Mariana És Tu

Por Hanna Thuin.

A memória de Mariana tem, na infância, a vivacidade das cores de uma pintura fauvista. Branca e de classe média, sua história se confunde com a de outras tantas meninas – opressões que transitam entre os diferentes aportes econômicos; opressões mutativas a instaurar-se dentro e fora do gênero.

Mariana acordava sempre às seis e meia; vestia seu uniforme escolar – que variava apenas a vestimenta de baixo: short-saia ou calça, nunca bermuda-, comia seu misto quente, tomava um copo de leite com Nescau e juntava-se com seus irmãos no carro; a mãe os deixava na escola.

Do maternal, Mariana não se recorda de muita coisa. Brincava com massinha e tirava fotos em datas comemorativas: foi um leãozinho no dia das mães, sorriu em camiseta no dia dos pais. O Jardim de Infância passaria isento não fosse Tia Cláudia e seus abraços de urso. Já no Pré, as lembranças tomam forma. Aos seis anos de idade, Mariana estava sendo preparada para ler e escrever. Ela costumava ouvir da professora “Que feio, Mariana, isso não é letra de menina. Cadê o capricho?”. Mariana jura de pés-juntinhos que caprichava, que se empenhava em cada exercício de caligrafia; o esforço era tanto que chega o corpo fazia curva como se pudesse endireitar o lápis e registrar o be-a-bá mais redondo; a energia despendida, contudo, nunca era suficiente.

Superado o pré e sem atingir muita melhora no tal capricho-sujeito esse o qual Mariana não compreendia a devoção pelas colegas e professoras-, Mari conquista a série que deflagra os recreios livres. O sino era sagrado: gastava, rotineiramente, aqueles vinte minutos jogando futebol –era a única menina a dispor esse tempo sob o Sol. Após o último sinal, corria para o ginásio; ficava lá até que o pai a viesse buscar. O futebol a preenchia, a deixava feliz.

Aos nove anos, ganhou o primeiro apelido. Mesmo que pequena, podia compreender que algo estava fora do lugar. O futebol de todo dia desencadeou em sua pele alguma melanina rara que a fez, aos olhos dxs colegas, uma espécie diferente – uma tal de “menina-macho”. Não que Mari precisasse do pejorativo para se sentir deslocada e não que ela necessitasse o entender por completo para saber que não era um vocativo que a elegia popular. Aliás, este plano social nunca foi vontade – ela enxergava naqueles seres que o habitavam verdadeiros selvagens: valiam-se de uma linguagem que ela não codificava, falavam de assuntos que ela não dominava e sequer tinha interesse.

A sexualidade tardou a chegar. Nem meninos nem meninas, Mari só queria saber de jogar bola, subir em árvore, pular portão, atazanar vigias, pegar as moedinhas no carro do avô para comprar balinha. As notas iam bem, obrigada; assim como o seu relacionamento com os professores e funcionários sempre fora em paz. Com dez anos, porém, uma guerra começa, e começa de dentro para fora. Era a 4ª série. Uma festinha na casa de um colega de classe. O convite era claro : meninos, tragam a camiseta do time de futebol; meninas, tragam roupa de banho. A leitura de Mariana era seletiva: ia ter f-u-t-e-b-o-l. Escondeu a camiseta rubro negra na mochila. Mariana não se misturava com elas; não se encaixava entre os vestidos e a disputa pelo coração do Guilherme ou do Matheus ou de qualquer outro que fosse o príncipe eleito pelo resto das garotas. Passou o aniversário inteiro na quadra. Quando sua mãe foi buscá-la, presenciou o discurso ultimato de sua liberdade futebolística:“sua filha parece uma Ronaldinha, passou a tarde inteira jogando bola com os meninos”. Foi uma fala acompanhada por sorriso, m as a mãe de Mariana não riu. Fez do percurso à casa uma lista de compras de mês: era tanta coisa errada em Mariana que parecia mais fácil comprar uma nova.

1) Futebol é coisa de homem! Quantas vezes eu vou ter que repetir isso?!

2) Você me envergonha, olha o mico que eu paguei! Agora todo mundo vai ficar comentando que minha filha é um machozinho.

3) E a forma como você anda?

4) Senta direito! Isso não é jeito de mocinha sentar!

5) E chega de usar tênis. Já passou da hora de usar sapatos decentes.

6) Acabou o futebol, pode esquecer. Vou te pôr em algo condizente.

7) Por que você não consegue ser uma menina normal, meu pai!

8) E joga essa camiseta fora. Ouviu, Mariana?!

Claro que Mariana ouviu. A segunda-feira seguinte começou com a matrícula no ballet. Colã. Sapatilha. Saia. Cabelo preso em coque. Palco. Tudo o que tirava Mariana do eixo, mas a mãe acreditava no oposto. Sem zelo e sem gosto, Mariana foi levando aquele corretivo nas coxas. Não tinha perfil para o clássico; sua silhueta, como bem lembrava a régua da professora, não era de uma verdadeira bailarina: “tem gente precisando emagrecer, hein”.

Depois de algum tempo e muita cara fechada, o ballet e as apresentações ficaram para trás. Não havia, portanto, mais o palco para mostrar como Mariana estava progredindo: o rostinho coberto de maquiagem, bem mais mocinha, mais ‘delicada’. Voltou furtivamente para o futebol. Um dia, porém, perdeu o cálculo da hora: sua travessura em flagrante pelo pai. O episódio que se seguiu talvez seja uma das lembranças mais lúcidas de Mariana. A mãe, de tesoura em punho, correndo atrás dela em círculos ao redor da mesa de jantar, com o rosto enfurecido, com a voz presa aos gritos. Mariana recorda bem o timbre e as palavras: “vou cortar esse seu cabelo. Não quer ser um menino, então vem aqui que eu vou cortar seu cabelo, machinho”.Desesperada, Mariana chorava e corria, corria e implorava “mãe, pára, mãe; pára, por favor”. Correu para fora de casa e se escondeu até que o escuro a botasse mais medo que a ideia do retorno. Mari tinha apenas dez anos.

Mariana, sob a ótica de seu universo, era uma criança comum. Branca, pais casados, boas notas, escola católica, dois irmãos, tinha um bom relacionamento com funcionários e professores – destes, gostava. Mariana não entendia, contudo, algumas implicâncias com sua rotina. Mariana não entendia o por quê de não poder usar bermuda; não entendia o por quê de seus pais desaprovarem o futebol; não entendia o por quê de tanta expectativa e crítica sobre sua caligrafia; não entendia o por quê de não poder gostar de azul e só poder vestir em rosa; não entendia o por quê de só ganhar bonecas quando o que havia pedido era um carrinho ou uma bola; não entendia o por quê de não poder, nas brincadeiras de final de tarde com os irmãos, ser o Batman ao invés da mocinha vulnerável a ser resgatada, o por quê da louça de domingo ser sempre dela enquanto seus irmãos ficavam livres para brincar lá fora. Mariana não entendia e por isso continuava. Continuava a gastar recreios e finais de aula jogando bola, continuava com a caligrafia fora do “capricho”, continuava a gostar de azul e a pedir bolas e carrinhos em datas festivas, continuava a reclamar da tarefa doméstica que lhe era exclusivamente entregue. Mariana continuava e continuou até que as críticas saíram do plano do discurso e deixaram de ser meramente falas ignoradas; progrediram em ações. Ações que se concluíram em penalidades. Penalidades que ontem e hoje se traduzem em exclusão. Mariana, antes dos doze, tornou-se a Outra e, por isto, teve de tornar-se outra.

O ponto de inflexão veio com a repressão mais dura: seu corpo era objeto de críticas e normatizações. “Pega a gorda”, gritou o colega de pelada. Humilhada, abandonou a partida. Os irmãos fizeram chacota; em casa, o vocativo favorito que destinavam a ela era ‘baleia’. Ao reclamar com o pai, a gota final: não penalizaria os filhos, porque era “verdade mesmo”. Mariana pediu à mãe que a levasse em uma nutricionista. Perdeu três quilos no primeiro mês. Ao final do sexto, a balança sinalizava uma subtração de quinze. Vestindo muitas – muitas- medidas a menos, iniciou o ano letivo. Sétima série. Treze anos. Muitas mudanças. Não foi só o corpo de Mariana que mudou: a maneira de ser percebida pelos olhares alheios também. A cintura fina a introduziu no centro: conversas, convites para festas, interesses outros que não a cópia do dever de casa. Abortos, muitos. Abdicou do futebol – queria desvencilhar-se do apelido já tão maltratado pelo uso. Ao sonho e prazer de Mariana, coube uma alternativa: guardá-los.  Mariana, aos poucos, continuou a se adaptar para, então, se incluir e ser incluída. Trocou o suor pelo perfume. A calça pelo short-colado. As orelha vazias por brincos visíveis. Mariana despiu-se de tudo que pudesse entregá-la de novo à margem.

A manutenção dessa nova posição no microuniverso da escola teve seus custos e sua vingança. Emagrecer não fora um ato voluntário – a opção pela dieta partiu de um esgotamento psicológico. A reeducação alimentar transformou-se numa obsessão. Mariana quase não comia mais– vivia a base de líquidos. Quando ultrapassava as poucas gramas que se autorizava a comer, ela corria para o expurgo da culpa. Trancava-se no banheiro, confessava-se para o espelho e fazia da escova de dente instrumento para chamar o vômito. Depois de tudo posto para fora, perdoava-se.

Junto à bulimia, anorexia nervosa. Não importava qual era o objeto a lhe dar reflexo, na sua retina só se desenhava uma Mariana gorda – sempre distante do peso e do corpo ideal. Os ossos todos saltados. As bochechas secas. As pernas, antes grossas, não passavam de dois filetes. Dentro de casa, novos apelidos. Nariz de batata. Tripa seca. Esqueleto. Seus irmãos não a perdoavam. Sua falta de apetite preocupava os pais. Depois de alguma negociação, um retorno à nutricionista e uma nova dieta: Mariana precisava engordar.

Da calça 38 para a 34, da 34 para a 36. Da margem para algum lugar menos distante do centro. Do âmbito restrito da sala de aula para amizades novas: encontro com medidas distintas de Marianas – outras.

Quem, afinal, é Mariana?

Beauvoir, no Segundo Sexo, escreve que não se nasce mulher, mas se torna uma. Não são aspectos biológicos que determinarão a figura feminina; é, na verdade, uma construção social que a produz – construção essa em que as regras foram e ainda são, em grande medida, definidas por homens.

A separação entre o que se pode e o que não se pode ser começa na infância. A criança, seja menina ou menino, tem o mesmo interesse: ambos procuram pelo peito, ambos choram pelo leite. Aos poucos, o desmamamento – essa separação do corpo inicia a procura de sua auto-projeção para o mundo por caminhos outros que não o seio materno. Pela metáfora do espelho, a criança extrai da imagem dos pais a mímica-reflexo; são eles o ponto de partida da construção de uma identidade.  Seria o que Lacan chama de fase do espelho: a criança inicia sua relação com os sistemas simbólicos fora dela mesma e é este o momento de sua entrada nos vários sistemas de representação simbólica – incluindo a língua, a cultura e a diferenciação sexual (Stuart Hall. A Identidade Cultural Da Pós-Modernidade. Pg. 39).Na via dupla, os pais fazem desse reflexo um objeto, objeto esse a ser exposto reincidentemente para o mundo.

Na procura por aprovação, tanto pai e mãe quanto filho e filha agem estrategicamente. O menino aprende cedo que homem não chora, não brinca de boneca, não fala manso, não tem medo. A menina, por sua vez, é ensinada a etiqueta, a maneira “certa” de se sentar, a ser delicada, a ser indefesa, a esperar o resgate pelo príncipe encantado. Ao menino que será um homem é dado o movimento, à menina que pode vir a se tornar mulher, presenteia-se com a inércia. Presente de grego ou não, aqui se olham os dentes; nesse embate entre independência vs. vulnerabilidade, encontra-se um dos vários sentidos do enunciado de Beauvoir: a menina que destoa e subverte as normas heterossexuais não se torna mulher. No meio do caminho, uma pedra: se essa pedra caleja a inserção e showing- off dos filhos para o universo em que a família está inserida, deflagra-se uma verdadeira batalha para removê-la de lá e, nisso, encontramo-nos, novamente, com Mariana.

A escola é um microuniverso assim como o é a Universidade. Poder-se-ia dizer que ambas são reduzidas telas de reprodução do externo; as relações de poder que acontecem nestes dois ambientes ocorrem, igualmente e em larga medida, fora dos muros que cercam essas instituições. Instituições essas fundadas em um modelo curricular falido – que reverbera políticas públicas e práticas sociais impostas por grupos pequenos, porém dominantes. Não há crítica, da arquitetura aos discursos em sala , não há verdadeiramente construção de saberes e de pessoas; predominam verdades caolhas, íris turvas e corrompidas pelos mesmos poderes que ordenam e mantêm as opressões do lado de fora . Quando Mariana demonstrou que detestava vestido e que seu lugar ao Sol era no pátio da escola suando a camisa e calçando chuteiras, sirenes eclodiram entre seus pais: era preciso agir. Houve uma tentativa de colocá-la de volta dentro das caixinhas que o sistema heteronormativo oferece – não importa o natural, a normalidade só acontece dentro de determinados parâmetros e esses parâmetros devem ser mantidos. Não se admite a pedra no meio do caminho, ela deve ser empurrada à margem, retiradas dos olhares públicos.

Tentou-se, por meio do ballet, mostrar à sociedade que Mariana era sim uma mocinha- uma imagem delicadamente composta por sapatilha, meia-calça, postura ereta, passos clássicos, bochechas em blush. Por um momento, um alívio: “Mariana está salva e nós também”. Estavam salvos dos cochichos da vizinhança, das comparações com Ronaldinhos, dos olhares tortos, de pitacos intrusos sobre a sexualidade da filha. Naquele momento em que Mariana subvertia os papeis que desde cedo lhe foram prescritos e interpretava o outro lado do gênero, deixava ela de ser um objeto – Mariana não servia para ser exposta, para ser mostrada. Quando a pedra parece ser irremovível e as intervenções e medidas corretivas falharam, abandonou-se a pretensão de (re)moldá-la; o esforço passa a ser para escondê-la. Mariana, dentro dos processos de trocas sociais, é uma moeda defectiva. Ela existe e circula porque ainda possui seu valor monetário, mas não é desejada, mostrada com brio aos outros. É deixada na carteira: primeiro os filhos, bem machos e viris, do jeito como ordena o protocolo; depois –e se necessário for- ela. Mariana deixa de ser o objeto para os outros e passa a ser ela mesma o Outro: Mariana é uma Outsider.

Outsider é alguém que não vive de acordo com as regras de um grupo. Outsider, claro, é um rótulo e por assim o ser acarreta a recíproca: a pessoa que assim é classificada comumente considera os seus juízes como os verdadeiros outsiders. Mariana não se pensava errada, considerava a crítica alheia uma chatice reincidente; Mariana, em verdade, foi convencida de que anormal.

A premissa do senso comum é justamente essa:  que existe algo inerentemente desviante (qualitativamente distinto) em atos que infringem (ou parecem infringir) regras sociais¹. Atos, aqui, incluem as performances dos sujeitos. Tanto juiz quanto réu estão inseridos dentro desse fenômeno de (re)produção de outsiders, que varia em nuances de acordo com o local e a cultura – o que não exclui a proximidade e universalidade de procedimentos e resultados, já que a base estruturante das sociedades (pós)modernas é,ainda, a mesma: heteronormativa. Existe a regra e o que dela se diferencie ou o que a conteste é visto como pejorativo e, em alguns muitos casos, como doença. O leigo situa a fonte do desvio dentro do indivíduo desviante; aquele não consegue ver o próprio julgamento como parte decisiva do fenômeno².

O desvio, portanto, é a quebra de alguma regra social aceita e, tal como Franksteine, sua criação se dá pelas mãos de um determinado grupo ou indivíduo dentro do corpo social. O desvio não é, portanto, uma qualidade do ato que a pessoa comete, mas uma consequência da aplicação por outros de regras e sanções a um “infrator”³. Mariana, no momento em que não segue a caligrafia esperada, torna-se uma infratora; no momento em que escolhe a bola no lugar da boneca, torna-se uma infratora; no momento em que escolhe a bermuda no lugar do vestido, torna-se uma infratora; no momento em que não se incomoda em ser gorda, torna-se uma infratora.  Às regras maculadas, aplicam-se penalidades e essas penalidades se dão de acordo com o grau em que as pessoas reagem ao ato desviante. E todas e todos nós sabemos que as regras não se aplicam de forma igual. A partir disso, é válido problematizar outros aspectos: e se Mariana fosse negra? e se Mariana fosse pobre? e se Mariana fosse filha de uma família homoafetiva? e se Mariana destinasse sua fé a outra religião que não a cristã? e se Mariana fosse lésbica?

Sendo o Outro e recebendo tratamento distinto tanto na microesfera da escola quanto no ambiente familiar, o comportamento de Mariana passa a ser consequência da reação pública aos seus desvios. Ela escolhe adaptar-se ao discurso dominante para melhor viver. Submete-se à normatização do corpo, suprime práticas e posterga desejos – dá outro formato às suas expectativas. Obriga-se a percorrer caminhos desviantes (em relação ao seu natural) para alcançar resultados que são automáticos para as pessoas normais, i.e, pessoas encaixadas na norma.

Não vou aqui adentrar na parte histórica de formação e manutenção dessas normas, porque isso envolve falar de machismo e para falar dele não posso me abster de citar o patriarcado, o sexismo, o racismo, a homofobia – isso fica para uma próxima conversa. Quero, agora, pincelar sobre a postura salvacionista que os pais assumem perante Mariana. Na medida em que tentam subjugá-la novamente à sombra do eixo dominante, assumem  o papel do que Becker chama de empreendedores morais. Transformam o “conflito” do que Mariana é e o que deveria ser em uma cruzada moral. Veem na menina um mal a ser extirpado e não importa aqui os meios, apenas os fins. Se para forçar a menina a parar o futebol, não importava se teriam que agredi-la fisicamente toda vez que houvesse o flagrante ou se teriam que ocupar todos os horários da garota com atividades que achassem condizentes. O cruzado ( pai e mãe, neste caso) não está interessado apenas em levar outras pessoas a fazerem o que julga certo. Ele acredita que se fizerem o que é certo será bom para elas.(pg. 153).  É uma cruzada institucionalizada na medida em que ocorre em locais e tempos distintos.

Por fim, a última linkagem.  O desvio é combatido porque é ele um perigo a norma, isso é óbvio. Quando Beauvoir fala que não se nasce mulher mas se torna mulher, no sentido mais amplo, ela quer dizer isto: ou a pessoa se encaixa no padrão heteronormativo ou não é ela uma mulher, não importa se a biologia afirma o contrário. A lésbica não é mulher, porque foge à condenação biológica da reprodução. A mulher que se veste como o sexo oposto é qualquer outra coisa, mas mulher? Não. Há nuances também entre ser ou não ser. A mãe solteira é mulher, mas não uma muito boa, porque solteira, né? A mulher gorda é mulher, mas não uma muito desejada porque toda gorda é feia e não transa direito, né? A mulher executiva, ocupante de um cargo alto, é mulher, mas aposto que passou pelo sofá de alguém para chegar onde está, né? A prostituta é mulher boa para o garoto perder o cabaço e deputado passar noite, mas antes e depois disso é uma mulher baixa, né? Ah, mulher que dá no primeiro encontro é puta, não serve para nada além do gozo, né? Né? Né? Né? Os exemplos e os graus que se inventam para nos classificar são inúmeros. As pesquisas não mentem sobre a realidade que estamos inseridas: 50% dos homens acham que as tarefas domésticas são deveres exclusivamente nossos Desde o momento em que se descobre “ é menina!” até a velhice estamos sujeitas as mais diversas combinações opressivas: do sexismo ao feminicídio, da linguagem ao real, do discurso ao silêncio, somos expostas a tudo.

Mariana és tu; Mariana somos todoxs nós desviantes.

Mariana somos todxs nós que, de alguma ou muitas maneiras, destoamos do padrão. Somos esse coletivo de gentes e corações constantemente empurrados à margem.  Somos as mulheres que não pensam em casamento e que adoram uma cervejinha no fim de semana. Somos as mulheres que não seguram o desejo- damos e comemos quando e quem queremos.  Somos as mulheres que não querem ter filhos.  Somos as lésbicas. Somos as travestis. Somos as negras. Somos as índias. Somos carne e osso que também fraqueja e que por vezes se deixa sufocar pelo sistema, mas que não se entrega, não se resigna ao igual. Somos as médicas vindas de Cuba – com ou sem cara de empregada. Somos a estudante. Somos a doméstica. Somos a executiva. Somos e estamos em toda parte.

Conseguem ampliar o espectro dessa história e ver que ela toca muito além de um nome (ou de um sexo)? Quantas e quantos de nós somos desviantes? Quantas e quantos de nós fomos e somos sujeitos-objetos dentro dessas cruzadas que nada têm de morais? Quantas e quantos de nós já nos escondemos por não nos adequarmos e nos forçamos a mudança para melhor (sobre)viver no dia-a-dia? Quantas e quantos de nós somos moldados e preparados para, usando aqui a própria definição binária, o masculino?  Para esses outros, todas e todos nós que contestamos e desobedecemos à norma somos desviantes, somos o Outro, com a vogal maiúscula mesmo. A recíproca, contudo, chama o resgate: o fenômeno não se produz e não se modifica só. Juízes e réus, os papeis estão expostos à conquista, os discursos ao convencimento. Uma ruptura de fora pra dentro, da margem para o centro: os verdadeiros outsiders são eles.

Um salve para todas as pedras dispostas no caminho: Drummond ficaria orgulhoso de vê-las resistir.

¹ Becker, Howard. Outsiders. Pg.17.
² Becker, Howard. Outsiders. Pg. 21.
³ Becker, Howard. Outsiders. Pg.22.

4 Becker, Howard. Outsiders. Pg.153.

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