Por que a língua portuguesa não é machista

Quando criança, eu nunca gostei de quando minha mãe se referia a mim e ao meu irmão como “vocês”, a não ser quando era para elogiar, porque aí tudo bem. O problema era quando um de nós fazia algo de errado e ela acabava brigando com os dois, no plural. Se sua mãe não tinha essas manias, você certamente teve professores que o fizeram, como naqueles momentos mais que enfadonhos quando a sala inteira era obrigada a ouvir galhofas sobre o que alguns poucos, ou apenas um aluno fizera de errado.

São duas as coisas que me incomodam tanto quanto ouvir os sermões da minha mãe ou dos meus antigos professores. A primeira delas é dar à linguagem um caráter metanarrativo, que é diferente do meu discurso; a segunda, é negar minha individualidade, ou, em outras palavras, fazer com que toda minha forma de pensar, que é diferente, ou apenas minha, seja restrita à estrutura da língua e não ao modo como penso, embora concorde com um pensamento aqui e outro ali, porque, convenhamos, é um pouco difícil ser totalmente original.

Como diz o título, estou me referindo à linguagem inclusiva. O nome remete à inclusão das mulheres num discurso (ou metadiscurso?)[1] no qual elas eram desde sempre excluídas, de acordo com essas próprias mulheres. Nossa língua, com quase nenhum resquício do gênero neutro (como os pronomes “aquilo” e “isto”), sempre deu mais ênfase ao gênero masculino. Quando, por exemplo, nos referimos a um homem e a uma mulher, nós usamos o pronome pessoal “eles”, mesmo se forem duas mulheres e apenas um homem.

Uma breve retomada ao aspecto histórico da língua pode nos responder por que o português tem preferência sobre as desinências masculinas às femininas. A língua portuguesa foi-se transformando a partir do latim (ou, especificamente, do latim vulgar, conhecido como sermo vulgaris), que possui o gênero neutro além dos outros dois. Quando declinamos os pronomes pessoais is, ea, id (ele, ela, isso), temos no caso ablativo: eo, ea, eo (para ele, para ela, para ele); no genitivo plural: eorum, earum, eorum (deles, delas, deles), sem citar os casos genitivo singular e dativo, nos quais as três declinações de gênero são iguais (ejus, ei, respectivamente).

Outros exemplos como o adjetivo “bom” (bonus, -a, -um) tornam mais explícita a semelhança. No genitivo: boni, bonae, boni (de bom, de boa, de bom), como em “de boa vontade”, bonae spontis; no ablativo: bono, bona, bono (para o bom, para a boa, para o bom), em “para o bom menino”, bono puero. E os exemplos são quase inesgotáveis. Os idiomas vindos do latim suprimiram o gênero neutro pois o gênero masculino já cumpria sua função. Assim, ao invés de se usar o neutro para se referir a duas pessoas de gêneros diferentes, utiliza-se, portanto, o masculino.

No idioma holandês não existe essa diferença entre os pronomes pessoais relativos à maiorias ou artigos masculinos e femininos (quando há um homem e duas mulheres, diz-se “zij” – pronuncia-se zéi, sendo o contrário também verdadeiro). O verbete “de” é utilizado para se referir tanto à “de man” (o homem) quanto à “de vrouw” (a mulher); do mesmo modo, “het” relaciona-se aos substantivos neutros, como em “het strand” (a praia). O plural de todas as palavras, masculinas, femininas e neutras é representado por “de”, como em “de kinderen” (as crianças) ou “de huizen” (as casas).

O bom de tudo isso é que, desde a criação do idioma holandês, o uso do mesmo artigo para o singular e o plural, ou masculino e feminino, nunca foi sonoramente estranho a seus falantes pelo simples fato de as pessoas não terem tido tempo de se acostumar com o contrário. Poderíamos até pensar em usar outras vogais para nos referirmos a homens e mulheres no português, mas soaria tão estranho que o bom senso me leva a acreditar que as pessoas nunca se acostumariam com isso – em outras palavras, não daria certo.

Idiomas como o português, o francês e o italiano[3] dão relevância às desinências masculinas sobre as femininas pois vieram do latim, como já explicado. A justificação do “machismo” por trás da língua portuguesa viera daí, uma vez que a sociedade romana era rigidamente patriarcal (centrada na figura do paterfamilias), embora também o fossem os países de língua inglesa, onde a figura do homem também representava o núcleo familiar e social, enquanto a mulher se ocupava dos afazeres domésticos e dos filhos. Apesar disso, a língua inglesa não faz qualquer distinção de gênero a partir de maiorias – quando há duas mulheres e um homem, usa-se o pronome “they”, como no caso do idioma holandês.

A Holanda foi, curiosamente, um dos primeiros países do mundo a conferir o direito de voto às mulheres, em 1917. Apesar disso, a Rússia, cujo idioma se utiliza de pronomes diferentes para o masculino (Он), feminino (Онa) e o plural (Oни), dando prioridade ao masculino, também o fez logo no mesmo ano durante a Revolução Bolchevique. Nos Estados Unidos, a luta pelo direito de voto das mulheres começou em 1848, tendo sido “concretizada” apenas em 1920, quando foi aprovada a Emenda Constitucional nº 19 e 36 dos 48 estados americanos tiveram de ratificá-la. Estados conservadores como o Mississipi só a ratificaram décadas depois, em 1984.

E por que falar do voto? Ora, se o voto não é uma das expressões sociais mais significativas? Foi o voto que deu às mulheres maior possibilidade de serem ouvidas no âmbito político e social, além de fazer valer suas vontades como as dos homens, ainda que de modo restrito, pois as leis não abrangem de todo o pensamento das pessoas. O fato é que usei desse exemplo para dizer que não, a estrutura da língua não pode limitar o modo de pensar de uma sociedade ou de um indivíduo.

O voto não diz que não haja machismos na sociedade pelo fato de ter sido concedido o direito de voto às mulheres e sim que há uma parte daquela sociedade que não é machista. Apesar de lados diferentes contemplarem a mesma língua, há pessoas que são machistas e pessoas que não o são. O caso se torna mais explícito quando analisamos o aspecto da língua sobre as colônias que receberam o idioma do país colonizador como seu. Dentre elas está a Nova Zelândia, colônia inglesa e o primeiro país do mundo a dar o direito de voto para as mulheres, em 1893!

Tal como minha mãe e meus professores ao desconsiderarem o comportamento dos demais alunos, dizer que a estrutura das palavras oprime pelo simples fato de dar relevância para as desinências masculinas em prol das femininas (lembrando mais uma vez que o português não possui desinências neutras e, mesmo se houvesse, elas se pareceriam bem mais com as masculinas, pois “aquilo” ou “isto” terminam com “o”) é dizer que há um metadiscurso específico por trás da fala de cada pessoa, um metadiscurso que exclui, mesmo sem querer, a intenção do locutor.

Em outras palavras, é dizer que tudo o que eu penso ou acredito é condicionado pela forma como a estrutura de uma frase se constrói e não pelo modo ou o contexto em que a uso. Se assim o fosse, não poderíamos jamais dizer que alguém usou de algum contexto ironicamente, embora eu não entenda muito de ironias, pois estaríamos analisando apenas a estrutura semântica/sintática da frase, deixando de lado toda a intenção por trás do discurso.

Um dos meios criados para contornar essa “opressão” é citar as desinências femininas separadas por algum sinal junto às masculinas, embora as femininas, na maioria das vezes, estejam sempre a frente, como exemplo, dizer “as/os alunas/os” ou até usar “x” e “@”, como “alunxs” e “alun@s”. O grande problema disso é que a maioria das pessoas não consegue terminar de ler uma frase inteira assim sem se cansar, conquanto a maioria dos textos do Direito consiga fazê-lo sem ter que se utilizar de repetições desnecessárias, apesar de também fazer uso dessas mesmas repetições.

Admito que a ideia por trás da linguagem inclusiva é das melhores, mas que é praticamente, para não dizer de todo, intangível em nosso idioma. Nos acordos ortográficos que promovem mudanças na língua portuguesa é sempre tomado bastante cuidado ao se suprimir acentos gráficos, deixando a fonética quase sempre inalterada, uma vez que é de conhecimento geral que a palavra começaria a soar de forma estranha e o termo logo cairia em desuso, podendo o acordo ser, inclusive, desconsiderado por seus falantes.

Há algum tempo, li um manual muito interessante sobre o “uso não sexista” da língua portuguesa, o que concilia bem os dois lados, tanto das feministas, quanto dos demais leitores que não precisam se cansar para terminar de ler um texto. O único detalhe é que, embora seja uma ótima proposta, talvez as pessoas não estejam acostumadas a substituir um “os habitantes nunca estão contentes com o transporte” por “nunca se está contente com o transporte”, por uma simples questão de praticidade, como exemplo do próprio manual – a mesma praticidade que transformou, sucessivamente, o “vossa mercê” em “você”.

Por fim, podemos substituir palavras como “os juízes” por “poder judiciário” ou “os assessores” por “a assessoria” sem quase nenhuma dificuldade. Talvez o fato demandasse algum tempo para que as pessoas se acostumassem, mas, antes de tudo, devemos entender que o discurso nunca é realmente neutro e que a linguagem nunca fala por si só, principalmente em uma sociedade tão multicultural como o Brasil do século XXI. No caso americano, a sociedade possuía costumes diametralmente opostos entre o norte e o sul, como no caso do Mississipi, e ainda assim compartilhavam do mesmo idioma, que não faz distinção de desinências. Podemos dizer, então, que o inglês retratava o machismo do sul nas regiões do norte? A resposta fica por sua conta.

Não podemos negar que existem prerrogativas em uma fala, embora elas não se refiram a um contexto estranho ao conhecimento do locutor, mas, sim, a cada pessoa separadamente (com todas as suas implicações históricas e sociais). Tomar tal premissa como certa é fazer justamente o contrário do que a linguagem inclusiva propõe, que é descaracterizar a expressão por trás da fala de cada pessoa, como as próprias leis o faziam ao tentar calar os anseios de tantas mulheres, que foram pouco a pouco garantindo seus direitos através do voto, principalmente o direito de poderem se expressar sem que suas falas estivessem ligadas a um discurso característico daquela mesma sociedade machista que ainda deixa seus resquícios por entre os tempos.

Marconi de Paiva Lenza


[1] Uso o termo “metadiscurso” no sentido de um discurso além do discurso. Um discurso que é estranho ao meu, como dizer que minha fala é machista (metadiscurso) por usar “Bom dia, alunos”, querendo me referir a todas as pessoas presentes na sala (meu discurso). Reparem que minha intenção não foi negar o fato de que nossas ideias são condicionadas pela convivência no mundo e com outras pessoas, mas tão somente criticar a premissa de que a estrutura de uma língua pode falar por si própria conquanto a intenção do falante é desconsiderada.

[2] Declinar uma palavra significa flexioná-la de acordo com a função que ela exerce numa frase (caso). Por exemplo: regina (rainha) é escrito assim quando exerce a função de sujeito ou predicativo do sujeito. Se fosse um objeto direto, seria escrito como reginam (regin – radical; am – desinência do caso acusativo singular, que representa os objetos diretos). Nautae reginam vocabant (Os marinheiros chamavam a rainha).

[3] Na linguagem do dia-a-dia, usa-se comumente o pronome “loro” para se referir ao plural. No entanto, a literatura italiana, principalmente tradicional, do mesmo modo que faz uso do passato remoto no lugar do passato prossimo, apesar de possuírem o mesmo significado, também se utiliza de pronomes como “egli” (ele) ao invés do “lui“, “ella” (ela) no lugar de “lei” e, por fim, “essi” (eles) e “esse” (elas) ao invés do pronome “loro” (eles), que não faz distinção de gênero na referência.

11 thoughts on “Por que a língua portuguesa não é machista

  1. Excelente texto, Marconi! De fato, muito bem escrito. Porém acredito que haja alguns equívocos quanto ao objetivo geral da linguagem inclusiva e do feminismo de forma geral. Em primeiro lugar, acredito que, na realidade, o objetivo maior da linguagem inclusiva não é mudar a língua portuguesa, nem acusar as pessoas que usam a desinência masculina de intencionalmente estarem oprimindo ou desclassificando o gênero feminino. Na verdade, a proposta relaciona-se com a concepção grega de “Espanto”, ou seja, espantar-se com o comum. E com que finalidade? Oras, é através do “espanto” que começamos a nos questionar e é esse questionamento a intenção primordial de qualquer discurso que seja essencialmente progressista. Assim, quando se diz “Boa noite a todas e todos”, a intenção não é acusar aos outros de suprimirem as mulheres no todos, mas sim causar uma reflexão geral acerca das relações de gênero. Incomoda? Sim, quase tudo que traz um questionamento metafísico incomoda. É efetivo? Não sei, não me sinto na propriedade de julgar. A origem da língua, como você mesmo mostrou, é machista, uma vez que data de uma sociedade patriarcal e a reflexão, mesmo que sem resultados, já é algo positivo. Em segundo lugar, não considero o direito à voto suficiente. Embora tenha sido um avanço, o pior tipo de preconceito ainda é aquele que está implícito no cotidiano… Aquele do tipo “Eu não sou contra gays, mas se meu filho fosse…”. Quando uma mãe manda as filhas lavarem a louça porque são mulheres, quando as amigas julgam que uma delas porque ela ficou com mais de um na balada… esse tipo de comportamento é o que mata a igualdade de gênero a cada dia, a cada hora, a cada minuto que se passa, lentamente e sem misericórdia. As pessoas costumam exaltar a sociedade atual como se estivéssemos próximos de alguma utopia, mas estamos bem longe disso e isso deve ser lembrado para que possamos melhorar.
    Por fim, acho que as últimas dicas no seu texto são bem plausíveis. Eu mesma sempre tento substituir a designação das pessoas por “pessoal”, palavra que considero bastante inclusiva. Acho a linguagem inclusiva um tanto cansativa sim, mas acho importante colocá-la em alguns casos e não me incomoda utilizá-la, a não ser que venha com “x” e “@”, porque assassinar o português também já é demais.

    • Nay, muito obrigado pelo comentário! Essa questão do “espanto” é realmente interessante e acho que ela mostra a que se propõe quando é falada, ao contrário da forma escrita. Eu já vi muitos casos em que, não só eu, mas várias outras pessoas mal conseguiam terminar um texto cheio de barras e x’s. É realmente muito cansativo…

      No mais, devo ressaltar uma coisa: eu não coloquei mesmo o direito de voto como condição suficiente. Na verdade, só quis mostrar que, pelo direito de voto, havia disparidades dentro das sociedades. Então, como que uma língua (ou sua estrutura) pode condicionar o modo de pensar de uma sociedade inteira se todas as línguas vieram de sociedades machistas, mas, ao contrário do português, o inglês não dá preferência ao gênero masculino em prol do feminino, usando o “they”, que mais se assemelha ao neutro?

      O centro da minha defesa foi que as línguas possuem uma construção/passado linguístico diferente, o que não tem nada a ver com falta/excesso de machismo na sociedade – uma vez que AMBAS vieram de sociedades machistas.

      Ou seja, dizer que o português é machista porque dá preferência à “eles” quando há duas mulheres e um homem é uma premissa das mais falsas. Eu mostrei, historicamente, como o português se assemelha ao latim, língua de que se deu sua origem. Em Roma, eles realmente não tinham essa preocupação de incluir as mulheres nos discursos, tanto porque elas não participavam da política, mas no Brasil, a questão é completamente estilística.

      Não há um gênero neutro no português porque ele foi suprimido (mostrei que ainda há resquícios dele). Então, ao invés de usar o neutro para plurais coletivos, como seria o sensato, usa-se o masculino porque, como mostrei nos vários exemplos do latim, ele é o mais próximo do gênero neutro e acabou tomando seu lugar.

      É isso! Grande abraço!

  2. Vou fazer um comentário resguardando a ideia geral do texto, que é: a intencionalidade do locutor é o que importa num discurso e não uma meta-intencionalidade supostamente presente na língua que reflete o machismo da História.

    Eu vi em um site dizendo que a língua era machista porque:

    “Cachorro: o melhor amigo do homem
    Cachorra: puta

    Bonequinho: brinquedo
    Bonequinha: puta”

    Dentre muitos outros.

    Ora, quando falamos em tom pejorativo, é claro que “cachorra” soará como “puta”, esse foi um dos significados dados a palavras dentre os tempos.

    Se alguém quer dizer para ofender: “Sua cachorra!”, certamente soará pejorativo.

    Se alguém disser: “Minha cachorra mordeu todos os móveis de casa”. Ninguém, em sã consciência, pensaria que uma garota de programa mordeu os móveis da casa da pessoa.

    Do mesmo modo, se alguém disser: “Minha filha está brincando com sua bonequinha”. Por favor, não pensem que ela está brincando com uma prostituta.

    Enfim, a intencionalidade vem antes da palavra. A palavra é um meio para expressar essa intencionalidade. A imaginação nunca é limitada pela linguagem, nem a forma como vemos o mundo. Se assim o fosse, todo e qualquer pintor/escritor/poeta estaria fadado, pois não poderia mais criar.

    A questão psicanalítica sobre a linguagem do consciente e do inconsciente (Carl G. Jung) afirma não apenas que essas linguagens são diferentes, mas também tem tempos e espaços diferentes. Como exemplo, como descrever perfeitamente um sonho?

    Esse é o único exemplo que consigo pensar sobre como a linguagem pode limitar nossa expressão, jamais nosso mundo.

    O plano do simbólico deve ser considerado a partir da intenção do locutor, nunca fora dela.

    • Só mais um comentário, agora em relação à seu adendo aqui embaixo: Além disso, “cachorro” também pode ter uma conotação negativa. Do mesmo jeito que se um indivíduo vocifera “Sua cachorra!” para uma mulher a ideia transmitida pelo vocábulo é negativa, se esse mesmo indivíduo berrar “Seu cachorro!” para um homem a ideia seria bem distante da de “Você é o melhor amigo do homem!”. Nesse caso, a conotação também seria negativa e se aproximaria bastante do sentido de palavras como “cafajeste” e mesmo da conotação negativa de “cachorra”.

  3. Muito bom texto, Marconi! Esse é um assunto do qual eu tenho pouco conhecimento, então seu artigo me ajudou a ver a situação com mais clareza e menos parcialidade, já que somos constantemente bombardeados por informações que apenas glorificam a linguagem inclusiva, não levando em conta a falta de praticidade dela. Poucos são os que se aventuram a ir contra aquilo que é supostamente “inclusivo” e, muitas vezes, esses poucos acabam edificando argumentos mais sólidos do que aqueles cuja opinião baseia-se tão-somente numa ideia de que há um preconceito (que pode existir de fato ou não) a ser combatido. Talvez nunca saibamos qual dos lados tem mais razão neste caso específico, mas argumentos bem-estruturados como o seu fomentam o diálogo produtivo e contribuem para a descoberta de soluções. Como disse, não conheço muito o tema, mas seu texto me ajudou a refletir mais sobre ele e a questionar ambos as linhas de argumentação. Parabéns!

    • Realmente, Caique. Você levantou dois pontos interessantes. Não há como a linguagem inclusiva possuir efetividade, já que um homem com um discurso machista pode muito bem se usar dela (uma linguagem pretensamente neutra) e continuar com um discurso agressivo e excludente – depois dizem que não se separa discurso/linguagem de estrutura/palavra. Até você fazer quem pensa o contrário entender isso… (nem tente!). Além de incluir só quem está disposto a ler aquelas frases maix qux chatxs (e iss@ nã@ é uma @pinião @penxs minhx), ela exclui, por consequência, quem não está. Não lembram que a língua é uma questão prática! Se o preconceito com a mulher se manifesta, com certeza não é na palavra, mas na forma que a palavra é veiculada. As feministas têm é que mudar a mentalidade das pessoas, não a nossa língua! mas não sei como pretendem isso já que nem elas são abertas ao diálogo (apesar de dizerem o contrário). A outra é a questão do “cachorro”, muito bem colocada, que só reafirma a primeira ideia. Há pouco vêm discordando da minha explicação dizendo que eu ignoro o plano do simbólico, o que não é verdade. Um símbolo tem vários significados – afinal, a palavra também é um símbolo e sabemos que ela não guarda apenas um significado. Agora como saber o seu significado de fato? Ora, analisando o contexto, o conteúdo, a intenção do locutor e por aí vai. Para entender isso é necessário apenas uma coisa: estar aberto ao diálogo (que pressupõe convencimento). Eu mesmo ouvi pessoas que só leram o título e me disseram, de pronto, “vou discordar”. Não se entra numa discussão assim… A não ser para reafirmar o ego. No mais, obrigado pelo comentário!

      • Marconi,

        Em nenhum momento o movimento feminista nega que é necessário mudar a mentalidade das pessoas. Ninguém discorda que linguagem inclusiva pode ser utilizada para veicular concepções nada inclusivas.

        A questão da luta está mais ligada ao desvelamento de situações que se encontram normalizadas ou ocultadas também pela língua, e, além disso, ao anseio das mulheres de se referenciarem de forma autônoma e livre dentro da linguagem através da qual constroem suas narrativas, comunicam-se e discutem no espaço público.

        A linguagem é elemento constituinte do discurso e, como você disse, o discurso está sempre dentro de um contexto, havendo uma relação entre ele e a estrutura social. Citando um autor, pois acho muito pertinente, ele diz: “O discurso contribui para a constituição de todas as dimensões da estrutura social que a moldam e a restringem direta ou indiretamente: suas normas e convenções, assim como as relações, identidades e instituições que se encontram por trás destas. O discurso é uma prática não apenas de representar o mundo, mas de fazê-lo significar, constituindo e construindo o mundo com base em significados” (Fairclough).

        É através dela que interagimos no mundo e, para além de uma estrutura funcional entre vocábulos, a linguagem é uma construção social, e as palavras sempre possuem um conteúdo que encontra referência nesse contexto e há, evidentemente, um conteúdo que é compartilhado entre os membros da sociedade, mesmo quando há diferenças entre indivíduo sobe esses significados.Ou seja, a palavra pode ter inúmeros significados, mas há um que prevalece para cada contexto na qual ela é utilizada. Assim, sabemos que cachorro e cachorra podem tão somente se referir ao animal, como podem ter conotação negativa quando se referem às pessoas. Mas, vejamos outro exemplo: pegador/pegadora. Quando falamos que um homem é pegador, para a maior parte das pessoas, isso é positivo; porém, ao falarmos que uma mulher é pegadora, ela com certeza será chamada ou de cachorra ou de galinha pela maior parte das pessoas. Essa interpretação é inata à língua? Certamente que não. Mas as palavras, a linguagem, não existem fora do contexto social e seus significados fazem parte de sua estrutura. Aí está não apenas a função representativa da linguagem, bem como sua função constitutiva, a atribuição de significado ao mundo.

        Nessa dupla função de elemento que representa/constitui é legítimo que as mulheres queiram dentro de seus anseios se fazer representadas, possibilitando que nessa atuação de construção de significados ao mundo ela possam estar também representadas. Para além disso, não vejo sentido em fazer uma análise linguística da questão e tentar separá-la da questão social que subjaz: é natural que não basta mudar a linguagem, é preciso mudar várias outras coisas. Porém, as próprias regras linguísticas são fruto de decisões políticas, e você questiona a questão do inglês, afirmando reiteradamente que ele não é machista. As feministas já encamparam várias lutas e conquistaram algumas: o pronome de tratamento Ms., que substituiu Miss/Mrs., a mudança nos substantivos referentes às profissões (policeman passou a ser police officer), pregam a utilização do termo herstory ao invés de history, enfim, há várias pautas do movimento feminista por lá que, sinceramente, acho que merecem ser consideradas, afinal, ninguém melhor que as sujeitas da opressão para determinar se uma língua é ou não um reflexo/barreira da luta por igualdade.

        Por não ser possível desvincular linguagem e sociedade, não há como pensá-la estática. Já na década de 90 a pauta da linguagem inclusiva era levantada, e, mesmo após todo esse tempo, os pontos não foram considerados por aqui quando da reforma ortográfica. Mero preciosismo linguístico? Acredito que não.

        A linguagem como meio do discurso, pode tanto reproduzir a sociedade ou promover mudanças. Mudar uma simples palavra pode ter um efeito revolucionário: a luta para que o problema de violência doméstica fosse debatido na esfera pública enquanto um problema social, público, foi alcançado a partir da mudança do termo que identificava tal conduta – o que era antes “bater na esposa” passou a ser “lesão corporal contra a mulher”. Ou seja, associando um termo ligado às condutas criminais iniciou-se o movimento que retirou a questão da arena de assuntos privados para a arena de discussão de assuntos públicos.

        Não se esqueça que a linguagem não está apenas na fala entre interlocutores: ela está nas narrativas históricas, em documentos oficiais e em diversos outros textos e discursos onde não é possível essa análise casual que você propõe, sobretudo em relação aos textos oficiais, sejam eles decretos, normas, diretrizes, ou qualquer outro diploma administrativo/legal.

        Por fim, acho que é necessário lembrar que a linguagem não é autônoma, ela depende de nós para que exista. Ela por si só não faz diferença alguma, mas ela pode abrir caminho para que transformações ocorram.

        A própria preocupação de linguistas homens (nunca vi um texto de uma linguista mulher se opondo à linguagem inclusiva) em defender que a língua não é machista com base em argumento “técnicos” oriundo do campo da linguagem talvez seja um reflexo das relações simbólicas que não aceitam/suportam/compreendem a luta das mulheres para alcançarem a igualdade também na linguagem e elas nem pedem muito. Pedem que a discriminação de gênero seja eliminada das línguas, e não obrigam, e nem mesmo pedem, para que as pessoas utilizem x, @, is: é uma sugestão, o que elas pedem é que, no mínimo, as pessoas tenham consciência da questão e considerem o movimento, nem que seja por uma nota de rodapé, dizendo que reconhecem que há discriminação de gênero mas que, por questões estéticas (menores) irão utilizar esse ou aquele gênero ao longo do texto, da fala, ou vão alternar aleatoriamente.

        Não é uma questão meramente estilística. Está se reproduzindo uma situação de opressão secular, e, mesmo quando há um debate público sobre a questão, há insistência de afirmá-la apenas como uma preferência linguística, já que o gênero masculino foi utilizado para marcar o gênero neutro, se aproximando dele. Mero acaso? Claro que não.

        Acho que o ponto fraco da sua argumentação é querer justificar que o inglês, oriundo de uma sociedade machista, não possui traços de machismo e, partindo daí, afirmar que o português não o seria, sendo mero acaso linguístico a utilização do masculino como neutro. (“O centro da minha defesa foi que as línguas possuem uma construção/passado linguístico diferente, o que não tem nada a ver com falta/excesso de machismo na sociedade – uma vez que AMBAS vieram de sociedades machistas.”)

        Desde as primeiras discussões sobre o texto venho olhando websites de movimentos feministas em países de língua inglesa. As mulheres possuem várias reivindicações e lutas no contexto da linguagem inclusiva nesses países, alcançando várias vitórias. E, como disse, nada melhor que as sujeitas da opressão para apontar se há ou não opressão.

        Sobre a questão da psicanálise e intencionalidade, acho que falei tudo que tinha para falar no grupo de e-mails. Fica até a sugestão do texto que o Argolo lembrou, do Walter Benjamin, que fala sobre a situação dos soldados que retornavam da primeira guerra.

        Enfim, não sou especialista em linguagem, mas tá ae minha opinião.

        Abraços

  4. Muito pertinentes seus comentários, Diego. Isso que você falou me confunde: o que o movimento quer não é impor o uso de x, @ etc. O problema é que o movimento é por demais descentralizado. Quando eu critico uma parte, vem outra me dizendo que o movimento não diz isso, mas alguns integrantes. Por fim, isso me deixa confuso.

    Mas deixa eu responder aqui, gostei muito do seu comentário.

    Eu concordo com quase tudo que você disse! mas isso só reforça minha ideia de que temos que mudar a mentalidade das pessoas e não a língua. Temos que fazer as pessoas tirarem esses significados pejorativos que !elas colocaram! nas palavras por preconceito. Quando o preconceito não mais existir, nem precisaremos nos remeter a esses significados, deixando as palavras intocáveis.

    Dois destaques: “Não é uma questão meramente estilística. Está se reproduzindo uma situação de opressão secular, e, mesmo quando há um debate público sobre a questão, há insistência de afirmá-la apenas como uma preferência linguística, já que o gênero masculino foi utilizado para marcar o gênero neutro, se aproximando dele. Mero acaso? Claro que não.”

    Não é mesmo mero acaso. “(…) a razão pela qual usamos o gênero masculino para nos referir a homens e mulheres não é ideológica, mas fonética. Em latim, havia três gêneros – masculino, feminino e neutro –, cujas terminações mais frequentes eram ‑us, ‑a e ‑um. O chamado gênero complexo, que agrupa substantivos de gêneros diferentes, era indicado em latim pelo neutro.

    Quando, por força da evolução fonética, as consoantes finais do latim se perderam, as terminações do masculino e do neutro se fundiram, resultando nas desinências portuguesas ‑o e ‑a, características da maioria das palavras masculinas e femininas, respectivamente. Ou seja, o nosso gênero masculino é também gênero neutro e complexo. Portanto, não há nada de ideológico, muito menos de machista, na concordância nominal do português.” (Aldo Bizzocchi)

    Além do mais eu mostrei no meu texto porque elas se fundiram – devido a sua enorme semelhança. Apesar de não conhecer de todo, mas comparando o que já conheço, nos textos latinos não se referia a duas mulheres e um homem, eles nem tinham essa preocupação. A ideia de indivíduo nem existia nessa época.

    E, Diego, sobre seus argumentos de inglês. Não sei onde você procurou, mas não sei se elas são muito confiáveis. Veja:

    Origin:
    1795–1805; police + -man

    Related forms
    po·lice·man·like, adjective

    Origin:
    1850–55; police + -woman (nessa época o movimento feminista nem sequer existia e o número de mulheres na polícia devia ser tão pequeno ou inexistente que era totalmente fora de prática dar um nome a elas).

    police officer 
    noun
    1.
    any policeman or policewoman; patrolman or patrolwoman.
    2.
    a person having officer rank on a police force.

    Origin:
    1790–1800

    O termo police officer é inclusive anterior ao termo “policeman”! Cheque suas fontes (provavelmente deve ser alguma feminista que escreveu isso, tenho certeza – e depois você diz que não é sensato procurar a raiz das palavras =P)

    Fonte: Dictionary.com

    Agora observe isso:

    her·sto·ry   [hur-stuh-ree, hurs-tree]
    noun, plural her·sto·ries.
    history (used especially in feminist literature and in women’s studies as an alternative form to distinguish or emphasize the particular experience of women).

    Origin:
    1975–80

    O uso da palavra é recente e foi um neologismo criado pelas próprias feministas para enfatizar uma forma de experiência própria das mulheres (não estou vendo homens aí também).

    Agora o termo History:

    his·to·ry   [his-tuh-ree, his-tree]
    noun, plural his·to·ries.
    1.
    the branch of knowledge dealing with past events.
    2.
    a continuous, systematic narrative of past events as relating to a particular people, country, period, person, etc., usually written as a chronological account; chronicle: a history of France; a medical history of the patient.
    3.
    the aggregate of past events.
    4.
    the record of past events and times, especially in connection with the human race.
    5.
    a past notable for its important, unusual, or interesting events: a ship with a history.

    (não vejo nenhuma referência a mulher ou homens aí… o termo “herstory” quer individualidade, o “history” nem com isso se preocupa)

    Origin:
    1350–1400; Middle English historie < Latin historia < Greek historía learning or knowing by inquiry, history; derivative of hístōr one who knows or sees (akin to wit, video, veda)

    O termo "history" data de 1350! E ainda vem do grego. Essas feministas que disseram isso realmente pensavam que não era necessário estudar línguas (nem precisava dizer). História significa "pesquisa" em grego e, nem em latim, o prefixo "his" tem qualquer menção ao sexo masculino. Isso foi a coisa mais absurda que eu já ouvi na vida (com todo respeito). Só falta elas virem dizer que "histology" não estuda os tecidos, mas os homens.

    No caso de “Ms.” você está certo.

    “Ms. came into use in the 1950s as a title before a woman’s surname when her marital status was unknown or irrelevant. In the early 1970s, the use of Ms. was adopted and encouraged by the women’s movement, the reasoning being that since a man’s marital status is not revealed by the title Mr., there is no reason that a woman’s status should be revealed by her title. Since then Ms. has gained increasing currency, especially in business and professional use.”

    Essa questão me incomoda muito, mas vou deixar de comentar porque não tenho conhecimento suficiente. Enfim…

    A língua vai mudando e não é por causa do machismo! Olhe, tenho datas a provar!

    man·kind   [man-kahynd for 1; man-kahynd for 2]
    noun
    1.
    the human race; human beings collectively without reference to sex; humankind.
    2.
    men, as distinguished from women.
    Origin:
    1250–1300; Middle English;

    e

    hu·man·kind   [hyoo-muhn-kahynd, -kahynd or, often, yoo-]
    noun
    human beings collectively; the human race.
    Origin:
    1635–45; (a sociedade ainda era machista! lembra-te! nem preciso dizer que não havia feminismo nessa época)

    No mais, eu sempre aprecio seus comentários! Me fizeram pesquisar e aprender bastante (além do seu próprio comentário). Vê se aparece terça-feira quando formos discutir meu artigo sobre democracia lá na sala do PET, por favor!!! Agora vou ler o "Death in Venice" do Thomas Mann que você tinha recomendado. Abraços!

  5. E os coletivos “turma”, “equipe”, “galera” não contam? Por que ninguém luta pelo feminino de “monstro”? Um homem pode ser uma vítima e uma pessoa porque essas duas palavras são femininas.
    A linguagem inclusiva me soa como mais uma demagogia esquerdista.

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