Por que eu vivo?

Por Daniel Rezende

Quando eu tinha entre 12 e 14 anos, uma pergunta ecoava muito fortemente em mim: qual a finalidade da vida?

Nessa idade, eu era bem incomodado comigo mesmo, há pouco eu vinha descobrindo a minha sexualidade e, depois de anos sofrendo bullying, eu me deparei com uma verdade incontornável: tudo o que meus agressores bradavam na minha cara era verdade, eu era gay.

Mas, por quê? Por que eu tinha que ser diferente? Qual era a finalidade de tudo isso?

Essas questões me atormentavam profundamente e, apesar de não ter uma família muito religiosa, recorri à fé para tentar achar minhas respostas. Todas as noites, antes de dormir, eu me ajoelhava ao lado da cama e suplicava uma resposta divina.

Não consigo me lembrar de quantas vezes eu chorei nesses momentos, em silêncio e de portas fechadas, para que meus pais não pudessem me escutar. Eu repetia, como em um mantra: “eu não quero ser gay”, com a culpa pesando no meu coração, pela possibilidade de frustrar quem mais tinha me dado amor e carinho.

Eu era uma criança, um filho único, chorando no escuro, sozinho. Ninguém sabia do segredo que eu tinha que carregar todos os dias, um segredo que eu fazia questão de guardar a todo custo, era eu contra o mundo: tinha que estar atento ao meu jeito de andar, aos meus trejeitos, aos meus gestos, a minha fala. Eu não podia defender gays, afinal, poderiam achar que eu era um também.

Só quem já sofreu bullying sabe o quanto um olhar pode doer. Eu não queria olhares. Preferia me esconder pela vida inteira, seguir um roteiro pré-definido, tradicional, “normal”, preferia me passar por hétero a ter que lidar com a repreensão de todos.

Aos meus 13 anos, minha mãe se converteu e deu início a uma mudança radical na dinâmica da casa: começou a frequentar a igreja evangélica, a andar com uma Bíblia, a fazer longas orações em voz alta, a citar passagens. Várias vezes, ao me buscar na escola, ela falava sem parar sobre as vontades de Deus para a minha vida. Eu nunca respondia nada.

A persistência da minha mãe me levou a igreja, apesar do meu pai, que sempre rejeitou qualquer influência religiosa sobre mim. Mas eu fui, e as perguntas ainda ressoavam em mim. Eu indagava o pastor e a Bíblia, mas a única resposta que obtive foi sempre a do pecado e a da condenação.

Minhas orações noturnas eram reiteradas todas as noites, eu questionava minha fé, que não era forte o suficiente para me curar. Eu tinha vergonha de mim. Eu odiava a minha situação, e, analisando hoje em dia, eu odiava quem eu era. Por que eu vivo? Qual a finalidade da minha vida?

Deus nunca me respondeu.

Só depois de alguns anos, quando eu me assumi para minha mãe, ela me confessou que havia se convertido porque “não queria ter um filho gay”, algo me marcou fortemente. Ela ainda frequenta a mesma igreja, eu, não mais.

Eu desisti de agradar as pessoas, mas não desisti das minhas inquietações. Percebi, depois de conquistar certa autonomia, que eu só conseguiria as respostas que eu tanto desejava se eu começasse a ser verdadeiro comigo e com as pessoas que estão a minha volta.

Abandonei o fingimento, parei de tentar agradar as pessoas.

Eu sei que não fui o único responsável por minha emancipação, a mim foram dadas condições financeiras, educacionais e sociais para que eu pudesse entender a beleza da diversidade e me empoderar.

Só pude me aceitar melhor depois de conhecer outros iguais a mim, depois de descobrir que eu não era o único a chorar de joelhos à noite. Mas muitos ainda não conseguem respostas às suas perguntas existenciais, têm que enfrentar sozinhos as repreensões diárias, seja da igreja, dos amigos, das piadinhas, dos professores, da família… Muitos se matam no meio do caminho.

Neste momento, em que o PET debate saúde mental, não se pode esquecer a saúde mental LGBT, das pessoas que sofrem sozinhas todos os dias sem que ninguém saiba. Nossa força, nossa saúde, nossa sobrevivência apenas existem quando estamos juntos, quando resistimos e existimos em comunhão, quando conhecemos outros iguais a nós. A visibilidade, o orgulho e a união são indispensáveis para a sobrevivência LGBT.

Eu consegui as respostas para as minhas perguntas. Descobri a finalidade da minha vida.

Eu existo para ser feliz, do meu jeito, e para levar felicidade às pessoas ao meu redor. Eu existo para ser gay, “alegre”, do inglês; mas não somente, quero a plenitude e a felicidade, quero ser alegre em todos os momentos.

Eu quero, sempre e em todos os momentos, ser gay.

A rua é nossa

Por Beatriz Barbosa

Há quem diga que a rua é nossa.

Nossa? Eu me pergunto. Quem é esse nós? Será que esse nós tem classe? Cor? Gênero? Será que todos nós somos donos igualmente das ruas?

Será que a rua é minha quando eu, mulher, ando sozinha a noite? Quando eu insisto em não ter a companhia de um homem ao meu lado? Quando eu uso alguma roupa que realça o meu corpo? Quando eu utilizo o transporte público? Quando eu decido que não quero mais escutar “elogios” estúpidos?

Infelizmente, eu acho que as regras das ruas não foram feitas para mim, ou para qualquer outra mulher. Ainda nova aprendi a conviver com o medo. Cresci tendo a certeza que se anoitecer e eu estiver sozinha na rua eu não estou segura. E se mesmo assim eu tentar a sorte, se acontecer algo a culpa é minha. “Menina atrevida, sabe como as coisas são e mesmo assim tenta desafiar a vida.”

Sim, eu tento e com o tempo eu aprendo a conviver, ou melhor, eu aceito a realidade. Minha relação com a rua oscila entre o medo e a coragem. O primeiro é um sentimento constante. Graças a ele, você aprende a andar prestando atenção em tudo, principalmente se for noite e tiver uma pessoa perto, você observa a distância, calcula a velocidade, a visão se amplia, o volume da música diminui, cada ruído é importante. O nervosismo é inevitável quando você percebe que está em um lugar isolado e tem um cara próximo, o primeiro pensamento é criar distância, mas se a situação continua você logo pensa “por favor, se for para acontecer algo, que seja apenas um assalto, eu passo o celular e a bolsa tranquilamente”. Por outro lado, é inexplicável o alivio que se sente quando você percebe que é uma mulher que está do seu lado.

É difícil aprender a conviver com esse sentimento, o medo constante de ser violentada por simplesmente ser mulher. Violentada com olhares, com assobios, com carros que param, com palavras que envergonham, com gestos que assustam, com reações que zombam da impotência que nos invade, e será que preciso falar do medo do estupro que nos ronda? Há quem diga que são as mulheres que causam tal reação, são nossas roupas, nossos corpos, nossos jeitos que seduzem, que convidam, que provocam, provocamos os motoristas, os cobradores, os pedestres, os professores.. enfim provocamos todos os homens inocentes que nos agridem cotidianamente. E já que é assim, se eu tenho que lidar que o simples fato de existir provoca os homens, se eu tenho que conviver com o medo constante de poder ser estuprada, vocês homens que aprendam a lidar quando nós mulheres falarmos que todo homem é um estuprador em potencial, ou que não confiamos em vocês, ou então que não nos sentimos seguras. Desculpe ‘homens de bem’, porém eu não ligo se isso soa como ofensa, se machuca seu orgulho, muito menos ligo para as tentativas de mostrar que estou exagerando, pois eu estou aqui para falar da minha sobrevivência, e não da de vocês.

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Na imagem: “Homens! Deixem os assobios para os pássaros.”, autora desconhecida.

Vivemos em uma sociedade marcada pelo patriarcado, pela cultura do estupro, pela violência constante contra as mulheres. Nossa sociedade como está estruturada foi feita por homens para homens. Estatísticas indicam que a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil. Isso não é papo chato de feminista, esta é a verdade, nós mulheres estamos morrendo todos os dias por sermos mulheres e nossos agressores não são monstros, são homens comuns que foram criados achando que são donos das mulheres. E a cada notícia nova de uma mulher que foi agredida, eu sinto a dor em mim, porque eu não sei quem vai ser a próxima. Eu queria que o feminismo não precisasse existir, eu queria não ser a radical das rodinhas, mas eu não consigo desver todo machismo e violência que existe, e se eu tentasse fazer isso no mínimo eu estaria sendo hipócrita.

Mas agora vamos falando de coragem. Coragem esta que me dá forças para todo dia levantar e não deixar o medo me oprimir, que não me deixa desistir da batalha. Eu escolhi ser a dona da minha vida. Eu escolhi reagir e conquistar o meu espaço. Eu quero a rua. Eu quero direitos iguais. Eu exijo ser respeitada. Eu quero que o mundo entenda que o corpo é meu, e de ninguém mais. Eu levanto a bandeira da liberdade, igualdade e segurança para toda e qualquer mina. E eu não aceito que homem nenhum invada meu espaço. Eu não sou um pedaço de carne, muito menos o prato do dia. Eu não sou um objeto, então não ache que estou aqui pra sua serventia. Eu não quero conviver com seus assédios disfarçados de elogios. Não quero os seus beijos invasivos, muito menos os seus toques. Eu não quero ser parte da sua fantasia. E eu me sinto cada vez mais forte, porque eu sei que comigo eu carrego a força de várias outras minas que se empoderam todos os dias. E que vão fazer questão de lembrar que não estamos aqui simplesmente para agradar.

Cotidiano

Por Carolina Freire

Acordei cedo, me vesti, parei, pensei … Já podia ouvir a opressão gratuita em forma de olhares, gritos, cantadas (??) Troquei de roupa, tapei meu corpo, perdi conforto, só como um meio tosco de me proteger.

Saí de casa. No trabalho, cumprimento, sou pontual, executo meu ofício com modesta competência. Mas afinal, de que vale tanto esforço? Aqui já ouço como sou incapaz de ser promovida; não falam diretamente, não são tão corajosos, mas batem na minha cara (que não é frágil) o tempo todo com enaltecidos argumentos de que sou excessivamente emotiva e ocupada demais com os filhos. É … parece que a racionalidade vem estocada em um saco pesado de testosterona daqueles que fazem, mas não criam, filhos.

Saio do trabalho de cabeça baixa, mas não derrotada; não, o dia ainda não acabou. Na condução, aperto, apalpo, abuso e passageiros cegos, só eu vejo, só eu sinto … nojo.

Na faculdade, procuro crescer, mesmo sendo menos escutada, menos relevante (parece), eu continuo. Continuo porque quero meu intelecto à prova, quero ser a competente, a que trabalha bem; chega de ser a gostosa ou baranga, a feia ou bonita; chega! Quero sair do concurso de beleza que a vida me impõe, quero respeito.

A aula acaba, já é tarde e sinto medo. Aqui a mulher forte esmorece, se encolhe, é hora de ir pra casa e tenho medo. Porque eu sei que à noite e sozinha eu não estou segura. Engulo esse medo e, assim como os não’s que a vida me dá, ele desce pela garganta e corta e fere e dói…

Chego enfim em casa e meus filhos precisam de mim, a casa precisa de mim, eu preciso de mim. Me ocupo nesses últimos instantes do dia com um serviço repetitivo e mecânico, mas ainda assim agradeço pela fé que me resta. Porque à essa altura, coisificada, subjugada, diminuída, oprimida, rechaçada, esperança foi só o que sobrou pra mim.

O sono me arrebata porque o cansaço físico me toma e aquieta a mente. Já o sonho, esse me ilude com a projeção de um lugar onde não sexualizam meu corpo, não me dizem o que fazer e não sufocam minha voz. Mas eu então acordo e a realidade me traz de volta porque o dia começa de novo e eu não quero chorar … eu não posso chorar … não posso … não posso … não posso, mas as lágrimas não demoram a cair …

PAUSA

Por Vívian Viana

Quando o mundo real passa para uma tela, quando temos mais contato com a representação, do que com a apresentação, quando as relações sociais se tornam relações virtuais é necessário uma pausa. Uma pausa, um retorno ao ponto em que nos perdemos e perdemos nossa essência. É imperioso esse tempo de reflexão, para que então tenhamos autonomia e dimensão do play que a vida requer. É lastimável ver o mundo de cabeça baixa. Fui ensinada a manter sempre a cabeça erguida, diante de todo e qualquer desafio. “Engole o choro. Cabeça erguida. Segue em frente”. Cabeça baixa é sinônimo de tristeza. É claro que temos nossos momentos em que é necessário abaixar a cabeça, olhar para nosso interior e amadurecer. Contudo, não é para esse fim que estamos abaixando a cabeça. Abaixamos a cabeça para olhar o mundo. Calma. Tem alguma coisa errada nisso. A lógica era: levanta a cabeça, siga em frente, siga forte, admire o mundo ao seu redor, critique o mundo ao seu redor, construa o mundo ao seu redor, desconstrua o mundo ao seu redor. A lógica virou: touch, digital, “digito logo existo”. É perigoso ver o tato humano se tornado touch screen. É arriscado não falarmos disso.

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As relações humanas foram substituídas por um enter. Por estar online. Offline. Gravando  um áudio. Digitando …

E seguimos nessa direção. Ou seria melhor dizer, seguimos nessa rede. Ou ainda, nos enrolamos nessa rede.

Quando um digitando conseguiu substituir o  conversando. O gravando um áudio substituiu a voz ouvida ao vivo. A discussão atinge níveis robóticos. São rápidas,  irracionais, desmedidas. Perdemos pouco a pouco o tato humano. Bem, acredito que o tato humano é essencial, é com ele que percebemos no outro a essência do que nos aproxima. O sermos humanos. Resolvi aprender que, para além dessa tela, tem um ser humano que sente, que tem um olhar único, uma história única, tal qual somos todos. Estou do lado de cá da tela. Não sou o lado de cá da tela. Tampouco você é o lado de lá da tela. Você está.

Soa paradoxal usar o meio virtual para propagar essa reflexão. Mas o faço na expectativa de que olhando para baixo, ou olhando para tela, nós possamos nos conectar e juntos olharmos para fora.

Vivemos em sociedade. Sociedades. Sócias. Sociais. Só. Mas quando as redes virtuais – não consigo chamá-las de sociais, não mais – deletam o olhar, apagam o olho no olho, o que vemos são dedos nervosos bradando ódio, sem se quer perceber que se trata de outra PESSOA, ser humano do outro lado. Estamos conectados. Mas não pelos dedos entrelaçados, pelos abraços. Estamos ligados por fios, ou Wi-Fi se preferir. Temos uma conexão virtual.

Quando foi que perdemos o assunto, a piada, o debate. Ah está tudo no Google, isso deve bastar. Não basta Google. Não basta. Basta.

É claro que a internet e a tecnologia trouxeram benefícios grandiosos. A internet presencia lutas lindas, lutos necessários. Todavia, é mister que essas lutas antes de virtuais sejam reais, que esses lutos antes de se tornarem capa de redes sociais sejam sentidos, e não meras demonstrações de massa. É preciso que cada ser humano sinta, antes de falar. Reflita nos outros seres humanos interligados antes de bradar discursos de intolerância. É necessário que as lutas sejam antes de tudo consolidadas fora da rede, nos corações de quem as carrega, sob pena de se tornarem meros discursos de rede.

Já previa George Orwell, seríamos vigiados por um grande olho, em todo lugar que fôssemos, “O GRANDE IRMÃO ESTÁ DE OLHO EM VOCÊ.” O irônico é que esse Grande Irmão, ou para demonstrar sofisticação e universalidade, esse “Big Brother”, deveria nos incomodar. Deveria ser alvo de insatisfação e não de convalescimento. Mas somos, hoje, parte integrante desse grande irmão. Com um porém: queremos mostrar apenas nossas faces felizes a ele.

A sociedade necessita de ser humanos humanos. Médicos que conversem, que examinem para além do receituário. Advogados que olhem além da altura de seu Vade Mecum mais atualizado – ele não é tão alto assim. Que os engenheiros se preocupem mais com a força existente dentro de um abraço, que meçam formas de aproximar pessoas. O mundo precisa de professores que elogiem, que construam para além do vestibular, para além dessa barreia que separa os mundos. De Seres humanos que se atualizem na humanidade e não mais nos aplicativos.

É imperioso o pensar, o agir, o lembrar sem consultar o celular. Lembrar o nome, lembrar a data de aniversário não porque o Facebook te avisou, lembrar a importância do olho no olho, da conversa bem conversada, do diálogo bem medido, bem estruturado. E só assim será possível uma desconstrução verdadeira. Quando ultrapassarmos do muro touch.

Que a cabeça baixa seja para o crescimento. Que a cabeça erguida nos permita olhar no olho. Que a cabeça baixa não demonstre a fraqueza virtual que nos cerca. Que a cabeça erguida seja para olharmos além. Que a cabeça baixa não seja para o digitando, gravando um áudio. Que a cabeça erguida seja para o conversando. Que a cabeça baixa seja para semear. E a cabeça erguida para admirar e colher os frutos. E se precisar de uma “mãozinha” para colher esse fruto, que seja humana e não touch.

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A voz do outro

Por Beatriz Souza

Um dia, após ler “A Cor Púrpura”, me lembrei do romance do poeta escravizado Juan Francisco Manzano, o único latino-americano a escrever uma autobiografia sobre a sua experiência. As duas obras tem como um ponto comum a linguagem: Celie é uma personagem mulher negra que escreve cartas para Deus em inglês popular, enquanto Manzano foi um homem cubano de carne e osso que escreveu sua autobiografia no espanhol que aprendeu sozinho (e que, segundo a sociedade da época, não deveria nem mesmo ter aprendido enquanto pessoa escravizada).

Incomoda, a princípio. Não são leituras fáceis; a leitura da autobiografia é ainda mais difícil, já que a sintaxe, a pontuação e o ritmo são bem mais irregulares do que os do romance, justamente por ser real. Várias pessoas se sentiram incomodadas – desde a publicação (tardia) em 1937, o testemunho de Manzano já sofreu várias tentativas de correção, reescritura e mudança de estilo. Mas é possível localizar dentro de nós o porquê de tanto incômodo?

Na minha opinião, tem a ver com o desconforto que provoca a diferença, que conduz como consequência à tentativa de padronização. No entanto, transcrever essas prosas em norma culta significaria anular as suas posições enquanto Outro, já que na correção está implícito o fato de serem incapazes de falarem por si mesmos: qualquer coisa escrevam, falem ou pensem, deve se adequar à disposição “normal” da língua para que possam ser entendidas por nós, pessoas leitoras normativas e “educadas.” Nesses casos, o sentido pode muito bem ser entendido – não existe uma impossibilidade de comunicação. O problema está no fato de nós, falantes “cultos” da língua, não podermos nos dispor a ler uma coisa do gênero – o que, por fim, parece ser o mesmo mecanismo que está por trás do preconceito linguístico.

Como leitora, é notável a diferença que a linguagem faz na força da narrativa. No caso do livro de Alice Walker, basta notar a sensação que se tem quando se lê as cartas da Celie e as cartas da Nettie, a personagem que é sua irmã e professora, que escreve em inglês-padrão. A sensação também se repete no caso da autobiografia; basta comparar um trecho traduzido em norma padrão com outra edição que manteve a escrita original. Isso porque a escrita original permite não só entender abstratamente falando, não só saber da vida na escravidão (que já aprendemos na escola), mas sim experimentar a vida do homem escravizado e da mulher negra através de seus olhos (e talvez por isso Alice Walker tenha ganhado um prêmio Pulitzer pela sua história de ficção). Os erros de ortografia, gramática e sintaxe nos deveriam inspirar respeito, porque não são verdadeiramente erros, mas provas das suas trajetórias de vida enquanto negros. Como bem definiu Alex Castro (tradutor da autobiografia), corrigi-los significa em prática apagar sua história, silenciar seus sofrimentos e rasurar suas vidas.

De uma maneira muito abrangente, vejo como isso se repete no preconceito linguístico; como apontar os erros de português de uma pessoa terminam por minimizar a experiência de vida das inúmeras pessoas que se exprimem em formas que não tem prestígio social. Por isso talvez seja melhor pensar duas vezes antes de desqualificar a fala de outra pessoa porque “não sabe escrever”, ou ainda, se gabar dizendo dominar a norma culta (o que é apenas a expressão de um privilégio). Porque o preconceito linguístico é, enfim, um indicador dos preconceitos que se tem – contra pobres, negros, nordestinos e qualquer grupo que diferente do padrão.

Para ilustrar tudo isso, segue um trecho da voz de Manzano:

“Hum dia, este dia de rezignaçaõ prinsipio de quantos bens e males o mundo me deu pa. provar foi como se segue era sabado antes do almoço segundo era nosso custume eu tinha qe. assear-me pois vestia duas vezes por semana, pa. isso fui ao banheiro do tacho qe. distava huns trinta pasos num declive á frente da caza em quanto me banhava me chamaraõ pr. ordem da sinhá ja se pode imaginar como sahiria; me recebeo perguntando o qe. fazia no banho respondi qe. me asseava pa. vestir-me, com qe. lisensa o fizeste? com nenhuma respondi. e pr. que foste? pa. assear-me, esta sena foi no comedor ou varanda na porta da rua, alli mesmo me quebraraõ o nariz e fui pa. dentro vertendo duas veias de sangue, isto me afligiu e envergonhou pr. qe. na porta ao lado vivia huma mulatinha de minha edade a primeira qe. me inspirou huma couza qe. eu naõ conhecia  era huma inclinaçaõ angelical hum amor como si foce minha irmã eu le prezenteava com pencas de maravilhas coloridas qe. ella recebia dando-me algum doce seco ou fruta eu le tinha dido qe. era livre qe. minha maẽ tinha morrido avia naõ muinto; naõ bastando o ja dito perto das dez minha ama me fez tirar os sapatos me rasparaõ a cabeça, embora isto foce mui freqüente, esta vez me cauzou a maior mortificaçaõ. (…)”

“A chata”

Por Fernanda Martins

             Foi assim que eu fiquei conhecida depois que me assumi como feminista. Passei a ser tachada de louca, de neurótica, de pessoa que não sabe brincar e que questiona tudo. Virei motivo de piada entre vários colegas. “Lá vem ela”, “você leva tudo muito a sério”, “nossa, mas não pode mais nem brincar”, “você reclama de tudo”. Todas essas frases se tornaram frequentes para mim. Percebi que me reconhecer como feminista é um ato de empoderamento, mas que, ao mesmo tempo, deixa feridas.

             O processo de entender o feminismo e de me compreender dentro disso foi – e continua sendo – conturbado. Eu sinto que cresço e amadureço todos os dias e que faço amizades incríveis que me acompanham ao longo dessa caminhada. Mas, ao mesmo tempo, esse é um processo que machuca. Machuca porque me afasta de muita gente que antes eu sentia o prazer de conviver e hoje não mais. Machuca porque vejo gente por quem eu nutria verdadeiro afeto achando que hoje eu só quero ser “a do contra”. Machuca porque desisti de frequentar lugares que antes eu adorava. Machuca porque eu também me questiono, questiono minhas falas, minhas atitudes. Machuca porque de repente eu me pego cantando uma música que sempre gostei e quando presto atenção na letra me sinto angustiada. Machuca porque hoje eu percebo que uma série de relacionamentos (meus e das minhas amigas) que antes eu julgava como normais, são ou foram, na verdade, abusivos. Machuca muito me assumir como feminista porque travar batalhas contra séculos de patriarcado não é tarefa fácil.  Exige muito de nós.

            Exige paciência, exige força, exige coragem, exige união. É e na união que a gente encontra mais e mais força. Porque são nas conversas travadas nos grupos de minas, nos desabafos, nesses espaços de sororidade que gente vê que não está sozinha, que a gente se reconhece em histórias que não são nossas, que a gente percebe que nossos medos são os mesmos, que a gente entende que juntas podemos mais. São esses espaços que nos dão esperança, que nos encorajam a continuar lutando, que fazem com que as feridas das batalhas cotidianas sejam atenuadas. São essas companheiras, amigas, colegas de luta que nos oferecem rosas no meio de tantos espinhos.

             Eu preciso do feminismo. Sim, eu já posso votar, posso estudar e trabalhar fora. Mas isso não basta e é por essa razão que a luta continua. Não basta porque mulheres ainda recebem salários menores, porque mulheres ainda são minoria na política e em cargos de comando, porque mulheres ainda são mortas pelo simples fato de serem mulheres, porque mulheres são estupradas e ainda tem cara que pergunta sobre a roupa que elas estavam usando. Não basta porque mulheres sofrem violência doméstica todos os dias, porque o nosso medo de andar sozinha na rua não é o medo de perder o celular ou a bolsa. Não basta porque ainda tem homem que não sabe que “não” significa não, porque tem homem que acha que mulher é propriedade sua.

            Não basta por uma infinidade de violências diárias que sofremos todos os dias e enquanto tudo isso acontecer eu vou continuar sendo a tal chata, vou continuar questionando, reclamando e incomodando.  Não é fácil, machuca e deixa feridas. Mas tem um monte de outras “chatas” junto comigo e com elas é mais fácil seguir em frente.  Gratidão, queridas!

é preciso ter coragem

Da exaustão de se entregar demais e dos dissabores do trabalho em conjunto

Por Abel de Santana

Serei breve, acredito. Já adianto-me nas desculpas agora, caso assim não o seja. Prometi a mim mesmo que não voltaria atrás para substituir uma palavra sequer, o que inclui a apresentação tola.
Como é pertencer ao meio que você sabe que não te pertence?
Cabem metros nessa resposta. Ser diferente não é um mal. Não deveria. Como tendente ao materialismo, não sou capaz de violar o que diz respeito à razão do mundo material, sem desconsiderar a utilidade pragmática do discurso, antes acreditando que, por si só, não é critério de validade para nada. A composição de interesses (e não de posições) é via segura para estabilização de expectativas com respeito ao outro. Não posso me estribar em superficialidades. Seria negar-me a mim mesmo a verdade.
A verdade não existe, eles dizem. Mas é claro, se já de início emerge a declaração mentirosa.
Ah, a ontologia.
Birra ideológica é ódio. Quando o critério é o conflito pessoal perante o grupo, não há critério, é ódio. E hipocrisia.
Hipócritas destilam seu ódio o tempo todo com declarações homicidas a respeito do outro. Reclamam da teoria do inimigo, mas de tanto conhecê-la, sabem aplicá-la com precisão.
Que não seja levado a mal. Que eu não seja mais o mau.
Discutir censura? Tá pensando sério? Não sou capaz de levar a sério.
Tão bom seria se houvesse mais discordância, mas na discordância, tolerância e respeito.
Daí voltamos ao ideal social-democrata da não violação da autonomia privada e liberdades individuais e promoção de direitos fundamentais.
É o pensamento menos genocida que sou capaz de alcançar.
Não se trabalha sem autonomia, não se respira sem liberdade, não se contesta sem diretos.
Estive recatado do lado mais intolerante da moeda. Eles pregam o contrário.
Eu quis não me manifestar. Mas a expressão máxima de vontade no que diz respeito às próprias aspirações; a negação da disciplina quando se deve assumir e cumprir compromissos; o esmagamento meramente moral do argumento contrário; o trabalho em conjunto torna-se inviável, a menos que se queira construir o constructo jocoso.
E é por me entregar demais que hoje jogo a toalha.