Superação (?)

Por Nathálya Ananias

Destaque na sala de aula
Aluna exemplar exceto pela conversa
Menina de Federal
Exemplo
Era assim que as minhas professoras e professores se referiam a mim durante a minha vida escolar
Uma criança que não foi pressionada pelos pais a ser alguém muito grande
Só queriam que eu me estabelecesse financeiramente e tivesse o meu lugar para morar
O pai mecânico, a mãe professora
Sonhos grandes? Pra quê?
Ter o ‘pé no chão’ era o importante
Mas eu sonhava e sonhava alto
Meu sonho?
Eu seria alguém na vida
Muito mais que qualquer um ali pudesse imaginar
Superaria qualquer expectativa
E o primeiro passo seria passar em direito na Universidade de Brasília
Sonho realizado
Passei
Agora minha superação se mostra cada vez mais possível
E algum dia eu ainda serei a capa da revista que exibirá o meu sucesso e a minha batalha

Essa história seria até bonita não fosse exageradamente idealizada e romantizada. Construída de modo a fazer com que você, mas principalmente eu, não enxerguemos os problemas presentes em cada linha, em cada palavra e em cada pilar que compõem a estrutura social que nos molda e que ao mesmo tempo formamos.

Fazer parte de um grupo seleto de alunas de um curso extremamente elitista não é para qualquer pessoa. Aquelas que o fazem possuem sim, privilégios, mesmo que em suas diversas nuances, e para chegar até ele foi preciso que eu me esforçasse extremamente no que diz respeito aos estudos. Porém, para além disso, é preciso reconhecer determinados privilégios não apenas no processo de ingresso na Universidade, mas na minha vida como um todo.

Diferente de muitas pessoas com as quais estudei, minha mãe e meu pai me incentivavam nos estudos e me davam o aporte necessário. Trabalhei porque quis e não porque eu precisava ajudar em casa. Tive uma tia que pagou meu cursinho e que abriu sua casa para que eu morasse com sua família em Brasília. E sem deixar de levar em consideração cada um desses fatores eu consegui o que a princípio era meu sonho. E você pode até pensar que isso é sonhar “baixo”, mas na verdade era muito “alto” para muitas pessoas do meu convívio escolar que passaram bem longe de uma Universidade Pública ou até mesmo de uma Universidade.

Assim que cheguei na UnB me deparei com um universo extremamente destoante do meu. Estava muito enganada ao pensar que as diferenças não seriam significativas e que eu facilmente me adequaria aos espaços. Não saber inglês era a menor das minhas preocupações, assim como nunca ter viajado para vários lugares e países. Eu precisava fazer amigas, me inserir em grupos. E por mais que tenha sido difícil, porque muitas já se conheciam do Ensino Médio, eu consegui. Porém, comecei a perceber que não bastava eu me inserir, era preciso permanecer. Precisava ter tido experiências similares, ter lido os mesmos livros, assistido os mesmos filmes, mesmos desenhos, e, principalmente, ter dinheiro para acompanhá-las. Me esforcei bastante, mas consegui, ou pelo menos acreditei que sim.

Achei que o fato de minhas amigas terem discussões sobre classe faria com que eu sofreria menos. Achei que a assistência estudantil na prática era como na teoria. Achei que seria fácil compor os espaços como planejado. Ilusão.

O que a princípio seriam direitos se colocavam e ainda se colocam como privilégios e favores. Estar em uma Universidade que muitas pessoas nem sequer sonham estar, receber bolsa permanência enquanto muitas precisam e não são selecionadas no processo, morar na Casa do Estudante Universitário quando muitas que não moram no DF não recebem ao menos bolsa pecúnia, fazer contatos que só me foram possíveis por cursar direito na UnB. Estas são algumas das muitas constatações que posso fazer. Porém, se em algum momento tento contestar tudo isso me chamam agressiva, me calam e dizem que eu estou “pegando o boi” de ter tudo o que tenho e de estar onde estou. E já não bastasse ainda me gritam EXCELÊNCIA ACADÊMICA. Preciso render, preciso ter notas boas, preciso, preciso, preciso.

 A sua empatia se faz mais que necessária para compreender os problemas dessa tão idolatrada meritocracia e não para sentir pena ou dó. As exceções existem, porque elas devem existir. São pessoas que ascendem socialmente, porque se a elas não fosse permitido o fazer, as oprimidas se rebelariam. Mas se apresentando assim, as oprimidas não apenas não se voltam contra essa estrutura como querem oprimir aquelas iguais a elas.

Minha voz e permanência nessa Universidade e nesse curso são muito mais que estar, são resistência. Compor este espaço extremamente elitista me traz dores e me molda de muitas maneiras, mas muitas vezes “abrir mão” de tudo isso não se mostra uma opção, porque enquanto você planeja sua próxima viagem a minha maior preocupação é como pagar as contas sendo que a bolsa não caiu e meu pai não tem como me mandar dinheiro.

Não peço a sua dó ou piedade, mas sim que perceba, reflita e mude muitas das suas atitudes. Essas histórias de superação que as pessoas tanto gostam não são bonitas e não devem ser tratadas como se o fossem. Entender isso é o mínimo para que haja um questionamento ou até possivelmente uma mudança.

*O texto está no feminino.

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