PAUSA

Por Vívian Viana

Quando o mundo real passa para uma tela, quando temos mais contato com a representação, do que com a apresentação, quando as relações sociais se tornam relações virtuais é necessário uma pausa. Uma pausa, um retorno ao ponto em que nos perdemos e perdemos nossa essência. É imperioso esse tempo de reflexão, para que então tenhamos autonomia e dimensão do play que a vida requer. É lastimável ver o mundo de cabeça baixa. Fui ensinada a manter sempre a cabeça erguida, diante de todo e qualquer desafio. “Engole o choro. Cabeça erguida. Segue em frente”. Cabeça baixa é sinônimo de tristeza. É claro que temos nossos momentos em que é necessário abaixar a cabeça, olhar para nosso interior e amadurecer. Contudo, não é para esse fim que estamos abaixando a cabeça. Abaixamos a cabeça para olhar o mundo. Calma. Tem alguma coisa errada nisso. A lógica era: levanta a cabeça, siga em frente, siga forte, admire o mundo ao seu redor, critique o mundo ao seu redor, construa o mundo ao seu redor, desconstrua o mundo ao seu redor. A lógica virou: touch, digital, “digito logo existo”. É perigoso ver o tato humano se tornado touch screen. É arriscado não falarmos disso.

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As relações humanas foram substituídas por um enter. Por estar online. Offline. Gravando  um áudio. Digitando …

E seguimos nessa direção. Ou seria melhor dizer, seguimos nessa rede. Ou ainda, nos enrolamos nessa rede.

Quando um digitando conseguiu substituir o  conversando. O gravando um áudio substituiu a voz ouvida ao vivo. A discussão atinge níveis robóticos. São rápidas,  irracionais, desmedidas. Perdemos pouco a pouco o tato humano. Bem, acredito que o tato humano é essencial, é com ele que percebemos no outro a essência do que nos aproxima. O sermos humanos. Resolvi aprender que, para além dessa tela, tem um ser humano que sente, que tem um olhar único, uma história única, tal qual somos todos. Estou do lado de cá da tela. Não sou o lado de cá da tela. Tampouco você é o lado de lá da tela. Você está.

Soa paradoxal usar o meio virtual para propagar essa reflexão. Mas o faço na expectativa de que olhando para baixo, ou olhando para tela, nós possamos nos conectar e juntos olharmos para fora.

Vivemos em sociedade. Sociedades. Sócias. Sociais. Só. Mas quando as redes virtuais – não consigo chamá-las de sociais, não mais – deletam o olhar, apagam o olho no olho, o que vemos são dedos nervosos bradando ódio, sem se quer perceber que se trata de outra PESSOA, ser humano do outro lado. Estamos conectados. Mas não pelos dedos entrelaçados, pelos abraços. Estamos ligados por fios, ou Wi-Fi se preferir. Temos uma conexão virtual.

Quando foi que perdemos o assunto, a piada, o debate. Ah está tudo no Google, isso deve bastar. Não basta Google. Não basta. Basta.

É claro que a internet e a tecnologia trouxeram benefícios grandiosos. A internet presencia lutas lindas, lutos necessários. Todavia, é mister que essas lutas antes de virtuais sejam reais, que esses lutos antes de se tornarem capa de redes sociais sejam sentidos, e não meras demonstrações de massa. É preciso que cada ser humano sinta, antes de falar. Reflita nos outros seres humanos interligados antes de bradar discursos de intolerância. É necessário que as lutas sejam antes de tudo consolidadas fora da rede, nos corações de quem as carrega, sob pena de se tornarem meros discursos de rede.

Já previa George Orwell, seríamos vigiados por um grande olho, em todo lugar que fôssemos, “O GRANDE IRMÃO ESTÁ DE OLHO EM VOCÊ.” O irônico é que esse Grande Irmão, ou para demonstrar sofisticação e universalidade, esse “Big Brother”, deveria nos incomodar. Deveria ser alvo de insatisfação e não de convalescimento. Mas somos, hoje, parte integrante desse grande irmão. Com um porém: queremos mostrar apenas nossas faces felizes a ele.

A sociedade necessita de ser humanos humanos. Médicos que conversem, que examinem para além do receituário. Advogados que olhem além da altura de seu Vade Mecum mais atualizado – ele não é tão alto assim. Que os engenheiros se preocupem mais com a força existente dentro de um abraço, que meçam formas de aproximar pessoas. O mundo precisa de professores que elogiem, que construam para além do vestibular, para além dessa barreia que separa os mundos. De Seres humanos que se atualizem na humanidade e não mais nos aplicativos.

É imperioso o pensar, o agir, o lembrar sem consultar o celular. Lembrar o nome, lembrar a data de aniversário não porque o Facebook te avisou, lembrar a importância do olho no olho, da conversa bem conversada, do diálogo bem medido, bem estruturado. E só assim será possível uma desconstrução verdadeira. Quando ultrapassarmos do muro touch.

Que a cabeça baixa seja para o crescimento. Que a cabeça erguida nos permita olhar no olho. Que a cabeça baixa não demonstre a fraqueza virtual que nos cerca. Que a cabeça erguida seja para olharmos além. Que a cabeça baixa não seja para o digitando, gravando um áudio. Que a cabeça erguida seja para o conversando. Que a cabeça baixa seja para semear. E a cabeça erguida para admirar e colher os frutos. E se precisar de uma “mãozinha” para colher esse fruto, que seja humana e não touch.

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