Eu cotista

Por Juliana Lopes

Da constelação de mentiras coloniais obscenas,
Do delírio da cordialidade das raças,
Das falácias liberais ditas neutras,
Enuncia-se:

Olha só que dó
Desse povo cor de café,
Forjado no engenho a paulada,
Desses bichos sem história que não tem o que comer.

Vejam que beleza essa pele morena mulata exportação!
Eu te fodo, e você cala a boca.
Só mais um ou dois estupros pra atingirmos o perfeito equilíbrio.

Olha lá!
Esses pretos preguiçosos que vivem de esmola,
Que aceitam de bom grado seu lugar de inferior.

No meu primeiro dia na Faculdade de Direito, eu me senti inferior.
No segundo, eu senti vergonha.
No terceiro, eu me senti tremendamente solitária.

12/0034140
Número que me deu um registro no sistema,
Um punhado de privilégios,
Nenhuma garantia de permanência, e um segredo:
Entrei por cotas, porra!

Costurar sentidos de existência neste corpo a partir da experiência universitária é batalha
diária
Por encontrar sobrevivência no aquilombar-se,
Tateando novas formas de resistir num universo que nos nega.

Cota é sangue negro e suor de luta,
Não concessão
politicamente correta de ninguém.
Nem se incomode em cuspir novamente inverdades sobre a nossa história.
E que história!

Seu panteão de homens tão nobres, tão brancos, tão aristocráticos e velhos, e ao mesmo
tempo tão tão neutros,
Soam a mim não como excelência acadêmica,
Mas simplesmente eurocentrismo genocida.

Não duvidem da eloquência desse couro preto no interior destas paredes.
Respeitem meus cabelos, brancos!
Respeitem a minha história e o meu povo.
Respeitem aquilo que digo, porque digo com a propriedade do objeto que tomou pra si o
microscópio.

Isso é pra você que diz que não vê os racismos
Sentidos no trato da moça da limpeza e dos porteiros,
Nas ausências docentes e discentes,
Nos silêncios curriculares
E nas violências diárias que não causam nem espanto nem processos.

Aos que bradam que querem “pintar a universidade de povo” eu respondo:
Não sou decorativa pra pintar a sua universidade de preto.
Não me darei por satisfeita com cotas, apesar de ainda 10 anos depois ser obrigada a lutar por
elas.
Lutar, eu repito; pois não estamos recebendo nada de presente.
Tomamos pela unha o que é nosso por direito!

Não assistirei passiva ao curso da minha própria história,
Não me sentarei nestes bancos de cabeça baixa
Para os que querem, literalmente, a ferro e fogo
Arrancar a humanidade de quem cultiva coroas na cabeça.

 

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