Um tapa dói mais que um olhar?

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                                                                                           Por Hanna Thuin 

Ao trabalhar em um projeto final para uma matéria (Direito e Sexualidade), pensei em retratar a violência no cotidiano de um grupo específico. Queria construir retratos de cenas comuns do dia-a-dia e estruturá-las comparativamente. Seja por ingenuidade, seja pela ausência de técnica e material adequado, acreditava que as lentes das máquinas que dispunha seriam suficientes para captar o Outro. Expliquei a ideia e alguns casais se voluntariaram: um hétero, um gay e um lésbico. Estes dois últimos, ao terem conhecimento que filmaríamos na rodoviária, seguraram o passo: “é seguro?”. Cruzamos os dedos e fomos. O primeiro casal beijou-se longamente – sério, longamente- aos pés da escada. Incômodos? Nenhum. Aos gays, não foi preciso o beijo, bastou o enlaçar de mãos: piadas e olhares ambíguos. Diante da cena- dos pescoços voltados para trás, dos olhares enojados, assustados e, alguns, até mesmo, excitados-, frustração. Ao repassar as imagens, só conseguimos do Outro o corpo e alguma ideia da sua rejeição. A violência fica suspensa:  está ali, mas não é para todo mundo; está ali pesada feito chumbo e só alguns conseguem vê-la. Mudamos, então, o enfoque: dar voz a esse outro Outro: marginalizado, invisibilizado, vitimado. Guardamos deles o sentimento do que foi estar ali.
Enfim, tudo isso aflora em um questionamento incessante que tenho feito desde então: um tapa dói mais que um olhar? Não. Dói menos. Porque, de um tapa, consigo me defender. Porque, de um tapa, consigo desviar. Porque, de um tapa, devolvo outro e alego legítima defesa. Entende onde quero chegar? De um olhar, não escapo. De um olhar, não consigo me proteger. De um olhar, não devolvo o desprezo, o nojo, a repulsa que me é dirigida. Consigo, agora, perceber que tecnologia alguma poderia transmitir essa violação diária a quem ousa enfrentar o senso comum, a quem ousa disputar os espaços públicos com um toque, um beijo, um carinho qualquer. À esses olhares, um acúmulo doído de impotência: o que ela, ele eu poderíamos, ali, remendar? 
A Homofobia veste-se dos mais diversos figurinos. Engana-se quem pensa e afirma convicto que ela não existe; engana-se quem considera que ela ocorre apenas na agressão injustificada a uma lésbica no estacionamento da UnB. Engana-se quem se contenta em ver apenas a pele e restringir a crítica aos cortes externos: hematomas amadurecem, mudam de cor e somem; olhares marcam, ficam, congelam em um tempo impreciso na memória de quem, involuntariamente e desmerecidamente, os recebeu. E aqueles e aquelas que ali os deixaram continuarão seus respectivos percursos, percursos esses que, talvez, não envolvam tapas, mas incluem, por certo, muito mais dessa violência velada. 
É, um tapa dói menos que um olhar. Duas maneiras de hostilizar. Esse “silêncio” também é homofobia.

Sob a semi-luz de um palco que já ensaia fechar as cortinas, faz-se necessário permitir à memória que exerça o balanço anual: que a gente não se esqueça do verdadeiro significado de democracia, do que ela é enquanto ideia e do que pode ser quando concreta, encorpada em vida, rostos e vozes nas ruas. Que no ano vindouro não permitamos o reincidente furto do “s” : que demos, do latim povo, não se torne, novamente, o demo dos fundamentalistas. Desejo um 2014 com mais luta, com mais acômodos metamorfoseados definitivamente em incômodos e, destes, a mudança que esgota o silêncio e rompe a inércia da mesmice.

2 thoughts on “Um tapa dói mais que um olhar?

  1. Gostei muito dessa matéria! Andei visitando esse site e admirei muito o trabalho de vocês🙂
    Será que seria possível criarem um texto sobre assexualidade? Me sinto encaixado nesse conceito e acho que seria legal ampliar a visibilidade do mundo assexual através de blogs como esse, onde as pessoas sabem argumentar e sintetizar o que o outro pensa.
    Desde já, agradeço!😀

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