Eu, minha negritude e meus amigos brancos

Por Laiana Rodrigues

Em quase 20 anos de vida nunca me vi como uma pessoa subserviente. Talvez como uma garota emocional, pacífica, intermediadora, cuidadora; mas subserviente, não. Afinal, como poderia o ser? Tenho uma linda família afrocentrada, que desde os meus primeiros anos de vida me ensinou o que é ter orgulho, me ensinou como me impor diante da branquitude. Avós, avôs, mãe, pai, tias, tios e até meus irmãos. Todos carregando na pele, no cabelo, nas roupas e nas músicas ouvidas, compostas e interpretadas, as dores e as delícias de ser negro.

Como eu, Laiana – com meus cabelos crespos, ora soltos, ora envoltos por magníficos turbantes – poderia ser uma negra subserviente tendo em vista que milito, estudo, vivo, respiro e transpiro debate de raça?

– IMPOSSÍVEL! – Costumava a dizer a mim, em pensamento – Talvez antes, mas não nessa etapa da minha vida! Sou uma nova mulher.

Mas, às vezes, a gente se trai. E se trai feio.

Esse texto não foi escrito para duvidar do meu empoderamento enquanto negra. Na realidade, ele foi escrito para mostrar o quanto ainda caio em certas armadilhas, o quanto naturalizo muita violência que sofro, chegando a duvidar da pertinência dos meus sentimentos nessas ocasiões. O quanto me faço passar por uma negra subserviente, e como me encaixo direitinho no papel da amiga que o branco quer ter:

Aquela que finge que não vê racismo nas ações dos amigos;

Aquela que não reclama;

Aquela que não se chateia;

Aquela que compreende todas as burradas que os amigos fazem;

Aquela que prefere ignorar ou se afastar para evitar contendas;

Aquela que pede desculpas na mínima rusga;

Aquela que se preocupa com o bem-estar de todos, menos com o seu.

Na realidade, essa conduta foi sempre uma estratégia de sobrevivência social. Vivi meu período escolar inteiro sendo a amiga de todo mundo, “a melhor pessoa”, aquela que nunca teve uma única inimizade. E o agravante principal é o fato de que sempre fui cercada de pessoas brancas, com pequenas participações especiais de crianças negras. Quando me mudei do Gama para Brasília, essa situação piorou exponencialmente.

Apesar de me anular muito nesse processo, pode-se dizer que pelo menos não fui relegada ao ostracismo – vocês bem sabem que crianças e adolescentes podem ser muito más. Agindo dessa forma, garanti meus convites para as festas, meus grupos para os trabalhos (pois ser inteligente não é o suficiente para ser selecionada), minhas companhias para o recreio, meus rolês para o fim de semana, etc.

Mas quantas vezes não voltei para casa dilacerada com um comentário racista que fingi não ter ouvido? Quantas vezes prendi o choro quando me deparava brincadeiras a respeito do meu cabelo? Quantas e quantas vezes não reclamei, apesar de ofendida, de falas a respeito do meu corpo do tamanho dos meus seios ou do volume da minha bunda?

Chamar os pais a escola, nessas ocasiões, para mim era uma atitude de desespero. Não porque não confiava na capacidade deles em tratar com a devida seriedade e respeito esses eventos; mas porque tinha medo da perda. Tinha medo de perder todas as relações até então construídas. Na realidade, essa solidão ainda me apavora.

Chegando à Universidade, experimentei muitas mudanças na minha vida, inclusive no que tange “ser negra”. Experienciei, pela primeira vez, a sororidade fora do núcleo familiar; encontrei gente (inclusive branca) disposta a me ouvir, conheci a militância, conheci o feminismo negro, conheci teóricas e teóricos negros nunca abordados anteriormente em minha formação. Obviamente me apaixonei, me iludi… como não podia deixar de ser, me decepcionei.

Em meio a essa vivência de militância, guardei para mim três lemas principais: paciência, didática e desconstrução. Esse tripé, ao meu ver, era essencial se quiséssemos mudar o mundo. Apesar de compreender a importância de perfis “Malcom-X” nunca me vi desempenhando um papel semelhante, até porque, para mim, essa não seria a melhor das estratégias na atual conjuntura. Martin Luther King sempre foi mais a minha praia.

Sendo assim, sempre tratei de pensar nas pessoas como seres complexos em constante processo de aprendizagem. Seres capazes de se desconstruir, rever privilégios e mudar de conduta.

Mas há momentos em que as pessoas se permitem fazer essas coisas. E continuam fazendo besteira, e continuam oprimindo.

– É AÍ QUE A GENTE METE O PÉ NA PORTA, NÃO É?

– NÃO… – Eu dizia, mesmo que imensamente incomodada – NÃO EM SE TRATANDO DE AMIGOS OU PESSOAS PRÓXIMAS… NÓS NÃO SOMOS RESPONSÁVEIS POR QUEM CATIVAMOS? NÃO SUPORTARIA MAGOA-LOS…

Sobre todo esse sentimento de responsabilidade, encontrei solução na astrologia. Nela aprendi a naturalizar um pouco toda essa minha preocupação excessiva com os outros….  Afinal, tendo o Mapa Astral como o meu, como ser diferente?

Realmente, nunca fui afeita a discussões, e sim, isso é um traço de personalidade; mas o que eu nunca parei para pensar, até dias atrás, é que seleciono com quem vou alterar meu tom de voz ou em quem vou “dar gelo”. E duvido que isso tenha a ver com meu Sol, Vênus e Mercúrio em Câncer.

Mesmo quando tenho razão, acho que nunca entrei em atrito com pessoas brancas sem me sentir culpada, ou duvidar da necessidade das minhas atitudes. NUNQUINHA NA VIDA! Até porque, na maioria das vezes nem chego a entrar em conflito com elas.

Por outro lado, em se tratando de gente preta, tenho mais segurança na fala, consigo expor a raiva ou a decepção que sinto; e com exceção dos momentos em que estou errada, nunca cogito pedir desculpas. Curiosamente, na única vez que fui (explicitamente) escrota com alguém, que não fosse da minha família, foi com uma amiga negra.

Consigo, no momento, encontrar duas justificativas para isso:

1- Contando com a sororidade e com a empatia que recebo por parte dos meus pares, me sinto mais confortável para me expressar emocionalmente, com a certeza de que serei, de alguma forma, correspondida;

2- Tenho quase que a total certeza que os laços afetivos não serão desfeitos na mínima contenda, em se tratando de negras e negros. A mesma certeza não tenho em se tratando de brancos. Não me vejo apontando para nenhum amigo branco que ele está sendo racista, não explicitamente, não de uma forma efusiva;

Daí percebo que ainda sou a mesma Lai da época da escola. Aquela que rechaço por alisar o cabelo, por ser careta, por ser temerosa e ansiosa. Aquela utilizada como reforço argumentativo por parte dos racistas para falar “Olha, eu não sou racista não, eu tenho até uma amiga negra”; porque se eu não exponho o racismo, acabo anuindo com suas condutas.

Eu, Laiana Rodrigues, ainda sou a amiga negra que todo branco quer ter:

Aquela que finge que não vê racismo nas ações dos amigos;

Aquela que não reclama;

Aquela que não se chateia;

Aquela que compreende todas as burradas que os amigos fazem;

Aquela que prefere ignorar ou se afastar para evitar contendas;

Aquela que pede desculpas na mínima rusga;

Aquela que se preocupa com o bem-estar de todos, menos com o seu.

Geralmente, muitas preocupações inundam a minha cabeça. Mas ultimamente, só tenho um foco: a mudança.

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