Lição feminista nº1: O que é feminismo?

Estamos tão acostumados a textos, livros e palestras que nos esquecemos o quanto podemos aprender com apenas uma imagem, um gesto ou um sorriso. ‘Lição Feminista‘ é uma série de quadrinhos curtos e diretos, que tem por objetivo trazer as principais pautas e discussões do movimento feminista de uma forma acessível e bem humorada. Nossa protagonista pretende passar pelos conceitos mais básicos – como igualdade, machismo, violência; até temas avançados – como cisnormativismo, masculinismo, cultura de estupro, teoria queer etc.

Espera-se que, dessa forma, mais pessoas se interessem pelas discussões de gênero para que o movimento se engrandeça com novas ideias, pontos de vista e, principalmente, críticas! É certo que o ativismo contribui imensamente para um mundo igualitário; os movimentos, entretanto, devem se manter sempre abertos para o debate ou arriscarão se tornar tão opressores quanto aqueles que criticam.

Portanto, críticas, sugestões e temas para as próximas edições são mais que bem-vindos!

Por Gabriela Tavares

16 thoughts on “Lição feminista nº1: O que é feminismo?

    • Jolushi,

      Acredito que grande parte da polêmica que envolve o feminismo deriva da falta de conhecimento sobre o movimento, suas demandas, e, por vezes, de puro preconceito.
      É recorrente, por exemplo, o entendimento de que o feminismo é o oposto de machismo e que a luta é pela afirmação da superioridade da mulher, com a consequente inferiorização do homem.
      Não é nada disso, como bem explica o quadrinho. Para que fique bem claro desde já, o feminismo tem um caráter humanista, e nesse sentido busca a libertação tanto de homens quanto de mulheres.
      Ainda que, sem dúvida, existam diversas vertentes e discordâncias dentro do próprio movimento (como a questão do aborto e da prostituição, para citar apenas dois exemplos), a intencionalidade de base feminista é una e busca, resumidamente, a igual consideração entre os sexos. Ou seja, busca desnaturalizar o mito da supremacia do masculino, pautada em justificativas de cunho biológico que, constante e incessantemente, inferiorizam as mulheres pelo simples fato de serem mulheres.
      Entender que mulheres e homens são iguais em direitos, e que ainda que possuam incontestáveis diferenças biológicas, essas não possam servir como argumento para que um sexo subjugue o outro, é a grande bandeira feminista.
      Incrível como tem gente que ainda discorda disso, não é? Eu também fico abismada…

      Abraços

      Ana Paula Duque

      .

      • Subjugar é um ato consensual? Existe alguma permissão ou recomendação jurídica de submissão? Se o machismo deriva da relação macho-fêmea, pode um homem sofrer do machismo? O senso estético das pessoas deve se adequar ao politicamente correto estipulado por um grupo político ou o senso de correto deve ser manifestado livremente pelo(a)s cidadâ(o)s comuns? O cavalheirismo é uma ofensa ou uma reverência?

    • Impressionante, né?
      Feminismo é só isso. A maior parte das pessoas discute feminismo sem nem saber o que é ou o que defende. Feministas são isso, feministas são aquilo! Feministas são só homens e mulheres que acreditam na igualdade.
      Parece aquele preconceito antigo contra comunistas: “não gosto de comunistas porque querem morar na minha casa e roubar minhas coisas”.
      Pois é, historicamente o nome ‘feminismo’ foi muito importante. A época que foi criado, as mulheres viviam em uma situação de total ausência de direitos e por isso acredito que foi necessário um movimento de “valorização da fêmea”. Ressignificou! É a vida.
      Não entendi se criticou o nome da série ou o nome do movimento, sinto muito.

    • Respondendo ao seu segundo comentário. As questões que você trás vão bem além dessa base e cada uma delas é extremamente complexa para explicar aqui. Vou dar minha opinião.

      Subjugar é um ato consensual? – É muito forte falar em consenso, mas acho que podemos falar tranquilamente em inércia. Dizem: em uma situação de injustiça, ser neutro é estar do lado opressor, certo? Eu vejo machismo todos os dias e, na maioria das vezes, não faço nada, assim como o resto da sociedade. Isso não seria dar meu aval?

      Existe alguma permissão ou recomendação jurídica de submissão? – Não. Assim como não existe permissão para o não cumprimento dos direitos fundamentais em qualquer hipótese, assim como não existe permissão para discursos de ódio, assim como não existe permissão para completa falta de estrutura na educação, saúde e segurança. A letrinha da lei mudou alguma coisa nesses casos? Por que mudaria na relação de gênero?

      O senso estético das pessoas deve se adequar ao politicamente correto estipulado por um grupo político ou o senso de correto deve ser manifestado livremente pelo(a)s cidadâ(o)s comuns? – Uma das mais complicadas, hein? O feminismo luta pela igualdade dos gênero. Hoje vemos uma campanha publicitária que faz com que as pessoas tentem alcançar um padrão estético impossível e, além disso, bastante racista. A mídia, o consumismo e a indústria da beleza afetam bem mais as mulheres do que os homens. É mais do que natural que o feminismo questione em que medida o padrão estético é imposto e oprime a autonomia feminina (e masculina). Respondendo sua pergunta: acredito que o senso de correto deve ser manifestado LIVREMENTE pelos cidadãos comuns. Sim! Seria lindo! Provavelmente seria muito diferente do que é hoje, afinal, onde está a liberdade em ser manipulado?
      Nunca sei o que significa “politicamente correto”, para mim é um termo vazio para desvalorizar o discurso do outro. O que é isso? Pensar sobre o que se diz e suas consequencias é ser politicamente correto? Tentar ser mais inclusivo é ser politicamente correto? Criticar a naturalidade como se oprime outros grupos é politicamente correto?

      O cavalheirismo é uma ofensa ou uma reverência? – Temos um post sobre cavalheirismo no blog! Ser não, farei um imediatamente. Olha, o feminismo luta por igualdade. Se é obrigação do homem proteger a mulher porque ela é oh-meu-deus-frágil e não pode se cuidar – sim, isso é machismo. Mas os conceitos não são estáticos. O que é uma reverência? Abrir a porta do carro, pagar a conta, passar frio para emprestar o casaco? O que isso significa? O que significa para você? Para o seu namorado? Para o senso comum? Dependendo da resposta que der, vai saber se é uma ofensa ou não. Se ela pender para o lado que isso tudo é o papel essencial de qualquer ser do gênero masculino e que o polo passivo é a essencia da mulher… Bem. Você quem faz a análise.

      Espero que não tenha morrido de tédio.

      • Morrer de tédio é suicídio, no nosso caso assistido?
        Critiquei a passividade ante a ressignificação, orgulho de causa ao invés de bom senso para com os necessitados?.
        O politicamente correto é fruto de quando os que estão com o poder decidem impor o que é correto. Ao contrário do que aparenta ele invoca de maneira geral o materialismo e, especialmente, se baseia na deslegitimação de qualquer merecimento individual ou liberdade fundamentada subjetivamente. Por exemplo, ao incentivar a fazer sexo com qualquer coisa e com a maior frequência possível(democratização da luxúria empurrada pelo mainstream); Ao obrigar adotantes à adoção de pelo menos um negro por adoção(racismo corretivo, tão absurdo quanto estupro corretivo); O politicamente correto tenta impor condutas se baseando em uma noção cristã desvirtuada, para ele, o “forte” deve ao “fraco”, tendo por fim o “fraco”, ao invés de a ele fazer por benevolência e fraternidade, tendo por fim o todo.Tenta-se transformar o dever para com a humanidade em infinitas dívidas entre indivíduos. Evidente a consequência real desta corrupção seja a segregação social. O que eu acho em parte frígido no feminismo é a oposição de duas categorias tão férteis uma à outra. Tem que se fingir, nem que seja durante a militância, que não vivamos todos embolados, e sim como se fosse o clube do bolinha fazendo uma concessão ao clube da luluzinha, quando as concessões são muito mais individuais e voluntárias, felizmente. O homem que violenta a mulher, provavelmente não a violenta por ela ser mulher, mas por ele ser homem. São os traços primitivos que combatemos eternamente: a agressividade, a ignorância, a impaciência, a descrença no diálogo. É claro que uma mulher armada já ofereceria distinta disposição ao ameaçado agressor, assim como um homem desarmado muitas vezes se vê isento de sua imunidade diplomática, construída pela sociedade categórica, se equiparando à “mulher”, no sentido de se encontrar vulnerável fisicamente. Agora eis que devo esclarecer o elogio à sociedade categórica: se faz não em contradição à crítica da categorização, mas no reconhecimento dos seus limites de estratificação, onde os conjuntos mais gerais transferem a responsabilidade às consciências presentes, evitando as disputas mesquinhas travadas sobre normas-respostas.
        Antes morrer de tédio do que matar de tédio. (:

  1. O senso estético é uma manifestação cultural, ninguém é completamente livre para o fazê-lo na forma de juízo, uma vez que é ele um dos elementos de coesão social, não sendo algo eterno e inato à natureza humana. Está intimamente relacionado com o contexto sócio cultural. É certo que não há uma base homogênea que torna todos os juízos estéticos de cada componente da sociedade uno e igual, porém não há como negar a natureza intersubjetiva dele.

    Sendo assim, o senso estético como manifestação de um juízo estético, é, essencialmente uma construção política da sociedade, sendo influenciadas pelos diversos sistemas sociais, desde à economia, passando pela cultura até a política. A liberdade individual está em contestar os modelos impostos e reproduzidos socialmente através de relações de poder que se manifestam simbolicamente ou materialmente na sociedade, afinal, enquanto elemento estrutural da sociedade, o senso estético é uma produção simbólica produzido, sobretudo, pela cultura dominante “dissimulando a função de divisão na função de comunicação: a cultura que une (intermediário de comunicação) é também a cultura que separa (instrumento de distinção) e que legitima as distinções compelindo todas as culturas (designadas como subculturas) a definirem-se pela sua distância em relação à cultura dominante”.

    Portanto, acredito que em relação ao feminismo, o que ela tentam é justamente revelar como as relações estéticas estão “embebidas” nas estruturas sociais, buscando atacar os meios através da qual a reprodução de uma estética heteronormativa se dá, sendo a manifestação da liberdade de compreender-se com parte da sociedade, mas, compreendendo-na como uma criação humana onde sujeitos autônomos, organizados e engajados em lutas sociais são capazes de atuar de forma a transformá-la.

    Em nenhum momento as feministas pretendem impor qualquer coisa: elas querem se libertar do senso estético que nos é imposto sem que possamos perceber, e reproduzimos de forma demonstrando a opressão a qual elas e diversos outros grupos são submetidas, sempre lutando contra a reprodução de relações de opressão na sociedade. Afinal, como você mesmo disse, Jolushi, quando as pessoas tiverem consciência do atual juízo estético reproduzido socialmente, não seja difícil conquistar uma transformação que leve à emancipação dos grupos oprimidos.

    Abs.,

    Diego Nardi

    • Quando eu era mais novo, eu pensava que por trás de toda moral havia uma estética. Hoje percebo que mais por trás de cada estética, impera um forte senso moral. E a sociedade fútil em que vivemos não preza pela moral mas pela estética. Opressão não é discutida de forma racional e moralizante, mas de forma propagandística e ludibriante, males da literatura de revolução.

      • Ou ambas se comunicam. O que eu disse vale igualmente para o juízo moral. Que mal lhe pergunte, mas o que seria um debate “racional e moralizante”?

      • Que a análise parta de princípios metafísicos, passe pelos desdobramentos na conduta, compare a situação e prescreva uma solução. Que sua expressão apresente rigor na forma e honestidade no procedimento. Hoje o que temos é um jogo de censura, a disputa destrutiva entre egos publicitários, blindados pela descrença na realidade objetiva.

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