Existe Amor no Estatuto da Família?

família-1-691x360Por Vitor Lages

       Por ser gay e não me encontrar na heteronormatividade, as naturalizações e estereótipos sociais sempre me incomodaram. Ouvir como resposta um “porque é assim que é”, ou “assim que tem que ser” sempre me irritou. Desde pequeno já desconfiava que eu era diferente ali no mundo e que pra ser feliz teria que questionar a normatividade hétero que me era imposta, sendo este o único caminho para ser livre e condizente comigo mesmo. Sentia isso desde pequeno, apesar de, em dezoito anos que vivi em Teresina, nunca ter conhecido famílias homoafetivas.

       Saí do Piauí para morar em Brasília, e aqui na UnB enxerguei pela primeira vez possibilidades de viver minha homossexualidade fora do armário, vi pessoas como eu, e isso foi fundamental. Na UnB, lugar onde já estou há 5 anos, conheci pessoas, participei de grupos políticos e tive contato com discussões que transformaram minha vida. Ao lado de tanta gente boa fui percebendo as poderosas e danosas mãos “invisíveis” não só do mercado, mas também do racismo, da heterocisnormatividade, do machismo, do capacitismo, da gordofobia e como essas opressões e tantas outras estruturam a sociedade, delimitam espaços, hegemonizam discursos, ditam modos de contar as Histórias, violentam e subalternizam corpos desviantes da norma.

       Nesse descortinar da realidade, vi em mim mesmo e em minhas atitudes, a reprodução de todas essas opressões nas minhas relações pessoais, seja violentando a mim mesmo ou às pessoas ao meu redor. Esse processo perturbava, ou desconstruía, até mesmo a percepção que tinha sobre mim.  Enxerguei a enorme carga de privilégios descabidos que tenho apenas por ser um homem cis e ter a pele branca, por ser rico e ter estudado em escolas particulares durante toda a vida, e por isso estar hoje numa Universidade Pública (tem gente que ao invés de privilégio, chama isso tudo de mérito, o que dizer?!).

       Com o aprofundar desse processo, o armário, que me protegia e me escondia durante tantos anos, foi se tornando cada vez mais sufocante. Até que decidi romper com a violência que eu também alimentava. Insurgir-me contra a heteronormatividade foi também encarar sentimentos e me permitir viver experiências que reprimia desde a infância, época em que somos iniciados na real doutrinação de Gênero e de Sexualidade – com os papeis preestabelecidos e as caixinhas sufocantes sendo demarcados a todo instante pela sociedade patriarcal. Desde menino, ouço falar que amar outro homem ou fazer sexo com ele é indevido, proibido, é pecado, nojento, despudorado. Até mesmo o carinho entre dois homens é condenado, mal visto, seja entre irmãos, amigos ou entre pais e filhos.

       Eu hoje digo que é lindo, é libertador, é emocionante ser gay e poder dizer isso pra todo mundo, escrever um texto sobre isso e publicá-lo. Mas infelizmente o faço enquanto um assassinato por homolesbitransfobia é cometido a cada 27 horas no Brasil*. A liberdade que tenho aqui e agora não condizem com a realidade da maioria da população LGBT, é importante pontuar.

       E com a aprovação do Estatuto da Família em comissão especial da Câmara dos Deputados, na semana passada, é extremamente necessário reiterar que família é amor. O Estatuto reconhece como família apenas a Família Tradicional Patriarcal, que deveria ser desmistificada enquanto instituição de amor, carinho e respeito. Já que está mais pra instituição de dominação e violência mesmo. Falo da regra geral do jogo, e claro, existem exceções e níveis. Mas quando nos defrontamos com estatísticas de estupro, por exemplo, verificamos que é no contexto familiar, dentro de casa, que a mulher é mais violentada sexualmente. É no seio da família onde a mulher mais apanha de um homem: seu marido. É a Família Tradicional que rejeita, espanca e põe na rua seus filhos trans, gays, e bissexuais e suas filhas trans, lésbicas e bissexuais. Essa é a Família Tradicional brasileira.

       Por isso não tenho dúvidas que minha família com outro homem será sim uma família de verdade, com amor e afeto, e deve ter direitos igualitários reconhecidos, assim como todas as famílias. Não deixaremos passar esse Estatuto da Homofobia e do Retrocesso! #NossaFamíliaExiste

*Segundo o Relatório do Grupo Gay da Bahia para o ano de 2014.

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2 thoughts on “Existe Amor no Estatuto da Família?

  1. Vítor, Li seu artigo depoimento e fiquei muito orgulhosa de ser sua tia-avô. Eu já sabia da pessoa livre e corajosa que vc. é ao ler um outro artigo seu sobre a liberalização da maconha. Quero continuar lendo o que vcs publicam no petdirunb. Vc em especial, escreve com coerência, beleza e emoção. Com certeza os seus pais, irmãos, tios e amigos devem está torcendo para VC ser muito feliz e já está sendo, a medida que se abre para o verdadeiro amor, à você, ao outro e ao mundo. Só com autenticidade se constrói a felicidade. Bjim, da tia-avô. Obs. Nossa língua é tão machista que não sei de sou sua “tia-avó” ou “tia-avô” rsrsrsrrsrs

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