Por que a língua portuguesa não é machista

Quando criança, eu nunca gostei de quando minha mãe se referia a mim e ao meu irmão como “vocês”, a não ser quando era para elogiar, porque aí tudo bem. O problema era quando um de nós fazia algo de errado e ela acabava brigando com os dois, no plural. Se sua mãe não tinha essas manias, você certamente teve professores que o fizeram, como naqueles momentos mais que enfadonhos quando a sala inteira era obrigada a ouvir galhofas sobre o que alguns poucos, ou apenas um aluno fizera de errado.

São duas as coisas que me incomodam tanto quanto ouvir os sermões da minha mãe ou dos meus antigos professores. A primeira delas é dar à linguagem um caráter metanarrativo, que é diferente do meu discurso; a segunda, é negar minha individualidade, ou, em outras palavras, fazer com que toda minha forma de pensar, que é diferente, ou apenas minha, seja restrita à estrutura da língua e não ao modo como penso, embora concorde com um pensamento aqui e outro ali, porque, convenhamos, é um pouco difícil ser totalmente original.

Como diz o título, estou me referindo à linguagem inclusiva. O nome remete à inclusão das mulheres num discurso (ou metadiscurso?)[1] no qual elas eram desde sempre excluídas, de acordo com essas próprias mulheres. Nossa língua, com quase nenhum resquício do gênero neutro (como os pronomes “aquilo” e “isto”), sempre deu mais ênfase ao gênero masculino. Quando, por exemplo, nos referimos a um homem e a uma mulher, nós usamos o pronome pessoal “eles”, mesmo se forem duas mulheres e apenas um homem.

Uma breve retomada ao aspecto histórico da língua pode nos responder por que o português tem preferência sobre as desinências masculinas às femininas. A língua portuguesa foi-se transformando a partir do latim (ou, especificamente, do latim vulgar, conhecido como sermo vulgaris), que possui o gênero neutro além dos outros dois. Quando declinamos os pronomes pessoais is, ea, id (ele, ela, isso), temos no caso ablativo: eo, ea, eo (para ele, para ela, para ele); no genitivo plural: eorum, earum, eorum (deles, delas, deles), sem citar os casos genitivo singular e dativo, nos quais as três declinações de gênero são iguais (ejus, ei, respectivamente).

Outros exemplos como o adjetivo “bom” (bonus, -a, -um) tornam mais explícita a semelhança. No genitivo: boni, bonae, boni (de bom, de boa, de bom), como em “de boa vontade”, bonae spontis; no ablativo: bono, bona, bono (para o bom, para a boa, para o bom), em “para o bom menino”, bono puero. E os exemplos são quase inesgotáveis. Os idiomas vindos do latim suprimiram o gênero neutro pois o gênero masculino já cumpria sua função. Assim, ao invés de se usar o neutro para se referir a duas pessoas de gêneros diferentes, utiliza-se, portanto, o masculino.

No idioma holandês não existe essa diferença entre os pronomes pessoais relativos à maiorias ou artigos masculinos e femininos (quando há um homem e duas mulheres, diz-se “zij” – pronuncia-se zéi, sendo o contrário também verdadeiro). O verbete “de” é utilizado para se referir tanto à “de man” (o homem) quanto à “de vrouw” (a mulher); do mesmo modo, “het” relaciona-se aos substantivos neutros, como em “het strand” (a praia). O plural de todas as palavras, masculinas, femininas e neutras é representado por “de”, como em “de kinderen” (as crianças) ou “de huizen” (as casas).

O bom de tudo isso é que, desde a criação do idioma holandês, o uso do mesmo artigo para o singular e o plural, ou masculino e feminino, nunca foi sonoramente estranho a seus falantes pelo simples fato de as pessoas não terem tido tempo de se acostumar com o contrário. Poderíamos até pensar em usar outras vogais para nos referirmos a homens e mulheres no português, mas soaria tão estranho que o bom senso me leva a acreditar que as pessoas nunca se acostumariam com isso – em outras palavras, não daria certo.

Idiomas como o português, o francês e o italiano[3] dão relevância às desinências masculinas sobre as femininas pois vieram do latim, como já explicado. A justificação do “machismo” por trás da língua portuguesa viera daí, uma vez que a sociedade romana era rigidamente patriarcal (centrada na figura do paterfamilias), embora também o fossem os países de língua inglesa, onde a figura do homem também representava o núcleo familiar e social, enquanto a mulher se ocupava dos afazeres domésticos e dos filhos. Apesar disso, a língua inglesa não faz qualquer distinção de gênero a partir de maiorias – quando há duas mulheres e um homem, usa-se o pronome “they”, como no caso do idioma holandês.

A Holanda foi, curiosamente, um dos primeiros países do mundo a conferir o direito de voto às mulheres, em 1917. Apesar disso, a Rússia, cujo idioma se utiliza de pronomes diferentes para o masculino (Он), feminino (Онa) e o plural (Oни), dando prioridade ao masculino, também o fez logo no mesmo ano durante a Revolução Bolchevique. Nos Estados Unidos, a luta pelo direito de voto das mulheres começou em 1848, tendo sido “concretizada” apenas em 1920, quando foi aprovada a Emenda Constitucional nº 19 e 36 dos 48 estados americanos tiveram de ratificá-la. Estados conservadores como o Mississipi só a ratificaram décadas depois, em 1984.

E por que falar do voto? Ora, se o voto não é uma das expressões sociais mais significativas? Foi o voto que deu às mulheres maior possibilidade de serem ouvidas no âmbito político e social, além de fazer valer suas vontades como as dos homens, ainda que de modo restrito, pois as leis não abrangem de todo o pensamento das pessoas. O fato é que usei desse exemplo para dizer que não, a estrutura da língua não pode limitar o modo de pensar de uma sociedade ou de um indivíduo.

O voto não diz que não haja machismos na sociedade pelo fato de ter sido concedido o direito de voto às mulheres e sim que há uma parte daquela sociedade que não é machista. Apesar de lados diferentes contemplarem a mesma língua, há pessoas que são machistas e pessoas que não o são. O caso se torna mais explícito quando analisamos o aspecto da língua sobre as colônias que receberam o idioma do país colonizador como seu. Dentre elas está a Nova Zelândia, colônia inglesa e o primeiro país do mundo a dar o direito de voto para as mulheres, em 1893!

Tal como minha mãe e meus professores ao desconsiderarem o comportamento dos demais alunos, dizer que a estrutura das palavras oprime pelo simples fato de dar relevância para as desinências masculinas em prol das femininas (lembrando mais uma vez que o português não possui desinências neutras e, mesmo se houvesse, elas se pareceriam bem mais com as masculinas, pois “aquilo” ou “isto” terminam com “o”) é dizer que há um metadiscurso específico por trás da fala de cada pessoa, um metadiscurso que exclui, mesmo sem querer, a intenção do locutor.

Em outras palavras, é dizer que tudo o que eu penso ou acredito é condicionado pela forma como a estrutura de uma frase se constrói e não pelo modo ou o contexto em que a uso. Se assim o fosse, não poderíamos jamais dizer que alguém usou de algum contexto ironicamente, embora eu não entenda muito de ironias, pois estaríamos analisando apenas a estrutura semântica/sintática da frase, deixando de lado toda a intenção por trás do discurso.

Um dos meios criados para contornar essa “opressão” é citar as desinências femininas separadas por algum sinal junto às masculinas, embora as femininas, na maioria das vezes, estejam sempre a frente, como exemplo, dizer “as/os alunas/os” ou até usar “x” e “@”, como “alunxs” e “alun@s”. O grande problema disso é que a maioria das pessoas não consegue terminar de ler uma frase inteira assim sem se cansar, conquanto a maioria dos textos do Direito consiga fazê-lo sem ter que se utilizar de repetições desnecessárias, apesar de também fazer uso dessas mesmas repetições.

Admito que a ideia por trás da linguagem inclusiva é das melhores, mas que é praticamente, para não dizer de todo, intangível em nosso idioma. Nos acordos ortográficos que promovem mudanças na língua portuguesa é sempre tomado bastante cuidado ao se suprimir acentos gráficos, deixando a fonética quase sempre inalterada, uma vez que é de conhecimento geral que a palavra começaria a soar de forma estranha e o termo logo cairia em desuso, podendo o acordo ser, inclusive, desconsiderado por seus falantes.

Há algum tempo, li um manual muito interessante sobre o “uso não sexista” da língua portuguesa, o que concilia bem os dois lados, tanto das feministas, quanto dos demais leitores que não precisam se cansar para terminar de ler um texto. O único detalhe é que, embora seja uma ótima proposta, talvez as pessoas não estejam acostumadas a substituir um “os habitantes nunca estão contentes com o transporte” por “nunca se está contente com o transporte”, por uma simples questão de praticidade, como exemplo do próprio manual – a mesma praticidade que transformou, sucessivamente, o “vossa mercê” em “você”.

Por fim, podemos substituir palavras como “os juízes” por “poder judiciário” ou “os assessores” por “a assessoria” sem quase nenhuma dificuldade. Talvez o fato demandasse algum tempo para que as pessoas se acostumassem, mas, antes de tudo, devemos entender que o discurso nunca é realmente neutro e que a linguagem nunca fala por si só, principalmente em uma sociedade tão multicultural como o Brasil do século XXI. No caso americano, a sociedade possuía costumes diametralmente opostos entre o norte e o sul, como no caso do Mississipi, e ainda assim compartilhavam do mesmo idioma, que não faz distinção de desinências. Podemos dizer, então, que o inglês retratava o machismo do sul nas regiões do norte? A resposta fica por sua conta.

Não podemos negar que existem prerrogativas em uma fala, embora elas não se refiram a um contexto estranho ao conhecimento do locutor, mas, sim, a cada pessoa separadamente (com todas as suas implicações históricas e sociais). Tomar tal premissa como certa é fazer justamente o contrário do que a linguagem inclusiva propõe, que é descaracterizar a expressão por trás da fala de cada pessoa, como as próprias leis o faziam ao tentar calar os anseios de tantas mulheres, que foram pouco a pouco garantindo seus direitos através do voto, principalmente o direito de poderem se expressar sem que suas falas estivessem ligadas a um discurso característico daquela mesma sociedade machista que ainda deixa seus resquícios por entre os tempos.

Marconi de Paiva Lenza


[1] Uso o termo “metadiscurso” no sentido de um discurso além do discurso. Um discurso que é estranho ao meu, como dizer que minha fala é machista (metadiscurso) por usar “Bom dia, alunos”, querendo me referir a todas as pessoas presentes na sala (meu discurso). Reparem que minha intenção não foi negar o fato de que nossas ideias são condicionadas pela convivência no mundo e com outras pessoas, mas tão somente criticar a premissa de que a estrutura de uma língua pode falar por si própria conquanto a intenção do falante é desconsiderada.

[2] Declinar uma palavra significa flexioná-la de acordo com a função que ela exerce numa frase (caso). Por exemplo: regina (rainha) é escrito assim quando exerce a função de sujeito ou predicativo do sujeito. Se fosse um objeto direto, seria escrito como reginam (regin – radical; am – desinência do caso acusativo singular, que representa os objetos diretos). Nautae reginam vocabant (Os marinheiros chamavam a rainha).

[3] Na linguagem do dia-a-dia, usa-se comumente o pronome “loro” para se referir ao plural. No entanto, a literatura italiana, principalmente tradicional, do mesmo modo que faz uso do passato remoto no lugar do passato prossimo, apesar de possuírem o mesmo significado, também se utiliza de pronomes como “egli” (ele) ao invés do “lui“, “ella” (ela) no lugar de “lei” e, por fim, “essi” (eles) e “esse” (elas) ao invés do pronome “loro” (eles), que não faz distinção de gênero na referência.