Uma despedido em prol da minha sanidade

Por Amanda Conti

Antes de entrar no Direito ele nunca foi minha primeira, segunda, sequer terceira opção. Na verdade, chegava a dizer que queria fazer tudo, menos Direito. Então, porque eu entrei para Direito?

Quando estava no Ensino Médio, sempre me classificava entre os melhores estudantes do colégio, tirava sempre boas notas, era vista como uma “nerd”. Sempre me diziam que eu deveria fazer um “bom curso”, afinal, eu tinha nota para passar para um “bom curso”, mesmo que isso significasse fazer algo que eu não gostasse. Quando estava no terceiro ano do Ensino Médio, estava à beira de um colapso, com minhas notas caindo rapidamente, porque eu não tinha vontade de estudar, não tinha vontade de ir para aula, não tinha  vontade de continuar. A única coisa que queria era arranjar um jeito de sair da escola, ir embora. Passei no vestibular no meio do ano e entrei na UnB.

Após entrar para o Direito, eu comecei a ver que tinha alguns aspectos bastante interessantes no curso. Quando estava no primeiro ano do médio, tinha feito um curso de direito para Ensino Médio, e tinha gostado. Então pensava: porque não dar uma chance? Eu me divertia com as pessoas novas que conhecia, com as atividades extracurriculares que a UnB proporcionava, com as extensões, com as festas e tudo mais, mas as partes que eram ruins, e que já tinha previsto que seriam ruins, continuavam lá. O Direito ainda é um curso elitista, meritocrático, machista, racista, LGBTIfóbico, e ainda que possa tentar deixar ele menos assim, ele ainda é. A arte, a criatividade, que sempre estiveram dentro das minhas perspectivas de futuro, não estavam lá. Por mais que eu goste de várias áreas dentro do curso, por mais que eu esteja envolvida em projetos dentro dele, ainda sinto como se o curso só me deixasse frustrada, triste, e doente. Sim, doente.

Durante o semestre passado eu me encontrava sem condições de ir para as aulas, mas continuava tendo que vir, mesmo que isso significasse tomar remédios pesados, bastante pesados. Me adoecia ver o meu custo se resumindo a arrogâncias – de alunos e professores –, me adoecia que as expectativas que tinham dos alunos eram as mesmas de cem anos atrás: repetidores de códigos, de palavras de “grandes nomes” de pensamentos arcaicos, com um pensamento acrítico centrado em seus próprios umbigos.

E a gota d’água foi a prova de proficiência. Quem já fez alguma vez sabe do que estou falando – aquelas muitas questões, que se resumem aos nomes grandes e a uma pesquisada rápida no código. Durante um tempo, fiz as questões sem pensar muito. Mas eu apenas olhava para elas, e via as mesmas questões que fiz em outras matérias. Algumas chegavam a ser idênticas – sim idênticas, sem nenhum exagero. E simplesmente me perguntava: é isso? É essa a expectativa de um estudante de direito? Que ele saiba procurar um artigo no Vade Mecum? É esse tipo de prova massificadora, maçante que eles querem que eu e todas as demais pessoas nesse auditório façam? Uma garota sussurrando ao meu lado falou “que chatice”. E eu ri baixinho, concordando. Levantei meus olhos e vi uma imensidão de estudantes de direito, virando as páginas do Código de forma mecânica, repetitiva. Não conseguia olhar sem sentir um misto de tristeza, raiva, ódio e dor. É a isso que se resume o estudo jurídico? É a isso que se resume esse curso, que deveria ser considerado um dos melhores do país? É isso que esperam da gente? Olhando para os lados, eu não via futuros juristas, não via futuros advogados, procuradores, defensores públicos, pesquisadores, magistrados. Eu via máquinas, eu via o resultado da nossa Educação, não apenas no Ensino Superior, mas em todos os níveis, e a nuvem negra que paira sobre ela dizendo: isso só vai piorar. Não está ruim o suficiente? Charles Chaplin, no filme The Great Dictator de 1940 – há mais de 70 anos – fala algo que reflete ainda a nossa educação de hoje.

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens… levantou no mundo as muralhas do ódio… e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

(…)

Soldados! Não vos entregueis a esses brutais… que vos desprezam… que vos escravizam… que arregimentam as vossas vidas… que ditam os vossos atos, as vossas ideias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como um gado humano e que vos utilizam como carne para canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar… os que não se fazem amar e os inumanos. Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade!(Charles Chaplin, O grande ditador. Tradução disponível em: http://www.seufuturonapratica.com.br/portal/fileadmin/user_upload/POL/discurso_final.pdf)

Foi nesse momento que eu desisti, eu não conseguia terminar a prova, eu não conseguia ficar naquela sala sem sentir aquela raiva, por saber que era isso a que estava se resumindo a nossa educação, era essa a expectativa que tinham sobre o que um estudante de direito deveria ser. Mais uma pessoa capaz de responder uma prova. Eu era mais um soldado no meio desse exército de pessoas que vão sair de lá como máquinas para fazer parte desse aparelho instituído da nossa sociedade. Nesse momento, eu chamei o aplicador, me levantei e entreguei a prova para ele. Ele me perguntou se eu já tinha terminado, se não queria revisar nada, e eu simplesmente falei que me recusava a terminar a prova. Guardei meu material, levantei novamente e agradeci pela tristeza de ver que o Direito era só mais uma educação em massa. Nesse momento, ouvi risos, um amém irônico, e isso foi horrível, por saber que eu estava fora, abandonado a prova, mas era só mais uma entre os vários estudantes, e não fiz a menor diferença. Semestre que vem, novos estudantes farão essa mesma prova, e no semestre seguinte. E cada estudante, terá que ser aprovado em pelo menos duas provas nesse mesmo estilo para se formarem. Isso somado a todas as provas que fizeram durante suas vidas, no mesmo estilo, igualmente maçantes e sem sentido.

Falei para minha mãe, quando a encontrei, que não vou voltar semestre que vem, não sei se vou trancar o curso se vou abandoná-lo de vez. A decisão é difícil, pois por mais que eu esteja infeliz, por mais que tudo isso tenha me adoecido, me levado a tomar uma quantidade enorme de medicamentos, todos os dias, me machucado, chegado próximo de tentar me matar, ainda vão me recriminar por abandonar o curso. Por não ter um diploma na mão. Afinal, já estou com 19 anos, estou ficando velha. Tenho já dezenove anos. Mas eu abandonei o curso. A amiga da minha mãe não vai mais poder falar “a filha da minha amiga já está terminando o curso de direito”, minha tia não vai mais poder falar “você está aí fazendo nada, mas sua prima já está terminando a faculdade. Vai ser advogada”. Mas eu não quero esse diploma, não quero ser mais uma. Estou cansada das pessoas me falarem “mas é um curso tão bom, e qualquer coisa, o direito te abre muitas portas”, “qualquer coisa você faz um concurso público”. A que custo? Minha saúde? Minha vida? Minha felicidade? E alguém sequer me perguntou se eu quero passar em um concurso público? Se eu quero qualquer uma dessas coisas?

No final, serei apenas um estudante a menos, que não fará nenhuma diferença para esse sistema, no qual entram 120 novos corpos todos os semestres. Minha tristeza de hoje? Não ter rasgado aquela prova ao meio e saído sapateando.

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