“A chata”

Por Fernanda Martins

             Foi assim que eu fiquei conhecida depois que me assumi como feminista. Passei a ser tachada de louca, de neurótica, de pessoa que não sabe brincar e que questiona tudo. Virei motivo de piada entre vários colegas. “Lá vem ela”, “você leva tudo muito a sério”, “nossa, mas não pode mais nem brincar”, “você reclama de tudo”. Todas essas frases se tornaram frequentes para mim. Percebi que me reconhecer como feminista é um ato de empoderamento, mas que, ao mesmo tempo, deixa feridas.

             O processo de entender o feminismo e de me compreender dentro disso foi – e continua sendo – conturbado. Eu sinto que cresço e amadureço todos os dias e que faço amizades incríveis que me acompanham ao longo dessa caminhada. Mas, ao mesmo tempo, esse é um processo que machuca. Machuca porque me afasta de muita gente que antes eu sentia o prazer de conviver e hoje não mais. Machuca porque vejo gente por quem eu nutria verdadeiro afeto achando que hoje eu só quero ser “a do contra”. Machuca porque desisti de frequentar lugares que antes eu adorava. Machuca porque eu também me questiono, questiono minhas falas, minhas atitudes. Machuca porque de repente eu me pego cantando uma música que sempre gostei e quando presto atenção na letra me sinto angustiada. Machuca porque hoje eu percebo que uma série de relacionamentos (meus e das minhas amigas) que antes eu julgava como normais, são ou foram, na verdade, abusivos. Machuca muito me assumir como feminista porque travar batalhas contra séculos de patriarcado não é tarefa fácil.  Exige muito de nós.

            Exige paciência, exige força, exige coragem, exige união. É e na união que a gente encontra mais e mais força. Porque são nas conversas travadas nos grupos de minas, nos desabafos, nesses espaços de sororidade que gente vê que não está sozinha, que a gente se reconhece em histórias que não são nossas, que a gente percebe que nossos medos são os mesmos, que a gente entende que juntas podemos mais. São esses espaços que nos dão esperança, que nos encorajam a continuar lutando, que fazem com que as feridas das batalhas cotidianas sejam atenuadas. São essas companheiras, amigas, colegas de luta que nos oferecem rosas no meio de tantos espinhos.

             Eu preciso do feminismo. Sim, eu já posso votar, posso estudar e trabalhar fora. Mas isso não basta e é por essa razão que a luta continua. Não basta porque mulheres ainda recebem salários menores, porque mulheres ainda são minoria na política e em cargos de comando, porque mulheres ainda são mortas pelo simples fato de serem mulheres, porque mulheres são estupradas e ainda tem cara que pergunta sobre a roupa que elas estavam usando. Não basta porque mulheres sofrem violência doméstica todos os dias, porque o nosso medo de andar sozinha na rua não é o medo de perder o celular ou a bolsa. Não basta porque ainda tem homem que não sabe que “não” significa não, porque tem homem que acha que mulher é propriedade sua.

            Não basta por uma infinidade de violências diárias que sofremos todos os dias e enquanto tudo isso acontecer eu vou continuar sendo a tal chata, vou continuar questionando, reclamando e incomodando.  Não é fácil, machuca e deixa feridas. Mas tem um monte de outras “chatas” junto comigo e com elas é mais fácil seguir em frente.  Gratidão, queridas!

é preciso ter coragem

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