu nunca estou falando com as paredes.

Eu deliro com(o) Kyle. No episódio nº 10 da primeira temporada do desenho South Park, ele devora antropofagicamente o significado das comemorações natalinas e produz como resultado de seu processo “digestivo” a história de Mr. Hankey, o “cocô de Natal”. Não basta evacuar no caso de Kyle; sua relação com o excremento é diversa daquela dos adultos.

Mr. Hankey sai do banheiro todos os anos e distribui presentes para todos/todas que incluem muitas fibras em sua dieta, não importando a que religião a outra pessoa pertença. A história inventada contrasta com a disputa que se instaura na cidade diante da recusa da população judia a uma representação da cena do nascimento de Jesus Cristo. Eu me interesso pelas alucinações de Kyle: Mr. Hankey é o delírio que medeia sua rasgadura com o mundo. Enquanto atitude (apenas) individual, só poderá surgir no desenho como paródia.

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A atitude de Kyle, no entanto, traz em si a própria possibilidade de Profanação. Freud já salientava que, antes da intervenção no desenvolvimento psíquico do ser humano daquilo que ele chamava “repressão cultural”, a criança se relaciona com suas fezes na forma de brincadeira, dando-as, inclusive, como presente a quem ama. Quando se profana, se está brincando com as separações, que são canceladas ou às quais é dado um novo uso. No momento em que Kyle delira, ele está explicitando e satirizando as separações que se operam no culto natalino. O que é profano não pertence mais aos deuses; foi restituído à esfera dos seres humanos.

Na alucinação de Kyle, não há espaço àquilo que é para-o-consumo. O presente natalino que se consome é destruído e não mais serve ao uso. Deixa de ser brinquedo porque é propriedade. Kyle deseja apenas brincar.


[1] LÉVI-STRAUSS, Claude. O Suplício de Papai Noel. Trad. Denise Bottmann. São Paulo: Cosac Naify, 2008.

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