Onde está Antônio?

Por Vítor Magalhães

Gente no chão, pincéis a mão.

Passagem de quem vem e vai

Ao plano do dia –

Para as pessoas, feriado

Para à Republica, sua proclamação

– O que isso?

– Produção de cartazes pelo aparecimento de Antônio.

– Quem é Antônio?

Uma boa questão.

Quem estava ao chão respondia:

– Antônio é desaparecido, foi levado pela polícia…

Este é Maurício, seu irmão. Procura-o

Como quem procura a própria salvação.

– Que coisa! Outro desaparecido? Isso é a mesma coisa que aconteceu com Amarildo, né?

– Exatamente, foi levado pela polícia e nunca mais apareceu.

– É uma pena, boa sorte!

Maurício

É, sim, uma pena. A pior pena possível – pior que a própria privação da vida, porque a engloba e vai além: é a própria negação do existir, do discurso, do debate, da memória. Negação da memória porque tenta nos impor a impossibilidade de ousar dialogar com o real; negação do discurso porque o impedimento desse diálogo nos obriga a esquecer. Confusa?

Antônio Pereira de Araújo, mecânico de carros, 32 anos. No dia 27 de maio, Antônio desapareceu.Na última vez que foi visto, estava sendo detido por policiais em frente a uma chácara, onde estaria sentado em baixo de uma árvore. Os testemunhos variam, alguns diziam que estava machucado, alguns diziam que ele tinha sido baleado pelo dono da chácara, um policial. Na delegacia, nenhuma queixa, nenhum registro, nenhuma pesquisa de seu nome nos registros policiais – nada.

– O que aconteceu? O que podemos fazer para resolver esse problema? O que pode mudar para que isso não volte a acontecer?

– Simples – querem saber o que aconteceu com Antônio e o que fazer a respeito? A políciajá disse:

– Ele tem claramente o perfil de quem abandona o lar… Ele bebe inclusive, não é? Fugiu, com certeza, acontece sempre. Se quiserem, ajudamos a procurar.

Pronto, ai está! Fugiu de casa, logo após ter sido detido em frente à granja de um policial – isso como vários outros e outras já fizeram antes – nada de novo por aqui: nenhum problema a sanar, nada a fazer, nada a mudar. Nada. Nada?

Mais de 170 dias depois de seu desaparecimento, de denúncias à corregedoria da polícia não respondidas, de nenhuma movimentação efetiva por parte do Estado para apuração do fato, e que enfim, toda e qualquer instância e organismo do Estado já foi procurado e não obtiveram nenhuma resposta factível.  Para eles, sim – nada.

Hanna

Felizmente, temos o poder da fala, da organização política, certo? Poderíamos questionar esse discurso alienador, silente, calado e culpado, certo? Se tivéssemos poderíamos nos insurgir, exigir, nos opor a essa imposição do discurso de que está tudo bem, da negação de uma vida e do direito de memória, certo?

Claro – podemos fazer isso até que prendam quem se insurge por empurrar (isso, empurrar, não “destruir”) a linha que dividia a calçada e a ruadas 150 pessoas que manifestavam pelo aparecimento de Antônio no dia de comemoração da proclamação da república, 15 de novembro. Das 150 pessoas, cinquenta pessoas foram detidas, 15 das e dos quais não foram liberadas e liberados em seguida e dormiram em detenção. Inclusive, três delas foram enviadas provisoriamente para o presídio da Colméia, no dia seguinte. Os outros 12 haviam sido avisados que em breve seriam enviados para a Papuda. O discurso contra quem protestou contra a polícia dessa vez, vejamos… Ah! Aqui está: depredação de patrimônio público e formação de quadrilha.

Querem saber o resultado desse discurso? Ele varia. Na maioria das casas de quem nunca perdeu Antônio, geralmente esse discurso faz parte da oração de uma religião que prega não ver outra realidade que não a sua. Antes de comer, lendo a revista, sem dar as mãos para não violar outras de suas crenças: “de novo esses badernistas? No meu tempo a gente acreditava na democracia, no diálogo. Esse pessoal só quer saber de aparecer.” Na delegacia, o clima é, pelo menos, de amizade: “e aí Maurício, já achou o pinguinha? (risadas)”. Mas na casa de Antônio seus irmãos e sua mãe ainda se perguntam: “Meu Deus, onde está Antônio?”.

– Antônio sumiu fugido e não temos nada a ver com isso. Ficar invadindo as ruas protestando por Antônio só pode ser uma forma de perturbação da paz pública, destruição de patrimônio e formação de quadrilha. Que vergonha disso.

– Isso é a versão controversa, esquizofrênica e dissimulada de vocês. Não me deram qualquer espaço para questionar essa imposição, não me dão qualquer caminho, rua ou cartaz para colocar minha opinião. Mas eu, Maurício, e minha família não desistiremos de procurá-lo, não.

Sorhaya

Seria muito simples concordar com o discurso posto que isso é um caso isolado, com tratamento apropriado pelo estado – e não só pela polícia, mas de quem a controla e de outras instâncias do aparelho estatal. Que nada tem a ver com a segurança, a forma como está estruturada, concebida. Que, inclusive, nada tem a ver a quê e para quem serve esse modelo de pensar e estruturar a polícia. Simples, mesmo: Antônio é Antônio – fugiu.

O que podemos tirar desse confronto é que com certeza podemos saber que há mais do que o dito pela polícia. Que esta situação precisa ser vista de uma maneira mais complexa que o “nada”. Todo esse discurso, toda essa fala reprimida em busca da memória, de fala presa na garganta de que há algo errado, nas ruas e algemas. Tudo isso nos indicam que há algo a mais. Mais pessoas. Mais problemas que os apontados pelos responsáveis como causa desse desaparecimento. Mais angústias. Mais falas reprimidas. Mais discursos mascarados. Mais direitos desrespeitados. Mais impossibilidade de efetivamente viver a democracia. Mais. Muito mais…

A história contada nesse tom reverbera uma pergunta novamente: quem é Antônio, então? Fato: Antônio tem sua subjetividade, sua história – enfim, sua singularidade. Essa singularidade permitiu a resposta dada: “irmão de Maurício, desaparecido pela polícia” e impede qualquer conforto a sua família até alguma notícia especificamente sua. Mas…já sabemos que por aqui deve haver algo mais, certo?

O sujeito desaparecido, com um desaparecimento esquecido, não se identifica apenas com a pessoa de Antônio. Antônio é um individuo – dos vários – símbolo de todos e todas aquelas que sumiram da mesma forma e somem diuturnamente no distrito federal, no Brasil, na América Latina, no mundo.  Indivíduo e símbolo de quem sumiu por não interessarem a quem se preocupa com suas existências, com o discurso posto.Ex-sujeitos. Mutiladas e mutilados. Esquecidas e esquecidos. Desaparecidas e desaparecidos.

Antônio é Amarildo, Honestino Guimarães, Ieda Delgado, Lyda da Silva, Antônio é a estudantezinha desaparecida da Estrutural que nunca ninguém ficou sabendo, João Alfredo Dias, David Capistrano da Costa, Eduardo Collier Filho, Antônio é Eduardo Collen Leite, o carpinteiro desaparecido em planaltina que ninguém ficou sabendo, Carlos Marighella, Ana Maria Nacinovic Corrêa, Amaro Luíz de Carvalho, Antônio é Alexander José Ibsen Voeroes e a faxineira que sumiu em Ceilândia e ninguém ficou sabendo.

Peraí -Antônio somos todos, Antônio somos todas? Depende. Diferentemente daquelas e daqueles que sumiram em épocas que não podia-se ousar propor um novo modelo de sociedade no Brasil, ser Antônio está associado apenas com o que se pode ser ou deixar de ser: depende de sua classe social, de onde você mora, de qual a cor da sua pele, seu gênero, seu fenótipo sexual, sua orientação sexual, sua religião – depende se seu desaparecimento ocorreu porque seu nome não vale a pena ser lembrado.A puta, o bêbado, a pobre, a travesti, a que não teve transporte público, o usuário de drogas, a criança abandonada, o favelado.

Professor

Mas isso não nos impede de nos identificarmos com Antônio. Não impede ninguém de dizer “somos todas e todos Antônio” – e o podemos porque podemos ver que sempre sumiram aquelas e aqueles que não deixaram nomes a serem procurados. Porque vemos que isso tem algo a dizer sobre a realidade que vivemos, sobre quem somos e o que podemos fazer. Porque nos importamos com quem perdeu o direito a ser, a ter nome e memória. Quantos? Quem eram? Quais eram seus nomes? Poderia ser – quase – qualquer um(a), e por isso são todas e todos.

Procurar por Antônio é dar nome ao que foi esquecido e antes nunca nomeado. Procurar por Antônio é mostrar que ainda há quem se indigne com a injustiça contra quem não precisamos saber o nome. Procurar por Antônio é fazer o mínimo, o primeiro passo para uma sociedade mais justa. Porque se não o podem ter de volta, se não há qualquer tipo de conforto na sua ausência, saber onde está Antônio é o mínimo que sua família deveria saber para conseguir ficar em paz. Procurar por Antônio é entender que também podemos ser Antônio. Por quê? Porque saber onde está Antônio é o mínimo que seria proporcionado por um Estado que efetivamente respeitasse a todas e todos nós.

As dúvidas e curiosidades movem as pessoas e grupos – as fazem investigar, aprender, mudar de opinião. Há, então, uma dúvida central para qualquer cidadão, qualquer projeto político e social em nossa sociedade – se você sonha com dias melhores, chegou a hora de se indagar: “onde está Antônio?”.

João Victor e Aurélio

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