Moça, você trabalha aqui?

Por Juliana Lopes.

Por muito tempo eu não me vi como uma pessoa negra. Não por um exercício consciente de negação da minha origem, mas por um sei-la-o-que que eu não sabia explicar. Mesmo vindo de uma família negra, esta conclusão óbvia só tomou corpo muito recentemente.

É porque na verdade eu sou morena. E pra falar a verdade eu só aliso o cabelo porque é mais fácil de cuidar. E assim… Meu pai é branco, eu não posso simplesmente virar e dizer que eu sou negra em respeito ao outro lado da família. E tipo… eu não sofro racismo porque eu estudo em escola particular. Já me xingaram de negra quando eu era pequena, mas porra, sacanagem, né? Que coisa pra se dizer pra uma criança… Eu já tive uma Barbie negra! Eu a achava linda, mas era impossível soltar aquele cabelo, nossa. Cara, eu não entendo porque esse povo acha tão impressionante a Dilma ser mulher. O que importa num candidato são as propostas, certo? Credo, somos todos humanos. Ai, a Taís Araújo é uma negra tão bonita! Ela é negra. O outro. Eu não.

É um mistério pra mim até hoje como eu desviei por tanto tempo desse elefante enorme no meio da sala, que ocupava quase todo o espaço, com o meu cabelinho alisado e o meu quadril largo. Mas eventualmente se acaba tropeçando nele à medida que vão te lembrando todo dia que ele está alí. Só que até então eu aprendera a andar encolhida e falar baixinho pra não acordá-lo.

Olha que bacana o que eu descobri: eu curto pagode porque eu tenho cara de pagodeira, e eu devia estudar Educação Física, porque eu não tenho cara de quem faz Direito. E ah, não é suficiente comprar um apartamento na asa sul, porque alguém pode se enganar e te mandar pegar o elevador de serviço. Te perguntar se você é babá do seu filho. Te olhar espantado no corredor porque você é uma peça fora do lugar. Te perguntar quanto que custa essa bolsa aqui.

Minha senhora, enfia o preço no cu.

Minha senhora, enfia o preço no cu.

Minha senhora, enfia o preço no cu.

É bom a gente repetir né, já que no mesmo dia, na mesma loja, me perguntaram três vezes. Acho que aquela moça loira alí de uniforme, de crachá, atrás do balcão – aquela que não olhava pra mim quando eu queria saber o preço da maquiagem, porque provavelmente eu não tenho cara de quem pode comprar – não deve ter cara de vendedora. Mas eu, eu tenho, certo?

Enquanto universitária eu me preocupo seriamente se o meu trabalho acadêmico vai ser deslegitimado algum dia porque eu não pareço ter conteúdo ou porque o meu cabelo é muito alto. Nem falei, parei de alisar faz três anos.

ju e cris (1)

Pergunta tendenciosa: entre eu e a minha irmã, assim exatamente com a mesma roupa, quem tem mais cara de doméstica?

Ainda que a boca não pudesse formular enunciados que dessem conta dessa violência simbólica que padroniza nossos corpos – que nos diz, paradoxalmente, que devemos ser iguais a quem nos oprime, apesar de sempre nos ser reservada uma posição inferior – a carne já sentia há muito tempo, e a mente já assimilara tão bem que qualquer manifestação de escrotice do mundo nem mesmo causava espanto. É assim mesmo. Não é por mal. Não adianta fazer “tudo certo”, ficar “bonita”, ter dinheiro, ser “inteligente”, nada. Ainda é a mim que perguntam o preço da bolsa.

http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2013/08/oprah-winfrey-afirma-ter-sido-vitima-de-racismo-na-suica.html

É menos penoso que eu diga que eu tenho cara de pobre, que o meu cabelo é ruim, que eu sou moreninha, porque negra, N-E-G-R-A, esse palavrão horrível, entala na garganta; porque é melhor ser pobre-moreninha-cabelo-ruim que negra, é melhor se iludir a carregar esse fardo. É por isso que, na minha experiência, tornar-me uma mulher negra foi (e é) uma escolha e um processo, uma identidade em construção, em face da negação e da mutilação internalizada a vida inteira.

E é por isso ainda que não é feio se definir enquanto negro e gostar disso, mas necessário, bem como colonizar com cor e volume espaços tradicionalmente negados, explicitamente ou não.

http://blogueirasnegras.org/2013/10/14/desfile-moda-modelos-negras-plus-size-surpreende-semana-moda-paris/

Não, moça, eu não trabalho aqui!

7 pensamentos sobre “Moça, você trabalha aqui?

  1. Anónimo

    Excelente! Parabéns Juliana. Não é fácil aceitar toda essa realidade perniciosa e cruel. Meu processo foi parecido, e até hoje ainda vejo resistências em mim mesmo a reconhecer certas práticas como racistas.

  2. “Por causa da posição desvalorizada do negro na sociedade, toda identificação com a negritude é uma identificação que precisa ser construída” pois é… só que eu sou mestiço, tenho ancestrais brancos, negros e índios, destes inclusive sobrevivente de massacre. O que é que eu faço se me identifico mais com o povo indígena e suas lutas, eu e minha namorada, e mesmo assim tem gente que teima em dizer que ela é “totalmente africana”? Ela cuja avó morava em taba?
    Se negro é visto como ladrão e faxineiro, índio é visto como vagabundo…

  3. Me identifiquei, sou da mesma cor que você, meu pai é branco. Eu nunca tinha me perguntado, ou assumido, ou sei-lá-oque sobre minha cor. Recentemente passei por coisas parecidas.

    “É menos penoso que eu diga que eu tenho cara de pobre, que o meu cabelo é ruim, que eu sou moreninha, porque negra, N-E-G-R-A, esse palavrão horrível, entala na garganta; porque é melhor ser pobre-moreninha-cabelo-ruim que negra, é melhor se iludir a carregar esse fardo. É por isso que, na minha experiência, tornar-me uma mulher negra foi (e é) uma escolha e um processo, uma identidade em construção, em face da negação e da mutilação internalizada a vida inteira.” <– Estou passando por essa experiência.

  4. Eu sou morena do cabelo liso, e vi minha mãe (que é branca branquela) negar a negritude do meu pai desde criança. Talvez meu pai achasse muita cara de pau se declarar branco, e se dizia pardo. Me dei conta da negritude nas aulas de história do colegial, uma excelente professora militante da causa negra nos chacoalhava e nos fazia enxergar do que somos feitos. Minha mãe acha absurdo eu dizer que meu pai é negro, apesar de hoje namorar outro negro (que ela chama carinhosamente de moreno). Chamar alguém de negro é um insulto pra ela.

  5. Anónimo

    Quando pequena sofria bullying por ser muito branca, e até hoje alguns parentes me perguntam: “Mas você não acha que precisa pegar um solzinho não?”. Então imagine minha surpresa ao começar a aprender na escola que negros foram escravizados apenas por sua cor (em suma), que eram considerados uma raça inferior por terem uma cor diferente. Surgiu uma enorme dúvida na minha cabeça: “Se eu sou branca demais e existem pessoas que são escuras demais, qual é o ideal?”. Por isso acho o racismo uma coisa engraçada, ser muito branco é “feio”, e muitas pessoas passam horas no sol pra escurecer (algumas até ficarem da cor laranja), mas ainda assim, ser negro também é “feio”? Acho que o racismo é mais por convenção e burrice, porque simplesmente não existe motivo plausível para dizer que uma pessoa negra ou muito branca é menos bonita do que uma “normal”.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s