Entre Estrelas e Esperanças

Por Matheus de Paula

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“Por enquanto preciso segurar esta tua mão – mesmo que não consiga inventar teu rosto e teus olhos e tua boca”.

A Paixão Segundo G.H.

Era mais ou menos dessa forma que Pedro se sentia. Apoiado em alguém que, mesmo que não pudesse ver, sentia. E era bom. No mínimo reconfortante. Aliviava. Eu nem falei sobre Pedro, não é? Que péssimo narrador sou eu, perdão.

Pedro. 17 anos. Estudante de ensino médio. De família média, pai advogado e mãe psicóloga. Homem médio. Homem médio não, adolescente médio. Apesar de ser o orgulho da família, o xodó das/os amigas/os e o príncipe das meninas, Pedro não consegue pensar em nada que não seja a mentira que é sua vida.

Lembra, aos 4 anos, do primeiro brinquedo que ganhou: um carro de miniatura. Todo equipado com luzes, rodonas invocadas e um som de dar inveja a qualquer um de seus coleguinhas. Contudo, o que seria apenas um um brinquedo passou a ser a força motriz de toda uma tortura mental pela qual Pedro jamais se livraria. Pelo menos assim pensava ele. Pedro, definitivamente não gostava de carrinhos. Pedro gostava de brincar de casinha com sua irmã, Larissa. Pedro se sentia realizado brincando de fazer comidinha e de arrumar casa. Quem não se sentia nada realizado com isso era seu pai, que lhe forçava a ficar horas “brincando” de carrinho porque, segundo ele, “homenzinho brinca de carrinho e bola. Cuidar de casa, Pedrinho, é coisa de mulherzinha.”. Sua mãe, apesar de psicóloga, pensava o mesmo.

O Pedrinho cresceu. Virou Pedro. Pedro-com-todas-as-responsabilidades- dos-15 anos: escolher uma carreira, pensar em qual faculdade passar, se dedicar mais aos esportes… e arranjar uma namorada. “Seus amigos de 15 anos ja tem namorada, Pedro, e quando você vai arranjar uma namoradinha, meu filho?” indagava sua vó. Ele desconversava sempre respondendo que um dia arranjaria uma. Que estava esperando uma que fosse ao seus pés, pois era um menino bem criado demais, oras.

Os pais de Pedro quase morreram quando o viram chorando ao ler um livro. *Divagando aqui, Pedro amava ler. Se encontrava na leitura*. Seu pai lhe toliu severamente dizendo que homem que é homem não chora lendo livro. Isso é coisa de veado. Veado não. Veadinho. Aquele que faz questão de mostrar pra todo mundo que é. Sua mãe, tentando acalmar os ânimos de seu pai, disse que Pedro não era gay. Pedro era apenas “sensível”. Para ela, gay era o filho do/a outro/a. Aquele que ela analisava. O filho dela era apenas “delicado”.

Pedro era gay. Sabia que era gay. Sabia desde os seus remotos 4 anos. Sua primeira paixão foi por um menino de sua sala. Não se imaginava formando uma vida amorosa com o outro se não fosse O outro. Mas, Pedro não contava. Não contava pros pais porque, segundo eles, não haveria desgosto maior na Terra do que um filho gay. Filho tem de ser rei, ladrão, polícia, capitão. Gay não. Não contava pros amigos porque tinha medo da rejeição, apesar de todos eles alegarem não serem preconceituosos e até “terem amigos gays, cabeleireiros gays..”. Pedro, como eu disse, caro/a leitor/a, só se apoiava. Se apoiava em alguém que mesmo não sabendo quem era, sabia que lhe reconfortava o suficiente para um dia se assumir. Pedro era apaixonado platonicamente por essa pessoa que, mesmo ele não conhecendo, seria o estopim pra sua aceitação e pra sua “saída Nárnia.”

Todavia, Pedro foi percebendo, com o passar da idade, que não dependia do outro pra ser o que era. Pedro é gay. Estando com outro ou não, Pedro é gay. E, assim, Pedro foi começando a se aceitar e se entender mais, mesmo sempre pensando que não há nada mais martirizador do que ter de aceitar que era assim. Se ninguém se aceita como hetero, porque logo ele era o obrigado a se autoimpor e impor aos outros essa aceitação? Esse processo, pra ele, não deveria ser tão doloroso assim porque é normal. Ser gay é normal. Aceitem. Entendam.photo

Seria ótimo terminar essa história falando que Pedro hoje se aceita completamente e tem uma vida profissional e amorosa impecável que dá inveja a qualquer heterossexual, seja ele homem ou mulher. Mas, a história segue o curso da vida, e, na vida real, nem sempre é assim. Pedro ainda não se assumiu e está ainda em seu processo de aceitação, mesmo sabendo que não deveria ser doloroso assim. Mas, é fácil teorizar quando não é você o oprimido. É um processo diário. É quase uma luta diária. Você não precisa saber o sobrenome de Pedro ou mais sobre sua vida pra se sentir mais comovido com sua história. Há muitos Pedros por aí. Pelo mundo todo.

São muitos Pedros que, como Pedro, vivem com a cabeça na estrelas, idealizando um mundo perfeito, sem preconceito e aceitando toda expressão de amor, e os pés na esperança, depositando toda sua energia para que esse dia chegue de forma repentina e natural, como mais-um-dia-normal. São Pedros, apesar de tudo, vivem entre estrelas e esperanças.

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