Linguagem Inclusiv@: O que é e para que serve?!

O seguinte texto é um capítulo do livro “Introdução Crítica ao Direito das Mulheres”, volume 5 da série O Direito Achado na Rua, cujo lançamento será amanhã (30/06/12), das 9h às 12h, no Núcleo de Prática Jurídica da UnB (NPJ), na Ceilândia.[1]

Todas e todos convidadas/os!

Linguagem Inclusiv@: O que é e para que serve?!

Está cada vez mais comum escrever utilizando linguagem inclusiva. Na internet frequentemente encontramos textos escritos com palavras que substituem os radicais de gênero das palavras (letras “a” e “o”) por @, x, as/os, is, etc. Mas afinal de contas, você sabe pra que serve tudo isso? Essas palavras escritas de forma “estranha” buscam retirar das palavras o seu gênero ou incluir nelas ambos os sexos. Num primeiro momento pode parecer besteira, mas neste texto pretendemos mostrar a tod@s/todxs/todos e todas vocês como que através da linguagem construímos todo um imaginário de mundo e de história com os quais nos identificamos e damos sentido a nossas vidas.

Wittgenstein foi um filósofo que dedicou sua reflexão para a linguagem e trabalhou demasiadamente este conceito. Para ele, a linguagem é como um espelho do mundo e vice versa.  De fato, é possível perceber que a linguagem não é apenas uma forma de comunicação: ela é uma expressão cultural de determinada sociedade. Ao nos comunicarmos através de palavras vamos automaticamente construindo imagens em nossas mentes. Assim, é importante percebemos que essa expressão cultural deixa transparecer os inúmeros preconceitos arraigados ao seu contexto. Por exemplo, ao falarmos que “a coisa está preta” com tom pejorativo, estamos imaginando e construindo a ideia de que o “preto” está ligado a coisas “ruins” e negativas. O fato de que muitas vezes a linguagem sexista, racista, misógina e antropocêntrica passa despercebida não quer dizer que ela deixa de reproduzir e reafirmar as desigualdades sociais.

Linguagem inclusiva de gênero é uma opção de linguagem que busca desconstruir duas ideias: 1) a ideia do masculino como universal e 2) o sexismo estabelecido na linguagem.

Vamos por partes. Digamos que uma professora entra em sala de aula e quer dizer “bom dia” para a turma, mas nesse caso só existe um aluno homem dentre quarenta e nove alunas mulheres. Em boa parte dos casos, esta professora vai dizer “bom dia a todos”, certo? Quando a professora opta por usar o plural no masculino para se referir aos alunos (mesmo que sua esmagadora maioria seja mulher) subentende-se que o “normal” é que quando se cumprimenta um homem, cumprimentam-se automaticamente todas as mulheres que/se estiverem presentes.  Por que será que o contrário (usar o plural no feminino, ainda que existam homens no local) não pode ser aceito? As mulheres foram habituadas a se sentirem incluídas nos termos masculinos, mas os homens não conseguem sentir-se incluídos nos termos femininos. Muitos homens chegam, inclusive, a se sentir ofendidos caso alguém se refira a eles utilizando palavras no gênero feminino. Esta é uma construção cultural sexista e machista.

Esse tipo de comportamento ajuda a perpetuar posições hierárquicas desiguais entre homens e mulheres, pois se subentende que o gênero nomeado e destacado na linguagem é o masculino, ficando as mulheres invisibilizadas e relegadas a estâncias inferiores de representação. A prova de que há machismo/inferiorizarão do feminino na construção da nossa língua é a impossibilidade de se utilizar o feminino como universal (no lugar do masculino).

Diante disso, podemos entender que a linguagem não é só importante para a comunicação, mas também para nosso imaginário. Quando falo a palavra “primitivo” (historicamente falando), sem sombra de dúvidas a primeira coisa que me vem a cabeça é um homem, barbudo, peludo, semi-nu vestido apenas com uma canga. Não pensamos numa mulher, de forma alguma, quando ouvimos ou lemos a palavra “primitivo”. Da mesma forma, quando falamos “os advogados acabaram de sair do tribunal”, instantaneamente imaginamos homens de terno, engravatados, com pastas embaixo dos braços, saindo de um tribunal. Por outro lado, quando falamos “os advogados e as advogadas…”, já conseguimos pensar em homens e mulheres que são advogados e advogadas saindo de um tribunal. Percebe como fica mais plural e inclusivo? Em resumo, quando incluo as mulheres na linguagem, consigo incluí-las na imagem que faço desse acontecimento. Assim, a história que se forma em minha cabeça, na situação que crio com a minha imaginação abre espaço para que as mulheres de alguma forma passem a existir e atuar.

Um exercício interessante é tentar passar um dia falando no feminino todas as palavras no plural que possuam gênero. Não que a proposta da linguagem inclusiva de gênero seja impor o feminino como universal, longe disso. Esse exercício serve apenas para percebermos o quanto o sentido de algumas palavras muda com uma simples inversão de gênero. Por exemplo: “Eles são bons” é completamente diferente de “Elas são boas”, não é mesmo? É aí que nos deparamos com o sexismo na linguagem.

Os papéis diferenciados de ocupação na linguagem para os sexos feminino e masculino são reflexo de construções sociais que em todos os espaços estabelecem posições para mulheres (inferiores) e para homens (superiores) que não permitem uma relação horizontal e harmoniosa, pregando sempre a superioridade e domínio de um sobre o outro. A linguagem tal qual nós a conhecemos hoje em dia estabelece que o universal é o masculino, e que no masculino as mulheres são encontradas. Esse pensamento retira das mulheres a condição de sujeitos, deixando-as a margem e sob o véu dos homens, reproduzindo e dando respaldo à sociedade patriarcal e sexista em que vivemos.

A linguagem não é só símbolo, ela é mais, ela representa uma realidade criada por nós, mulheres e homens. A iniciativa de incluir mulheres nas referências orais e escritas, ou seja, na linguagem de uma forma geral, busca gerar uma mudança de mentalidade, pois se entende que só a partir do momento que as mulheres tiverem voz ativa poderão construir uma realidade que as inclua, que as referencie e que permita que elas sejam sujeit@s históric@s.

Nesse sentido, atualmente, está em tramitação, no Brasil, uma lei que obriga os documentos oficiais do governo a se adequarem a linguagem inclusiva, modificando termos misóginos e racistas e alterando os gêneros das palavras para destacar homens e mulheres sempre. A reconstrução da linguagem se apresenta como forma de buscar uma transformação no imaginário coletivo, mudança essa que permitirá as mulheres historicizarem-se e existenciarem-se, gerando um novo tipo de consciência na população.

A linguagem, como a própria cultura, não é estática, muito pelo contrário. A única coisa constante nelas é a mudança. Vale lembrar que foi assim que surgiram várias línguas derivadas do latim, como o próprio português e também é por isso que o português brasileiro é tão diferente do falado em Portugal. O discurso que prega que não podemos escrever fora do padrão “culto” é sustentado pelxs mesmxs que julgam que não podemos modificar a nossa realidade em busca de um mundo mais justo. Sempre que a parcela da sociedade insatisfeita com as idéias hegemônicas se manifesta é comum este tipo de reação dxs satisfeitxs. Este discurso objetiva simplesmente incutir na cabeça dxs excluídxs que as desigualdade são “naturais” e não impostas injustamente.

Outro ataque feito à linguagem inclusiva é de que ela deixa a leitura “feia”. No entanto, é importante ter em mente que a solução para nossos problemas não é passar maquiagem na ferida sem tratar a doença que a causou. Utilizando um conceito histórico, a “higienização” do Rio de Janeiro para chegada da família real não resolveu o problema da pobreza na cidade maravilhosa (e jamais resolveu em qualquer outra parte do mundo). O mesmo vale para o sexismo na linguagem. Não é fingindo que está tudo bem e utilizando uma linguagem muito bem escrita que vamos solucionar o problema de viver em uma sociedade que reiteradamente exclui as mulheres.

Sabemos que não é fácil utilizar linguagem inclusiva, mas ninguém disse que mudar o mundo seria uma tarefa simples. Há muitas maneiras de se falar inclusivamente e é até bom porque variam de acordo com a situação. Na escrita formal, por exemplo, é perfeitamente plausível a utilização de parênteses ou barras para referenciar as duas terminações possíveis das palavras (todos/as, todas/os, elas/es, eles/as – há quem diga que o “a” deve vir na frente por ordem alfabética). Já na linguagem oral, é difícil falar nos dois gêneros sempre, então uma boa saída é falar os dois gêneros nas palavras mais chamativas, como o já famoso “todas e todos” e quando forem as demais palavras, simplesmente escolher em qual dos gêneros vai falar de acordo com a vontade da/o locutor/a e com prévio aviso as pessoas que a/o escutam.

Em textos alternativos e informais, é possível utilizar o “x” ou mesmo um símbolo como o arroba (a+o=@) para destacar que a/o autor/a está atenta/o para a linguagem que utiliza. Também é possível escrever um texto completamente no feminino e com uma pequena nota de rodapé esclarecer as/os leitoras/es sua escolha.

Existem também sugestões para que os homens falem no plural com o masculino e as mulheres no plural com feminino, no mesmo intuito de “obrigado” e “obrigada”, ou seja, como uma regra de etiqueta.

Enfim, existem infinitas possibilidades. O importante é estarmos cientes da importância das palavras e da comunicação na construção da nossa realidade social enquanto mulheres e do nosso papel protagonista na luta constante de combate à imposição do masculino como universal e superior (para além da linguagem).

Só estaremos realmente incluídas na sociedade quando aprendermos a evidenciar a nós mesmas!

*

Longe de encerrar o debate, a intenção do texto não é fazer com que todas as pessoas passem a utilizar a linguagem inclusiva, pura e simplesmente. Para além disso, o objetivo é ensejar a reflexão e o debate, trazendo para a discussão o papel do simbólico no nosso cotidiano, esclarecendo o porquê de várias pessoas acreditarem da importância da língua como parte da luta na desconstrução da sociedade machista em que vivemos.

Você não precisa concordar, não precisa usar; mas espero, sinceramente, que pense, reflita, conteste, e antes, e acima de tudo, respeite.

Por Ana Paula Duque

*O capítulo do livro foi escrito por Ana Paula Duque, em coautoria com Rayane Noronha e Luana Weyl


[1] A versão virtual do livro pode ser encontrada, juntamente com outros volumes da série já lançados, no blog do Direito Achado na Rua: http://odireitoachadonarua.blogspot.com.br/p/publicacoes.html

4 thoughts on “Linguagem Inclusiv@: O que é e para que serve?!

  1. Mas …. Eheheheheh
    Como disse mesmo o pesquisador:
    “a linguagem não é apenas uma forma de comunicação: ela é uma expressão cultural de determinada sociedade.”
    Isso implica que a língua falada de uma determinada nação é consequência direta da cultura, e não o inverso !!!

    Sendo assim, não acho prudente querer transformar uma sociedade culturalmente, mudando Artificialmente a língua falada.
    É a velha história de querer planejar como o ser humano deve viver e se expressar por mecanismos externos, e não naturalmente ou espontaneamente.

    Isso já vem acontecendo aqui no Brasil, e tem correlação direta com a já debatida Ditadura do Politicamente Correto, que sou contra.   É só minha opinião.

  2. Primeiramente, não vou entrar no mérito do uso de @/X/E/IS/etc para se referir diretamente a uma pessoa, no contexto de masculino, feminino, transgêneros, agêneros, intergêneros, bigêneros, andrógenos, etc
    ´
    É sobre o uso do tod@s quando se refere a um grupo genérico de pessoas.

    Então,

    [“Por exemplo, ao falarmos que “a coisa está preta” com tom pejorativo, estamos imaginando e construindo a ideia de que o “preto” está ligado a coisas “ruins” e negativas.”]

    Eu ia dizer algo a respeito disso, mas me deu BRANCO… deve ser porque ainda estou muito VERDE sobre o assunto, ou então eu sou um menino AMARELO. Não sei… ultimamente estou muito confuso, pois a minha conta bancária está no VERMELHO. Enfim, eu tinha uma ótima observação pra fazer, mas, infelizmente, vai passar em BRANCO.

    Por quê será que o texto omitiu que existem frases com sentido pejorativo utilizando TODXS / TOD@S / TODIS / TODES / TOD%S / TOD{S / TOD>S / TOD#SA as cores? Inclusive o BRANCO? Qual a necessidade em fazer um argumento tão desonesto ao se utilizar apenas PRETO?

    [“Por que será que o contrário (usar o plural no feminino, ainda que existam homens no local) não pode ser aceito? “]

    Quem disse que não pode???????

    [“(…)mas os homens não conseguem sentir-se incluídos nos termos femininos. Muitos homens chegam, inclusive, a se sentir ofendidos caso alguém se refira a eles utilizando palavras no gênero feminino.”]

    Mentira.

    É tudo uma questão de bom senso. Em uma sala de aula há 49 mulheres e 1 homem. É ÓBVIO que neste caso o mais adequado seria a professora falar “Bom dia a todas”. É claro e evidente que com uma maioria de mulheres, generalize pro feminino. É uma questão de bom senso.

    Agora, se tem meia dúzia de idiota que “não aceita” e “sente-se ofendido” porque não tem bom senso, não valida automaticamente esta idéia estapafúrdia do uso de @/E/IS/#/*.

    Foi o segundo argumento desonesto.

    Quando se diz “Bom dia a todos”, ninguém está construindo nesse momento uma imagem mental de vários homens. O “Bom dia a todos” é um cumprimento, e a mente vai rapidamente interpretar o significado da frase como um cumprimento, como se fosse um “Bom dia”. No contexto de algum estar fazendo um simples cumprimento a uma platéia, ou até mesmo escrevendo um texto, o processo mental vai fazer uma significação do mesmo nível em que a pessoa dissesse “Olá”

    A teoria da conspiração que o uso da palavra no masculino vai embutir subliminarmente na cabeça das pessoas um algorítimo misógino-machista-opressor que se perpetuará e irá controlar a humanidade é ridícula, para não dizer, novamente, desonesta.

    [“(…)quando falamos “os advogados acabaram de sair do tribunal”, instantaneamente imaginamos homens de terno, engravatados, com pastas embaixo dos braços, saindo de um tribunal.”]

    A depender do contexto, pode sim ser apenas homens que saíram do tribunal. Mas, também a depender do contexto, dá parar saber que são advogad@/#/*/&/s tanto homens quanto mulheres. É sabido comumente que existem advogados homens e mulheres. Se no contexto da fala não deixou explícito que são apenas homens, é mentira afirmar que o processo mental vai construir a imagem apenas de advogados homens.

    Continuando:

    Vamos usar a frase AS PESSOAS SAÍRAM DE SUAS CASAS PARA PROTESTAR

    Por mais que haja a presença do artigo feminino (A), e que PESSOAS seja um substantivo feminino, ainda assim, consegue-se imaginar homens e mulheres. Alguém que crie uma imagem mental que não considere o contexto e que seja orientada apenas pela presença dos elementos artigo/gênero da palavra, possui problemas cognitivos, o que não é a maioria dAs pessoAs. Opa? Será que essas pessoas que disse agora são apenas mulheres? Meu Deus! Não consigo criar uma imagem mental de homens e mulheres, porque eu estou vendo “AS” e “pessoAs”!!! As letras estão controlando minha mente!! Socorro!!!

    Mais uma desonestidade ao ignorar casos em que ocorre o uso de substantivos femininos para designar um grupo genérico de pessoas, não importando gênero, raça, nem mesmo orientação sexual.

    Vou passear na praça no domingo e uma emissora de TV realiza uma matéria dizendo que “Várias pessoas foram passear na praça neste domingo.” Provavelmente não vai haver um grupo de homens revoltados porque foram referidos como [umA pessoA].

    [“O discurso que prega que não podemos escrever fora do padrão “culto” é sustentado pelxs mesmxs que julgam que não podemos modificar a nossa realidade em busca de um mundo mais justo. Sempre que a parcela da sociedade insatisfeita com as idéias hegemônicas se manifesta é comum este tipo de reação dxs satisfeitxs. Este discurso objetiva simplesmente incutir na cabeça dxs excluídxs que as desigualdade são “naturais” e não impostas injustamente.”]

    Forçada de barra à enésima potência. Quem discorda é demonizado. E no final o texto ainda diz “o objetivo é ensejar a reflexão e o debate”. Que reflexão? Que debate? O texto já se coloca no pedestal da virtude, deprecia e aponta o dedo incriminador para quem discorda.

    É muita desonestidade querer problematizar e “desconstruir” uma regra gramatical, que possui sim flexibilidade para ser modificada com bom senso e de acordo com o contexto, alegando que seu uso produz imagens mentais que reproduzem e mantém desigualdades. Se não for desonestidade, é falha grave em focar no que seja relevante para a luta contra a desigualdade. Ou então é lunatismo.

    Novamente, se numa sala de aula há uma proporção próxima entre homens e mulheres, alguém diz “Bom dia a todas”, e um homem fica inconformado com isso, ele é um idiota. E a ocorrência de alguns idiotas não torna automaticamente válida e legítima essa invenção do Professor Pardal.

    Enfim, não concordo, não uso, mas respeito quem use. Salvo se seu uso seja defendido como uma alternativa, e não como uma imposição de mudança gramatical.

    Espero que, como querem respeito, sejam coerentes, aceitando a opinião contrária, ao invés do simplório exercício maniqueísta de se posicionar como o bem e classificar quem pensa contrário como mal. Coisa que o texto faz e falsamente se abre ao debate.

  3. Os dois comentários anteriores (Bruno e anônimo) foram extremamente brilhantes.
    Hoje se fala em em inclusão, mas o que há é a formação de uma ditadura, a qual nos nos impõe até a forma de falar goela abaixo !
    Ora, se na prática o gênero vai além do sexo biológico, por que na gramática se confunde gênero gramatical predominante com sexo masculino ?

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