A(b)cesso ao ser

por Abel de Santana

De estar inquieto mediante seletiva austeridade chegava a esquivar-me, a busca do espairecer, a omissão do espírito incomoda.
Se parece sem sentido talvez seja mesmo. Rolei na cama. Derrubei o abajur.

Dormiu bem, querido?
Como uma pedra.

Eu sou uma pedra. Quiséramos nós. O que fadigou-nos depois de nada? Tortuosos devaneios.
Por mais que eu tente balbuciar mais que um diálogo bivocabular, falo como ninguém e sinto-me como três.
E sobre existir todo dia e passar despercebido? E o esforço que se emprega pra subsistir? Eles não entendem.

Não sabem.
Não sentem.

Ficar sozinho em meio à multidão como quem não quer, não faz, não escolhe dada indiferença ou inquietação sem inquietar sua alma toda lhe tolhe. Se bem que esperar também nos fadiga, digo, não fazer não é não querer se pra poder esta a arte ou cantiga obsta seja maior que ser ou não ser. Se nos permite feito por vocês, dizes calma: “segure minha mão…” Não se imagine sendo cortês. Lembro-me dos dias de Napoleão! Não me percebe, mas volto a ser três. Liberté, Egalité… Pare! Não.

Estar invisível. Ser invisível. Qual a diferença? Rearranjou?

Ser invisível: ser decassílabo, ser quarteto, ser terceto: Ser lido em prosa. E ainda se encara ruim porque rima. A qualidade baixa. Pouco parnasiano.
A vida não é parnasiana, cara pálida.
E quanto a este que se pretende cheio? Parece que cresce. Duvido que evolua.

Se ainda assim não pareceu claro, o dito foi:

Ficar sozinho em meio a multidão
Como quem não quer, não faz, não escolhe
Dada indiferença ou inquietação
Sem inquietar sua alma toda lhe tolhe 

Se bem que esperar também nos fadiga
Digo não fazer não é não querer
Se de poder nesta a arte ou cantiga
Obsta seja maior que ser ou não ser 

Se nos permite feito por vocês
Dizes calma, segure minha mão
Não se imagine sendo cortês

Lembro-me dos dias de Napoleão
Não me percebe, mas volto a ser três
Liberté, Egalité… pare! Não.

Quero ver perceber quem existe!
Quero ver existir e não ser.
Quero ver.

Nós também.
Nós não vemos.
Não o quê?

Parece que não sabe escrever direito. Surpreso?
Estaria surpreso se você lesse além das entrelinhas. Mais do que o que aparenta. Por que o que nos aparenta diz mais sobre quem somos.
Sem o menor decoro. E a dignidade? Cadê? Saiba-se ver é diferente de enxergar. Quem há quem veja mais não enxergue. O oposto também é verdade. Você pode me ouvir?

Escute, meu filho. Seja a linguagem una pra quem lhe possa ser. Mas que sejam todas as linguagens, para que todos sejam.

Ontem eu ouvi uma história de vó. Os tempos se transformam.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s