Superação (?)

Por Nathálya Ananias

Destaque na sala de aula
Aluna exemplar exceto pela conversa
Menina de Federal
Exemplo
Era assim que as minhas professoras e professores se referiam a mim durante a minha vida escolar
Uma criança que não foi pressionada pelos pais a ser alguém muito grande
Só queriam que eu me estabelecesse financeiramente e tivesse o meu lugar para morar
O pai mecânico, a mãe professora
Sonhos grandes? Pra quê?
Ter o ‘pé no chão’ era o importante
Mas eu sonhava e sonhava alto
Meu sonho?
Eu seria alguém na vida
Muito mais que qualquer um ali pudesse imaginar
Superaria qualquer expectativa
E o primeiro passo seria passar em direito na Universidade de Brasília
Sonho realizado
Passei
Agora minha superação se mostra cada vez mais possível
E algum dia eu ainda serei a capa da revista que exibirá o meu sucesso e a minha batalha

Essa história seria até bonita não fosse exageradamente idealizada e romantizada. Construída de modo a fazer com que você, mas principalmente eu, não enxerguemos os problemas presentes em cada linha, em cada palavra e em cada pilar que compõem a estrutura social que nos molda e que ao mesmo tempo formamos.

Fazer parte de um grupo seleto de alunas de um curso extremamente elitista não é para qualquer pessoa. Aquelas que o fazem possuem sim, privilégios, mesmo que em suas diversas nuances, e para chegar até ele foi preciso que eu me esforçasse extremamente no que diz respeito aos estudos. Porém, para além disso, é preciso reconhecer determinados privilégios não apenas no processo de ingresso na Universidade, mas na minha vida como um todo.

Diferente de muitas pessoas com as quais estudei, minha mãe e meu pai me incentivavam nos estudos e me davam o aporte necessário. Trabalhei porque quis e não porque eu precisava ajudar em casa. Tive uma tia que pagou meu cursinho e que abriu sua casa para que eu morasse com sua família em Brasília. E sem deixar de levar em consideração cada um desses fatores eu consegui o que a princípio era meu sonho. E você pode até pensar que isso é sonhar “baixo”, mas na verdade era muito “alto” para muitas pessoas do meu convívio escolar que passaram bem longe de uma Universidade Pública ou até mesmo de uma Universidade.

Assim que cheguei na UnB me deparei com um universo extremamente destoante do meu. Estava muito enganada ao pensar que as diferenças não seriam significativas e que eu facilmente me adequaria aos espaços. Não saber inglês era a menor das minhas preocupações, assim como nunca ter viajado para vários lugares e países. Eu precisava fazer amigas, me inserir em grupos. E por mais que tenha sido difícil, porque muitas já se conheciam do Ensino Médio, eu consegui. Porém, comecei a perceber que não bastava eu me inserir, era preciso permanecer. Precisava ter tido experiências similares, ter lido os mesmos livros, assistido os mesmos filmes, mesmos desenhos, e, principalmente, ter dinheiro para acompanhá-las. Me esforcei bastante, mas consegui, ou pelo menos acreditei que sim.

Achei que o fato de minhas amigas terem discussões sobre classe faria com que eu sofreria menos. Achei que a assistência estudantil na prática era como na teoria. Achei que seria fácil compor os espaços como planejado. Ilusão.

O que a princípio seriam direitos se colocavam e ainda se colocam como privilégios e favores. Estar em uma Universidade que muitas pessoas nem sequer sonham estar, receber bolsa permanência enquanto muitas precisam e não são selecionadas no processo, morar na Casa do Estudante Universitário quando muitas que não moram no DF não recebem ao menos bolsa pecúnia, fazer contatos que só me foram possíveis por cursar direito na UnB. Estas são algumas das muitas constatações que posso fazer. Porém, se em algum momento tento contestar tudo isso me chamam agressiva, me calam e dizem que eu estou “pegando o boi” de ter tudo o que tenho e de estar onde estou. E já não bastasse ainda me gritam EXCELÊNCIA ACADÊMICA. Preciso render, preciso ter notas boas, preciso, preciso, preciso.

 A sua empatia se faz mais que necessária para compreender os problemas dessa tão idolatrada meritocracia e não para sentir pena ou dó. As exceções existem, porque elas devem existir. São pessoas que ascendem socialmente, porque se a elas não fosse permitido o fazer, as oprimidas se rebelariam. Mas se apresentando assim, as oprimidas não apenas não se voltam contra essa estrutura como querem oprimir aquelas iguais a elas.

Minha voz e permanência nessa Universidade e nesse curso são muito mais que estar, são resistência. Compor este espaço extremamente elitista me traz dores e me molda de muitas maneiras, mas muitas vezes “abrir mão” de tudo isso não se mostra uma opção, porque enquanto você planeja sua próxima viagem a minha maior preocupação é como pagar as contas sendo que a bolsa não caiu e meu pai não tem como me mandar dinheiro.

Não peço a sua dó ou piedade, mas sim que perceba, reflita e mude muitas das suas atitudes. Essas histórias de superação que as pessoas tanto gostam não são bonitas e não devem ser tratadas como se o fossem. Entender isso é o mínimo para que haja um questionamento ou até possivelmente uma mudança.

*O texto está no feminino.

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Suicídio

Suicídio. 
Su i cí dio
S u i c í d i o.
Suicídio: ato de acabar com a própria vida.
32 brasileiros se matam por dia e a maioria dos casos poderiam ser evitados.
Suicídio não é covardia, não é fraqueza, não é óbvio, e fechar os olhos e fingir que não existe não vai ajudar a solucionar este problema.
 
Talvez seja necessário repetir mais algumas várias vezes s u i c í d i o, para que as pessoas entendam e se acostumem que esta palavra não deve ser um tabu, e que não é vergonha nenhuma falar sobre o tema. O suicídio não é vergonhoso nem conhecer alguém que fez e muito menos pensar em fazer isso; vergonhoso é ignorar e se manter inerte sobre este problema tão grave que nos ronda.
 
TRINTA E DOIS brasileiros por dia tiram suas próprias vidas, este número é maior que as taxas de pessoas mortas por AIDS e pela maioria dos tipos de câncer¹. Estas pessoas convivem com a gente, são nossos colegas de classe, vizinhos, amigos, parentes, conhecidos, aquela pessoa que vemos sofrendo e ignoramos. E mesmo assim continuamos calados. A verdade é que nós matamos 32 pessoas por dia, pois o sofrimento do outro não nos afeta, somos inertes aos outros e seus problemas.
 
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde 9 entre 10 casos poderiam ser prevenidos. Talvez se a nossa sociedade não tivesse tanta vergonha de falar sobre o tema, se nós não fossemos tão individualistas e incapazes de se afetar com os outros, se não houvesse tantos julgamentos e mais atenção, se as pessoas soubessem que é normal sofrer e pedir ajuda, esse quadro seria diferente. Mas a verdade é que é difícil pedir ajuda quando parece que tudo nos culpa por termos um problema e nos obriga a escondê-lo. Esse mal é silenciado como se assim pudéssemos, ao negar que ele existe, fechar os olhos para sua existência.
 
Mas isto precisa parar e algumas coisas precisam ser ditas:
 
1.  Suicídio não é covardia. Durkheim já falava sobre esse assunto em sua época, mas mesmo hoje tratamos disso como se fosse vergonhoso falar que alguém cometeu suicídio, como se isso fosse “estragar” a imagem da pessoa. O suicídio é um aspecto psicológico, social e político. É um aspecto psicológico pois em muitos casos encontra-se ligado a doenças psicológica, e é necessário o tratamento, o acompanhamento pelas pessoas que estão perto e por profissionais que possam orientar. E isso vai além da depressão, pois pessoas afetadas por outros tipos de doenças psicológicas tem maiores riscos de suicídio. É um problema social: pessoas pertencentes a minorias sociais em vista do preconceito, e de situações críticas que enfrentam diariamente são pressionadas e estigmatizadas de tal forma que a vida passa a ser vista como uma vida impossível². É um aspecto político, em vista que políticas públicas, atuando em diversos campos (familiar, proteção de crianças e adolescentes, entre outros) e projetos de conscientização são necessários para que possamos discutir sobre isso, para que as pessoas possam falar sobre isso.
 
2.  O suicídio não é óbvio. Da mesma forma, depressão e outros sofrimentos psíquicos não são óbvios, e por isso é necessário nos atentarmos muitas vezes a detalhes e pequenas mudanças. É necessário estarmos abertos para conversar sobre isso. Nem todos estamos preparados para lidar com isso, mas a simples ideia de que alguém liga, alguém se importa é muito importante.
 
3.   Suicídio não é falta de Deus. Não podemos envolver a religião em tudo e tentar empurrar suas justificações goela à baixo. O Suicídio é um aspecto complexo, e é um problema, como dissemos anteriormente, social, político e psicológico e as pessoas que veem como única e última opção o suicídio, fazem isso por muitos motivos, e não podemos reduzir isso a um motivo religioso. 
 
4. Não falar, fechar os olhos, negar que o suicídio existe não vai fazer que ele pare de acontecer. Escutar, abrir os olhos e conversar sobre isso pode evitar que mais alguém morra. 
5. Caso precise de ajuda ligue 141, Centro de Valorização da Vida (CVV). 
 
² COVER, Rob. Queen Youth Suicide, Culture and Identity: Unliveable Lives?

Por que eu vivo?

Por Daniel Rezende

Quando eu tinha entre 12 e 14 anos, uma pergunta ecoava muito fortemente em mim: qual a finalidade da vida?

Nessa idade, eu era bem incomodado comigo mesmo, há pouco eu vinha descobrindo a minha sexualidade e, depois de anos sofrendo bullying, eu me deparei com uma verdade incontornável: tudo o que meus agressores bradavam na minha cara era verdade, eu era gay.

Mas, por quê? Por que eu tinha que ser diferente? Qual era a finalidade de tudo isso?

Essas questões me atormentavam profundamente e, apesar de não ter uma família muito religiosa, recorri à fé para tentar achar minhas respostas. Todas as noites, antes de dormir, eu me ajoelhava ao lado da cama e suplicava uma resposta divina.

Não consigo me lembrar de quantas vezes eu chorei nesses momentos, em silêncio e de portas fechadas, para que meus pais não pudessem me escutar. Eu repetia, como em um mantra: “eu não quero ser gay”, com a culpa pesando no meu coração, pela possibilidade de frustrar quem mais tinha me dado amor e carinho.

Eu era uma criança, um filho único, chorando no escuro, sozinho. Ninguém sabia do segredo que eu tinha que carregar todos os dias, um segredo que eu fazia questão de guardar a todo custo, era eu contra o mundo: tinha que estar atento ao meu jeito de andar, aos meus trejeitos, aos meus gestos, a minha fala. Eu não podia defender gays, afinal, poderiam achar que eu era um também.

Só quem já sofreu bullying sabe o quanto um olhar pode doer. Eu não queria olhares. Preferia me esconder pela vida inteira, seguir um roteiro pré-definido, tradicional, “normal”, preferia me passar por hétero a ter que lidar com a repreensão de todos.

Aos meus 13 anos, minha mãe se converteu e deu início a uma mudança radical na dinâmica da casa: começou a frequentar a igreja evangélica, a andar com uma Bíblia, a fazer longas orações em voz alta, a citar passagens. Várias vezes, ao me buscar na escola, ela falava sem parar sobre as vontades de Deus para a minha vida. Eu nunca respondia nada.

A persistência da minha mãe me levou a igreja, apesar do meu pai, que sempre rejeitou qualquer influência religiosa sobre mim. Mas eu fui, e as perguntas ainda ressoavam em mim. Eu indagava o pastor e a Bíblia, mas a única resposta que obtive foi sempre a do pecado e a da condenação.

Minhas orações noturnas eram reiteradas todas as noites, eu questionava minha fé, que não era forte o suficiente para me curar. Eu tinha vergonha de mim. Eu odiava a minha situação, e, analisando hoje em dia, eu odiava quem eu era. Por que eu vivo? Qual a finalidade da minha vida?

Deus nunca me respondeu.

Só depois de alguns anos, quando eu me assumi para minha mãe, ela me confessou que havia se convertido porque “não queria ter um filho gay”, algo me marcou fortemente. Ela ainda frequenta a mesma igreja, eu, não mais.

Eu desisti de agradar as pessoas, mas não desisti das minhas inquietações. Percebi, depois de conquistar certa autonomia, que eu só conseguiria as respostas que eu tanto desejava se eu começasse a ser verdadeiro comigo e com as pessoas que estão a minha volta.

Abandonei o fingimento, parei de tentar agradar as pessoas.

Eu sei que não fui o único responsável por minha emancipação, a mim foram dadas condições financeiras, educacionais e sociais para que eu pudesse entender a beleza da diversidade e me empoderar.

Só pude me aceitar melhor depois de conhecer outros iguais a mim, depois de descobrir que eu não era o único a chorar de joelhos à noite. Mas muitos ainda não conseguem respostas às suas perguntas existenciais, têm que enfrentar sozinhos as repreensões diárias, seja da igreja, dos amigos, das piadinhas, dos professores, da família… Muitos se matam no meio do caminho.

Neste momento, em que o PET debate saúde mental, não se pode esquecer a saúde mental LGBT, das pessoas que sofrem sozinhas todos os dias sem que ninguém saiba. Nossa força, nossa saúde, nossa sobrevivência apenas existem quando estamos juntos, quando resistimos e existimos em comunhão, quando conhecemos outros iguais a nós. A visibilidade, o orgulho e a união são indispensáveis para a sobrevivência LGBT.

Eu consegui as respostas para as minhas perguntas. Descobri a finalidade da minha vida.

Eu existo para ser feliz, do meu jeito, e para levar felicidade às pessoas ao meu redor. Eu existo para ser gay, “alegre”, do inglês; mas não somente, quero a plenitude e a felicidade, quero ser alegre em todos os momentos.

Eu quero, sempre e em todos os momentos, ser gay.

A rua é nossa

Por Beatriz Barbosa

Há quem diga que a rua é nossa.

Nossa? Eu me pergunto. Quem é esse nós? Será que esse nós tem classe? Cor? Gênero? Será que todos nós somos donos igualmente das ruas?

Será que a rua é minha quando eu, mulher, ando sozinha a noite? Quando eu insisto em não ter a companhia de um homem ao meu lado? Quando eu uso alguma roupa que realça o meu corpo? Quando eu utilizo o transporte público? Quando eu decido que não quero mais escutar “elogios” estúpidos?

Infelizmente, eu acho que as regras das ruas não foram feitas para mim, ou para qualquer outra mulher. Ainda nova aprendi a conviver com o medo. Cresci tendo a certeza que se anoitecer e eu estiver sozinha na rua eu não estou segura. E se mesmo assim eu tentar a sorte, se acontecer algo a culpa é minha. “Menina atrevida, sabe como as coisas são e mesmo assim tenta desafiar a vida.”

Sim, eu tento e com o tempo eu aprendo a conviver, ou melhor, eu aceito a realidade. Minha relação com a rua oscila entre o medo e a coragem. O primeiro é um sentimento constante. Graças a ele, você aprende a andar prestando atenção em tudo, principalmente se for noite e tiver uma pessoa perto, você observa a distância, calcula a velocidade, a visão se amplia, o volume da música diminui, cada ruído é importante. O nervosismo é inevitável quando você percebe que está em um lugar isolado e tem um cara próximo, o primeiro pensamento é criar distância, mas se a situação continua você logo pensa “por favor, se for para acontecer algo, que seja apenas um assalto, eu passo o celular e a bolsa tranquilamente”. Por outro lado, é inexplicável o alivio que se sente quando você percebe que é uma mulher que está do seu lado.

É difícil aprender a conviver com esse sentimento, o medo constante de ser violentada por simplesmente ser mulher. Violentada com olhares, com assobios, com carros que param, com palavras que envergonham, com gestos que assustam, com reações que zombam da impotência que nos invade, e será que preciso falar do medo do estupro que nos ronda? Há quem diga que são as mulheres que causam tal reação, são nossas roupas, nossos corpos, nossos jeitos que seduzem, que convidam, que provocam, provocamos os motoristas, os cobradores, os pedestres, os professores.. enfim provocamos todos os homens inocentes que nos agridem cotidianamente. E já que é assim, se eu tenho que lidar que o simples fato de existir provoca os homens, se eu tenho que conviver com o medo constante de poder ser estuprada, vocês homens que aprendam a lidar quando nós mulheres falarmos que todo homem é um estuprador em potencial, ou que não confiamos em vocês, ou então que não nos sentimos seguras. Desculpe ‘homens de bem’, porém eu não ligo se isso soa como ofensa, se machuca seu orgulho, muito menos ligo para as tentativas de mostrar que estou exagerando, pois eu estou aqui para falar da minha sobrevivência, e não da de vocês.

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Na imagem: “Homens! Deixem os assobios para os pássaros.”, autora desconhecida.

Vivemos em uma sociedade marcada pelo patriarcado, pela cultura do estupro, pela violência constante contra as mulheres. Nossa sociedade como está estruturada foi feita por homens para homens. Estatísticas indicam que a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil. Isso não é papo chato de feminista, esta é a verdade, nós mulheres estamos morrendo todos os dias por sermos mulheres e nossos agressores não são monstros, são homens comuns que foram criados achando que são donos das mulheres. E a cada notícia nova de uma mulher que foi agredida, eu sinto a dor em mim, porque eu não sei quem vai ser a próxima. Eu queria que o feminismo não precisasse existir, eu queria não ser a radical das rodinhas, mas eu não consigo desver todo machismo e violência que existe, e se eu tentasse fazer isso no mínimo eu estaria sendo hipócrita.

Mas agora vamos falando de coragem. Coragem esta que me dá forças para todo dia levantar e não deixar o medo me oprimir, que não me deixa desistir da batalha. Eu escolhi ser a dona da minha vida. Eu escolhi reagir e conquistar o meu espaço. Eu quero a rua. Eu quero direitos iguais. Eu exijo ser respeitada. Eu quero que o mundo entenda que o corpo é meu, e de ninguém mais. Eu levanto a bandeira da liberdade, igualdade e segurança para toda e qualquer mina. E eu não aceito que homem nenhum invada meu espaço. Eu não sou um pedaço de carne, muito menos o prato do dia. Eu não sou um objeto, então não ache que estou aqui pra sua serventia. Eu não quero conviver com seus assédios disfarçados de elogios. Não quero os seus beijos invasivos, muito menos os seus toques. Eu não quero ser parte da sua fantasia. E eu me sinto cada vez mais forte, porque eu sei que comigo eu carrego a força de várias outras minas que se empoderam todos os dias. E que vão fazer questão de lembrar que não estamos aqui simplesmente para agradar.

Cotidiano

Por Carolina Freire

Acordei cedo, me vesti, parei, pensei … Já podia ouvir a opressão gratuita em forma de olhares, gritos, cantadas (??) Troquei de roupa, tapei meu corpo, perdi conforto, só como um meio tosco de me proteger.

Saí de casa. No trabalho, cumprimento, sou pontual, executo meu ofício com modesta competência. Mas afinal, de que vale tanto esforço? Aqui já ouço como sou incapaz de ser promovida; não falam diretamente, não são tão corajosos, mas batem na minha cara (que não é frágil) o tempo todo com enaltecidos argumentos de que sou excessivamente emotiva e ocupada demais com os filhos. É … parece que a racionalidade vem estocada em um saco pesado de testosterona daqueles que fazem, mas não criam, filhos.

Saio do trabalho de cabeça baixa, mas não derrotada; não, o dia ainda não acabou. Na condução, aperto, apalpo, abuso e passageiros cegos, só eu vejo, só eu sinto … nojo.

Na faculdade, procuro crescer, mesmo sendo menos escutada, menos relevante (parece), eu continuo. Continuo porque quero meu intelecto à prova, quero ser a competente, a que trabalha bem; chega de ser a gostosa ou baranga, a feia ou bonita; chega! Quero sair do concurso de beleza que a vida me impõe, quero respeito.

A aula acaba, já é tarde e sinto medo. Aqui a mulher forte esmorece, se encolhe, é hora de ir pra casa e tenho medo. Porque eu sei que à noite e sozinha eu não estou segura. Engulo esse medo e, assim como os não’s que a vida me dá, ele desce pela garganta e corta e fere e dói…

Chego enfim em casa e meus filhos precisam de mim, a casa precisa de mim, eu preciso de mim. Me ocupo nesses últimos instantes do dia com um serviço repetitivo e mecânico, mas ainda assim agradeço pela fé que me resta. Porque à essa altura, coisificada, subjugada, diminuída, oprimida, rechaçada, esperança foi só o que sobrou pra mim.

O sono me arrebata porque o cansaço físico me toma e aquieta a mente. Já o sonho, esse me ilude com a projeção de um lugar onde não sexualizam meu corpo, não me dizem o que fazer e não sufocam minha voz. Mas eu então acordo e a realidade me traz de volta porque o dia começa de novo e eu não quero chorar … eu não posso chorar … não posso … não posso … não posso, mas as lágrimas não demoram a cair …

PAUSA

Por Vívian Viana

Quando o mundo real passa para uma tela, quando temos mais contato com a representação, do que com a apresentação, quando as relações sociais se tornam relações virtuais é necessário uma pausa. Uma pausa, um retorno ao ponto em que nos perdemos e perdemos nossa essência. É imperioso esse tempo de reflexão, para que então tenhamos autonomia e dimensão do play que a vida requer. É lastimável ver o mundo de cabeça baixa. Fui ensinada a manter sempre a cabeça erguida, diante de todo e qualquer desafio. “Engole o choro. Cabeça erguida. Segue em frente”. Cabeça baixa é sinônimo de tristeza. É claro que temos nossos momentos em que é necessário abaixar a cabeça, olhar para nosso interior e amadurecer. Contudo, não é para esse fim que estamos abaixando a cabeça. Abaixamos a cabeça para olhar o mundo. Calma. Tem alguma coisa errada nisso. A lógica era: levanta a cabeça, siga em frente, siga forte, admire o mundo ao seu redor, critique o mundo ao seu redor, construa o mundo ao seu redor, desconstrua o mundo ao seu redor. A lógica virou: touch, digital, “digito logo existo”. É perigoso ver o tato humano se tornado touch screen. É arriscado não falarmos disso.

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As relações humanas foram substituídas por um enter. Por estar online. Offline. Gravando  um áudio. Digitando …

E seguimos nessa direção. Ou seria melhor dizer, seguimos nessa rede. Ou ainda, nos enrolamos nessa rede.

Quando um digitando conseguiu substituir o  conversando. O gravando um áudio substituiu a voz ouvida ao vivo. A discussão atinge níveis robóticos. São rápidas,  irracionais, desmedidas. Perdemos pouco a pouco o tato humano. Bem, acredito que o tato humano é essencial, é com ele que percebemos no outro a essência do que nos aproxima. O sermos humanos. Resolvi aprender que, para além dessa tela, tem um ser humano que sente, que tem um olhar único, uma história única, tal qual somos todos. Estou do lado de cá da tela. Não sou o lado de cá da tela. Tampouco você é o lado de lá da tela. Você está.

Soa paradoxal usar o meio virtual para propagar essa reflexão. Mas o faço na expectativa de que olhando para baixo, ou olhando para tela, nós possamos nos conectar e juntos olharmos para fora.

Vivemos em sociedade. Sociedades. Sócias. Sociais. Só. Mas quando as redes virtuais – não consigo chamá-las de sociais, não mais – deletam o olhar, apagam o olho no olho, o que vemos são dedos nervosos bradando ódio, sem se quer perceber que se trata de outra PESSOA, ser humano do outro lado. Estamos conectados. Mas não pelos dedos entrelaçados, pelos abraços. Estamos ligados por fios, ou Wi-Fi se preferir. Temos uma conexão virtual.

Quando foi que perdemos o assunto, a piada, o debate. Ah está tudo no Google, isso deve bastar. Não basta Google. Não basta. Basta.

É claro que a internet e a tecnologia trouxeram benefícios grandiosos. A internet presencia lutas lindas, lutos necessários. Todavia, é mister que essas lutas antes de virtuais sejam reais, que esses lutos antes de se tornarem capa de redes sociais sejam sentidos, e não meras demonstrações de massa. É preciso que cada ser humano sinta, antes de falar. Reflita nos outros seres humanos interligados antes de bradar discursos de intolerância. É necessário que as lutas sejam antes de tudo consolidadas fora da rede, nos corações de quem as carrega, sob pena de se tornarem meros discursos de rede.

Já previa George Orwell, seríamos vigiados por um grande olho, em todo lugar que fôssemos, “O GRANDE IRMÃO ESTÁ DE OLHO EM VOCÊ.” O irônico é que esse Grande Irmão, ou para demonstrar sofisticação e universalidade, esse “Big Brother”, deveria nos incomodar. Deveria ser alvo de insatisfação e não de convalescimento. Mas somos, hoje, parte integrante desse grande irmão. Com um porém: queremos mostrar apenas nossas faces felizes a ele.

A sociedade necessita de ser humanos humanos. Médicos que conversem, que examinem para além do receituário. Advogados que olhem além da altura de seu Vade Mecum mais atualizado – ele não é tão alto assim. Que os engenheiros se preocupem mais com a força existente dentro de um abraço, que meçam formas de aproximar pessoas. O mundo precisa de professores que elogiem, que construam para além do vestibular, para além dessa barreia que separa os mundos. De Seres humanos que se atualizem na humanidade e não mais nos aplicativos.

É imperioso o pensar, o agir, o lembrar sem consultar o celular. Lembrar o nome, lembrar a data de aniversário não porque o Facebook te avisou, lembrar a importância do olho no olho, da conversa bem conversada, do diálogo bem medido, bem estruturado. E só assim será possível uma desconstrução verdadeira. Quando ultrapassarmos do muro touch.

Que a cabeça baixa seja para o crescimento. Que a cabeça erguida nos permita olhar no olho. Que a cabeça baixa não demonstre a fraqueza virtual que nos cerca. Que a cabeça erguida seja para olharmos além. Que a cabeça baixa não seja para o digitando, gravando um áudio. Que a cabeça erguida seja para o conversando. Que a cabeça baixa seja para semear. E a cabeça erguida para admirar e colher os frutos. E se precisar de uma “mãozinha” para colher esse fruto, que seja humana e não touch.

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A voz do outro

Por Beatriz Souza

Um dia, após ler “A Cor Púrpura”, me lembrei do romance do poeta escravizado Juan Francisco Manzano, o único latino-americano a escrever uma autobiografia sobre a sua experiência. As duas obras tem como um ponto comum a linguagem: Celie é uma personagem mulher negra que escreve cartas para Deus em inglês popular, enquanto Manzano foi um homem cubano de carne e osso que escreveu sua autobiografia no espanhol que aprendeu sozinho (e que, segundo a sociedade da época, não deveria nem mesmo ter aprendido enquanto pessoa escravizada).

Incomoda, a princípio. Não são leituras fáceis; a leitura da autobiografia é ainda mais difícil, já que a sintaxe, a pontuação e o ritmo são bem mais irregulares do que os do romance, justamente por ser real. Várias pessoas se sentiram incomodadas – desde a publicação (tardia) em 1937, o testemunho de Manzano já sofreu várias tentativas de correção, reescritura e mudança de estilo. Mas é possível localizar dentro de nós o porquê de tanto incômodo?

Na minha opinião, tem a ver com o desconforto que provoca a diferença, que conduz como consequência à tentativa de padronização. No entanto, transcrever essas prosas em norma culta significaria anular as suas posições enquanto Outro, já que na correção está implícito o fato de serem incapazes de falarem por si mesmos: qualquer coisa escrevam, falem ou pensem, deve se adequar à disposição “normal” da língua para que possam ser entendidas por nós, pessoas leitoras normativas e “educadas.” Nesses casos, o sentido pode muito bem ser entendido – não existe uma impossibilidade de comunicação. O problema está no fato de nós, falantes “cultos” da língua, não podermos nos dispor a ler uma coisa do gênero – o que, por fim, parece ser o mesmo mecanismo que está por trás do preconceito linguístico.

Como leitora, é notável a diferença que a linguagem faz na força da narrativa. No caso do livro de Alice Walker, basta notar a sensação que se tem quando se lê as cartas da Celie e as cartas da Nettie, a personagem que é sua irmã e professora, que escreve em inglês-padrão. A sensação também se repete no caso da autobiografia; basta comparar um trecho traduzido em norma padrão com outra edição que manteve a escrita original. Isso porque a escrita original permite não só entender abstratamente falando, não só saber da vida na escravidão (que já aprendemos na escola), mas sim experimentar a vida do homem escravizado e da mulher negra através de seus olhos (e talvez por isso Alice Walker tenha ganhado um prêmio Pulitzer pela sua história de ficção). Os erros de ortografia, gramática e sintaxe nos deveriam inspirar respeito, porque não são verdadeiramente erros, mas provas das suas trajetórias de vida enquanto negros. Como bem definiu Alex Castro (tradutor da autobiografia), corrigi-los significa em prática apagar sua história, silenciar seus sofrimentos e rasurar suas vidas.

De uma maneira muito abrangente, vejo como isso se repete no preconceito linguístico; como apontar os erros de português de uma pessoa terminam por minimizar a experiência de vida das inúmeras pessoas que se exprimem em formas que não tem prestígio social. Por isso talvez seja melhor pensar duas vezes antes de desqualificar a fala de outra pessoa porque “não sabe escrever”, ou ainda, se gabar dizendo dominar a norma culta (o que é apenas a expressão de um privilégio). Porque o preconceito linguístico é, enfim, um indicador dos preconceitos que se tem – contra pobres, negros, nordestinos e qualquer grupo que diferente do padrão.

Para ilustrar tudo isso, segue um trecho da voz de Manzano:

“Hum dia, este dia de rezignaçaõ prinsipio de quantos bens e males o mundo me deu pa. provar foi como se segue era sabado antes do almoço segundo era nosso custume eu tinha qe. assear-me pois vestia duas vezes por semana, pa. isso fui ao banheiro do tacho qe. distava huns trinta pasos num declive á frente da caza em quanto me banhava me chamaraõ pr. ordem da sinhá ja se pode imaginar como sahiria; me recebeo perguntando o qe. fazia no banho respondi qe. me asseava pa. vestir-me, com qe. lisensa o fizeste? com nenhuma respondi. e pr. que foste? pa. assear-me, esta sena foi no comedor ou varanda na porta da rua, alli mesmo me quebraraõ o nariz e fui pa. dentro vertendo duas veias de sangue, isto me afligiu e envergonhou pr. qe. na porta ao lado vivia huma mulatinha de minha edade a primeira qe. me inspirou huma couza qe. eu naõ conhecia  era huma inclinaçaõ angelical hum amor como si foce minha irmã eu le prezenteava com pencas de maravilhas coloridas qe. ella recebia dando-me algum doce seco ou fruta eu le tinha dido qe. era livre qe. minha maẽ tinha morrido avia naõ muinto; naõ bastando o ja dito perto das dez minha ama me fez tirar os sapatos me rasparaõ a cabeça, embora isto foce mui freqüente, esta vez me cauzou a maior mortificaçaõ. (…)”