Sobre comoção e mobilização seletivas.

Por Heloisa Adegas

Rio de Janeiro. Ryan Gabriel. 4 anos. Baleado e morto na porta da casa de seus avós.

O Estado Democrático de Direito não existiu para Ryan Gabriel, menino negro e pobre que, ao brincar tranquilamente em na rua em frente à casa de seus avós (Madureira – RJ) foi morto por uma “bala perdida”. Também não existiu para seu avô, que tudo o que pôde fazer foi puxar o corpo sem alma de seu netinho para dentro de casa. Tampouco existiu para Thaiane da Silva, 20 anos, negra e manicure, que teve de enterrar o corpo de seu filhinho que fora assassinado.

Atualmente, vivemos uma crise política no país. Pedido de impeachment sem fundamentação jurídica, publicitação ilegal de áudios envolvendo a presidenta da República, fortalecimento de um discurso de direita ultra-conservador, pessoas indo às ruas reivindicar a volta da ditadura militar, o fim do comunismo e outros absurdos mais. Também não se tem sido respeitado o devido processo legal, realmente. Mas este nunca foi respeitado em nosso país.

Vivemos em um país onde, no último ano, houve 63.090 denúncias de violência doméstica, o que representa aproximadamente 20% da população feminina do país. Onde  estima-se que 1 em cada 3 mulheres já sofreram violência sexual (ou ainda vão sofrer) ao longo de sua vida. Onde, dos 33.000 jovens vítima de homicídio por ano, 77% são negros. Onde menos de 20% têm ensino superior. Onde 7% do Congresso Nacional é composto por mulheres e menos de 1% de pessoas negras. E apenas agora alguns estão saindo às ruas para dizer que nossa democracia está em risco? Democracia de quem? Para quem?

O que trago nesse texto não é uma mera crítica àqueles e àquelas que são contra as atrocidades jurídicas e políticas que vêm tomando conta do país e por isso têm se mobilizado.  Pelo contrário, acredito que devemos sim defender a estabilidade do Estado Democrático de Direito que conquistamos. O que me incomoda, no entanto, é a comoção e mobilização seletiva, vinda de pessoas que assistem quase que silenciosamente às falhas estruturais da nossa capenga democracia. Essa comodidade vinda de muitas pessoas que hoje bradam indignadas contra o golpe que está por vir inviabiliza e naturaliza as violências sofridas pela maioria de nossa população (pois apesar de minorias em direitos, é maioria em quantidade). Continuamos com nossas bundas no sofá enquanto centenas de mulheres morrem por abortos clandestinos (e tem seus corpos sendo controlados por um Congresso masculino, branco e rico); enquanto lésbicas e gays são expulsas/os de casa, são alvo de violência verbal na escola e no trabalho, apanham na rua apenas por ser quem são. Enquanto existem mais transexuais nas ruas que nas universidades, e, quando conseguem entrar na universidade, precisam lutar constantemente (processo extremamente desgastante e degradante) pelo reconhecimento do nome social, sendo que podem acabar até reprovando matérias devido ao não reconhecimento deste direito (é, isso acontece na UnB, sabia?). Enquanto mulheres negras ganham menos de 40% que um homem branco. Enquanto não há saneamento básico, nem saúde, nem educação de qualidade para grande parte da população negra e pobre do país. Em relação a tudo isso não há tamanha mobilização da “esquerda privilegiada”.

Esquerda privilegiada. Chamo assim pessoas como eu. Como nós. Classe média, maioria universitária ou possuidora de ensino superior (talvez até um mestrado, doutorado, PhD…), em sua maioria brancas/os e cis. Somos muito preocupados com os problemas sociais do país. Mesmo. Para falar a verdade sabemos de tudo o que disse até agora, inclusive usamos isso – quando nos é conveniente – para criticar o posicionamento de alguém, para tensionar em uma reunião, ou para transformar a mentalidade conservadora de uns alunos. Mas não nos incomodamos o suficiente para nos mobilizar cotidianamente. Não nos comovemos o suficiente para não conseguirmos deitar a cabeça no travesseiro à noite e dormir tranquilamente, porque muito disso não nos afeta diretamente. Não somos nós que estamos morrendo, de todas as formas possíveis, inclusive literalmente.

Lutar pelo Estado Democrático de Direito é válido e necessário. Porém, além de reconhecermos seus limites e falhas é necessário se indignar e se mobilizar pelas exclusões e violências que  impedem sua existência de fato. Às vezes parece tão “difícil se posicionar sobre temas polêmicos”, mas tão fácil escrever cartas públicas sobre a atual conjuntura do país! Vamos escrever cartas abertas contra as violências cotidianas sofridas por mulheres, negras e negros, indígenas, crianças, pessoas LGBTs, pessoas com deficiência. Vamos tomar as ruas em defesa da democracia, onde essas pessoas também façam parte e tenham voz! Vamos fazer eventos na faculdade para discutir a responsabilidade de nós, juristas, na transformação da vida dessas pessoas. Vamos, urgentemente, enxergar essas pessoas como humanas, pois a desumanização que invisibiliza tanta dor e sofrimento, esta sim, fere cotidianamente o Estado Democrático de Direito.

Nenhuma violência deve ser naturalizada. É preciso sim se mobilizar quando o Estado  faz manobras que rasgam nossa Constituição, mas isso também ocorre quando esse mesmo Estado se omite em garantir a certos grupos direitos constitucionais. Como diria Foucault, o Estado tem o poder de fazer viver e de deixar morrer. No Brasil, sabemos muito bem quem têm sido escolhido para ser deixado à morte.

Nossa comoção não pode ser seletiva. Enquanto certas vidas continuarem valendo mais que outras, não haverá democracia.

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One thought on “Sobre comoção e mobilização seletivas.

  1. Gostei do artigo, são verdades nuas e cruas. São subtrações feitas dos direitos que nos são garantidos ao nascer, segundo a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Isso acontece porque os poucos abastados do pais agem como verdadeiros controladores de um povo, (massa de manobra) que quanto menos instruído, quanto mais fácil manobrado. A base do seu artigo está na falta de suporte educacional, do fundamental à universidade. Quanto ao golpe, vejo controversa, visto que segundo o dicionário da lingua portuguesa PORTO EDITORA, no sentido figurado também se interpreta como: facto ou situação que traz prejuízo ou infelicidade; desgraça. Visto isso, a corrupção desenfreada dos últimos anos do governo do PT também se configura um golpe e ai o movimento em favor do impeachment seria um contragolpe, ou uma defesa, já que, essa sangria precisa ser estancada. Não sou um entendedor de política partidária, mas, este é o meu pensamento. FELIPE.

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