Extensão por que?

Por Pedro Porto

             Formar em direito numa das melhores universidades do país. Assistir às aulas com professores que são os grandes juristas, ministros e advogados; aprender sobre as doutrinas, leis e jurisprudências. Por fim, escrever. Pensar apenas em produzir artigos e ter o tão sonhado lattes de 15 páginas. Esse é o projeto da maioria das* estudantes de direito, quando entram na Faculdade. Uma perspectiva de formação acadêmica, ao meu ver, limitada, autocentrada e academicista. Nela não se considera a importância de viver a Universidade, de entender que não há como se pensar em fazer um curso sem que se saia dele, dos seus limites e, mais ainda, do próprio ambiente acadêmico. É preciso romper as cordas que nos prendem nesse espaço, é preciso viver as inúmeras experiências que nos são oferecidas, é preciso se ver como agente de transformação social.

            É necessário que nos perguntemos que tipo de Universidade queremos, que tipo de educação, além de se pensar que tipo de profissional pretendemos formar. Primeiro, entendo que a Universidade não deva ser um espaço de manutenção, um local de corroboração de status quo, onde sempre se produz mais do mesmo. O ambiente universitário deve ser marcado pela reflexão, pela criticidade, pela atenção às demandas sociais, pela transformação. Darcy Ribeiro, no seu texto “Universidade pra quê?”, faz a seguinte citação: “Toda ideia é provisória, toda ideia tem que ser posta em causa, questionada. Tudo é discutível, sobretudo numa univer­sidade”. Mas, pergunto-me, como esperar mudança, como ser uma agente de transformação permanecendo restrito ao espaço físico da sala de aula? Não é possível. Estudantes, não se limitem no que foi exposto pelo seu tão exímio professor doutor, não se limitem aos seus livros e mais livros de direito, não deixem que a sala de aula atrapalhe sua Universidade, pois esse é o maior erro que se pode cometer. Aqui, irei destacar o que vejo como mais importante e necessário na experiência universitária: a Extensão.

            Tomo como pressuposto a Extensão Popular, Freiriana, pautada pela comunicação dialógica, horizontalidade e interdisciplinaridade; promotora de uma troca de saberes mútua. Mas por que tão importante? Somente por meio dela é possível promover o contato e diálogo entre a sociedade e Universidade. Pois, somente assim, podemos ressignificar esse espaço, mostrando a importância do conhecimento popular e tornando o ambiente efetivamente democrático e plural. Somente assim, podemos repensar o que realmente é conhecimento acadêmico. Somente assim, podemos pensar como academia se estrutura, quem fala por ela e como é importante modificar isso. Somente assim, o ambiente universitário pode se tornar transformador e emancipador, capaz de criar estudantes em processo de emancipação, para que se tornem agentes de sua própria história e de mudança. Somente assim, vamos questionar a educação vertical vista em sala de aula. Por fim, somente assim, a Universidade pode cumprir seu papel.

            Não se pode mais aceitar um curso de Direito marcado pela cultura bacharelesca, marcado pelo apego às formas e discursos rebuscados. Um direito que se exime de debater toda complexidade e dificuldades da realidade. Afinal, o curso não deve perpetuar e manter exclusões e opressões, deve lutar contra elas. A extensão ocupa e traz novos polos de conhecimento, abala as estruturas do formalismo. Ela abre a academia e mostra como o curso deve ser atento a lutas sociais e a protagonismos antes invibilizados, dela derivam novas interpretações e problemáticas.

            Dessa maneira, amigas estudantes, não sejam fechados, não sejam a profissional desatenta à sociedade e suas demandas, não se limitem à sala de aula, não sejam apolíticas/os ou acríticas/os, não esqueçam da função da Universidade. Ressignifique esse espaço, torne-o democrático, emancipador, transformador. Não há como se aproveitar e fazer Universidade sem se sair dela. Devemos todos aproveitar as experiências a nós oferecidas. Devemos todos conhecer e defender a Extensão.

imagem pro texto

*Nesse texto, irá se utilizar o feminino como universal da linguagem.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s